Together
1 Minha Vida
Notas iniciais
Eu vivo em Buenos Aires há dois anos. Na verdade eu nasci aqui. Mas eu ainda era um bebê quando fomos para Madrid, e voltei ano retrasado. Tenho uma irmã de alguns meses mais velha, que eu, nem parece, mas ela é a mais velha.
Meu nome é Violetta Saramengo Castillo. Sou filha de Maria Saramengo Castillo que morreu três anos depois que eu nasci. Tenho uma irmã. Ludmila Ferro Castillo. Ela não é filha da mesma mãe que eu. O nome da mãe de minha irmã é Priscila Ferro, ela tinha o sobrenome do meu pai, mas tirou quando eles se divorciaram. Meu pai se chama Germán Castillo.
Minha família é meio adoidada, e eu não sei se gosto disso. A mãe da minha irmã não liga muito para ela. Ela vive na França com o novo marido, e parece que se esqueceu da existência da Luh, que é uma ótima menina, e eu a amo muito. Assim como ela me ama.
Meu pai é reservado, às vezes muito bravo. Ele é bem caladão, e não sei como ele teve duas esposas que o suportavam, bom na verdade só uma né, minha mãe amava muito ele, dizem, mas isso só acabou por que ela morreu em um acidente de avião.
Dói-me um pouco, mas eu não tenho muitas lembranças da minha mãe, apenas fotos que comprovam que ela realmente existiu e que me amou incondicionalmente o tempo que teve comigo.
Nós somos ricos, sim. Meu pai é engenheiro, o Grande Engenheiro Castillo. E empresário. Vivemos em uma enorme casa, onde temos bastante empregados, e isso é ridículo, pois eu e minha irmã não temos tanta privacidade como gostaríamos.
Nós estudamos em um colégio, o mais conhecido da região e também o mais caro. Eu gosto bastante de lá, foram uma das melhores coisas que meu pai fez por nós, já que há um ano, papai mandava governantas nos ensinar em casa, como os pais de antigamente faziam com as filhas para que elas não fossem à escola. Fala sério. Nós estamos no século XXI! Temos 16 anos. Estamos no segundo ano do ensino médio.
Eu sou uma garota comum. Não tenho nem um dom. Pelo menos acho isso. Não sei o que quero fazer da vida, mas garanto que não quero ser uma inútil qualquer que apenas serve para somar no mundo.
Neste exato momento, eu estou me preparando para um jantar que meu pai terá com o presidente de outra empresa. O homem se chama Carlos Vargas, e eu estou muito nervosa, porque o filho deste homem também vai vir, e o filho dele estuda na minha escola, o nome dele é León Vargas.
Eu e o León não nos falamos. Eu entrei este ano na escola, mas ele não olha muito pra mim, talvez porque ele seja mais popular, não sei direito. Eu não sou nerd, ou esquisita, sou uma garota normal, uma garota rica normal. Não sou patricinha, não sou nada disso que pensam, sou uma garota comum, que gosta de ouvir músicas e tocar uma canção no velho piano que tem em casa.
O problema de León vir aqui em casa, é que desde que o ano começou, eu não paro de reparar nele. Ele tem namorada. Mas tipo, eu não ligo. Eu não quero estragar o romance maravilho que ele tem, mas não gosto de ver ele com ela.
O nome dela é Natália Vidal, é a melhor amiga da minha irmã, as duas são tipo Katchup e Mostarda. Ela é legal, mas eu não vejo nada em especial nessa garota. Minha irmã vive apoiando o casal, isso me embrulha o estômago. E é claro que eu não nego que eu tenho uma quedinha pelo León, ou que eu sou apaixonada por ele. Apenas eu sei disso, e é claro que o meu diário. Sim, eu escrevo um diário, pois seria inútil contar as coisas para alguém, sabendo que cedo ou tarde, essa pessoa contaria para mais alguém, e assim sucessivamente, até chagar nos ouvidos dele e eu me ferrar bonito. Ela virá a esse jantar, e eu vou fazer de tudo para me manter longe deles, não gosto dos carinhos excessivos que eles têm quando estão juntos.
Eu não sou de contar muito da minha vida, muito menos de confessar a alguém os meus medos e os meus sonhos, ou no caso a pessoa que roubou o meu coração e nem sonha que eu sinto isso.
Meu pai às vezes me diz que eu tenho que me abrir mais, me revelar mais ao mundo, mas a verdade, é que eu não consigo, não vejo uma maneira original de me revelar a esta sociedade.
Eu não gosto de ser assim, mas acho que também não escolher ser assim. Algumas coisas na vida nós não sabemos o porquê, e mesmo que investiguemos até o fim, na maioria das vezes não achamos uma explicação concreta, e morremos sem significado algum, ou até mesmo, sem valor algum.
O amigo de minha irmã também virá, o nome dele é Tomás. Ele é legal e eu até tentei ser amiga dele também, mas depois que ele se declarou para mim, não conseguir nem olhar na cara dele, sem contar que ele também estuda, na mesma sala que eu.
—Senhorita – escutei uma voz feminina me chamar.
Olhei para porta encontrando Sueli, uma de minhas empregadas, não gostava deste termo, mas era verdade, ela era gente boa. Ela estava com o meu vestido preto de renda nas mãos, papai comprou só para este jantar.
—Obrigada Sueli. – agradeci assim que ela colocou em cima de minha cama.
