Together
4 Eles Aqui
—Violetta? – Ludmila me chamou passando a mão a frente de meus olhos. Então, despertei de meus pensamentos. – Aconteceu alguma coisa? Você ficou branca do nada...
—Não, está tudo bem. – tentei não preocupá-la e coloquei um sorriso falso em meus lábios. – É que me lembrei de uma coisa, nada de mais. Está tudo certo.
—Vou acreditar. – ela disse se levantando de minha cama. – Desça para o jantar, senão mandarei Sueli enfiar a comida goela abaixo em você. – brincou e eu ri fracamente.
Assenti e Ludmila saiu de meu quarto. Senti um grande alívio. Preocupei-me com a possibilidade de um dia falar para alguém de tudo o que eu sinto pelo Vargas. Mas eu não escolhi isto, se pudesse, trocaria de coração, apenas para parar de desejá-lo junto e perto de mim.
***
No outro dia acordei com a voz de Ludmila soando alto pela casa. Hoje era terça-feira se eu não me engano, e acho que não teria aula, pois seria o dia do conselho, onde os professores conversam sobre os desempenhos dos alunos.
Levantei-me ainda ouvindo a voz dela. Ludmila devia ter com algum problema. Olhei no meu relógio e vi que ainda era nove e meia da manhã.
Fui até o banheiro, onde tomei um banho, e coloquei uma roupa casual. Penteei meus cabelos, e os prendi. Assim que fiz isso, saí de meu quarto, onde Ludmila ainda esperneava por alguma razão.
Desci até a sala de estar, e pude comprovar o que estava acontecendo. Ludmila e o meu pai estavam tendo uma conversinha, ou algo do tipo.
—Você não pode me proibir de uma coisa dessas! – ela disse berrando.
—Posso sim, eu sou seu pai, desde que eu me lembre. – papai disse controlando o tom de voz enquanto folheava o jornal da manhã, sentado no sofá.
—Isso é ridículo. Eu sei me cuidar sozinha. “Senhor Germán”. – irônica como a maioria das vezes que falava com ele.
—Pela última vez, você não sairá com este garoto. E basta, não vou discutir com você de novo. Agora vá para o seu quarto. – papai disse a olhando sério, com um tom mais agressivo do que antes.
—Te odeio! – Ludmila falou por fim, saindo da sala, pisando o pé com força, enquanto papai a observava sem mexer um músculo.
Terminei de descer as escadas, e papai deixou de lado o jornal que estava lendo, e passou a me observar. Ludmila era difícil de lidar, ela tinha um gênio forte, impossível de controlar. E falava coisas sem pensar.
—Bom dia, Violetta. – papai falou em bom som, eu apenas lhe dei um sorrisinho sem graça alguma. – Vejo que acordou com o stress de sua irmã. – supôs tirando os óculos de leitura.
—Mais ou menos isso. – dei de ombros. – Todos já tomaram café? – perguntei e papai assentiu. – Hm... Então vou esperar até o almoço. – falei, não gostava de sentar a mesa sozinha, me sentia muito solitária. – Posso caminhar? – perguntei pegando uma fruta no balcão da divisória da cozinha.
—Acho melhor não, ainda é cedo, não quero você andando sozinha por aí. – falou se levantando do sofá.
—Eu só vou caminhar, prometo não fugir de casa. – falei e ele arqueou uma das sobrancelhas.
—Não seria nem louca de fugir. Colocaria todos atrás de você, para te buscar onde quer que esteja. – papai falou me dando as costas, e indo em direção ao seu escritório. – Vá para o seu quarto.
Apenas suspirei alto, e subi as escadas novamente. Não gostava de ficar em casa, ainda mais presa em meu quarto. Era rara as vezes que eu saia de casa. Eu amava respirar o ar da minha cidade.
Fechei a porta de meu quarto com força. Eu jamais conseguiria o enfrentar. Ele parecia me prender cada vez mais. Se soubesse que ontem fui até a praça me encontrar com Tomás, fiaria louco.
Abri minha gaveta, e peguei uma foto velhinha que lá existia. Era de minha mãe. Se eu me lembrasse dela, seria tão mais confortante, mas eu só me lembro do rosto dela, por conta das minhas poucas fotos.
