Capítulo 06

Gokudera recostou-se a mesa e pegou o maço de cigarros de um dos bolsos. Ele não se sentia muito a vontade em fumar na sala do Décimo, mas sabia que não conseguiria ter aquela conversa sem uma válvula de escape. A mesa servia como apoio para seu corpo e o cigarro acesso em seus lábios o manteria são e lúcido.

Yamamoto havia dado somente alguns passos à frente, colocando as mãos nos bolsos do terno, parecendo não saber direito como deveria se portar. Apesar de terem trocado algumas palavras, o silêncio retornou, dividindo a responsabilidade para o inicio da conversa.

- Eu ouvi que você tem trabalhado bastante — O Guardião da Chuva encarou as pilhas de papéis próximas aos sofás — Tsuna parece bastante cansado ultimamente.

- Eu sei. É culpa minha se o Jyuudaime não tem descansado como devia, mas amanhã termino tudo e ele poderá respirar tranquilamente.

O inicio da conversa não pareceu tão difícil. O assunto era completamente irrelevante, mas após ter aberto a boca e percebido que as palavras poderiam sair por seus lábios, Gokudera deu uma longa tragada no cigarro antes de continuar.

- Desculpe por aquele dia. Você foi embora muito rápido.

As sobrancelhas do moreno se juntaram momentaneamente. Sua expressão tornou-se séria, quase brava. Seus olhos desviaram para o chão, visivelmente incomodado com a menção daquela noite.

- Você não sabia que... Era eu, não é? — Yamamoto ergueu o rosto. O olhar sem brilho fez o Guardião da Tempestade tragar novamente o cigarro.

- Não. Até o momento que você apareceu na porta do quarto eu não tinha ideia de quem fosse.

A resposta do homem de cabelos prateados foi recebida de maneira surpreendente por Yamamoto. Ele apertou o maxilar e tirou as mãos dos bolsos, fechando-as em forma de punhos ao lado do corpo. Sua expressão era terrível. O Guardião da Chuva parecia irritado e ferido, e por duas vezes Gokudera teve a impressão de que ele queria dizer algo, mas estava se controlando para que as palavras não saíssem.

Assistir o moreno e sua reação chamou a atenção do braço direito do Décimo, que não entendia porque Yamamoto parecia se importar. Não era ele quem estava aos beijos com uma mulher nas últimas semanas?

- Então pelo que você está pedindo desculpas, Gokudera?

O Guardião da Chuva finalmente falou.

O homem de cabelos prateados apagou o cigarro no cinzeiro portátil em seu bolso, preparando-se para acender um segundo. Ele não poderia simplesmente dizer que só aceitou levar o estranho homem do bar para sua casa porque o individuo cheirava e se assemelhava ao próprio Yamamoto. Aquilo seria o mesmo que dizer "Olha idiota, eu não segui em frente. Eu não sou você. Eu não consegui. Eu falhei".

Não. Impossível. O orgulho de Gokudera jamais permitiria tal coisa. Aquela conversa não seria uma discussão. Eles já haviam estourado a cota de brigas, e tudo o que o Guardião da Tempestade queria era que as coisas fossem esclarecidas, assim ele poderia voltar a sua vida.

- Eu não sei por que você aceitou meu convite naquele bar, e sinceramente eu não quero saber os seus motivos. Cerca de nove meses atrás você disse que não teríamos mais esse tipo de relacionamento, então referente à isso eu peço desculpas. Se eu soubesse que era você eu jamais teria feito tal coisa.

A reação do Guardião da Chuva não mudou. Sua expressão ainda aparecia ofendida, e Gokudera procurava em sua mente alguma coisa que pudesse dizer para que as coisas ficassem menos tensas. O clima estava péssimo, e a atmosfera tão pesada que o braço direito do Décimo não estranharia se o moreno simplesmente tirasse a Shigure Kintoki de qualquer lugar e o cortasse em pedacinhos. Bem, ele merecia.

Os olhos que encaravam Gokudera não se assemelhavam em nada com o doce e gentil olhar que Yamamoto sempre direcionou a ele nos anos anteriores. Aquela época – os bons tempos onde ambos estavam juntos – nunca saia de sua mente. Ter aqueles olhos o encarando de maneira tão fria e distante era exatamente o que o Guardião da Tempestade precisava para tentar esquecê-lo.

- Então você realmente bebeu tanto que nem se quer lembrava com que passou a noite? — O Guardião da Chuva mordeu levemente o lábio inferior. Sua voz soou com uma pitada de sarcasmo dessa vez — Eu estou... Surpreso. Eu não conhecia esse seu lado, Gokudera.

O homem de cabelos prateados sentiu a veia em sua testa tremer, mas manteve-se impassível. Ele não cairia nas provocações. Ele não deixaria que uma nova briga acontecesse.

Yamamoto não era mais parte de sua vida, então não importava o que Gokudera fizesse, seu tempo livre e suas horas fora daquele escritório não diziam respeito a ninguém.