Ela acenou com a cabeça e se retirou rapidamente do meu quarto. Ela deveria estar muito ocupada, assim como os outros empregados. Tirei meu roupão, pois eu havia acabado de sair do banho. Coloquei minhas roupas íntimas e logo o vestido que eu me apaixonei assim que papai trouxe dentro de uma caixa de encomenda. Meu cabelo estava arrumado em uma trança de lado. Eu estava com uma maquiagem básica e bem leve. Meus cabelos eram castanhos, mas eu os pintei de loiro, porque eu gosto.
Coloquei meu salto alto preto, e me olhei no espelho que eu tinha no quarto. Eu estava bonita, pelo menos eu estava me sentindo assim.
Saí de meu quarto e pude escutar a movimentação que estava lá em baixo, com certeza ele já havia chegado. Inspirei e expirei o ar várias vezes até fazer com que o meu coração parasse de bater tão rápido como estava batendo.
Desci vagarosamente as escadas, mantendo a postura ereta, sem deixar transparecer o meu nervosismo hilário. Eu sou muito idiota, estou ansiosa por um garoto que está presente em um jantar com a namorada dele. Isso é ridículo.
Assim que terminei aquela escadaria, pude observar a sala que estava mais cheia que o costume. Olhei em volta, logo encontrando a garota de cabelos curtos e super enrolados, em um vestido vinho, agarrada ao braço de León Vargas, aquela era Natália Vidal.
Tratei de arrumar minha cara desgostosa, e coloquei um sorriso no rosto. Cumprimentei todos os sócios de meu pai, e logo cheguei aos meus “colegas” do colégio. Senti minha mão ficando fria e suada, eu teria um treco ali, agora mesmo.
—Boa Noite. – falei com a minha voz que sempre saia fraca e baixa quando eu estava perto dele, ou quando eu iria falar qualquer porcaria com ele. – Sejam bem-vindos mais uma vez a minha casa. – sim, eles já tinham vindo aqui algumas vezes, em jantares como este.
—Boa Noite Castillo. – León Vargas disse com seu tom de voz firme e audível a todos que estavam perto de nós.
Natália apenas sorriu satisfeita por ter um cara como aquele ao lado dela. Dei um sorriso meio tímido e saí de lá o mais rápido que pude para cumprimentar os outros convidados. Cumprimentei rapidamente Tomás, que estava todo sorridente.
Depois disso subi até o meu quarto, precisava me recompor, chegava até a ser tolice ficar tão descontrolada na presença dele, é ridículo, normalmente eu sabia como agir, agora hoje, parece que todo o meu auto-controle foi para o lixo. Mas também né... Ele estava encantador naquela roupa toda social.
—Vilu? – Minha irmã me chamou assim que entregou correndo ao meu quarto. – Você está bem? Vi você sair correndo da sala de jantar. Aconteceu alguma coisa? – disparou as perguntas, vindo até mim.
—Não, eu apenas me esqueci de colocar minha pulseira. – menti descaradamente apontando para o meu pulso que tinha uma jóia, muito significativa por sinal, fora de minha mãe.
—Ah Claro... – murmurou acreditando, me olhando com um sorriso no rosto. – Vamos descer. Daqui a pouco se inicia o jantar, e eu não quero ver o papai se estressando por conta de sua ausência.
Assenti e saímos do quarto, juntas, de braços dados.
***
O jantar foi servido meia hora depois. Meu pai fez um discurso enorme, que até me deu sono. Fomos para a mesa, e lá estava Olga com um sorriso estampado no rosto. Ela que preparava a melhor comida do mundo.
—Está divino. – escutei Ludmila murmurar saboreando o prato.
Eu ri baixinho e me concentrei em uma pessoa que estava na mesa, León. Ele estava ao lado do pai e ao lado da namorada, sorridente como sempre. Minha amiga não estava presente, Francesca, ela estava em um jantar, pois seus avôs haviam voltado da Itália para cá, para uma visita. Então ela não pôde vir.
Natália deu um selinho em León em um momento de distração, onde todos estavam conversando animadamente. Meu estomago revirou, e tudo que eu queria era desaparecer, e ir para um lugar onde ninguém me achasse.
—Com licença. – falei roubando a atenção de todos. – Estou satisfeita, mas acho que não me sinto muito bem.
Assim que disse isso, olhei para o meu pai, que apenas assentiu com a cabeça em um olhar sério, mesmo assim sereno. Agradeci mentalmente por ele ter me liberado assim. Retirei-me da sala de jantar e fui para o jardim.
Eu não gostava de ir até lá, mas seu eu fosse para o quarto, Ludmila iria me encher de perguntas, e eu não estava a fim disso. Eu não gostava de ir até o jardim, porque parecia que lá era onde todas minhas fraquezas se encontravam e me faziam colocar tudo pra fora em forma de uma coisa: Lágrimas e soluços.
Disto e feito. Assim que sentei no banquinho de madeira que ali existia, chorei como criança. Não só pelo León, mas pela minha falta de coragem para umas coisas na vida. Eu sentia raiva de mim mesma por não saber enfrentar ninguém, por ser fraca. Eu digo isso por conta do meu pai, eu nunca soube enfrentá-lo como a minha irmã. Graças a ela eu estudo em um colégio e tenho a oportunidade de fazer amigos. Mas sem ela eu não sou quase ninguém.
Escutei passos no jardim, e imediatamente tratei de enxugar minhas lágrimas. Recompus-me e arrumei a postura, papai dizia que isso era importante, para se mostrar pronta para qualquer coisa, mesmo que eu não estivesse.
Olhei para trás e encontrei a imagem de León Vargas em meu jardim. Sua imagem estava mágica com a luz do luar refletindo nele. Sentia-me honrada em poder observá-lo daquela forma.
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