Together
13 Chapter 12 — Notes in the pocket
Notas iniciais
Eu acabara de acordar e não encontrei Sammy ao meu lado. Eu me pergunto aonde ele simplesmente tenha ido. O ritual pela manhã é sempre o mesmo... Antes, ou depois, de quatro meses em um coma que fora a pior experiência da minha vida. Acordar, lavar o meu rosto e dentes, colocar alguma roupa limpa e procurar algo para comer. A única, todavia extremamente importante coisa que havia mudado neste período fora o fato de que agora eu não tenho uma escola a ir. Alguns consideram isso uma bênção; um presente concedido por Deus quando de bom humor e em seu mais autêntico pleroma e generosidade.
Outra diferença notável nesta manhã de outono era que a camisa que usava era a de botões azul-celeste que Sammy não tinha recolhido da poltrona de meu quarto. Ela escondia a cueca box preta que eu não tinha coberto — e admito, não tinha intenções de cobrir — com uma calça, shorts ou coisa do gênero. Peguei-me cheirando aquela camiseta demasiadamente larga em meu corpo diversas vezes. No espelho, me perguntei novamente àquela que tinha sido determinada como a pergunta sobre a qual eu mais me pegava refletindo ultimamente: “Como vou olhar na sua cara agora Winchester?”. A resposta, desta vez, veio de uma maneira diferente. Uma clara e concisa voz ecoou em meus pensamentos e respondeu aquilo que fora o paradoxo de minha vida por muito tempo. E ela dizia “Com amor! Com todo o amor que eu posso dar.”.
Sobre minha cômoda, ao lado dos perfumes, e cremes, Sammy deixou-me um bilhete. Um fino pedaço de papel que se proveu de um maior, de onde ele obviamente tirou o papelzinho que postumamente viria a se tornar o bilhete escrito por ele para mim. Um papel amarelo e com falta de linhas. A resposta para a pergunta que ele fez naquele bilhete foi o mais sincero que pude encontrar para escrever.
Fui para seu quarto. Ele não estava dormindo, e sua cama não estava arrumada, pelo contrário, parecia que fora usada por uma pessoa com sérios problemas para dormir. O cobertor jazia amarrotado no canto da cama, onde deveria, por regra, permanecer o travesseiro, mas este mesmo, por sua vez, repousava no chão, ao lado da mesa de cabeceira de Sammy, na qual estava o abajur ligado que provavelmente passou a noite toda ligado, ou pelo menos desde que ele saiu de meu quarto, pois estava quente o suficiente para fritar bacons. Presumo que ele tenha se esgueirado pelo meu quarto até o dele durante o meio da noite para dormir, todavia ele obviamente não conseguiu dormir, então a toalha azul-celeste molhada na cama dele me deu a ideia de que talvez ele tenha ido à busca de um bom banho para relaxar e talvez dormir. Não me pergunte o porquê. Desci as escadas após colocar a nota devidamente respondida no bolso de sua calça, uma calça jeans preta que ficava totalmente apertada em seu corpo, era uma das mais sexys que Sammy tinha no guarda roupa e poderia distingui-la de longe se necessário. Tinha de comer, tinha fome. Sammy tinha ido à escola, e essa era outra coisa que eu tinha que começar a pensar. Claro, depois que minha barriga estivesse devidamente alimentada.
Eu sempre soube que tinha uma vaga guardada para mim na Literature Foundation, uma das melhores escolas de literatura das Américas, senão a melhor. Sempre tive conhecimento também que em qualquer lugar que eu fosse, eu seria admitido para faculdade de veterinária, que apesar de possuir uma vasta e larga gama de pessoas com pretensões sólidas de cursar, as faculdades desta disciplina tinham uma das mais expansivas demandas para atender os possíveis alunos. Uma faculdade de culinária seria muito caro. Claro que eu poderia dar um jeito, até porque minha família não era rica, mas tínhamos uma poupança considerada por muitos como bastante generosa. E agora que meu pai tinha morrido, suas ações tinham dado uma margem de lucro demasiadamente maciça. Isso, para mim, era um convite à glória.
