Notas iniciais
aviso de conteúdo: breve conversa sobre a morte de um personagem sem nome, menção implícita de abuso sexual, menções de mutilação peniana.

"Por que tão rabugenta, amor?"

Kelly Campbell revirou os olhos, tomou um gole do café de merda. A cafeteria não tinha as melhores opções de bebidas ou de comida, dava pra aturar quando ela estava com fome, mas normalmente? A cafeteria era uma merda. E o café não era nem forte o suficiente pra fazer qualquer efeito no corpo de alguém mais do que resistente a quantidade normal de cafeína num copo de café vagabundo. As toneladas de açúcar fazia a bebida ser quase tragável. Pelo menos era 0800, de graça, ela não precisava gastar um mísero centavo nessa desgraça líquida, vantagem de trabalhar pro governo, aparentemente.

Sua melhor amiga parecia feliz demais com a miséria alheia, toda confortável sentada no sofá do escritório de Kelly. A coluna dela provavelmente não estava na posição mais saudável que poderia estar. Kelly decidiu não comentar sobre isso, Hannah sempre parecia um tanto quanto arrogante quando Kelly demonstrava sinais de que se importava com o bem-estar, saúda ou só a existência de Hannah no geral. Como se uma amizade de dez anos não significasse que era mais do que normal se importar com o bem-estar, saúde a existência geral da sua melhor amiga. E a dona "prestes a ser mamãe" Hannah deveria se preocupar mais com a própria coluna, tradicional ou não, ainda era esperado que o alfa de um relacionamento fosse fazer coisas básicas como cuidar dos filhotes que eles colocaram dentro do parceiro deles.

"Qual é? Fala que porra tá te incomodando," ela não parecia prestar muita atenção enquanto folheava um dos arquivos aleatórios da coleção infindável de papéis na mesa de Kelly.

"Você é irritante pra caralho, como diabos você se casou?"

"Eu fodo gostoso," Kelly sabia por experiência própria. Mas não valia a pena lidar com alfa chata, birrenta e adorável. "É essa desgraça que eles chamam de café?"

"Talvez."

"Então ainda é ruim?"

"Como assim "ainda"? Você bebe uma piscina olímpica de café por dia!"

"Bem, Cam traz pra mim."

"Cam?"

"Sim, Cam. Cam, de "Cameron." Kelly franziu o cenho. Fora Hannah e Colin, que eram amigos dela antes dela entrar nesse emprego, ela não chamava nenhum colega pelo primeiro nome. Ela sequer sabia o primeiro nome deles. "Porra, Kelly. Sério?"

"...ok."

"Mitchell? A detetive nova? A filha da puta que metade dos nossos colegas de trabalho querem cavalgar tal qual um atleta de hipismo profissional?"

"Oh."

Ou. A porra da nova detetive. A mesma que, de fez em quando, trazia café e coisinhas de confeitaria pra ela. Café e coisinhas de confeitaria deliciosas. Ela até trouxe o almoço, uma vez, uma Tupperware com lasanha que não era a lasanha congelada de qualidade duvidosa que Kelly estava acostumada a consumir. A nova detetive que não parecia aprovar muito da bagunça na mesa de Kelly, sempre parecendo prestes a se oferecer pra arrumar, e que tentava obrigar Kelly a não esperar até o último minuto para entregar seus relatórios.

A detetive nova super bonita e gostosa que fazia Kelly um pouco infeliz por ser casada e mated*. Mitchell foi designada a ser a parceira dela em casos que ela "precisava" de um parceiro. Doutor Parker disse que ela queria trazer ela para trabalhar com Kevin, mas ele foi e decidiu engravidar, então Kelly acabou press com Mitchell. Primariamente porque eles tinham poucos legistas disponíveis no momento. Ela não admitiria que, no fim das contas, Mitchell ajudava um pouco (lê-se: muito) na carga absurda de trabalho dela, a nova alfa na área sabia bem como lidar com relatórios de necrópsias, era boa como Kelly esperaria de outra legista, não de quase 1,90m de músculos e treino policial.

