Together

9 "Aparências"


Acordei por volta das sete horas da manhã. Eu tinha que estar na escola as oito, hoje. Espreguicei-me e logo tirei as cobertas que envolviam o meu corpo. Sentei-me devagar. Eu estava com sono.

—Violet, querida. – minha madrasta entrou em meu quarto, sem ao menos bater na porta. Isso me enchia as paciências. – Como vai meu amor?

—No momento? – perguntei e ela assentiu. – Com sono. – respondi de mau humor.

—Tudo bem anjinho. – ela não cansava desses apelidos? – Bom, invadi seu quarto por uma boa razão. – continuou e eu fiz uma expressão mais ou menos assim: “qual?”. — Bom, eu e o seu pai iremos fazer uma viagem.

—Como assim? – perguntei me levantando da cama. – Quando isso?

—Na próxima semana. – respondeu olhando o celular. – Isso te incomoda querida?

—Não... É que vocês me pegaram de surpresa. – respondi um pouco desnorteada.

—Tudo bem amorzinho. – apelidos ridículos de novo. – Tenha um bom dia.

—Você também Jade. – sorri.

Jade saiu de meu quarto saltitante. Sabe... Eu gostava dela. Mas sei lá... Eu achava a Jade um pouco criança para o meu pai. Ela agia como se fosse minha irmã, e eu gostava dessa parte, exceto quando ela vinha com aqueles apelidinhos que me irritavam.

Tomei um banho rápido, porque não queria correr riscos de me atrasar para escola. Coloquei uma calça jeans escura, uma blusa comum branca, e a blusa de moletom por cima. Penteei meus cabelos, e os prendi em um rabo de cavalo.

Olhei meu visual no espelho e suspirei. Era o mesmo de sempre. Lembrei da conversa que tive com o León há um tempo, sobre o pessoal me achar estranha. Hoje eu iria diferente para a escola. Olhei no relógio. Eu ainda tinha meia-hora.

Abri o guarda-roupa e olhei bem. Peguei uma saia um pouquinho de nada acima do joelho, e rodada, ela era de estampa florida, uma graça, Jade que havia me dado. Na minha escola não podia usar roupas curtas, ainda mais sendo saias ou shorts. Peguei uma regata branca que ficava justa em meu corpo.

Estava um dia lindo, nem sei o porquê peguei a blusa de moletom. Coloquei aquela roupa, e peguei uma sapatilha neutra. Não estava me sentindo vulgar, e sim muito bonita. Soltei meus cabelos, e passei um brilho labial, nada, além disso.

Peguei minha bolsa, e fui à escola.

***

O sinal não havia tocado quando eu pisei o pé lá dentro. Ludmila havia ido mais cedo, ela não me esperou desta vez. Ao contrário de mim, ela era popular, mas eu não ligava para isso.

—Violetta? – escutei uma voz masculina me chamar e olhei para trás, era Diego. Sorri. – Você está... Linda. – disse vindo me cumprimentar, com um beijo na bochecha. Abaixei a cabeça envergonhada.

—Obrigada Diego. – falei e logo fui em direção ao meu armário.

—Amiga do céu! – Francesca escandalosa como sempre veio em minha direção. – Juro que quase não te reconheci.

—Estou tão estranha assim? – perguntei me lembrando das palavras de León e Natália na discussão.

—Claro que não. Pelo contrário. – sorriu meiga. – Você está mais... Você. Está linda. Não conhecia esse seu lado tão... Lindo!

—Obrigada Fran. – ri.

—Que nada. – disse guardando os livros do seu armário, que a propósito, era ao lado do meu. – Eu reconheço quando minhas amigas estão maravilhosas. – ri tentando não parecer tão constrangida.

Abri meu armário também, colocando o meu livro de matemática lá dentro, e pagando o meu livro de inglês, seria a primeira aula hoje. Suspirei descontente, eu amava inglês, mas não gostava nem um pouquinho daquele ser chamado Gilberto, que era o meu professor.

Fechei a porta do armário, e quem estava ao meu lado? León é claro. Ele estava mexendo no armário de Natália, provavelmente ela havia o mandado pegar alguma coisa. Abri a porta do meu armário novamente, não queria que ele me visse. Sim, eu estava com vergonha de minha aparência.

—Castillo...? – que raiva, ele me viu.

—Hã? – perguntei ainda com o meu rosto escondido na porta do armário. Isso é patético Violetta! Pensei comigo mesma.

—Com licença. – León disse fechando a porta do meu armário com tudo, me dando um susto daqueles. Escutei o riso de Francesca soar pelo ambiente. – Wow! – ele disse me olhando de cima baixo.

Bom, esse é o momento que eu faria o possível para me esconder. Eu estava com muita, tipo, muita vergonha.

—Você fica ainda mais bonita com essas bochechas avermelhadas. – ele disse e eu o olhei, desconfiada.

—O que? – deixei escapar.

—É... Esquece não foi nada. – disse sorrindo de lado. – Te vejo na aula. – disse saindo, mas antes me deu um beijo na bochecha.

Tentei não dar um sorriso enorme, que demonstrasse que eu amei aquele pouquinho de atenção que eu recebi dele.

—Parece que você está atraindo muitos olhares. – Francesca disse desgostosa, vendo que Tomás me encarava com um sorrisinho estranho.

—Não liga. – falei tentando não dar importância aquilo. – Você sabe que eu não me importo com isso.

—Por isso te amo. – falou me abraçando pelos ombros, e então fomos juntas para a sala.

***

O sinal bateu, indicando que agora, neste exato momento, seria o intervalo. Peguei minha maçã dentro da bolsa, e me retirei da sala. Eu não como muito, além de que tento manter o meu corpo.

