Together
20 Delicadamente perfeito
Resumindo, quando perguntei ao meu pai se eu podia ir ao cinema com o León, ele abriu o maior sorriso e disse que com certeza. Eu não entendi essa reação. Era para ele pensar um pouco. Eu nunca saí com um menino na minha vida, ele podia ter dado uma força né? Caramba eu to muito nervosa.
Hoje é sábado, e desde que o León fez o pedido do cinema, eu não paro de pensar nele. São cinco horas da tarde, e eu estou em frente ao meu espelho, com o cabelo molhado, por causa do banho recém tomado. Eu estou apavorada. Queria tanto uma irmã experiente nesse momento, pena que a minha está ocupada em me odiar.
Fui até o meu guarda-roupa, e vi um vestido florido, bem leve, que eu usei poucas vezes. Seria esse mesmo. Eu não queria parecer vulgar demais, e também não queria ser a mesma Violetta sem graça. Tudo bem que a Violetta sem graça eu nunca vou mudar, e se ele gostou de mim assim, eu não tenho nada a perder.
Sequei meu cabelo e os prendi em um rabo de cavalo. O tempo estava quente, e tudo que eu não queria era soar. Passei creme no corpo, e perfume. Peguei um batom que estava no fundo do estojo minúsculo de maquiagem que a Ludmila me deu de aniversário ano passado, e o passei. Ele era bem clarinho, nada exagerado.
Eu estava pronta. Meu primeiro cinema com um garoto, e eu estou tremendo da cabeça aos pés. Acho que isso não é muito normal, mas eu nunca fui normal mesmo, então não muda em nada a minha história.
Eu estava me olhando no espelho, tentando enxergar algo de errado no meu visual, quando a porta do meu quarto foi aberta bruscamente, e eu levei um baita susto. Era o meu pai, mas imagina só se eu estivesse nua?
— Pai? – não entendi a invasão.
— Você está diferente. – ele comentou me olhando dos pés a cabeça.
— Espero que seja um diferente bom. – murmurei me sentindo sem graça.
— É um diferente bem diferente. – riu. – Não é bom para mim, mas aposto que o León vai adorar. – ele disse com aquela típica voz de pai enciumado e eu abri um sorriso, enorme, acho.
— Você acha? – me olhei mais uma vez no espelho.
— Tenho certeza. – disse e eu suspirei, estava nervosa demais. – O que está acontecendo? Você não parece bem.
— Ai pai. – como contar isso ao meu pai que ultimamente está tão atencioso? Minha vontade é de chorar, que nem quando eu era pequenininha, e não sabia fazer as coisas, e quando chorava parecia que tudo se resolvia.
— Confie em mim. – sentou em minha cama, e eu sentei ao lado dele.
— Eu nunca saí com um garoto antes. – murmurei apertando minhas mãos. – Não sei como vai ser. Estou feliz, mas ao mesmo tempo sinto medo, é estranho. – minha voz não passou de um sussurro, meu pai riu. – Não ria de mim, por favor. Eu nunca conto nada a ninguém, por medo de rirem de mim, e quando me abro para o meu próprio pai... – ele me interrompeu.
— Não há como eu te dizer com palavras exatas como esse primeiro encontro vai ser. – meu pai disse olhando para o chão. – Mas faça dele o melhor. – suspirei. – Eu não deveria dar dicas para minha filha se aproximar de um garoto, mas... – ri. – Sei que você é madura o suficiente para ir com calma e saber até onde as coisas são certas. Até onde é o seu limite.
— Claro que eu sei. – confirmei.
— Não deixe o León passar do limites. Ele é um bom rapaz, mas é homem, e eu sei como nós somos.
— Acho que não quero ter essa conversa com o senhor não. – murmurei arqueando uma de minhas sobrancelhas e meu pai riu brevemente.
— Mas eu preciso ter essa conversa com você.
— Já falou sobre isso com a Ludmila? – perguntei.
— Sim, quando ela teve o primeiro namorado, aos quatorze anos. – arregalei os olhos, minha irmã é realmente muito avançada. – Eu pensei que nunca teria essa conversa com você, porque foi sempre tão fechada.
— Ah pai. Não dei nem meu primeiro beijo, pode ficar tranquilo, minha primeira vez não vai acontecer tão cedo. – falei com as bochechas queimando, e elas deviam estar muito vermelhas. Eu só queria encerrar o assunto. Fala sério. Eu só ia ao cinema com o León, não ia dormir com ele. Meu pai é um exagerado.
