Todas as estrelas
1 Esta pode ser a noite em que meus sonhos podem...
Havia nascido ali, naquele lugar. Talvez, antes mesmo de aprender a andar e falar, seu subconsciente já estava preenchido pela história do Santuário e toda a devoção que deveria ter para com sua deusa. Mais do que isso, sentia-se ainda mais cheio por essa adoração ao observar seu irmão mais velho em seu dia a dia. Ele já era um cavaleiro de Atena, da mais alta casta. O cavaleiro de ouro de Sagitário, santo protetor de Atena.
Mas, para aquela pequena criança de olhos verdes e curiosos e cabelos cacheados como os de um ajo sapeca, a devoção à deusa misturava-se à seriedade de mestre, o afeto entre irmãos e a compaixão pelos que necessitavam de apoio e abrigo. O pequeno, ainda sem saber que aquele tipo de sentimento existia, tinha um grande orgulho do irmão mais velho.
Depois de muito tempo convivendo apenas com o irmão, o amigo dele um pouco mais velho que também era um cavaleiro, e alguns servos e servas, o pequeno começou a perceber que diversas crianças começavam a chegar ao Santuário de Atena. Curioso que só, perguntou ao irmão o que aquilo significava e como resposta recebeu uma notícia que encheu seu coração de contentamento e expectativa... Em poucos anos, a deusa Atena iria renascer sobre a Terra e por isso o Santuário precisava encontrar ao redor do mundo e trazer ao local os futuros cavaleiros de ouro.
Estava feliz, pois finalmente teria amiguinhos para treinar e brincar. Só esperava que nenhum desses novos colegas quisesse a armadura de Leão, pois ela já tinha dono! Sim, ele seria o cavaleiro de ouro de leão, dono da quinta casa do Santuário. Ele, assim com o irmão, seria um santo protetor extremamente devotado de Atena.
O irmão e o amigo, Saga cavaleiro de ouro de Gêmeos, se revezavam a pedido do Grande Mestre para receber os aprendizes. Ele, como bom curioso que era, sempre acompanhava o irmão nessas recepções, mal sabia que era na verdade usado por ele para que o outro pudesse se aproximar das crianças que chegavam. O primeiro que viera, há quase um mês atrás era discípulo do próprio Grande Mestre, um garotinho que parecia muito tímido e tinha os cabelos lilases, será que ele pintava com papel crepom? Uma semana depois veio o segundo, o menino também era grego como ele e arisco que só, parecia pronto a dar o bote feito um escorpião ao menor sinal de movimento perto de si.
E agora, lá estavam ele e o irmão, esperando servo Garan trazer um menino, segundo o Brande Mestre ele vinha de um lugar chamado Espanha. Estava parado à entrada do Santuário junto do irmão, os bracinhos cruzados imitando a postura altiva do mesmo. Alguns minutos nessa espera e então ele viu o homem vir pela estrada, um menino de cabeça baixa segurando uma malinha contra o peito um pouco atrás. O irmão se adiantou alguns poucos passos, cumprimentando o servo.
—Então este é o aprendiz que trouxe da Espanha, Garan? – o rapaz perguntou, no que o home assentiu – ¿Cuál es tu nombre, pequeño? – ele perguntou, abaixando-se até ficar na altura do menino, que apertou contra o peito a pequena malinha de roupas que carregava.
O pequeno arqueou uma sobrancelha, aquele menino parecia tão arredio quanto o escorpiano, mas de um jeito diferente. Parecia estar com receio de levantar a cabeça ou abrir a boca e ser castigado por isso. Estava analisando o menino quando percebeu que o irmão o chamava com um gesto, aproximou-se de ambos com um leve sorriso.
—Veja, este é meu irmão Aiolia... Ele também é um aprendiz de cavaleiro, sabia? – sentiu seu irmão puxando-o pela mão, e quando parou perto do menino, notou seus cabelos negros e desalinhados, e os olhos da mesma cor, com uma leve sombra verde nos mesmos.
—Meu nome é Aiolia, e o seu? – ele estendeu a mãozinha para um cumprimento, que o menino não devolveu. Continuava com a malinha apertada e o olhar baixo – Eu acho que o gato comeu a língua dele, Olos!
Contrariado, levou as mãozinhas à cintura, indignado com a atitude do outro e encarando o irmão com ar de troça. Mas logo a cara feia se desfez, não sabia explicar o que era, mas sentia algo triste vindo do garoto.
—Ele só não quer conversa agora, Olia... Mas, de todo modo, preciso saber seu nome, rapazinho! Não posso chamá-lo de pirralho ou moleque o tempo todo, não acha?
—É Shura... – ele disse, por fim, em um fiapinho quase inaudível de voz, ainda olhando desconfiado para o rapaz à sua frente e também para o pequeno ao seu lado.
—Muito prazer então, Shura! – o rapaz bagunçou os cabelos do menino com uma das mãos – Eu me chamo Aiolos e vou ser seu mestre pelos próximos dias, tudo bem?
Mestre? Uma expressão confusa se fez na face de Aiolia, como assim mestre? Aiolos teria mais um aprendiz além ele e do outro grego? Bom, pelo menos teria mais um amigo para brincar...
—O que é um mestre? – Shura perguntou, curiosos, mas ainda receoso com aquele rapaz.
—É como se fosse um professor, eu vou te ensinar um monte de coisas novas, você vai gostar. Igual eu faço com o Aiolia, não é?
—Sim, Olos é meu mestre também! – Aiolia falou com certo orgulho na vozinha infantil, abrindo um sorriso de orelha a orelha.
Sorriso esse que morreu assim que ouviu a pergunta a seguir do menino, e a resposta do irmão para ele, depois de um breve momento de silêncio...
—Você... Você vai ser meu irmão também?
—Posso ser, se você precisar de um, Shura.
Notas finais
Então, eis aqui "Todas as estrelas" para apreciação de vocês... Espero que gostem!
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