Todas as estrelas
2 Sigo construindo minhas coisas com poucas pessoas
Notas iniciais
A chuva forte batia na persiana do quarto com força, o vento uivava pelas frestas, os raios cortavam o céu com tanta força que os trovões decorrentes pareciam querer derrubar as paredes. Assustado, o menino pegou seu travesseiro e correu para o quarto ao lado, onde o irmão mais velho dormia.
Acordado, Aiolos apenas levantou sua coberta e Aiolia se enfiou debaixo ela, abraçando o corpo do rapaz e afundando sua cabecinha no colchão, morrendo de medo da tempestade lá fora. Com um suspiro, Aiolos beijou os cabelos do pequeno e o abraçou de volta, pensando em como seria quando o irmão tivesse que ir para o alojamento dos aprendizes e uma chuva como aquela caísse durante a noite...
—x-x-x-x-x-
Apesar de ser o irmão mais novo de Aiolos, que por ser cavaleiro de ouro já possuía uma casa própria, Aiolia não morava com o irmão e sim no alojamento dos aprendizes. Uma maneira clara de mostrar que ali, no Santuário de Atena, não havia privilégios e que todos seriam tratados com igualdade. Assim, dividia o espaço com mais oito garotos, Shura entre eles. Curioso e falante que só, o pequeno leonino logo fez amizade com todos os aprendizes, embora passasse mais tempo em conversa com o escorpiano e ambos atormentando o francês calado que chegara uns poucos dias antes do brasileiro, este o último a chegar ao Santuário. No entanto, na sua cabecinha, passado o leve ciúme que sentiu quando ouviu Aiolos dizer que poderia ser o irmão mais velho de Shura, o espanhol era seu “primeiro amigo”. Por isso, fazia de tudo para estar perto dele e conversar, mas o garoto não ajudava! Estava sempre quieto e era escorregadio que só!
Esperto, tinha reparado que o italiano de cara feia, que disse se chamar “Mascherina” aforava implicar com o espanhol, Aiolia tinha vontade de chutar aquelas canelas finas até quebrarem de tanta raiva por ele implicar com seu amigo! Mas, como Shura parecia não ligar, ele se segurava como podia para não dar trela às provocações que nem para ele eram.
O problema era que em pouco tempo elas se direcionariam para ele. Era noite em Atenas. Época de chuvas...
Os pingos grossos batiam com força nas venezianas das janelas do alojamento, os raios cortavam o céu e iluminavam tudo ao seu redor, o som dos trovões reverberava nas paredes. Encolhido em sua cama, com a cabeça debaixo da coberta, Aiolia tentava não chorar, mas cada raio ou trovão, um resmungo seguido de um lamento deixava seus lábios, o corpinho todo tremia de medo. Queria poder correr para Sagitário e ir dormir com o irmão, ser protegido por ele durante a chuva, mas não tinha mais como fazer aquilo.
Um trovão mais forte soou e ele quase gritou de susto. Foi quando ouviu a voz do italiano mandando que calasse a boca, o pequeno sufocou o princípio de choro mordendo a coberta e colocou o travesseiro sobre a cabeça, quem sabe assim o barulho diminuía? Fato é que passou praticamente a noite toda acordado e com medo.
Na manhã seguinte, bocejando e com olheiras, se juntou aos colegas para esperarem pelo irmão e Saga e juntos irem para a arena de treinamento, quando “Mascherina” começou a debochar do menino, chamando-o de medroso e outros nomes, dando risadas. Sentindo a face esquentar, Aiolia revidava os xingamentos, o menino que viera da Suécia mandava o outro ficar quieto, Milo segurava o leonino para ele não ir para cima do provocador.
—O que está acontecendo? – Shura perguntou e todos imediatamente se calaram e ficaram olhando para o espanhol ele não aprecia nada feliz com aquela bagunça. Aproximou-se de Aiolia.
—Esse pirralho ficou chorando a noite toda por que tem medo de uma chuvinha... – O italiano desdenhou – Aposto que fez até xixi na cama de medo!
—Eu não fiz nada! Para de falar essas coisas! – Aiolia gritou de volta, quase chorando de raiva do italiano
—E vai me fazer parar, pirralho?
—Já chega, Mascherina... – Shura interveio, se colocando entre os dois – Você vai calar sua boca agora ou...
—Ou o quê? Vai correndo contra tudo por irmão desse peste aí? Você é um frouxo, espanhol de merda...
Aiolia percebeu que Shura bem quis revidar, mas nada fez. Voltou-se para ele e percebeu que o amigo ia lhe dizer algo quando o italiano se adiantou um passo, indo para cima do espanhol. E então tudo aconteceu muito rápido.
Quando Aiolos e Saga chegaram ao alojamento, as crianças estavam todas gritando coisas como “para” e “bate mais”, Shura e “Mascherina” se engalfinhando no chão, sujos de terra e sangue. Com muito custo, os dois rapazes conseguiram separar os dois brigões, que mesmo assim ainda xingavam diversos palavrões em espanhol e italiano.
—O que vocês dois pensam que estavam fazendo? – Saga questionou, segurando no ar um chute que o italiano tentou dar em Shura.
—Foi ele quem começou! – berraram as duas vozes ao mesmo tempo, Shura tentava de todo jeito se soltar de Aiolos, os demais estavam afastados e quietos.
—Não interessa quem começou, vocês vão para a enfermaria agora!
Dando ordens há alguns servos que apareceram por ali, Saga pediu que levassem os demais garotos para o refeitório para tomarem café, enquanto ele e Aiolos davam um jeito nos dois brigões. Aiolia seguiu com os demais aprendizes para o refeitório, mas quando chegou à porta do mesmo, estancou o passo. “O Shura vai levar bronca por minha culpa!” pensou, dando meia volta e correndo, antes que algum dos servos o alcançasse. Foi direto para a enfermaria do Santuário.
—Shura, isso é... – Aolia ouviu a voz preocupada do irmão, e parou do lado de fora da salinha, sem saber se entrava ou não.
Foi quando ouviu a resposta de Shura e sentiu um aperto no peito, que não sabia o que significava.
—Isso são os presentes que ganhei por se um menino desobediente ou “pouco” bonzinho...
Quando finalmente tomou coragem e entrou na salinha, viu os dois abraçados, e foi até a maca se juntando ao abraço, os bracinhos pequenos envolvendo a cintura de Shura, que era onde ele alcançava naquela posição...
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