— É sério? – perguntou com um sorriso no rosto e eu assenti constrangida. – Isso é ótimo, e significa que você não apressa as coisas, como sua irmã.
— Eu não apresso mesmo, só atraso. – resmunguei e ele riu.
— De qualquer forma... Cuide-se. E me ligue quando chegar ao shopping.
— O motorista do León vai nos levar, fica tranquilo.
— Ok. – sorriu e beijou minha testa, saindo do quarto.
A noite será longa.
***
Eu estava em estado de nervos. Eram sete e dez. Isso significa que o León está dez minutos atrasado. E mil coisas passavam pela minha mente. Eu estava sentada no sofá, cronometrando os segundos que se passavam. Eu estava apavorada. E se ele tiver desistido? Ou esquecido? Não posso deixar de pensar essas bobeiras.
— Aonde você vai vestida desse jeito? – Ludmila apareceu na sala, me olhando de cima a baixo, segurando uma revista de moda, sentando-se afastada de mim.
— Não interessa. – murmurei, ela iria ver o León chegando, e ia sacar tudo, não preciso dizer nada. Papai estava sentado na poltrona com um jornal e me olhou por cima dos óculos de leitura, mas não me repreendeu por te falado daquela forma com minha irmã. Ela merecia, querendo ou não.
Ludmila revirou os olhos e abriu sua revista, cruzando as pernas e ficando confortavelmente no sofá. Minha respiração estava acelerada, eu só queria que ele chegasse logo. Sete e doze. Ai León, não faz isso comigo.
De repente meu cérebro para de pensar e eu escuto o suave som da companhia. Olga corre para atender a porta e meu pai me dá um sorriso, juntamente com uma piscadinha. Acho que vou virar um pimentão a qualquer momento, é tão vergonhoso.
— León. – Olga cumprimentou com um balançar de cabeças. León fez o mesmo, e quando me olhou sorriu.
— Eu não to acreditando. – Ludmila disse em um tom baixo e eu virei para encará-la. – Vocês dois são ridículo. – fechou a revista e saiu correndo para o quarto dela, acho, suspirei.
— Não liga pra ela. – meu pai disse se levantando, e eu fiz o mesmo. – Olá rapaz. – papai disse apertando a mão de León.
— Germán. – León sorriu.
Ele veio em minha direção, mas travou, olhando para o meu pai, como se pedisse permissão para alguma coisa, não entendi. Meu pai balançou a cabeça e León veio até mim, colocando uma mão em meu braço enquanto dava um beijo rápido na minha bochecha. Sorri tímida.
— Oi. – ele disse, e tive a sensação de apenas eu ter escutado.
— Oi. – falei no mesmo tom.
— Cuide de minha filha León. – papai disse interrompendo-nos.
— Com todo cuidado. – León respondeu me olhando com um sorriso e aquele brilho no olhar que eu ainda não sabia distinguir o que era.
— Divirtam-se. – papai beijou minha testa. – Não se esqueça dos limites. – sussurrou no meu ouvido, e eu olhei para o León, com medo de que ele tivesse escutado, mas o mesmo parecia alheio. Assenti para o meu pai e ele sorriu.
León pôs a mão delicadamente por trás das minhas costas, e assim fomos juntos para fora de minha casa. Quando pisei do lado de fora, senti a brisa fria me cumprimentar e fiquei melhor, eu estava me sentindo sufocada, sem saber como agir, com medo. Espero que a noite não seja um caos.
— Vamos? – León perguntou e eu assenti com um sorriso. Então fomos em direção ao carro que nos aguardava perto da calçada.
Que a noite seja boa, por favor.
*Ludmila*
Eu estava atrás da parede quando os dois saíram juntos pela porta. Eu não acredito que a minha irmã, está saindo com o meu ex. ficante e ex. namorado da minha melhor amiga. É uma sacanagem sem fim. Esse León não perde por esperar, um dia ele ainda vai se ferrar por tentar pegar todas.
— Nunca vi minha pequenina saindo com um garoto antes. – escutei a voz de Olga, e estiquei um pouco o pescoço para ver e ouvir o que eles estavam dizendo.
— Eu também não. – meu pai disse rindo. – Mas acho que isso vai fazer bem a ela.
Eu não acredito. Meu pai era a favor dessa barbaridade?! Será que ele sabe que o León é um idiota, que pega qualquer garota e ainda por cima já ficou comigo?! Isso só pode ser um pesadelo.
— Eles parecem estar apaixonados. – Olga disse suspirando. – Você viu como ele olhava para ela, senhor?
— Claro que eu vi. – papai sorriu. – Ela o olha da mesma forma, mas ambos não percebem que sentem a mesma coisa.
