Together

16 Apenas um dia de cada vez


Acordei na segunda-feira com a cabeça latejando. Tomei um banho frio para acordar e logo vesti o meu uniforme. Prendi meu cabelo em um coque e peguei minha mochila. Eu estava pronta para ir à escola, apesar de não me sentir muito legal em ir para lá. Desci as escadas e Olga estava tirando um prato da mesa, que eu supus ser da Ludmila.

— Bom dia, pequenina. – beijou minha testa e eu sorri. – Você está meio pálida. Se sente bem? – perguntou com um tom preocupado e eu assenti. – Fiz panquecas, quer?

— Não estou com fome. – murmurei e ela me olhou em repreensão. – Qualquer coisa eu como no colégio. – expliquei e ela suspirou.

— Sua irmã saiu daqui como um furacão. – me contou. – Falei para te esperar, mas ela não me deu ouvidos.

— Tudo bem. – dei de ombros. Tudo que eu queria no momento era distancia da Ludmila. – Já vou indo, não quero me atrasar.

— Cuide-se. – murmurou e eu assenti, pegando minhas chaves em cima da mesa, e seguindo o meu rumo.

O dia estava nublado, o céu estava cinza, e tudo me dizia que não era para eu ter saído de casa hoje. Eu me sentia tensa, meu corpo inteiro parecia querer ter ficado debaixo das minhas cobertas quentinhas, ou tocando algumas notas no teclado. Mas eu tinha que vir a escola, mesmo com as pessoas ao meu redor me odiando.

Assim que cheguei a frente à escola, e vi Natália e Ludmila sentadas em um banco. Natália chorava exageradamente enquanto Ludmila acariciava os cabelos enrolados dela. León as olhava encostado em uma árvore, e puxa... Ele estava lindo. Cabelos bagunçados e a camisa com dois botões abertos e a gravata afrouxada em torno de seu pescoço.

— Violetta. – olhei para trás, encontrando Camila, vindo em minha direção. – Tudo bem com você? – assenti. Normalmente não nos falávamos tanto. – Hã... Diego está te procurando, ele parece preocupado.

Ah. Claro. Diego.

— Onde ele está? – perguntei pronta para enfrentá-lo.

— Pelo corredor. – sorriu de lado. – E desculpe a intromissão, mas eu fiquei sabendo o que aconteceu... – ela olhou para León e para Natália. – Não se sinta culpada. O relacionamento deles já vinha definhando há meses.

— Não sei do que você está falando. – murmurei.

— Você sabe sim. – sorriu mais uma vez, sua voz era suave e calma. – Te vejo na aula. – acenou e saiu sem dizer mais nada.

Depois de uns segundos pensando, saí do transe e fui encontrar Diego. Ele estava encostado no meu armário enquanto olhava a multidão de alunos entrarem e saírem. Ele me viu e abriu um sorriso relaxada enquanto eu fechava a cara.

— Finalmente. – me agarrou em seus braços em um abraço ultra apertado.

— Você. Me. Sufoca. – murmurei pausadamente.

— Eu sei. – riu. – Como você está?

— Ótima. – quase minha voz não sai.

— Minta que eu finjo acreditar. – cruzou os braços.

— Diego... – engoli a ansiedade. – Posso te fazer uma pergunta?

— Claro que pode. – disse erguendo uma das sobrancelhas, como se não entendesse aonde eu quisesse chegar.

— Por que você acha que ninguém gosta de mim?

— Não entendi. – murmurou e eu não repeti a pergunta, era constrangedor de mais. – Olha... Eu gosto de você. – deu de ombros.

— Tá, mas é só você. – cruzei meus braços, insegura.

— O Tomás também. – brincou.

— Mas ele não conta. – murmurei frustrada. – Além do mais ele deve ter algum problema. Ninguém gosta de mim de verdade.

— Quem te disse isso?

— Não interessa. – sussurrei. – Eu realmente não sou digna.

— Aposto que foi sua irmã que te falou essas abobrinhas. – colocou o braço em torno do meu pescoço, e assim fomos juntos para sala, já que o sinal havia acabado de tocar. Encolhi-me. – Vilu, você é a melhor pessoa que existe nessa escola, sério. Você não é superficial, e eu adoro isso.

— Sério?

— Sério. – sorriu.

***

— Bem, isso explica que a força centrípeta é maior do que a força peso. – minha professora de física disse ao terminar o cálculo de uma experiência, na lousa. – Alguma pergunta? – sorriu satisfeita, mas ninguém respondeu nada. – Ótimo. – o sinal para o intervalo bateu. – Podem sair, mas... Preciso conversar com você, senhorita Castillo.

Olhei para o Diego e fiz uma careta e o mesmo riu. Todos os alunos saíram da sala, ficando apenas eu e a professora Maia. Não me lembro de ter feito nada errado.

— Violetta. – ela disse doce, me lançando um olhar calmo. – Eu queria te parabenizar.

— Hã? – minha voz soou mais confusa que o meu pensamento.

— Seu desempenho, puxa, é fantástico. – ela disse mostrando minhas três provas do bimestre. – Ninguém nunca foi tão bem em minhas provas como você.