- Eu entendo — Aquela foi a única coisa que o Guardião da Tempestade conseguiu responder. Seu leque de respostas eram bem menos polidas. — Mas se for sobre isso que você queria conversar, então eu já me desculpei e po--

- Você entende? É mesmo? Onde? — O moreno deu um passo à frente, fazendo com que Gokudera tentasse dar um para trás, apenas para lembrar-se de que já estava praticamente sentado sobre a mesa. A reação de Yamamoto foi totalmente inesperada. Sua voz saiu alta e grossa, ecoando por todo o escritório. Seu rosto expressava um misto de decepção e sofrimento, e se aquelas palavras estavam saindo daquela forma era porque ele não conseguia mais se controlar.

O moreno sempre foi paciente, calmo e extremamente tranqüilo. Era de sua natureza deixar que sua espontaneidade tivesse sempre a vantagem, mas quando o assunto eram sentimentos negativos ou tristezas, o Guardião da Chuva simplesmente ficava mudo. Então, para alguém como Yamamoto estar falando aquelas coisas era porque seu limite havia chegado.

- Desde quando você passa noites em bares bebendo e convidando estranhos para o seu apartamento? Para a sua cama? É isso o que você ficou fazendo esse tempo todo na Itália? É essa a pessoa que você se tornou depois de todos esses meses? Eu olho para você e o que vejo não é nem a sombra do Hayato que eu conheci. É como se eu olhasse para um estranho. Você n--

- Não me entenda mal, Yamamoto...

Gokudera cortou o sermão, dando uma longa tragada no cigarro. Seu corpo vibrava de raiva, e faltava muito pouco para que ele não tirasse as dinamites dos bolsos e começasse uma briga ali mesmo. A cena lembrava em muito a briga nove meses atrás em seu apartamento. O moreno dizendo o que queria, enquanto ele ouvia e deixava as ofensas se acumularem em sua mente, até que tudo explodia como se as palavras possuíssem um rastro de pólvora. Sempre foi assim. Eles sempre discutiram, mas sempre encontraram uma maneira de fazer as pazes. Porém, os anos fizeram com que as brigas se tornassem mais frequentes e as tentativas de reconciliações mais raras. O último desentendimento foi a gota d'água, e ter aquele deja vu ia contra a ideia original que o Guardião da Tempestade tinha de resolver a situação.

Respirando fundo, o homem de cabelos prateados continuou:

- Isso não lhe diz respeito e eu não vou responder. Meses atrás você disse que sairia da minha vida e seguiria em frente — O braço direito do Décimo apontou o cigarro na direção do homem parado a alguns passos à sua frente — Eu fui para a Itália "à trabalho", e eu e o Jyuudaime demos o nosso melhor pela Família durante todo o tempo. O que eu fiz ou deixei de fazer não é assunto seu, da mesma forma como o que você fez ou faz não me diz respeito.

O Guardião da Tempestade tentava não se lembrar da cena do Colégio. Imaginar Yamamoto com àquela mulher era doloroso demais, e a última coisa que ele queria era que o moreno jogasse na sua cara que estava em um relacionamento.

Ele viu. Ele estava lá quando os dois se beijaram. Mas ouvir diretamente dos lábios do Guardião da Chuva seria um sofrimento extra. Algo totalmente desnecessário para um momento que já estava carregado o suficiente.

- Se você quer começar uma briga então vou pedir que se retire porque tenho muito trabalho a fazer. Não somos mais adolescentes aqui, então aja como um adulto. Você diz que eu mudei, mas você também não continua o mesmo. Todos mudamos, é o curso natural da vida. Viver no passado é uma opção sua que eu não compartilho. O que aconteceu entre nós acabou e espero que possamos agir de forma cordial na frente do Jyuudaime. Nunca fomos amigos e não pretendo mudar isso agora. Eu não tenho interesse na sua amizade, Yamamoto.

O final do discurso de Gokudera não foi totalmente verdadeiro. Ele não tinha interesse em ser amigo do moreno, mas por motivos diferentes do passado. Nos tempos de Colégio, o Guardião da Tempestade achava que ninguém poderia superar Tsuna no quesito amizade, então só haveria lugar para um amigo em seu coração.

Entretanto, seus motivos agora eram outros. Ele jamais seria uma daquelas pessoas que se humilhavam a ponto de passarem o resto da vida vivendo à sombra de outra pessoa, ficando feliz com migalhas. Se Yamamoto queria uma vida nova ao lado daquela mulher, então que fizesse isso longe dele, pois Gokudera não pretendia estender a cordialidade entre eles além das relações de trabalho.

O Guardião da Chuva ouviu a tudo sem questionar ou interromper. Quando seu nome saiu pelos lábios do homem de cabelos prateados, Yamamoto abaixou os olhos e encarou o chão por alguns minutos. O silêncio voltou a envolvê-los, mas dessa vez Gokudera não tinha intenção de quebrá-lo. Ele dissera tudo que pretendia, e pelo menos de sua parte o assunto estava encerrado.