Francesca me esperava do lado de fora, conversando com Diego, eles pareciam animados, pois riam a todo instante.

—Então nos vemos na sua casa depois. – Diego disse saindo. Eu não escutei quase nada da conversa deles, mas achei aquilo estranho.

Francesca me viu e sorriu. Caminhamos até o refeitório juntas, onde aquela gente toda se encontrava. Nós sentamos-nos à mesa de Marco e Tomás. Eu só comia lá, por conta da Francesca que ara obcecada pelo Tomás, e pelo Marco que queria a Fran. Uma cadeia amorosa, isso mesmo.

—Olá Vilu – Tomás me cumprimentou, mas eu apenas sorri. – Está muito linda hoje. – elogiou e eu olhei para Francesca que tinha cara de tédio.

—Sabemos que ela está linda hoje. – Fran disse mexendo no canudinho do suco. – Todos sabem. – preferi ficar calada comendo minha maçã. Francesca com ciúmes é chata que dói.

—Fran, vamos à sorveteria hoje? – Marco perguntou esperançoso.

—Tem muito dever hoje, não vai dar. – disse sem ao menos olhar para o garoto. Aposto que se fosse o Tomás a mesma largaria tudo para ir.

—Ela vai sim Marco. – falei e ela me olhou torto.

—Violetta. – me olhou em repreensão.

—Eu faço o seu dever, não se preocupe. – sorri travessa.

—Está bem Marco, eu vou. Mas tenho que estar em casa antes das quatro, eu e o Diego vamos fazer o trabalho que a professora de artes passou. – Marco assentiu sorridente.

Distrai-me por um momento, quando vi León entrar no refeitório. Sabe aquela estranha sensação de borboletas no estomago, e como se tudo ao meu redor houve sido congelado? Era assim que eu estava naquele momento. E eu não sabia quando é que era que eu ia parar de sentir isso.

Voltei à realidade, quando vi Natália se prender aos braços dele, em um abraço, que parecia ser muito bom e confortável. Virei à cara. Meus olhos não precisavam ver aquilo, e nem minha mente precisava guardar aquelas recordações.

—Tudo bem amiga? – Francesca perguntou me olhando, enquanto dava uma mordidinha naquele sanduiche.

—Sim. – sorri fracamente. – Só estou pensando.

—No quê? – perguntou. Eu odiava quando ela tentava entender o que se passava em minha mente. Não a culpo, porque ela é minha amiga. Mas eu acho invasão demais. Apesar de saber tudo o que passa na cabeça daquela desmiolada.

—Em como o relacionamento da Naty e do León é bonito. – menti com um sorriso falso nos lábios.

—Sério? – ela disse segurando o riso, e os garotos nos observavam. – Eu acho a Naty muito criança para o León. – ela disse deixando o sanduiche de lado. – Ele tinha que namorar alguém como você. – continuou e eu meio que me engasguei com a maça, causando risos em Marco. – Calma, eu sei que você nem gosta dele, mas é só uma suposição.

—Ah – sorri de lado.

***

—Castillo? – escutei alguém me chamar, enquanto eu caminhava segurando os meus livros. Já estava indo para casa.

Olhei para trás, encontrando a imagem de León, correndo até mim. A princípio, não eu entendi. Ele se aproximou ofegante.

—Você esqueceu seu caderno debaixo na carteira. – disse mostrando o objeto nas mãos.

—Ah! Obrigada. – agradeci com um sorriso gentil no rosto.

—Não há de quer. – respondeu sorrindo também. – Já está indo para casa? – perguntou.

—Estou sim.

—Eu vou com você.

—Onde está a Natália? – perguntei estranhando.

—Saiu com a Ludmila não sei para onde. – disse dando de ombros, enquanto começávamos a caminhar novamente. – Sabe para onde elas foram?

—Não faço a mínima ideia – rimos.

—Devem ter ido fazer compras, como sempre. – León supôs.

—É... – concordei.

—Você não se parece nenhum pouco com a sua irmã, sabia? – falou do nada e eu o olhei. – Digo... Nas atitudes. Ela parece ser tão social e você...

—Antissocial. – respondi por ele.

—Eu ia dizer tímida. – falou risonho e eu sorri de canto.

—Está tudo bem, sei que não sou muito comunicativa. – abracei mais forte os livros em meus braços, não estava gostando do rumo daquela conversa.

—Não é isso, é que...

—Está tudo bem León. – falei baixo.

Seguimos em silencio até a minha casa. Assim que chegamos, fui parando lentamente os meus passos. León parecia distraído com alguma coisa.

—Tchau. – murmurei, evitando seu, olhar.

—Não queria que ficasse um clima... Estranho. – ele disse coçando a nuca. – Você é especial. – ergueu minha cabeça, segurando o meu queixo. – E você sabe disso.

—León... – tentei impedi-lo, pois ele estava cada vez mais próximo.

Virei meu rosto, ouvindo um suspiro de frustração. Meus olhos se encheram de água. Aquilo só poderia ser um pesadelo. Isso estava errado. Muito errado.

—Porque você faz isso? – perguntei indignada o empurrando com certa força.

—Isso o quê? – me olhou confuso.

Senti a primeira gota de lagrima escorrer por minha face, abaixei minha cabeça, para ele não ver. Entrei em às pressas, ignorando a presença de todos que estavam na sala de estar.

Ele só queria me beijar... Por causa de minha aparência? Eu não devia ter aparecido assim na escola. Não devia. Ele não gosta de mim. Ele tem namorada. Ludmila nunca iria me perdoar se eu fizesse isso com a melhor amiga dela.

Todas essas coisas já estavam me sufocando. Sentia-me presa em mim mesma. Sem poder falar nada a ninguém. Recorri a minha única fonte para desabafar. O meu diário.