Suspirei e coloquei a foto sobre o meu criado mudo. Fui até o meu computador. E abri em minha conta, onde tinha algumas postagens sobre os meus amigos. Ludmila amava postar fotos ali, tinha umas cinqüenta desde que eu entrei.
Meu humor piorou ainda mais quando vi umas declarações da “Senhorita Vidal”, para o León. A Natália de vez em sempre escrevia coisas de amor para ele, declarando tudo que sentia, e aquilo me dava nojo.
O engraçado, é que ele nunca falava dela nas redes sociais. Ele parecia tão sossegado quanto a isso. Que nem comentava aquelas demonstrações publicas de amor.
Desliguei o computador, completamente desgostosa e desiludida. Odiava ver fotos dos dois juntos. Aquilo era como uma ofensa para mim, embora ninguém saiba da minha paixãozinha secreta pelo Vargas.
Peguei um teclado que tinha em meu quarto. Quando me sentia triste, necessitava desse instrumento, para liberar tudo o que sentia.
Minha mãe tocava bastante o piano e o teclado. Ela não era famosa na música, e sim pelo seu trabalho como estilista, a mãe da Ludmila também era estilista, acho que papai tem uma queda por mulheres com esta profissão.
Eu estava compondo uma canção. Eu queria muito terminar, mas faltava sempre inspiração. Eu sempre pensava em León e em mamãe quando tocava e cantava. Até mesmo na Luh.
¨¨
Eu já estava cantando, fazia horas. Eu cansei, agora estava entediada, e não mais triste. Olhei-me pelo espelho, e como sempre buscava encontrar traços de minha mãe. Eu tinha os olhos dela, e a cor da pele, e também o cabelo, e de resto, era como o meu pai, e de acordo com a minha empregada, minhas atitudes são como a de minha mãe.
Escutei vozes lá em baixo, na sala de estar, e prontamente me animei. Tem visita? Guardei meu teclado no canto de meu quarto, e minhas partituras dentro de minha gaveta. Papai não gostava muito de ver que eu tocava muito, ele não era muito a fim de música, mas tudo bem, pelo menos ele ainda não me proibiu.
Saí de meu quarto, e olhei lá de cima, quem estava lá em baixo. Era Federico, León e Naty. Os amigos de minha irmã, e o namorado da amiga dela. Eu não irei descer. Provavelmente eu os vou atrapalhar com a minha presença.
Eu estava pronta para voltar ao meu quarto, quando a porta se abre, revelando a imagem de uma garota de cabelos curtos bem pretos, metida em um vestido laranja cor de abóbora, era Francesca.
Ela cumprimentou as pessoas, e logo olhou para cima, e assim que me viu, sorriu e me mandou descer. Meio contra gosto, desci um pouco trêmula, por conta da pessoa que estava sentada na poltrona, e fazia o meu coração palpitar constantemente.
—Amiga, vim te fazer uma visita. – disse me abraçando apertadamente. – Como está?
—Muito bem. – menti com um sorriso falso nos lábios. – Olá. – cumprimentei as pessoas que estavam na sala e eles me devolveram um “Oi”, inclusive León.
—Bom, já que vocês duas estão aqui, vamos aproveitar para comunicar algo a vocês. – Ludmila disse sorrindo, apertando as mãos. – Nós vamos pedir pizza hoje à noite, e a galera vai passar a noite aqui. O que acham de ficar também?
—Bom, eu não acho muito... – Francesca me interrompeu.
—Vamos ficar. – disse convicta.
—Ótimo, vou chamar a Camila e Broadway para virem também, noite festiva não é noite festiva sem aqueles dois. – Ludmila disse pegando o telefone fixo nas mãos.
Sentei-me no sofá, de frente para o casal mais apaixonado do mundo. Natália estava sentada, agora, no braço da poltrona que León estava sentado. O mesmo passou a mão pela cintura dela, começaram a ficar naquela melação toda. Tentei não ficar enjoada com aquilo.
—Violetta – León me chamou, e meu olhar rapidamente foi em direção a ele. Pela primeira vez, ele me chamava pelo meu nome, e não sobrenome. – Você está bem? – perguntou do nada.
—Por que não estaria? – rebati com outra pergunta.