— Deveria dar um empurrãozinho. – Olga disse e meu pai gargalhou.
— Não, não. Longe de mim, querer empurrar minha filha para um garoto. – falou tirando os óculos. – Com o tempo, se esse relacionamento funcionar, eles vão perceber.
— O senhor parece feliz com a aproximação dos dois.
— Violetta merece ser feliz, Olga. – tomou fôlego. – Desde a morte de Maria, me sinto perdido, e de alguma forma, a Violetta está afetada também. E eu odeio o fato de quase não conhecer a minha própria filha. Com a Ludmila foi sempre tão mais fácil. – opa, eles estão falando de mim.
— Falando em Ludmila... Como anda Priscila?
— Faço questão de não saber. – meu pai suspirou. Eu odiava isso, ele parecia lamentar cada segundo pela morte da mãe da minha irmã, mas parecia querer distância da minha mãe, que estava viva, estava bem. – Deve estar na Europa, gastando algum dinheiro.
— Ah. – Olga deixou escapar um suspiro.
— Eu realmente amei Priscila, mas as coisas saíram do controle. – passou a mão pelos cabelos. – Nosso relacionamento não iria muito longe mesmo, mas agradeço-a de qualquer jeito. Ela me deu uma filha linda, meio complicada, mas mesmo assim linda.
Sorri. Ele gostava de mim também. Mas por que não me dizia isso quando estamos cara a cara? E por que me tratava mal? Não dá pra entender.
— Ludmila tem um gênio forte, como o senhor. – Olga tentou animá-lo.
— Eu sei. – sorriu. – Mas ela podia se policiar, às vezes chega ser insuportável discutir com ela. E nós nunca chegamos a um acordo. Com a Violetta é mais fácil conversar, ela me obedece sem questionar, sabe que de algum jeito, eu estou certo, e só quero o melhor para ela.
— Ah... Violetta é um doce. – Olga sorriu olhando para meu pai. – Ela me lembra muito a Maria, o jeitinho cuidadoso, a timidez.
— Lembra mesmo. – meu pai riu. – Eu me culpo todos os dias por ter sido esse tempo todo um ogro com as minhas filhas. A Ludmila me odeia, e a Violetta... A Violetta, eu sinto que estou recuperando-a pouco a pouco, ela confia em mim agora. E me contou coisas reveladoras, acredita?
— Claro que eu acredito. – Olga riu.
Ai pai. Se você soubesse como eu sinto falta de alguém que cuide de mim de verdade...
*Violetta*
Eu estava na fila da pipoca e o León estava comprando os ingressos. O caminho até o shopping foi diferente... Trocamos poucas palavras, mas o León tem um senso de humor incrível, ele faz piada em qualquer situação. Nós não falamos muito, mas a viagem foi confortável.
— Duas pipocas, e duas coca-colas, por favor. – falei para a moça que atendia, e tinha uma cara feia de tédio
— Pipoca grande, média, ou pequena? – perguntou com um semblante sem graça.
É melhor comprar grande né? Porque eu não quero sair no meio do filme para comprar pipoca. Odeio interrupções.
— Grande.
— Coca-cola de latinha ou garrafa? – perguntou evidentemente cansada.
De garrafinha é maior né? Não quero ter que sair para comprar refrigerante também.
— Garrafinha.
— Trinta e cinco pesos, senhorita. – Uau, tudo isso? Fazia tempo que eu não ia ao cinema mesmo. Tirei cinquenta pesos da carteira e lhe entreguei.
— Obrigada. – peguei o troco, as duas pipocas e os dois refrigerante, quase derrubando tudo no chão.
Fiquei esperando o León em frente à porta da nossa sessão, onde nós tínhamos combinado. Faltavam dez minutos para o filme chegar. León estava atrasado, pela segunda vez no dia. Ele disse que seria rápido, mas vejo que não. E olha que a fila da pipoca era bem maior do que a do ingresso.
— Precisa de uma mão? – escutei a voz cheia de humor do León, e fiquei mais aliviada.
— Engraçadinho. – falei dando a pipoca e o refrigerante dele. – Demorou.
— Foi mal, eu confundi o nome do filme, acredita que tem dois filmes, que tem praticamente o mesmo nome? A atendente riu da minha cara, e me explicou o enredo dos dois, só aí pude saber qual era. – ri.
— Mas então tá tudo certo? – perguntei e ele assentiu. – Melhor a gente ir entrando.
— Sim. Melhor.