— Não é a toa que sou a estranha. – murmurei e a professora riu.

— León também foi fantástico. – ela disse e eu arqueei a minha sobrancelha, não queria me lembrar de León. – Mas não preciso dizer isso a ele.

— Realmente não precisa, só iria aumentar o ego dele. – cruzei os braços e minha professora riu mais uma vez. Nossa... Eu sou tão engraçada assim?

— E o seu não? – perguntou com um sorriso de lado.

— Meu ego? – perguntei e ela assentiu, eu ri. – Acredito que não.

— Sabe... Eu ando percebendo o seu isolamento. – ela disse calmamente. – Não acho legal uma pessoa tão linda e inteligente como você ficar sozinha pelos cantos. Sua irmã é tão diferente.

— Eu não sou minha irmã. – sussurrei, sentindo o meu sangue começar a ferver.

— Claramente não é. – sorriu. — Mas não seja tão isolada, querida.

— Você não me conhece. – resmunguei desviando nossos olhares.

— Acredite querida, eu conheço muito bem os meus alunos. – ela pareceu ofendida.

— Já posso ir?

— Não quero que me veja como uma inimiga, Violetta. Só quero te ajudar.

— Eu vou ir para o meu intervalo.

Conversa mais estranha. Eu nunca nem tinha conversado desse jeito com a minha professora. Saí da sala. Minha fome passou, só quero ir embora desse lugar. Parece que todos estão contra mim.

— Vilu...

Olhei para o lado vendo Francesca. Suspirei. Hoje o dia estava desastroso.

— Olha só, se você veio brigar comigo, ou falar alguma coisa para me repreender, não precisa nem começar, aliás, não precisa nem abrir a boca. – explodi.

— Não... Hã... Não é isso. – murmurou. – Queria te pedir desculpa. Não suporto ficar brigada com você.

— Ah.

— Eu sei que não sou ninguém pra te dizer o que fazer, mas eu só queria mesmo que você confiasse mais em mim. Poxa... Eu sempre fui sua amiga, desde que você chegou, e parece que o Diego sabe mais do um dia eu poderia saber.

— E sabe mesmo. – resmunguei fazendo uma careta, lembrando que eu tinha dito muito para ele.

— Tá vendo.

— Mas não são coisas de importância, ele só é... Hm... Um bom amigo.

— León perguntou para mim, se vocês eram namorados. – me contou com um sorriso pequeno.

— Você não disse nada né?

— Bom... Eu disse que vocês têm uma grande amizade, mas ele, o León, tá todo bobo com você. – estreitou os olhos. – Não está me escondendo nada né?

— Ai Francesca. – dei as costas seguindo pelo refeitório, ouvindo os passos de Francesca atrás de mim, com sua risadinha de quem tinha acertado em cheio o que estava acontecendo comigo.

— Vilu!

Ignorei seu chamado e segui para o refeitório. Peguei um suco na lanchonete e me sentei em uma das cadeiras vazias. Marco e Diego estavam em outra mesa com a minha irmã e a Naty, que estava desolada abraçada a minha irmã. León estava conversando com Tomás em um cantinho, nunca vi os dois conversando antes. Estranho. Mas não importa.

— Você vai me ignorar mesmo? – Francesca perguntou com a boca cheia de um bolinho que ela havia comprado.

— O que você quer saber? – cruzei os braços.

— De você, do Diego, do León.

— Primeiro, eu ainda não sei por que você falou do León, tá ficando doida? – menti, mas aposto que pareceu verdade. – Segundo, Diego? Francamente, nós nunca namoraríamos, que horror. – fiz careta e Francesca riu. – E terceiro, e muito menos importante, não tem nada para saber de mim, sou a mesma estranha isolada de sempre, diferente da irmã que tem. Satisfeita?

— Uau. – seus olhos estavam arregalados. – A coisa é mais grave do que eu pensava, não sabia que você achava tudo isso de si mesma.

— Francesca. – ri. – Eu acho sim, você acha, e todo mundo acha que eu sou assim, nunca vai mudar, você não entende?

— Você é muito negativa.

— E você otimista demais. – rebati.

— Mas me diz... O que você acha do León? – perguntou e eu revirei os olhos, quando ela começa a falar não para.

***

— Só pra lembrar, amanhã tem prova. Trigonometria. Estudem.

Meu professor de matemática disse com um sorriso, talvez porque fosse à última aula. Francesca murmurou algo incoerente, resmungando é claro, ela não gosta muito de matemática. Por sorte, eu aprendi essa matéria, mas eu nem me tocava que tinha prova amanhã, só vou dar uma revisada, estudar demais às vezes é ruim.

— Vou à biblioteca quando terminar a aula quer ir também? – perguntei a Francesca, aí nós estudaríamos juntas.

— Queria muito. – fez biquinho. – Mas minha mãe pediu para ajudar ela no supermercado.

— Tudo bem.

— Chame o Diego.

— Nem, Diego odeia estudar. – rimos.

— É verdade... – suspirou. – Quando foi que vocês viraram tão amigos.