A literatura sempre fora um sonho promissor, eu sou bom com as letras. Não tenho tanta modéstia nessa área. Sei de meus talentos, e seria uma grande desonra contra quem os deu a mim, seria, de fato, uma blasfêmia contra o Deus que me concedeu isso, esconder e negar o mesmo. Era trair tudo o que eu acredito. Escrever bons livros seria algo tão maravilhoso. Proporcionar nas pessoas que leem as minhas escrituras a felicidade que sinto quando leio o que outras pessoas como eu escreveram, se empenharam, passaram noites em claro fazendo o que mais gostam de fazer, e o que é tão bom para a alma.
Por outro lado, a xícara de café quente em minha mão, lembrava que eu também adorava as artes da culinária. Seus mistérios, misturas. A arte da criação algo que mereça uma apuração digna de paladares para ser saboreada com apreço no começo, no entanto depois que a permissividade extrusiva dos sabores envolventes dos pratos paradisíacos que eu sabia que poderia fazer com um pouco de esforço se esvoace, que as pessoas devorassem as comidas por mim feitas com uma ferocidade que delegava a veracidade da beleza não tátil que depositava em refeições: amor e carinho, o sabor da ternura.
Não podia negar que fazer veterinária me aproximaria daqueles que são os anjos do mundo; os animais. E como esses anjos sofrem. Não são esses anjos, guardiões de portões dourados do céu, como são descritos os querubins em várias passagens bíblicas, pelo contrário, são frágeis, delicados, confiantes, queridos, singelos, sinceros. São puros! E me aproximar desta pureza, realizar a sublime arte da manutenção da vida, me faz produzir serotonina o suficiente para me sentir muito, mas muito feliz mesmo! E realizado ao mesmo tempo.
O impasse de qual profissão eu escolheria foi muito bem balanceada e ficou mui pior quando eu considerei novamente a ideia da psicologia; a outra também sublime arte da manutenção da vida. Mas dessa vez não é corpórea, é mental, e isso apenas acrescenta em seu valor inestimável. Cuidar da mente das pessoas, de seus conflitos, de seus temores, de suas barreiras e traumas, isso também me parecia muito sincero, muito puro, e pureza era o que eu mais procurava neste mundo repleto dos mais deliciosos prazeres mundanos.
Não que eu me arrependa de toda a sujeira que fiz com Sammy noite passada.
XXX
Sammy chegou cedo da faculdade. Ele e Castiel vieram até a cozinha, onde o a xícara de café, antes o único recipiente presente, deu vazão a potes e vasilhames com comida. Feijão preto, arroz vermelho, picanha assada, farinha temperada, salada de couve com pepino e alface. Eles estariam morrendo de fome, e eu queria exercer a função de cozinheiro da casa mais uma vez. Decidi não me preocupar com profissão durante os próximos três meses, assim poderia pegar o segundo semestre escolar e teria tempo para passar com a minha mais nova família chamada Samuel e Castiel.
— Hm! Que saudade desta comida! — Aclamou Sam ao chegar à cozinha sentindo no ar o cheiro dos temperos que adicionei no feijão.
— Não posso dizer que não senti falta também. Realmente, foram dias desesperadores sem você aqui, Dean. — Os comentários de Castiel eram sempre os melhores.
— Obrigado amigos. E então, não querem se sentar? Chegaram bem na hora. — Dei-lhes pratos e talheres e eles se serviriam sozinhos. A comida estava no balcão da copa e isso era perto o suficiente. — Então, como vai a faculdade?
— O mesmo de sempre. Apenas teorias e mais teorias, duvido que usemos isso na vida real — Disse Sammy com um fatídico rolar de olhos.
— Exato! Tudo o que eles falam ali, se não é óbvio, é mentira. — Riu Castiel. — Ah, Sammy, eu lembrei uma coisa, eu estava falando com a Meg e ela me disse que terá uma festa de San Diego na grande paróquia de Malaquias e que nós três estamos convidados! — Castiel contou em um infantil e contagiante tom exasperadíssimo
— Três? — questionei sem entender o porquê de a extensão do convite vir até mim — Mas eu nem conheço ela...