"'Pera aí, Cam?" Hannah assentiu. "Por que?"

"Veja bem! Kevin checou as vibes dela, ela foi aprovada. O... Melhor amigo? O melhor amigo dela checou as minhas vibes, eu passei. Sendo assim, Cam e Han."

"Han. Han. Mas que- que porra você quer dizer com Han? E melhor amigo... ponto de interrogação?"

"Apelidos! Sabe melhores amigos que parecem mates, ou no mínimo que fodem com frequência, mas você não sabe qual a situação deles?" Ela assentiu. Sim, porque elas eram assim antes de Kevin aparecer, mesmo quando ela estava tentando estabelecer algo sério com Colin, e comentar que elas era almas gêmeas platônicas. Mesmo agora, às vezes ela duvidava um pouco. "Esses dois tem essa energia."

"Então você chama a nova detetive por um apelido? E ela te traz café?"

"Sim! E coisinhas Tinho biscoito, bolo e torta!"

"Jesus, Maria, José."

"E ela é tão gata, você já olhou pra cara dela? Os olhos dela são lindos."

"Hannah... você tem uma crush?"

"Talvez," Hannah estava corando um pouco, bochechas adoravelmente rosadas.

"Meu Deus," talvez fosse meio dramático deixar a festa dela bater na mesa com um "thud", Kelly não ligava. "Teu mate está grávido com seus filhotes, mulher, e você tem um crush em uma alfa aleatória minimamente atraente?"

"Minimamente?? Porra, ela é exatamente o tipo de alfa que você deixava te comer a noite toda na época da faculdade!"

"Não estou mais na faculdade," e ela não admitiria que uma parte preocupantemente dela deixaria Mitchell comer ela a noite toda.

"Mesmo assim," Hannah parou de fingir que estava lendo o arquivo e colocou ele de volta na pilha dele. "Vamos não falar sobre como eu deixaria a Cam me arruinar. Você está toda rabugenta que nem um filhote por causa do café?"

"Não, não é nada," ela tentou não corar.

E falhou: "Tu tá ficando vermelha porque eu, como eu já fiz milhares de vezes durante a nossa amizade, te contei sobre minha fantasia não realizada de deixar uma alfa me foder?"

"Como que você é quem vai ter filho primeiro?"

"Você não quer filhos."

"Ah é, é por isso."

"Por que você tá toda vermelha?"

"Ok, talvez Mitchell tenha trazido café pra mim algumas vezes e esse aqui é ainda pior depois de uma versão melhor."

"E você não sabe o primeiro nome dela?"

"Eu sei! Eu só prefiro não chamar ela assim. Ela não me deu intimidade."

"Ok, vou pegar leve contigo," Hannah se levantou. "Eu tenho um pouco tmde Apfelstrudel," ela franziu o cenho e murmurou mais pra si mesmo do que pra Kelly: "Eu arruinei a pronúncia."

"Você tem o que?"

"É tipo uma torta de maçã alemã."

"Austríaco. É um doce austríaco," falando do diabo... Mitchell tinha um copo térmico em uma mão e um arquivo ma outra. Ela sorriu para a dupla, quase amigável demais para uma alfa (nem Hannah era amigável assim). "Olá, senhoras," ela olhou para Hannah. "Apfelstrudel."

"Parece um xingamento," Kelly achava meio adorável o quão minúscula Hannah, que era mais baixa que a própria Kelly, parecia perto de qualquer alfa, incluindo a perfeitamente mediana Mitchell. "Novo caso, Cam?"

"É o que parece," ela sorriu, sempre excitada com trabalho.

"Boa conversa, ômega dopada!" Ela deu um tapa amigável no ombro de Mitchell, Kelly reparou que ela ergueu a mão e esperou Mitchell assentir antes de tocar ela.

