Capítulo 07

O retorno do Décimo Vongola ao Oriente não havia sido casual. Os assuntos que deveriam ser tratados na Itália ainda estavam pendentes, mas um estranho e perigoso boato o fez voltar a Namimori. Tsuna não se sentia tranquilo, mesmo sabendo que a maioria dos seus Guardiões estava no Japão.

E apesar de ter consciência de que não poderia levar o mundo nas costas, nem proteger a todos, o homem de cabelos castanhos decidiu continuar seu trabalho em solo japonês, colocando todo seu empenho em desvendar o estranho rumor.

Cada pessoa contava uma versão para os fatos. Alguns diziam que era uma antiga Família. Outros alegavam que era um novo e inexperiente Chefe. Várias informações se desencontravam e se contradiziam, mas no final havia algo em comum em todas elas: alguém não simpatizante dos Vongola decidiu atacar pelas beiradas. O alvo eram as Famílias aliadas e os Chefes que prometeram permanecer ao lado de Tsuna.

Após assumir a Chefia da Família, o Décimo recebeu inúmeros convites de alianças e contratos. Alguns eram benéficos, e outros apenas serviriam para criar problemas com outras Famílias. Inexperiente e nem um pouco conhecedor dessa parte, Tsuna seguiu os conselhos de Reborn e Gokudera durante todo o tempo que permaneceu na Itália. Porém, mesmo estando em Namimori há quase um mês, os rumores não dissiparam, e segundo o relatório que recebeu de seu Guardião da Nuvem, havia provas concretas de que Dino poderia ser um provável alvo.

O próprio Chefe dos Cavallone apareceu em pessoa alguns dias depois do recebimento do relatório, fazendo com que o Décimo se sentisse incrivelmente feliz por vê-lo bem... E vivo. O italiano desculpou-se por não entrar em contato antes, mas estava realmente ocupado com seu trabalho.

De qualquer forma, Tsuna soube que o louro estava vivo há algum tempo, por intermédio de Squalo.

- Eu estarei retornando à Itália em alguns dias, mas se precisar de ajuda na missão pode contar comigo — Dino pousou a xícara na mesa, ficando de pé ao ver a porta ser aberta e Yamamoto surgir em seguida. — E desculpe novamente por preocupá-lo, Tsuna.

- N-Não precisa se desculpar — O Décimo sorriu contente. Era ótimo ter todos os seus amigos por perto.

- Não preocupe o Jyuudaime novamente, Haneuma — Gokudera que permaneceu em pé fielmente ao lado do homem de cabelos castanhos, ergueu os olhos verdes de maneira desafiante.

- Desculpe~

O italiano acenou para os presentes antes de deixar o escritório. Outra pessoa fazia o caminho oposto, e o louro cumprimentou o novo visitante antes de ir oficialmente embora.

Yamamoto aproximou-se e cumprimentou os dois amigos. Ele havia recebido a mensagem de que haveria uma pequena reunião, mas ao entrar direto na sala de reuniões não encontrou ninguém.

- N-Não era nada tão oficial — Tsuna corou. O Guardião da Tempestade foi responsável por enviar a mensagem, então ele só poderia imaginar o grau de seriedade que seu braço direito colocou em um simples aviso. — Eu só queria comunicar que terminei de dividir os locais. Você pode escolher entre o lado Oeste ou Leste. Gokudera-kun escolheu o Norte, Chrome irá com Mukuro para o lado Sul e Ryohei disse que ficará com o que sobrar. Hibari desligou o telefone quando eu o convidei, então acredito que ele não vá participar...

- Hahaha não desanime, Tsuna! — O moreno segurou o pequeno mapa que lhe foi oferecido, olhando-o com curiosidade. Por alguns segundos Yamamoto pareceu pensativo, até tomar sua decisão — Irei para o Leste então.

- C-Certo — O Décimo engoliu seco. Ele não era fã de missões. Designar trabalhos sérios para seus amigos sempre soou desumano — O local de encontro será o parque Namimori. Gokudera-kun e Ryohei irão durante o dia e você, Chrome e Mukuro serão responsáveis pela noite.

- Sábado, não? Meu local será um teatro, então imagino o que terá de interessante para assistir...

- Yamamoto! — O Guardião da Tempestade deu um passo à frente, visivelmente irritado — Não se esqueça de que essa é uma missão muito importante.

