Todas as estrelas
6 E está tudo errado, tire isso de perto de mim
Notas iniciais
A notícia havia se espalhado aos poucos pelo Santuário, de boca em boca, de sorriso em sorriso... Atena estava entre os humanos novamente! Seu nascimento foi muito comemorado e todos os moradores do lugar contavam os dias para poderem ver pessoalmente a reencarnação da deusa, que por ser um bebê ainda estava sob a proteção do Grande Mestre e também dos cavaleiros de ouro de Gêmeos e Sagitário, os dois que a mais tempo envergavam sua patente junto à armada de Atena.
Para Aiolia, aquela notícia era a confirmação de que o seu sonho de criança, de se tornar um cavaleiro à serviço da deusa Atena, se realizaria muito em breve. Até mesmo sua dedicação aos treinos para a prova final estava mais forte e afinada. E, mesmo ainda não tendo feito seu juramento oficial, em seu coração inquieto ele já estava gravado.
Alguns dos antigos aprendizes também estavam de volta ao Santuário como cavaleiros, de toda a elite dourada apenas Escorpião, Touro e Leão ainda não tinham um portador, mas era questão de pouco tempo. Tinhas notícias de que Milo ia bem em seu treinamento e Aldebaran também. E, claro que não poderia esquecer, quem mais queria que estivesse de volta ao Santuário como cavaleiro, já o havia feito há algum tempo.
Mas... Em questão de poucas semanas, as coisas começariam a mudar no sagrado Santuário da deusa Atena...
O Grande Mestre havia se tornado um homem mais recluso, apenas Aiolos e Saga tinham acesso a ele. E a cada reunião com o mestre, ambos pareciam mais tensos ou circunspectos, ainda que tentassem disfarçar para os demais. E Saga, em particular, parecia mais desatento a algumas coisas e aspectos, como se em alguns momentos, houvesse um outro alguém tomando conta de seus gestos, pensamentos e palavras...
Aquilo deixava Aiolia muito triste e ao mesmo tempo nervoso, pois sabia como afetava ao seu irmão e vê-lo sofrer com as atitudes de Saga não o agradava nem um pouco. E, a bem da verdade, só não tirava satisfações com o geminiano sobre o que estava acontecendo, por causa de Shura. A convivência com o espanhol o tornara, de certa forma, menos impulsivo e mais reflexivo sobre seus atos.
O engraçado era que desde a volta de Shura da Espanha, ele e o rapaz não tinham conversado ainda sobre o que havia acontecido em sua despedida do Santuário anos atrás, ou em como ficaria a situação de ambos agora que ele estava de volta em definitivo. Aiolia até sabia ser paciente, mas na maior parte do tempo o que mais queria era tirar logo toda a história a limpo. Principalmente por, pela primeira vez em muito tempo, ter certeza do que queria. E quem queria.
Porém... As mudanças estavam acontecendo... E eram inevitáveis...
Pouco depois de uma reunião com o Grande Mestre, da qual Saga e Aiolos haviam saído particularmente bastante tensos, o geminiano tinha simplesmente... Desaparecido. Buscas por todo Santuário e Grécia eram feitas, consultas às estrelas, o sagitariano vasculhava cada canto do globo em busca do cosmo quente e poderoso do cavaleiro e... Nada. Em absoluto.
E foi em uma noite estranha, de poucas estrelas no céu, que Aiolos deixou sua casa para procurar pelo Grande Mestre, saber se ele tinha alguma novidade sobre o paradeiro do geminiano. Aiolia o viu sair de Sagitário com a cabeça baixa, tinha certeza de que o irmão tinha os olhos cheio de lágrimas. Angustiado, sentindo o peito apertar de maneira estranha, ele saiu logo atrás do sagitariano, mas não o seguiu até o décimo terceiro templo. Ficou parado junto ao pórtico de entrada de Capricórnio, até que Shura veio ao seu encontro.
—O que foi, Aiolia? Parece preocupado.
