Notas iniciais
As únicas pessoas que prestaram tanta atenção ás habilidades de Kelly de performar uma necrópsia decente foram alguns professores na faculdade, a maior parte deles não dava a mínima pra qualquer coisa que não fosse redações legíveis e coisas do tipo. Provavelmente porque eles tinham mais alunos do que podiam lidar com, já que não havia tantos professores especialistas em Bloommark. Claro que a quantidade de alunos que vinham de cidades ao redor não ajudava nem um pouco.
Mitchell sempre assistia quase como um predador, os olhos seguindo cada incisão e cada pequeno movimento, e concordava com a cabeça enquanto Kelly gravava, quase como se ela tivesse a intenção de escrever o relatório. Ela também sempre anotava algumas coisas no telefone, e Kelly preferia fingir que nunca viu ela tirar uma ou outra foto. Era sempre a mesma coisa quando Mitchell vinha assistir as necrópsias, até mesmo nas duas vezes que ela viu Kelly com um humor mais amigável e pediu para assistir exames de casos em que a detetive não estava trabalhando.
Então, é, ela era um pouco esquisito, porém Mitchell usava as sessões de intensa observação para chegar a conclusões úteis. Talvez mais detetives deveriam ser levemente obcecados por cadáveres.
"Como alguém vibe tanto com o fígado e rins danificados desse jeito?" Ela perguntou, encarando um dos fígados mais fodidos que Kelly já viu. "E os pulmões dele, Jesus, que desastre."
Era um desastre: "Se chama beber e fumar pra caralho."
"É, eu percebi. Acho que vou contrair câncer de pulmão só olhando pra essa desgraça aqui," Kelly tentou não rir, e Mitchell pareceu satisfeita com a reação. "Então, o que tu acha?"
"Bem, a causa da morte foi o ferimento no pescoço," ela confirmou há alguns minutos. Terminou de etiquetar as amostras enquanto falava. "Não que eu ache que ele fosse viver por muito mais tempo de qualquer maneira, vou pedir os exames normais oro laboratório. Incluindo uma tentativa de indentificar a mordida. É meio improvável, mas, bem, eu tenho que fazer meu trabalho."
"Ótimo," Mitchell estendeu os braços, abrindo e fechando as mãos no gesto universal de "me deixa segurar!" "Eu posso levar as amostras!"
"Você sabe que tem um assistente de laboratório pra isso?" Mitchell fez a melhor carinha de cachorro abandonado que Kelly já viu, combo com as mãos se intensificando. Quase como se Kelly não quisesse deixar ela segurar um filhotinho. "Tá bom, pode levar as amostras. Diz pra Hannah não esquecer a Ap-eu-não-falo-essa-língua."
"Você gosta? Porque eu posso trazer uns pedaços pra tu," ela sorriu, e Kelly não tinha certeza se era ela sendo toda fofa sobre trazer alguma coisa pra Kelly, se ela estava animada pra ver Hannah ou se ela gostava do fato de ter uma bandeja com pedacinhos de pessoa. Talvez todas as anteriores.
"Até onde sei, nunca comi. Mas eu gosto de coisa de maçã."
"Ok, me avise se gostar."
"Ok. Agora vai, bora, não temos o dia todo."
"Sim, senhora!"
Talvez ela fosse a porra de um Golden Retrivier.
Mitchell virou e saiu do morgue com passos longos e certeiros, mas com a bandeja perfeitamente equilibrada. Era meio adorável, se Kelly fosse sincera, que Mitchell era muito mais entusiasmada e rápida sobre um trabalho que ninguém pagava ela pra fazer do que o garoto que era pago pra isso. Talvez porque havia um assistente, e os técnicos tinham que fazer muito mais coisas do que deveriam caso não tivesse quase menos pessoas do que o suficiente para o departamento ser funcional. Se tivessem mais funcionários, talvez Kelly não tivesse uma pilha infernal de casos.