- Hahaha eu sei, eu sei — O moreno coçou a nuca — Mas tudo o que teremos de fazer é observar, não? Você vai a um Shopping Center Gokudera, tente se divertir pelo menos.

- Seu maldito! O que você acha que uma missão significa!

Tsuna ficou de pé a tempo de segurar seu braço direito, que já havia retirado duas dinamites de dentro de seus bolsos e parecia ávido em usá-las contra Yamamoto. O moreno por sua vez afastou-se um pouco, rindo e desculpando-se, pedindo para o homem de cabelos prateados guardar seus “fogos de artifício”. O clima entre seus Guardiões melhorou muito, o que surpreendeu o jovem Décimo Vongola. Depois da manhã que encontrou Yamamoto dormindo em seu escritório, seus dois melhores amigos não pareciam se evitar como antes. As brigas desnecessárias retornaram, assim como a arrogância de Gokudera e os comentários simples e inocentes do Guardião da Chuva. Superficialmente era como se nada tivesse mudado.

A missão que seria realizada no fim de semana fora cuidadosamente preparada por Tsuna com o auxilio de Reborn, Gokudera e Enma. Este último prontificou-se a ajudar no que fosse preciso, e assim como Dino, ofereceu ajuda se necessário. O relacionamento entre os Vongola e os Shimon não era o mesmo de sete anos atrás. Foi preciso algum tempo, mas os dois Chefes acabaram retomando a amizade, provavelmente por serem tão parecidos. Mesmo residindo na Itália, Enma mantinha contato constante com o Décimo, e até mesmo ofereceu alguns de seus amigos para ajudar na busca. Não havia nenhuma certeza, mas de acordo com os boatos, algumas gangues locais andavam se encontrando em certas partes da cidade e elas poderiam ou não ter relação com o rumor principal. Hibari foi responsável direto pelo relatório, e se Tsuna não tivesse implorado, seu Guardião da Nuvem teria ido pessoalmente aos locais e literalmente mordido todo mundo até a morte.

Foi preciso muita conversa e pedidos para que o moreno permitisse que o Décimo fizesse as coisas do seu jeito. Em contrapartida Hibari avisou que se a missão falhasse, ele continuaria com seu plano sozinho, e que ainda retornaria e morderia Tsuna até a morte por tê-lo feito perder tempo.

O fim de semana seria importante, não somente na busca por informações, mas porque o homem de cabelos castanhos sentia que seu próprio pescoço estava em jogo.

x

A semana passou rápida e sem problemas além dos habituais. O trabalho estava em dia e não havia nada além da missão naquele fim de semana para Gokudera.

O Guardião da Tempestade olhou-se mais uma vez no espelho antes de deixar seu apartamento, soltando um longo suspiro. O céu estava incrivelmente azul e o tempo abafado o fez ajeitar melhor os óculos escuros em seu rosto. O terno e a gravata deram lugar a roupas casuais de verão. Seu trabalho envolvia apenas passar uma tranquila manhã em um Shopping Center, então ele deveria se portar como uma pessoa comum. Entretanto, havia pequenas dinamites nos bolsos de sua calça e camisa.

Gokudera jamais sairia de casa desarmado.

Ryohei estava esperando quando o homem de cabelos prateados chegou ao parque Namimori. Recebendo um sonoro e animado "bom dia ao extremo", o Guardião da Tempestade repassou os pontos importantes. Os dois rapazes se despediram e cada um seguiu para sua respectiva missão. O local que o Guardião do Sol ficara designado a vigiar seria uma pequena feira esportiva realizada anualmente.

Gokudera não pôde evitar pensar que o idiota provavelmente iria mais se divertir do que realizar seu trabalho.

Durante as primeiras horas que permaneceu no Shopping, o braço direito do Décimo Vongola não viu ou ouviu nada relacionado á Máfia. Seus olhos e ouvidos estavam atentos, mas nada de surpreendente aconteceu e que pudesse ser relatado. Pessoas iam e vinham. Sorrisos, gargalhadas, mãos dadas... A última vez que ele esteve naquele lugar foi há meses atrás. Ele e Yamamoto combinaram que comprariam os presentes ao mesmo tempo, assim não correriam o risco de gastarem dinheiro em coisas que não fosse do gosto do outro. Aquela tática na verdade foi uma maneira que o homem de cabelos prateados encontrou de driblar o medo. Durante os anos que permaneceram juntos, o moreno sempre acertava em cheio no presente, mas ele mesmo ficava receoso em comprar algo que não agradasse.