Congelei, foi no dia em que ele sacou a minha paixão ridícula pelo León Vargas, na minha casa. Ok, honestamente, eu não quero falar disso com ela. A Fran é uma boa amiga, mas contar uma coisa dessas? Não. Ainda não. Quem sabe um dia. Não me sinto bem falando isso, é como se fosse algo incomum, errado, desastroso.

— Vilu? – chamou minha atenção, estalando os dedos na minha frente.

— Hm.

— Como ficaram próximos?

— Ele... Hm... Nós falamos sobre... Hm... Sobre inglês um dia desses, e ele é bom demais, pode me ajudar nessa matéria.

— Qual é Violetta, você é ótima em inglês.

— Não é sério, ele também é. – menti descaradamente. O sinal bateu.

— Tudo bem. – murmurou não muito convencida. – Nos falamos amanhã. – beijou minha bochecha. – Tchau, amiga.

— Tchau. – murmurei.

Todos saíram da sala rapidamente, León foi o mais ágil de todos, ele ficou estranho de repente, não entendo. E eu tenho que parar com essa minha mania irritante de me preocupar com ele, sendo que o mesmo não dá a mínima para mim.

Guardei meus materiais sem pressa, era uma hora da tarde ainda, tinha até as cinco para fazer uma boa revisão pra prova. Eu poderia ir pra casa e estudar lá, mas não quero ser atacada pela Ludmila, ela tá muito difícil.

Peguei minha mochila e saí da sala. Andei pelos corredores vazios, já que o período da tarde ainda não havia chegado. Entrei na sala da biblioteca, não era uma grande biblioteca, mais tinha um bom espaço. Cumprimentei a Melina, a que ficava de olho nas pessoas que frequentavam a biblioteca, ela é uma pessoa legal.

Coloquei a minha mochila em uma das cadeiras e fui até uma estante, procurar um livro bom de trigonometria, porque meu livro não explicava muita coisa, e é sempre bom procurar por mais informações, isso garantia uma nota boa, pelo menos para mim.

Tirei um livro da estante, e encontrei um par de olhos verdes no lugar do livro que tirei. Por sorte, ele não me olhava, coloquei o livro de volta no lugar, com minhas mãos tremendo e as pernas bambas. Por isso ele saiu tão rápido da sala? Para vir até a biblioteca? Não faz sentido.

— Oi pai... – León parecia estar falando ao celular, e eu não conseguia me mover do lugar onde estava. Não queria que ele me visse. – Estou no colégio... ...É... ...Tenho prova amanhã... ...Claro que eu sei... ...Vou estudar... Eu sei o conteúdo da prova... Sem notas baixas... ... Não se preocupe... ... Ah, não está preocupado... ... Nada não... ... Estágio? Mas... ... A minha aula... ... Pai... ... Por favor... ...Eu juro estudar mais, mas não posso faltar... ...Não quero falar da Naty, preciso estudar... ...Pai, isso não é da sua conta e... ... Desculpe... ... Pai... – ele não disse mais nada, apenas soltou um longo suspiro, e vi sua mão apoiar-se na prateleira de baixo da estante, a que não tinha livros, com o celular na mão, ele havia desligado. – Merda. – sussurrou baixinho.

Peguei o livro novamente da prateleira e saí rapidamente até a mesa vazia. León parecia zangado. Puxei a cadeira e me sentei. Abri o livro de trigonometria e procurei por exemplos dos cálculos.

Depois de uns cinco minutos, meus olhos estavam ardendo de cansaço, e só foram cinco minutos. Eu não estava no pique de estudar, melhor ir embora, eu estudo em casa, me tranco no quarto e fim, assim eu evito a Ludmila e...

— Violetta.

Aquela voz me trouxe um pânico e meu cansado foi deixado de lado. Engoli o seco e virei minha cabeça para o lado, dando de cara com dois olhos verdes brilhantes e tristes me olhando com suplica, não entendi bem.

— Oi. – murmurei.

— E-Eu não quero interromper... – coçou a nuca, parecia nervoso. – Preciso da sua ajuda, se você quiser me ajudar é claro.

— Minha ajuda? – perguntei erguendo uma sobrancelha.

— É... – suspirou. – Eu não sei trigonometria, e eu preciso muito aprender. – disse constrangido. – Eu não... Não posso tirar nota baixa.

— E o que eu tenho com isso?

— Você é bastante inteligente em exatas, pensei que poderia me ajudar e... – lancei um olhar desconfiado, mas ele não pareceu entender. – Não, tá tudo bem, não quero te incomodar, não precisa, eu me viro. Desculpe.

Deu as costas e pegou sua mochila que estava na mesa ao lado da minha, deu um suspiro e pôs a mochila nas costas. Suspirei, largando o lápis em cima do caderno, ele parecia, sei lá, desesperado? Engoli a ansiedade que tomava conta de mim, enquanto o via sair pela biblioteca, e tomei coragem pra falar. Pelo menos uma vez na vida.

— León. – minha voz não foi alta, mas foi suficiente já que ele se virou instantaneamente com o olhar confuso. – Quer começar por onde?

Um sorriso surgiu nos seus lábios, e puxa... Que sorriso.