Ela estava com um pouquinho de ciúmes do departamento policial, eles tinham oficiais sobrando. Os detetives já não tinham uma quantidade absurda de casos para lidar com, agora com Mitchell? Deu uma facilitada maior ainda. Mitchell ainda estava numa fase de "lua de mel", energética e estusiasmada sobre a oportunidade, ela conseguia se manter toda organizada e sem atrasos no relatórios. Claro que ela não estava se afogando em papelada numa cidade pequena com uma população relativamente grande de policiais e detetives.
Kelly sacudiu a cabeça, terminou de fechar a incisão em Y antes de deixar os toques finais para serem feitos pelos (únicos) dois assistentes.
Ela decidiu ir para o laboratório em vez de voltar para o escritíruio dela, ela tinha tempo o suficiente para converter a gravação de voz em texto digitado mais tarde. Ela, claro, encontrou Mitchell lá. Ela estava sentada em um banco alto perto de Hannah, ela parcia completamente fora do lugar, com a aparência meio emo anos 2000 no meio de um laboratório branco e perfeitamente limpo. Hannah estava curvada sobre o microscópio e talvez não estivesse ouvindo seja lá que porra Mitchell estava falando sobre.
"- diz que talvez eu devesse não colecionar esse tipo de fota. 'Pode te chatear', ha, como se fotos fossem a pior coisa que eu já vi!"
"Fascinante, sim," então, ela estava prestando atenção? "Mas vamos admitir que alfas normais não gostam de pensar muito sobre terem seu pau cortado."
"Por que caralhos você fez isso soar sexual?"
"E não é?"
"Mão!" Kelly não ficaria muito surpresa se fosse, pessoas tinham seus fetiches e kinks. ""Ugh, você acha o quê? Que eu bato punheta olhando corpos mutilados?" Ela franzu o cenho e murmurou quase baixo demais para Kellu ouvir. "Eu não sou tão fodida da cabeça assim."
"Mas tu é fodida da cabeça!"
"Eu sou uma detetive que decidiu se especializar em crimes violentos, pessoas normais não fazem esse tipo de merda."
"Eu adoro como você decidiu vir pra minha cidade natal para se especializar em crimes violentos."
"Pessoas submestimam o quão violenta uma cidade pequena pode ser."
"Cuidado, eu vou achar que você realmente bate punheta olhando corpos mutilados. Hm. Que tipo? decapitados? Tão podres que estão liquificados?"
"Mas que por-" Mitchell deciidu usar a capacidade rotatória do banco, ela avistou Kelly, e talvez ela não devesse sorrir tão adoravelmente. Para com essa merda, você deveria tolerar ela, no máximo. Essa filha da puta não é adorável e não é atraente. "Olá, doutora!"
"Olá, espero que eu não esteja interrompendo nada."
"Estou tentando descobrir o que a Cam aqui usa como combustível pra bater uma," Hannah não olhou para onde ela estava analisando algo e anotando algumas coisas.
"Definitivamente alguma coisa que não seja um defunto!"
"Tu coleciona foto de gente morta!" Uma pausa. "Oh, uma vez eu li um conto sobre um carinha do capeta que matou o filho dele, abriu um buraco na cabeça dele e fudeu como se fosse a melhor buceta que ele já teve. Você tem esse tipo de fantasia?"
"Você tem cinco segundos pra calar a boca ou vai descobrir o quão forte meus socos são," Hannah virou para ela e sorriu do jeito mais petulante que ela podia.
"Vocês são estranhas pra caralho," Kelly comentou.
"E você abre gente morta e ainda é paga pra isso!" Hannah argumentou.
"Eu não faço disso uma obsessão," Mitchell franziu o cenho, Hannah pareceu (falsamente) ofendida. "Então é assim que vocês viraram amigas? Falando sobre necrofilia?"
"Sim!" Hannah disse.
"Não," Mitchell disse ao mesmo tempo.
"Ela estava me contando sobre como o terapeuta dela disse que ela não deveria colecionar fotinhos de gente que tiveram o CPF cancelado."
Ok, então estranha e louca: "Ok...?"
"Enfim!" Mitchell se levantou. "Eu vou questionar algumas testemunhas, quer vir comigo?"