—Posso entrar, Shura?
Com um aceno, o espanhol permitiu que ele o acompanhasse, foram juntos para a sala da casa e se acomodaram no sofá de couro marrom e bastante confortável. O leonino abraçou uma almofada vermelha que estava por ali, apoiando a cabeça na mesma. O dono da casa não deixou de notar que parecia haver uma sombra nublando o olhar sempre tão altivo do outro.
—O que te aflige, Aiolia?
—Eu... Eu estou preocupado com meu irmão, Shura... O desaparecimento do Saga acabou com a alegria dele, sabe? O Aiolos continua sendo um mestre exemplar, mas nas nossas folgas, no nosso dia a dia... Ele está mais triste, mais quieto...
—Bom, estamos falando de um grande amigo e cavaleiro valoroso, Aiolia... Não é à toa que seu irmão está assim.
Aiolia baixou a cabeça, em silêncio. Ele sabia da real relação de Aiolos e Saga, não eram apenas amigos, ou irmãos de armas. Aquele relacionamento era a real motivação para a dedicação de Sagitário ao seu ofício. Sabia que era por ele, por Shura, e por Saga, que Aiolos lutava para manter a paz e a justiça entre os homens.
O sonho de seu irmão era um mundo tranquilo para que seus entes mais queridos pudessem viver suas vidas em paz.
—Shura? – Aiolia o chamou, um tanto incerto, levantando sua cabeça e encarando o espanhol por um momento.
—O que foi?
—Você acha que... Que... – um suspiro pesado por parte do leonino, ele respirou fundo – Que poderíamos ser como Aiolos e Saga?
Viu que Shura o encarou com seus olhos apertados, como se tentasse entender o que ele estava de fato dizendo. Mas Aiolia sabia, sentia, quer não havia dúvidas ali entre eles, naquele momento. De uma maneira que não tinha como explicar, ele sabia que seu coração e de Shura compartilhavam os mesmos sentimentos. E temores também. Seriam eles capazes de dar vazão ao que sentiam e queriam, mesmo sabendo que o sofrimento e a incerteza que era a vida de um cavaleiro iriam prevalecer em algum determinado momento. Tal qual acontecia com Aiolos e Saga naqueles dias...
Mas... Valeria a pena viver negando o que sentia, evitando qualquer laço mais forte e profundo do que a irmandade que ele e Shura possuíam? Eram tantas perguntas... Tantas possibilidades... Tantas...
Incertezas que morreram no instante em que Aiolia viu Shura finalmente ceder aos seus impulsos e desejos e, projetando-se para frente, tirou a almofada dos braços dele e o beijou, segurando-o pelo queixo quadrado e másculo, explorando com toda sua força e jeito a boca macia e quente do leonino. Empurrando-o para trás com a outra mão espalmada sobre o peito dele, o espanhol queria rasgar logo aquela camiseta e sentir o contato pele com pele.
Os lábios desceram da boca para o pescoço e ombros, Aiolia se afastou por um breve instante para tirar a camiseta, Shura fez o mesmo com a sua e voltaram então a se beijar de maneira frenética e sensual, o leonino logo sentiu uma das mãos do outro acariciar seu pênis sobre o tecido da calça, uma ereção começava a despontar. O espanhol já estava afastando o cós daquela peça incômoda quando... Um grito, seguido de um sinal de alerta ecoou pelo Santuário todo.
“Aiolos tentou matar Atena!”
Foi como se o tempo parasse por um segundo, os olhos de lince se abriram e encararam de maneira incrédula os olhos verdes de tormenta, ambos escurecidos demais pelo desejo crescente...
“O traidor está fugindo!”
Em questão de milésimos de segundos, Aiolia estava sozinho na décima casa, a sagrada armadura de Capricórnio vestira o corpo de Shura e o espanhol partiu, atônito. Perplexo. Incerto.
O que estava acontecendo, afinal?
Fale com o autor