— Mas ela sabe quem é você... Nós acabamos fazendo certa amizade com ela, e contamos sobre você e seu coma, hoje ela ficou muito feliz em saber que você estava de volta. — Sammy delatou se sentando na cadeira.
— Bom, enfim, a questão é: vocês querem ir? — Cass já estava comendo como um louco, o que era demasiadamente assustador, uma vez que a quantidade absurda de pimenta que essas receitas de comida Brasileira pedem me dá calor só quando remetido ao pensamento, quanto mais o contato direto. Minhas porções foram extremamente radicais quanto a pimenta; tolerância zero! Sem pimenta no meu prato!
— Acho que uma festa não mataria ninguém não é Sammy? — Disse. Erroneamente, mas disse.
— É, acho que não arrancaria pedaço. —Rimos
— Então eu posso confirmar com a Meg? Seis horas, dia 24 de março, Paróquia de Malaquias, festa de San Diego. Tudo certo? — Cass repetia todas as informações sempre, era uma mania que ele tinha pegado comigo, mas que eu perdera e ele fizera o oposto, se afirmara cada vez mais. Era uma forma de proteção, evita cancelamentos em cima da hora, se a pessoa não pode ir, que dia agora!
Eu e Sammy nos entreolhamos, rolamos os olhos e de forma uníssona exclamamos um cordial “Sim”. Continuamos a comer.
Durante a tarde continuamos juntos, desta vez, na sala de estar, conversamos e jogamos vários novos títulos de Cass e Sammy, o console deu lugar á muito divertimento. Comemos, bebemos tônica e gim, e no final da noite compramos pizza. Conversamos mais ainda enquanto comíamos pizza, eu contei das várias coisas engraçadas que presenciei no hospital apenas enquanto me mantive ali depois que acordei do coma e até marcamos de ir ao túmulo de meu pai depois do aniversário de Cass e Sammy, o que estava perto.
— Temos de fazer alguma coisa para o aniversário de vocês... O que vocês querem? — Perguntei solícito.
— Um bolo! — Foram uníssonos.
— Tudo bem, de quê? — Continuei o diálogo.
— Laranja! — Uníssonos mais uma vez.
— Querem parar com isso? — Objetivei.
— Com isso o que? — Sammy indagou enquanto comia uma azeitona preta da pizza de calabresa.
— Responderem tudo juntos, tá ficando sem graça já... — Murmurei enquanto tentava me livrar do imenso filete de mozzarella que ficara pendurado entre meus lábios cerrados e o pedaço de pizza. — Enfim, querem que recheio?
— Beijinho — Castiel tomou a frente. — e você pode decidir a cobertura Sammy.
— Okay, desejo uma cobertura de coco! — Expôs sua ideia.
— Perfeito, o bolo mais clichê da história! Haja paciência para a originalidade de meus amigos! Olha... Se dependesse de vocês dois, a culinária mundial estaria perdida! Vamos, se arrisquem, apostem alto, tentem coisas novas, experimentem!
— Ainda bem que não depende, não é? — Uníssonos novamente.
— DISSE PARA PARAREM COM ISSO! — Tive um colapso nervoso, eles riram... Claro, até eu riria.
Esta estava sendo a melhor época com meus amigos. Quando ficamos com muito sono, dormimos ali mesmo, assistindo ao filme “Fantasma da Ópera” e conversando sobre coisas banais. Em colchões no chão onde ficava a mesinha de centro e com os sofás arrastados para acomodas três colchões. Sammy na ponta e Castiel na outra, eu, bem, eu fiquei no meio, e no meio estava entre as pessoas que mais me amavam e que eu mais amava.
Estava com felicidade; é essa doença nova também chamada de Sammy.
— Boa noite, meu alemãozinho enciclopédia, eu te amo. — suspirou Sammy de forma terna com a cabeça em meu peito, pouco antes de adormecer.
— Boa noite Sammy, eu também te amo... — Respondi ao pé de seu ouvido.
Eu também te amo.
E como amo.
Fale com o autor