—Não sei, às vezes você me parece um pouco triste. – respondeu indiferente e eu forcei uma risadinha sem graça, como se não fosse verdade.
—Ai amor, é que ela é quietinha mesmo. – Natália disse acariciando a bochecha dele. – É que nós estamos acostumados com o entusiasmo da Ludmila, e ela é diferente né.
—Pode ser. – ele disse dando de ombros.
Depois disso não houve mais papo. Eu até saí da sala, pois estava me sentindo constrangida. Voltei ao meu quarto. Aquelas poucas frases que eu e o León trocamos, me deu uma ideia incrível, para uma letra de música.
Peguei o teclado, e um caderno qualquer, e também um lápis. Coloquei meus dedos em algumas teclas, e uma melodia incrível me invadiu, me fazendo sorrir abertamente, como se aquilo fosse o antídoto da felicidade extrema.
Dedilhei poucas notas, e anotei rapidamente para não esquecer. E aos poucos, minha imaginação foi fluindo, como se hoje fosse o meu dia mais produtivo. Eu sorria a cada nota tocada, me sentia excelente.
Escutei um barulho na porta, e minha felicidade foi embora, com o susto. Olhei para a porta encontrando a imagem de Francesca.
—Você me disse que não tocava mais. – ela disse apoiada no batente da porta, com os braços cruzados. – Achei que fosse verdade.
—Toco apenas quando sinto que há necessidade. – falei um pouco baixo.
—Não entendo porque você está se fechando tanto Vilu. – Fran disse vindo até mim, se sentando em minha cama. – Você está cada vez mais... Indecifrável.
—Não se preocupe, não é importante me entender. – falei guardando meu teclado e fechando meu caderno de músicas.
—É importante sim. Eu sou sua amiga, me preocupo, e muito. Não sabe quantas vezes penso em como fazer você se abrir comigo, e contar tudo o que sente, assim como eu faço. – ela disse cansada.
—Ok... Não vamos tocar nesse assunto.
—É sério isso, sabia? Você precisa de um psicólogo. – Francesca disse cruzando os braços, e eu a olhei seriamente. – Amiga você nunca me contou nada. Nunca me disse por quem você se apaixonou, ou é apaixonada, quantos meninos você já ficou, ou até mesmo se me suporta.
—Não fale besteira, é claro que eu te suporto. – reclamei.
—Mas não parece. – suspirou. – Eu te amo muito, você pode confiar em mim.
—Eu... Eu também te amo Fran, e eu confio em você. – falei sorrindo, mas era óbvio que ela sabia que eu estava escondendo algo.
—Quando achar melhor, me conte das coisas que você sente, eu vou adorar saber das suas coisas, assim como você sabe das minhas.
Antes de eu dizer alguma coisa, uma figura masculina aparece na porta de meu quarto. León. Ele parecia um pouco perdido. Eu e Francesca soltamos uma risadinha ao ver sua cara de confusão.
—É... Castillo, a galera está chamando vocês duas para descerem e escolherem um filme, pra gente ver mais tarde. – León disse um pouco embolado e eu assenti, como se a minha escolha fizesse diferença. – Não queria interromper vocês, desculpe.
—Não interrompeu nada. – falei sorrindo para deixá-lo mais confortável, e pareceu funcionar, pois ele sorriu de volta.
—Não sabia que você sabia sorrir. – provocou e eu virei os olhos, não acreditando que ele disse mesmo aquilo.
—Alguém me disse que princesas não choram. Então devo me comportar como tal. – falei olhando desafiadora para o mesmo.
Ele riu. Uma risada que fez todo o meu interior tremer, eu não sabia mais distinguir o som do meu coração batendo, com o som do riso dele. Sentia-me nas nuvens.
—Você é boa com palavras, Castillo. – apenas balancei a cabeça concordando com as sua afirmação. – Só espero ver esse sorriso em você mais vezes, ao invés de lágrimas que eu ainda não descobri o motivo. Mas investigarei.
Ele saiu da porta do meu quarto, e um temor passou em mim. Francesca estava de queixo caído com aquele dialogo. Acho que fiz mal em não contar esse acontecimento a ela. Mas a Fran não poderia saber que eu estava chorando, iria me fazer milhões de perguntas como sempre aconteciam.
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