O ápice dos pensamentos nostálgicos do Guardião da Tempestade aconteceu ao passar em frente a uma loja de casacos. Foi exatamente naquele lugar que ele comprara um longo e belo sobretudo para Yamamoto. O presente foi semi-utilizado na noite de Natal e foi uma excelente aquisição. Por causa de sua altura, o moreno se sobressaia com a peça de roupa, deixando-o ainda mais charmoso. A única parte triste, e também responsável por puxar Gokudera de volta à realidade, foi que dois dias após o Natal ambos tiveram a terrível briga. Naquela noite o Guardião da Chuva havia chegado ao apartamento com o mesmo sobretudo.

Os pensamentos do braço direito do Décimo foram interrompidos pelo barulho de seu estomago. A manhã havia passado, e seu corpo parecia lembrá-lo de que era hora de procurar algo comestível.

A praça de alimentação estava cheia no horário do almoço, mas Gokudera aproveitou a oportunidade para permanecer mais algum tempo no local. Após escolher o restaurante, o homem de cabelos prateados sentou-se e degustou sua comida com prazer. Há algum tempo ele não comia fora.

Alimentado e sem nenhum motivo para continuar ali, o Guardião da Tempestade saiu do Shopping, correndo as mãos para dentro dos bolsos e pegando um de seus cigarros. Seus olhos encararam o céu azul com desânimo ao ganhar a rua, imaginando a caminhada que teria de fazer até o estacionamento.

- C-Com licença...

Gokudera virou o rosto na direção da voz, olhando curioso para seu interlocutor.

A jovem mulher o olhou com um sorriso, mas desculpou-se em seguida por incomodá-lo tão de repente.

- Você é Gokudera Hayato, né?

O Guardião da Tempestade ficou sério, levando as mãos para dentro dos bolsos da calça.

Uma pessoa estranha o reconhecia no meio de uma missão? Aquilo definitivamente era uma cilada.

- Quem é você? — O homem de cabelos prateados perguntou rudemente, olhando ao seu redor. Ela provavelmente não estava sozinha.

- A-Akemi Keiko — A mulher fez várias reverências, visivelmente nervosa com aquela abordagem — D-Desculpe por interrompê-lo, mas eu não tinha certeza de que era você e então me aproximei, desculpe-me, por favor.

- De onde você me conhece? — Gokudera parecia cada vez mais nervoso.

- V-Você é amigo do Sawada Tsunayoshi-kun, não?

- Você! — O braço direito do Décimo deu um passo à frente, segurando um dos pulsos da mulher. Seus óculos escuros estavam no bolso da camisa, então ele poderia olhar diretamente nos olhos da moça — Como você conhece o Jyuudaime? Diga para quem trabalha, eu estou avisando! Não vou facilitar por você ser uma mulher.

- J-Jyuudaime? T-Trabalho? — Os olhos da mulher estavam cheios de lágrimas e ela tremia nos braços de Gokudera — E Eu trabalho na B-Biblioteca. S-Sou amiga de Universidade da Kyoko-chan. N-Nós nos vimos no dia do jogo.

- ... Eh!?

O homem de cabelos prateados juntou as sobrancelhas, tentando digerir o que acabara de ouvir.

O silêncio entre eles serviu apenas para que ele percebesse que seu show particular atraia um número grande de pessoas que olhavam a cena com curiosidade. Uma espécie de burburinho espalhou-s pelos expectadores, e Gokudera não pôde evitar ouvir certos comentários.

"Que horrível!", "Que homem bruto! Gritar assim como uma moça tão bonita", "Ele é o pior, os homens de hoje em dia..."

As mãos do Guardião da Tempestade soltaram a mulher e ele desculpou-se em voz baixa, sentindo o rosto corar pelo excesso de atenção. Aquilo era uma missão, e a regra número um seria não chamar atenção em hipótese alguma.

Suspirando fundo, Gokudera pediu desculpas mentalmente ao Jyuudaime por ser um braço direito despreparado e desmerecedor de sua confiança.