"Ômega dopada?" Kelly colocou uma mão acima da cabeça.

"Kevin é o único ômega que eu conheço que é mais alto que eu. Ela diz que as nossas mães colocavam alguma droga de crescimento no mingau de aveia."

"Bem, vocês dois são altos tal qual um poste de iluminação."

"Você é mais alta que eu."

"Alfa."

"Ok. Vai ficar na porta?"

"Se você não me convidar."

"És uma vampira?" Kelly reparou no sorriso pequeno dela, como se ela estivesse gostando disso... oh, porque Kelly normalmente interagia o mínimo possível. "Entra, senta, você não precisa crescer mais ainda."

"'Brigada," ela entrou e ofereceu o copo. "Trouxe café pra ti."

"Obrigada."

Mitchell olhou o copo abandonado: "Olha, um crime contra a humanidade."

"Pelo menos é doce," como se ela não apreciasse esse café levemente adocicado que não tinha gosto de morte por incineração.

"Oh sim, sabor diabetes," Kelly riu pelo nariz. "De qualquer maneira, caso novo!" Ela sentou em uma das duas cadeiras pra convidados em vez de sentar no sofá. "O corpo tá pronto pra você dar uma de Chico Picadinho."

"Informações?" Mitchell entregou o arquivo.

"Ele foi encontrado no banheiro de um bar de aura dúvidas. Alfa macho, mais ou menos quarenta anos, as calças estavam na altura dos joelhos e havia sangue na genitália. Testemunhas dizem que viram uma pessoa pequena, não houve como ver detalhes, saiu correndo do banheiro logo antes de encontrarem o corpo. E a causa aparente de morte: um ferimento no pescoço, provavelmente sangrou até morrer depois de ter a aorta cortada."

"Hm," as notas eram uma versão mais longa e não tão eficientemente contada do que Mitchell falou. "Auto-defesa clássica?"

Auto-defesa clássica, ômega matando um alfa que tentou tirar vantagem delu: "É o que parece. O pênis dele foi arrancado pela metade por causa da mordida."

Kelly fez uma careta, soava doloroso mesmo se ela não tivesse as partes pra simpatizar efetivamente: Ah, eu odeio correr atrás desses."

"Pênis que foram arrancados com mordidas?" Kelly encarou ela, quase um "se olhar matasse", mas Mitchell só sorriu pra ela com dentes bem-cuidados e caninos afiados que não deveriam ser atraentes. Ela decidiu tomar um gole do prazer em forma de café. "Sim, eu sei, auto-defesa é uma merda. Sempre meio que... Hm. Enfim. Não é divertido que nem um 'mordedor' em série?"

"Que nem um... oi?"

"Um 'mordedor' em série! Esse moleque fingiu que era um garoto de programa, seduziu alfas com vibes ruins e arrancou o pênis deles com uma mordida. Infelizmente não trabalhei no caso, mas eu segui de perto, consegui cópias das fotos e tudo! Ele tinha talento."

"Cristo, tu é esquisita."

"Eu sei. Não me julgue tanto, Hannah também gosta de mutilação peniana de alfas."

"Também gosta- escolha ruim de palavras."

"Eu só quero dizer que ela também é interessada pelo assunto."

"Eu entendi, duas loucas," ela podia entender porque elas se deram bem. "Enfim. Vai assistir a necropsia?"

"Claro!"

Mitchell era esquisita.

(E bonita, e gostosa, e inteligente.

E esquisita pra caralho.)

Notas finais
mating bond: uma conexão romântica entre indivíduos. tradicionalmente casados e uma dupla capaz de gerar filhos "naturalmente". o ato de estabelecer a conexão se chama "mating", mordidas fazem parte do processo "mating bonds". casais passam a ser "mated", indivíduos são 'mated'. a conexão pode ser quebrada. quem nunca teve uma é classificado como "non-mated", quem já teve é classificado como "unmated".