Todas as estrelas

3 Ele é tudo que você esperava e mais um pouco?


A partir daquele incidente, Aiolia percebeu que entre Shura e seu irmão os laços de amizade se tornaram mais estreitos, fazendo com que ao longo do tempo o espanhol se soltasse um pouco mais durante os treinos e atividades, e bora a seriedade e o silêncio constante ainda fizessem parte do dia a dia com, o espanhol. Elementos de personalidade que não haviam como mudar, estavam devidamente enraizados e, se quando crianças incomodavam ao leonino, ao crescerem já não o importavam tanto assim.

Afinal, era um dos poucos que conseguia ler as entrelinhas daqueles silêncios todos. E justamente por isso foi o primeiro, e talvez o único, a notar que havia algo de errado com o espanhol, ou algo no mínimo suspeito.

Os olhares cada vez mais analíticos para seu irmão. As palavras que Shura parecia escolher com mais cuidado quando se dirigia à Aiolos. A expressão séria de sua face que para ele, Aiolia, não conseguia disfarçar a rara confusão de pensamentos que os olhos negros denunciavam. O que estava acontecendo com seu amigo, afinal?

Precisava conversar com Shura e descobrir. E, se fosse algo muito sério, ajudá-lo no que fosse preciso. A verdade era que não conseguia suportar a ideia de o espanhol estar com problemas e ele não saber, eram amigos não? E amigos contam tudo um para o outro, certo?

Amigos.

Gostava daquela palavra e de todo significado que ela possuía. Uma palavra tão forte que podia contar nos dedos quem, entre todos ali no Santuário, considerava como tal e permitia chamar assim. E Shura... Uma vez, em uma das aulas sobre mitologia e religiões, ouvira uma frase que se encontrava no livro sagrado cristão que dizia que “o homem que possui muitos amigos pode chegar à ruína, mas há aquele amigo que é mais chegado que um irmão”. Era assim que considerava Shura. Ou, pelo menos em seu entendimento, era o que pensava.

O que Aiolia, não sabia era que, em uma tarde, aquela percepção poderia começar a mudar...

Folga. O que estava se tornando comum no Santuário, o leonino pensava enquanto subia a escadaria das 12 casas, rumo à casa de Leão. Assim como estava se tornando cada vez mais comum treinos e aulas serem cancelados para que os mestres se reunissem com o Grande Mestre em diversas reuniões, como a que aconteceria naquela mesma tarde entre Aiolos, Saga e Shion. Quando questionou ao irmão o que estava acontecendo, a resposta foi um enigmático “são as estrelas se movendo, Aiolia”.

Quem era ele para questionar as estrelas, não? E já que estava de folga, decidiu ir para a casa de Leão treinar alguns exercícios físicos simples, mesmo ainda não sendo o cavaleiro protetor da mesma, gostava de conectar à energia que dela emanava. E por lá estava, descansando encostado a uma das colunas quando viu Shura entrar pelo salão, com a expressão extremamente séria e dura na face e punhos cerrados. Colocando-se rapidamente de pé, chamou pelo espanhol, mas foi completamente ignorado por ele.

Decidido e um tanto nervoso por ter sido deixando de lado, Aiolia seguiu Shura escadarias acima. Quando estava no meio caminho entre Sagitário e Capricórnio, percebeu que o outro estava parado em frente à entrada da décima casa, ponderando por alguns segundos se deveria entrar ou não. Somente quando Shura seguiu em frente, Aiolia retomou a subida.

Entrando pelo grande salão de Capricórnio, viu o amigo parada em frente à estátua de Atena, que representava o momento em que a deusa entregava Excalibur ao seu cavaleiro... Lembrava bem do dia em que Aiolos contou a ambos sobre a história descrita naquela estátua, sobre aquela espada e porque o cavaleiro de Capricórnio era seu portador.

Excalibur simbolizava a justiça de Atena sobre toda humanidade e o cavaleiro da décima casa era considerado o mais fiel à deusa, desde tempos remotos. Lealdade e fidelidade. Dois sentimentos que Aiolia sabia que Shura conhecia muito bem, pois aprendera desde muito cedo a como lidar com ambos. Primeiro, sendo leal e fiel aos próprios instintos de sobrevivência. Com o passar do tempo e dos ensinamentos adquiridos no Santuário, aprendera a direcionar tais sentimentos aos seus companheiros. Ao seu irmão Aiolos, como mestre e melhor amigo.

Amigo. Novamente aquela palavra de significado e pronúncia tão fortes...

—Shura? – o chamou finalmente, ao perceber que o espanhol parecia confuso.

—O que foi, Aiolia? – perguntou ele, virando-se para o leonino, a poucos passos atrás de si.

—Você passou tão depressa por Leão que não me ouviu te chamar, aconteceu alguma coisa?

Mas Shura não respondeu de imediato, ficou a encarar o olhar de Aiolia, algo que o rapaz também fez ao mirar os olhos negros. Para alguns naquele santuário, era desconfortável sustentar o olhar de Shura... As orbes negras tinham um brilho esverdeado que, dependendo da luz e do humor do espanhol se assemelhavam ao brilho de uma lâmina afiada.

Uma lâmina pronta a cortar tudo ao seu redor com uma simples mirada. Mas para Aiolia, não era apenas isso. Cada vez que mirava os olhos de Shura, ele via muito mais que aquele brilho...

Lealdade, fidelidade, devoção.

“Olhos de lince”, Aldebaran dissera uma vez ao falar sobre o olhar do espanhol, citando um poema famoso em sua terra.

—Me desculpe, Aiolia... – o espanhol se voltou para a estátua novamente – Estava tão distraído que não o vi em Leão.

—Quer conversar sobre o que aconteceu, seja lá o que for?

Deu um passo à frente e então pousou uma das mãos sobre o ombro esquerdo de Shura, como se pudesse confortá-lo ou lhe dar uma direção para seguir. Um novo suspiro escapou dos lábios do espanhol.

—Conversar sobre o que, se nem eu mesmo sei o que se passa comigo direito...

O silêncio. Mas, apesar de não ser o que o leonino buscava no momento, lhe parecia o mais correto. Tirando sua mão do ombro de Shura, ele se adiantou uns dois passos e tocou a lâmina de Excalibur que Atena estendia ao seu cavaleiro, ajoelhado à sua frente.

—Sabe... – ele disse, captando a atenção do outro – Quando eu finalmente for um cavaleiro de ouro e chegar o momento de meu juramento, eu o farei por Atena e toda humanidade, assim como aos meus companheiros de armas, mas... – uma olhada rápida ao cavaleiro atrás de si – Minha lealdade e fidelidade estarão sempre junto de meus amigos e das pessoas que amo...

Olhos de lince...

Eram, de fato, impressionantes.

Notas finais
O poema citado é "Olhos de lince" de Wally Salomão e Jards Macalé, na voz de Maria Bethânia arrepia tudo a gente! O trecho bíblico é Provérbios 18:24. A Palavra tem diversos escritos bonitos e com bons ensinamentos, o que estraga é o fã clube infernal que foi formado aqui na Terra e acha que sabe tudo... Esta mesma história é contada sob a ótica do Shura em "Poeira ao vento"