A mulher era quem dizia ser, e foi preciso apenas ouvi-la por cinco minutos para que o homem de cabelos prateados tivesse certeza de que cometera um enorme engano ao desconfiar que ela era uma mafiosa. Akemi Keiko era amiga de Kyoko, e mesmo não se recordando, era uma das pessoas que participou do jogo de baseball há algumas semanas.

Gokudera a arrastou para seu carro e os dois seguiram até uma sorveteria no centro comercial. Gentileza não era seu forte, mas ele precisava se redimir por tê-la tratado daquela forma. Afinal de contas ela era amiga da namorada de seu precioso Jyuudaime.

- Obrigada por me convidar — Keiko sorriu ao terminar seu sorvete — Estava delicioso.

O homem de cabelos prateados apenas meneou a cabeça. Ele não se recordava dela, apenas da garota que supostamente estava saindo com Yamamoto.

Aquele pensamento o deixou sério. Seus olhos fitaram sua companhia e por um momento ele vacilou. Seria tão simples... Abrir a boca e simplesmente perguntar.

- Nee, Gokudera-san...

- Não utilize o “san”, faz com que eu pareça mais velho — Gokudera brincava com o canudo do suco em seus lábios, batendo os pés no chão.

- Gokudera-kun...?

- Muito intimo!

O Guardião da Tempestade ralhou com Keiko, dizendo várias vezes para que ela o chamasse apenas de "Gokudera" sem nenhum dos honoríficos. A garota começou a rir na metade do ataque do rapaz, limpando o canto dos olhos ao vê-lo calar-se em seguida.

- Você é engraçado, Gokudera.

- Não, não sou.

O braço direito do Décimo ficou de pé. Ele já havia pagado o sorvete e o suco, então não haveria mais nada que o prendesse a garota. Desculpando-se mais uma vez pelo mal entendido, o homem de cabelos prateados avisou que iria embora, apenas para ver Keiko ficar de pé e dizer que o acompanharia até o lado de fora.

Os dois deixaram a sorveteria lado a lado, e pararam ao mesmo tempo. Enquanto eles saiam, outras duas pessoas entravam.

- Keiko-chan!

O Guardião da Tempestade não soube dizer se aquela foi uma grande ironia do destino, ou porque os deuses decidiram que ele teria a pior sorte do mundo naquele ano. Seu rosto estava inexpressivo, seus olhos sem nenhum tipo de movimento, e tudo o que ele conseguiu fazer foi menear a cabeça por pura educação enquanto era cumprimentado.

Era impossível que aquilo estivesse acontecendo. Namimori não era uma cidade tão pequena a ponto de encontros como aquele serem prováveis.

Por que, honestamente falando, quais as chances que Gokudera tinha de encontrar Yamamoto e sua namorada justo naquele dia?

O moreno pareceu visivelmente desconfortável com o encontro. Ao contrário do rapaz de cabelos prateados, o Guardião da Chuva não escondeu a surpresa, e seus olhos dançavam de Keiko para Gokudera. As duas garotas estavam em um canto afastado, soltando gritinhos e compartilhando algum tipo de confidência, mas que claramente dizia respeito aos dois rapazes, já que seus olhares eram direcionados a eles durante todo o tempo.

O braço direito do Décimo acendeu um cigarro e começou a andar na direção oposta, sentindo que seu trabalho estava feito.

- G-Gokudera! — Yamamoto estava ao seu lado poucos passos depois. — Para onde você vai?

- Para casa — Gokudera respondeu sem parar de andar. Para onde mais ele iria?

- Você vai deixá-la aqui? Isso é rude, Gokudera.

- Hã? — O Guardião da Tempestade parou de andar, virando o rosto e encarando as duas garotas que haviam parado de conversar e o olhavam com olhos cheios de expectativas. Por alguns segundos ele não se moveu, sem entender o que estava acontecendo. Quando a realização finalmente clareou suas ideias, o homem de cabelos prateados juntou as sobrancelhas e revirou os olhos — Não é o que você está pensando. Eu apenas fiz companhia por puro profissionalismo. Fui rude e ac---

As palavras morreram em seus lábios e a continuação não passou de um olhar frio na direção do moreno.

Sem perceber Gokudera começou a se explicar, como se devesse algum tipo de justificativa para Yamamoto. Aquela situação o deixou realmente irritado. Primeiro ele havia perdido preciosos minutos de seu tempo se desculpando com alguém que ele nem ao menos se importava. Segundo, encontrado o idiota ao lado da namorada, e terceiro, a explicação que começara serviu apenas para recolocar a expressão séria no rosto do moreno. Após a conversa no escritório do Décimo, aqueles olhos não voltaram a brilhar dessa forma até aquele momento.