***
Estávamos no meio do filme, e eu ria sem parar. Com certeza, aquele filme era mais comédia, do que ação. Na verdade não era comédia, só o personagem que era irônico demais, e isso fazia as pessoas que estavam no cinema rirem também.
Senti o braço de León passar por cima dos meus ombros, mordi o lábio, tentando, à toa, segurar o sorriso que meus lábios queriam desenhar. Isso com certeza é mais do que eu esperava. Bem mais.
— Tem mais pipoca? – ele perguntou baixinho no meu ouvido, e eu me assustei, sentindo a famosa corrente elétrica passeando pelo meu corpo. – A minha acabou.
Caraca... Aquele pote imenso de pipoca acabou? Da próxima vez eu pego a extragrande. A minha ainda estava pela metade. Coloquei minha pipoca no meio de nós dois, e olhei para ele, o mesmo sorriu, e eu, como a boba apaixonada que eu sou, sorri de volta.
Assistimos ao filme em silêncio, depois dessas breves trocas de palavras. E eu não consegui parar de sorrir. Tenho que me encantar menos com qualquer palavra que ele fale. Preciso controlar minhas emoções, ou então morrerei na ilusão.
***
— O que achou do filme?
León perguntou quando o carro do motorista finalmente estacionou em frente a minha casa. As luzes estavam acesas, e eram onze e meia da noite. Eu acho que todo mundo ainda está acordado.
— Foi ótimo, exceto o final. – falei e ele riu. Leandro, o motorista, abriu a porta para nós sairmos. E assim fizemos.
— Realmente, eles não foram bons com o final. – concordou comigo.
— Espero que aja um segundo filme.
— Vai ter com certeza.
Andamos até o meu portão e León parou de frente para mim. Pegando minhas duas mãos, e abriu um sorriso. Sorri também, hoje a noite foi proveitosa, pelo menos para mim, espero que para ele também.
— Hoje foi um dos poucos dias em que eu realmente me diverti. – ele falou dando um passo pra frente.
— Eu também.
— Você estava e está linda esta noite. – senti minhas mãos formigarem, enquanto o calor se concentrava em minhas bochechas.
Ele inclinou a cabeça e eu não conseguia fechar meus olhos. Céus, ele ia mesmo me beijar? Porém ele parou no meio do caminho, com os olhos brilhantes e a respiração falhada saindo de sua boca semi-aberta. Eu não aguentava mais, precisava mais do que nunca, agora, ter a sensação de ser beijada por ele.
Com um mínimo de força de vontade, eu mesma encostei meus lábios no dele, por míseros dois segundos, se não for menos, desencostei quando percebi seu choque. Ai Violetta, você com certeza passou dos limites. Toda essa aproximação, esse “encontro” não valeu de nada? Ai caramba... Estou me sentindo tão inútil.
— Desculpe. – murmurei abaixando o meu olhar. Eu não posso chorar aqui, por favor, não. Eu realmente não posso. – Eu não pensei direito, eu... – minhas palavras sumiram, e eu só quero/preciso ir para o meu quarto e chorar, por ser tão burra.
— Tá tudo bem. – ele disse levantando o meu queixo levemente, me fazendo encarar sua íris esverdeada. Podia existir situação mais constrangedora? Se sim, no momento eu não conheço. – Agora você sabe naquele dia que eu tentei te beijar, como eu me sentia.
Balancei minimamente minha cabeça, assentindo. Ele sorriu, e acariciou minha bochecha, como se fosse o tecido mais delicado que ele já houvesse colocado a mão. Seus olhos brilharam quando encontraram o meu, e seu braço sutilmente envolveu minha cintura.
— Eu nunca beijei ninguém antes. – admiti em um sussurro, como se fosse um segredo. Seus lábios se aproximaram dos meus novamente.
— Ficarei feliz em ser o primeiro.
E então aconteceu. Seus lábios macios tocaram os meus de forma doce e terna, e quase que eu derreto por dentro. Senti um pingo de esperança, e acho que de todos os sonhos que eu tive com esse momento, nenhum pode ser comparado com a realidade. – não foi como aqueles beijos de novela, ele apenas encostou seus lábios nos meus, sendo o mais cuidadoso possível. E talvez eu precisasse disso, precisava de calma.
Depois de alguns segundos assim, ele se afastou um pouco, roçando os lábios nos meus, me fazendo abrir um sorriso maior do que a minha boca poderia aguentar. Eu vou explodir a qualquer momento. Você me faz feliz León, me faz muito feliz.
— Melhor? – ele perguntou com seu senso de humor implacável e eu ri.
— Bem melhor.
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