Todas as estrelas
7 Sem controle, sem como desligar
Notas iniciais
O irmão do traidor. Assim Aiolia passou a ser conhecido por todo Santuário, e execrado como tal. Aquele que possuía o mesmo sangue ruim do homem que tentou matar o bebê Atena. Que foi capaz de levantar a mão contra o Patriarca. Que havia encontrado merecido fim pelas mãos de Shura de Capricórnio, o cavaleiro mais fiel à deusa.
Um fim que, de certa maneira, também havia encontrado o coração do leonino. Como seu irmão, o homem mais honesto, justo e honrado que um dia conheceu foi capaz de atentar contra a deusa? Como conviver com a dor de ter sido enganado, traído por seu próprio sangue?
E como olhar para Shura, o algoz de Aiolos, o homem por quem... Não, ele não podia mais continuar com aquilo, não se entregaria mais àquele sentimento. O espanhol era o assassino de seu irmão. E ele... Ele estava agora marcado como um sangue ruim, alguém que não merecia confiança ou mesmo respeito dentro do Santuário...
Aiolia não aceitaria aquela sentença sobre si. Ele provaria a todos que não era como seu irmão, ele se tornaria o cavaleiro de ouro de Leão e juraria sua lealdade e fidelidade à Atena e ao Patriarca. Ele seria diferente. Não seria um covarde como Mu de Áries, que havia desertado e se refugiado em Jamiel. Ou como Milo, que não ousara verbalizar qualquer questionamento, mas que entregava em seu olhar toda confusão e inicial descrença pela culpa de Aiolos.
Ele seria respeitado e apagaria de sua vida toda e qualquer lembrança da existência de Aiolos... E, como uma espécie de voto de confiança, o Grande Mestre o havia mantido como postulante à armadura de Leão. A sua prova final estava cada dia mais próxima.
Provaria a todos que seu sangue não era ruim.
Precisava, com todas as suas forças, acreditar nisso...
Passaram-se semanas...
E então o dia em que Aiolia faria a prova final para obter a armadura de Leão havia finalmente chegado. Shura, assim como os cavaleiros de ouro que já possuíam suas armaduras, estava na grande arena, um degrau abaixo de onde se encontrava o Grande Mestre. As arquibancadas estavam cheias, o barulho e gritos de “sangue ruim”, “imprestável” e tantos outros xingamentos eram ensurdecedores. Tentando se concentrar e parecer indiferente, Aiolia notou que o coração de Shura parecia aflito.
—Eu preciso de um voluntário dentre os cavaleiros de ouro presentes! – a voz potente do Grande Mestre se fez ouvir e de imediato o silêncio tomou conta da arena.
“Mascherina”, agora chamado de Máscara da Morte, adiantou-se um passo, mas Aiolia viu Shura barra o italiano com um braço e ele próprio descer os degraus, até para a alguns metros à sua frente.
—A prova final para obter a armadura de leão é simples, Aiolia! – o Grande Mestre retomou a palavra – Você deve acertar um golpe, não importa qual, no cavaleiro de ouro à sua frente.
Um murmúrio começou a ser ouvido entre as pessoas que assistiam a tudo, foi preciso que o patriarca pedisse silêncio à multidão. Parados, frente à frente, Shura e a Aiolia se encaravam.
Era preciso ser firme.
Era preciso ser forte.
Era preciso ser...
Impetuoso.
Aiolia se posicionou e ascendeu seu cosmo, não esperou para atacar e partiu para cima de Shura com seu punho direito fechado. Quando tentou acertar o espanhol, este desviou-se com tranquilidade, nem mesmo a longa capa branca o leonino conseguiu acertar. Um grito de euforia correu por toda arena, e as pessoas voltaram a xingar o rapaz.
Uma sucessão de socos e tentativas de golpes, Shura parecia mal se mover para desviar-se de todos eles. Cansado, Aiolia baixou sua cabeça e apoiou as mãos em seus joelhos. Sentiu que lágrimas vinham aos seus olhos, ele não podia perder aquela prova...
—Você se lembra de suas palavras quando me contou como seria seu juramento para se tornar um cavaleiro de ouro? – Shura perguntou, sem alterar sua postura ou mesmo o tom de voz.
—Sabe... – ele disse, captando a atenção do outro – Quando eu finalmente for um cavaleiro de ouro e chegar o momento de meu juramento, eu o farei por Atena e toda humanidade, assim como aos meus companheiros de armas, mas... – uma olhada rápida ao cavaleiro atrás de si – Minha lealdade e fidelidade estarão sempre junto de meus amigos e das pessoas que amo...
—A pessoa que eu amava, me traiu... E o único que julguei um dia ser meu amigo... É um assassino...
—Então não existe mais uma motivação para ser um cavaleiro de ouro? – Shura questionou – Sendo assim, eu declaro esta prova encerrada.
Viu Shura virar as costas para si, alguns gritos e palmas de satisfação começaram a ser ouvidas pela arena, um pequeno sorriso de escárnio já se formava por baixo da máscara do Grande Mestre, aquela prova não podia ser encerrada assim!
—Shura de Capricórnio!
A voz potente de Aiolia fez Shura estancar o passo e sentir a força que o cosmo alheio emanava. O espanhol se virou com certo cuidado para Aiolia e o leonino percebeu uma fração daqueles olhos arregalar-se ao perceber a aura dourada e imponente que o envolvia em energia.
—Você não conhece meu coração, Capricórnio...
Encarou Shura uma vez mais.
Era preciso ser firme.
Era preciso ser forte.
Era preciso ser...
Olhos de ressaca mergulhados em olhos de lince.
Não havia como ser impetuoso...
A aura dourada cresceu ao redor de Aiolia conforme ele concentrava seu cosmo. Logo, tomou a forma de um imponente Leão em chamas, e relâmpagos cortavam o céu de Atenas, convergindo ao corpo do rapaz. Então ele avançou, rápido como um daqueles raios.
—Relâmpago de Plasma!
Um ponto brilhante se ascendeu no ombro de Aiolia e ele avançou sobre Shura, o espanhol preparou seu golpe de defesa. Mas, quando iria lançar o “pedras saltitantes”, viu que Aiolia estava muito perto.
Aqueles olhos negros, de brilho esverdeado. Olhos de lince.
Fidelidade.
Sobrevivência.
Indiferença.
Não poderia mais ser impetuoso ao que aquele olhar provocava em si...
Quando seus pés tocaram o chão novamente, Aiolia estava ofegante, Shura caído sobre os primeiros degraus da arena e a multidão no mais absoluto silêncio.
A sagrada armadura de ouro de Leão finalmente tinha um novo portador.
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