- Não esqueça sua missão. Se desapontar o Jyuudaime eu não vou perdoá-lo.

Gokudera deu uma tragada no cigarro e colocou as mãos nos bolsos, voltando a andar. Seu carro estava há dois quarteirões dali, e ele só se sentiu realmente aliviado ao fechar a porta e deixar suas costas escorregarem pelo banco macio.

Era engraçado o rumo que as coisas tomaram. Por anos ele ouviu incontáveis vezes as declarações de Yamamoto, e por incontáveis vezes ele as desdenhou ou as ignorou. Ouvir "eu te amo" ou "Você é a minha pessoa especial" soavam quase como um "Bom dia" ou “Cuide-se”. A convivência, as conversas e a rotina o mimaram e o fizeram se acostumar com um futuro que sempre pareceu certo, como se até o seu último dia de vida as coisas continuariam as mesmas.

Encarando as mãos sobre o volante, Gokudera não pôde evitar pensar no que faria dali em diante. Os bares e a vida noturna não eram mais uma opção, ele havia tido o suficiente da última vez. Então o que restaria? Talvez o idiota estivesse com a razão. Talvez fosse hora do Guardião da Tempestade seguir seu exemplo. Uma boa mulher poderia se transformar em uma boa esposa.

Balançando a cabeça e dando partida no carro, o homem de cabelos prateados decidiu dar uma chance àquele tipo de pensamento. Ele não poderia passar o resto da vida estagnado em um mesmo ponto.

x

Gokudera cochilou por boa parte da tarde. A missão o deixou tenso, e mesmo não sendo um recluso como certo Guardião da Nuvem, ele não era muito fã de lugares cheios e badalados. Seu sofá naquela tarde foi seu abrigo, e ele teria dormido por mais algumas horas se o barulho de seu celular não o tivesse acordado.

Esticando as mãos até a mesinha ao lado de um dos braços do sofá, o homem de cabelos prateados pegou o aparelho e o levou até o ouvido, atendendo junto com um bocejo.

- Gokudera? — A voz soou longe.

- O que? — Outro bocejo. Os olhos verdes do Guardião da Tempestade se abriam e se fechavam devagar, ainda sonolentos.

- Você estava dormindo? Sinto muito.

- Yamamoto, o que você quer? — Não foi preciso muito para que Gokudera identificasse de quem era a voz. Assim que ouviu seu nome ser pronunciado ele soube. — Ou melhor, por que está me ligando? E a sua missão?

- Eu estou saindo de casa agora — O moreno riu do outro lado da linha.

- Aconteceu alguma coisa?

- N-Não... Nada — A hesitação do Guardião da Chuva fez o braço direito do Décimo sentar-se no sofá, despertando por completo. Definitivamente algo havia acontecido — E-Eu só queria saber o que você vai fazer na segunda.

- Hã? — Gokudera coçou a cabeça — Trabalhar, o que mais eu faria? É minha função estar ao lado do Jyuudaime em todos os momentos.

- Mas Tsuna lhe deu o dia de folga, achei que faria algo diferente.

- O dia de folga? — Aquilo era novo para ele. Até onde sabia a segunda era apenas mais uma segunda-feira. — Não estou sabendo de nada. De qualquer forma irei trabalhar e não sei do que você está falando.

A voz de Yamamoto calou-se por um momento. Quando retornou, a impressão que o rapaz de cabelos prateados teve foi que o moreno estava com o telefone muito próximo aos lábios.

- Você se esqueceu do próprio aniversário, Gokudera?

O Guardião da Tempestade arregalou os olhos e entreabriu os lábios. Setembro havia chegado e ele nem se quer notou a troca de mês. Seu aniversário seria em dois dias e a data passaria completamente despercebida se Yamamoto não o tivesse mencionado. E sim, Gokudera não precisou ser lembrado por Tsuna de que estaria livre do trabalho. Todos os anos o Décimo liberava seus Guardiões nas datas especiais.