"Hm, ok," ela assentiu. Kelly não estava tão interessada assim, já que Mitchell dava resumos perfeitos e escrevia relatórios detalhados ainda mais perfeitos. Porém, talvez fosse bom ser um pouco mais amigável com a mulher que trazia café bom pra porra. "Você vai, hm, interrogar eles assim?" Mitchell não parecia a detetive mais professional do mundo.
"Não," ela segurou a barra do camisa e levantou só o suficiente para Kelly ver a camisa social preta, perfeitamente enfiada no cós da calça. "Vamos, me siga, Campbell."
Kelly seguiria ela de qualquer maneira, mesmo que quem fosse dirigir fosse a legista (Mitchell tinha uma carteira de motorista?). A detetive enfiou as mãos no bolso da frente do moletom dela. O moletom que era quase largo nela, agora Kelly reparou no colarinho da camisa. O casaco era um tom escuro de cinza, a estampa era uma mistura de rosas brancas e galhos secos em uma espécie de buquê, uma mão sobre ele como se o estivesse segurando contra uma parede. Kelly só sabia que era merchandise de banda porque Mitchell mencionou. Um demônio gritando dos fones de ouvido dela, é a minha banda favorita, ela disse, apontando para o mesmo moletom que ela estava vestindo agora.
Kelly reparou que Mitchell não parecia capaz de ficar parada, sempre se movendo de alguma maneira. Ela estava se movendo para frente e para trás, mudando o peso do corpo para as pontas dos pés e para os calcanhares, durante a longa espera de quarenta-e-cinco segundos para o elevador aparecer. Ela continuou na descida do elevador, mas agora mordiscando a cordinha do moletom (que já estava destruída pelos dentes dela, o que justificava porque ela mantinha as cordinhas escondidas por baixo do casaco).
Era meio... adorável, Kelly tentou não pensar nisso, ela deveria tolerar Mitchell.
A viagem era ridiculamente curta, mas Kelly preferia isso em vez de andar no frio desgraçado dessa cidade. Uma vida inteira aqui e ela ainda detestava o frio e a neve. Antes de irem para a sala de interrogatório, elas passaram pelo escritório de Mitchell. Kelly deu uma olhada dentro, ela sempre achava meio engraçado o quão organizada Mitchell era. O escritório nem parecia que tinha uma pessoa trabalhando ali todos os dias. Mitchell dobrou o casado e deixou ele na cadeira.
Alfas, no geral. são inerentemente intimidadores na experiência de Kelly. Até mesmo os que tentavam não ser, como Hannah, ainda era uma máscara que eles eram criados para ter. Ela interagiu com pessoas o suficiente para saber que uma caralhada de alfas tinham essa máscara para se manterem são e salvos (normalmente de outros alfas). Ela viu Mitchell alternar do comportamento fofo e amigável para quase o policial mau e intimidador quando ela entrou na sala de interrogatório. Às vezes ela continuava calma e amigável, mas o alfa parecia... não muito amigável, então ela podia ver porque Mitchell colocou a máscara que Kelly apelidava de "alfa malvadão".
"Detetive Mitchell," ela gesticulou para Kelly, que decidiu ficar de pé, braços cruzados atrás de Mitchell. Ela sabia que a altura dela era o melhor jeito de não parecer frágil e fraca. Não que fosse tão necessário assim quando Mitchell estava bem ali. "Minha colega, doutora Campbell. Estamos interessadas no que você sabe sobre a vítima."
"Cliff era um pentelho do caralho, sempre interessado demais em ômegas que mal tinham idade pra ter um cio." Ah, claro que ele era esse tipo de alfa.
"Sabe o nome compreto dele?"
"Não. Tudo que sei é que ele bebia demais, cervejas pra caralho, e era inconveniente e escroto com ômegazinhos-" de alguma maneira, ele conseguiu não soar escroto, mas mais como um apelido, "- que só querem uma cervaja barata."
"E você sabe o quão... longe ele ia?"
O homem deu de ombros: "Não. Tudo que sei é que esse filho de uma puta finalmente encontrou um ômega com dentes de predador. Honestamente? Bom pra ele. Aquele bar pode parecer que só atrai gente ruim, a maior parte de nós só quer álcool barato, ele estava fodendo a experiência, e a reputação, de todo mundo."
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