O homem de cabelos prateados encostou a nuca no alto do sofá, encarando o teto. O celular ainda estava em seu ouvido, mas um estranho e confortável sentimento o fez quase sorrir. Ele esquecera como era incrivelmente agradável ouvir a voz do moreno pelo telefone, ainda mais sobre aquele assunto. Durante os anos que passaram juntos, era do Guardião da Chuva as ideias e incentivos para que eles comemorassem os aniversários. Jantares e passeios que sempre terminavam com horas ardentes no quarto. Não havia melhor maneira de passar o aniversário.

E mesmo sabendo disso, se Gokudera fizesse o mínimo de esforço para recordar-se, lembraria que naquele ano ele nem se quer ligou para Yamamoto quando foi a vez do moreno comemorar. O quão egoísta ele havia sido nesses meses era impossível de descrever.

- Hey, Yamamoto — O Guardião da Tempestade moveu os lábios devagar — Por que você perguntou o que eu faria na segunda?

Gokudera sabia a resposta.

Seu coração batia forte e rápido em seu peito. Era covarde. Era infantil. Era completamente ridículo.

Mas ele precisava ouvir. Ele precisava de uma migalha de esperança.

Yamamoto demorou alguns segundos para responder, e quanto finalmente falou, sua voz soou séria.

- Eu estava pensando, claro, se você não tiver companhia, que poderíamos fazer alguma coisa. Um almoço, um passeio, um jantar... Você escolhe, é seu aniversário.

O Guardião da Tempestade sorriu.

- Eu sei que o Jyuudaime me deu o dia de folga, mas a situação está séria e eu não conseguiria ficar em casa enquanto sei o quão preocupado ele está. Irei trabalhar, mas depois vou jantar na sua casa. Avise seu pai... E você paga — Gokudera cobriu o rosto corado com o braço livre, sentindo-se completamente idiota.

- M-Mesmo?! — A animação do outro lado da linha era contagiante. O sorriso do moreno fez até mesmo o Guardião da Tempestade sorrir. — E-Então está combinado. Eu estarei no escritório também e poderemos ir juntos para casa. Meu pai ficará muito feliz em vê-lo, Hayato, você não faz ideia. Bem, eu preciso ir agora ou vou me atrasar para a missão hahaha

- Você! — O homem de cabelos prateados quase gritou ao ouvir aquela parte — Não ouse atrapalhar a missão do Jyuudaime ou eu vou explodi-lo, Yamamoto!

- Hahaha por isso eu disse que já vou desligar. Boa Noite.

- Boa noite, tome cuidado.

- Eu irei.

O telefone não foi desligado naquele instante. Gokudera esperou alguns segundos para que o outro lado desligasse primeiro, mas tudo o que ouviu foi o silêncio além de uma leve respiração.

Quando seus dedos finalmente fecharam o celular, o Guardião da Tempestade suspirou e voltou a se deitar, sentindo o rosto queimar de tão vermelho. Sua resolução parecia ainda mais firme, e aquele telefonema serviu como incentivo.

Ao retornar para casa durante o começo da tarde, o braço direito do Décimo pensou bastante no assunto "namorada". Diversas mulheres passaram pela sua cabeça, mas quanto mais pensava, mais desmotivado e incerto ele se sentia. Ele não sabia como deveria começar, nem onde deveria ir para conhecê-las, muito menos como tratá-las em um relacionamento.

Seguindo para o quarto e procurando uma troca de roupas limpas, Gokudera se deparou com seu guarda-roupa. As roupas que pertenciam ao Guardião da Chuva estavam no mesmo lugar. Sua limpeza pessoal começara, mas ele não conseguiu se desfazer das coisas que pertenciam ao moreno. E foi ali, diante daquele guarda-roupa dividido que o homem de cabelos prateados tomou sua decisão.

Ele não precisava de uma namorada. Ele não queria uma esposa. Só havia uma pessoa capaz de fazê-lo feliz, e mesmo sabendo que suas chances foram terrivelmente desperdiçadas, Gokudera tentaria novamente. Ele não forçaria situações, ele não se insinuaria, ele não faria nada que não fosse de sua personalidade. Porém, se existisse a mínima chance de Yamamoto ainda sentir algo por ele. Se o moreno ainda o quisesse pelo menos um pouco, então o Guardião da Tempestade não perderia a oportunidade.

Deitado em seu sofá, Gokudera ainda podia ouvir seu nome ser dito por Yamamoto, ciente de que o idiota provavelmente não reparou que o havia chamado daquela forma.

Continua...