O moreno voltou a encará-lo, e sua expressão já não demonstrava ira. Seus olhos pareciam cansados, e foi a primeira vez naquela noite que o braço direito do Décimo percebeu que havia finas olheiras debaixo de seus olhos.

- Agora eu compreendo e peço desculpas por ter me exaltado — O Guardião da Chuva esboçou um fraco meio sorriso que não pareceu nem um pouco verdadeiro. — Eu ultrapassei o limite. Não tocarei mais nesse assunto. Você está certo. Cada um possui sua própria vida agora. Nós nunca fomos amigos, mas espero que possamos trabalhar juntos daqui em diante pelo bem de Tsuna. Eu darei o meu melhor.

A ideia era incrivelmente animadora, mas não surtiu nenhum tipo de efeito em Gokudera. Em qualquer outro momento ele teria ficado radiante por alguém decidir trabalhar duro em prol do bem estar de seu Jyuudaime. Porém, ouvir aquelas palavras foi como se eles tivessem terminado oficialmente dessa vez.

A briga meses atrás terminou com Yamamoto indo embora. Não houve um adeus definitivo. Não houve explicações, pedidos de desculpas ou aquela espécie de entendimento mútuo. Os dois homens se entreolharam e quando o ar finalmente voltou a circular pelos pulmões de Gokudera, ele soube que não haveria mais volta.

A partir daquele momento Yamamoto não faria mais parte de sua vida.

- Bem, eu vou indo agora. Boa Noite, Gokudera.

O Guardião da Chuva acenou e deu meia-volta, abrindo e fechando a porta sem hesitar.

O homem de cabelos prateados permaneceu no mesmo lugar por cerca de dez minutos, impossibilitado de mover um músculo. Seu corpo parecia anestesiado, como se o que acabara de acontecer não fosse real.

Os olhos verdes piscaram e ele então mexeu as pernas, jogando fora o que restou de seu cigarro. Seus olhos estavam úmidos, mas Gokudera não chorou. Seu corpo virou-se e ele apoiou as mãos na mesa do Décimo, respirando fundo e buscando o controle de si mesmo.

Havia trabalho suficiente para uma noite inteira, e sabendo que o quanto antes terminasse menos trabalho Tsuna teria, o Guardião da Tempestade daria o seu melhor.

Quando o Décimo Vongola chegou ao escritório às oito horas em ponto no dia seguinte, a pilha de papéis não existia mais. Havia meia dúzia de relatórios em cima de sua mesa e um pequeno bilhete que pedia sua revisão e assinatura. Gokudera não estava no prédio, mas avisou que estaria prontamente de volta após o almoço.

O homem de cabelos castanhos suspirou e sorriu, agradecendo mentalmente o empenho e ajuda impagáveis de seu braço direito. Para compensar o trabalho de Gokudera, Tsuna decidiu fazer sua parte o quanto antes, decidindo beber apenas uma xícara de café antes de começar.

Deixando sua sala e seguindo pelo corredor, o jovem Décimo Vongola sentia-se animado, e por pouco não passou despercebido pelo escritório de um de seus Guardiões. Ele viu o carro de Yamamoto estacionado, e supôs que seu braço esquerdo havia chegado mais cedo do que ele. Há dias o Guardião da Chuva não aparecia, mas mesmo preocupado, Tsuna achou melhor esperar que o moreno desse o primeiro passo.

Batendo duas vezes na porta antes de entrar, o homem de cabelos castanhos esperava convidar seu amigo para juntar-se a ele para uma xícara de café.

Todavia, o que Tsuna viu provou que sua teoria para a aparição repentina de Yamamoto naquela manhã não era de todo verdadeira. O Guardião da Chuva dormia pesadamente em um dos sofás, trajando terno e gravata. O entorno estava bagunçado. Havia papéis espalhados pelo chão e a mesa estava desarrumada. Seu rosto estava coberto por um de seus braços, e após ver a cena, o Décimo saiu e fechou a porta com delicadeza, apertando os lábios com força para não gritar ao dar de cara com Reborn parado no corredor.

- Algo está acontecendo com seus Guardiões, Tsuna — O Arcobaleno parecia extremamente sério — Mas não temos tempo para isso. Hibari entregou o resultado da investigação e as coisas não parecem boas. Você pode se preocupar com seus amigos depois.

O Décimo Vongola acompanhou o Tutor e Hitman até sua sala, sentindo que toda a animação que experimentou ao chegar havia desaparecido. Ele precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa por seus amigos.

Ao sentar-se em sua cadeira, Tsuna começou a ler o relatório entregue por seu Guardião da Nuvem, ficando surpreso pelo conteúdo. Reborn sentou-se na beirada da mesa, esperando algum tipo de reação por parte do Chefe da Família.

- Dino sabe sobre isso?

- Ninguém sabe. Tentei ligar para o idiota, mas ele não responde. Nem Hibari conseguiu entrar em contato, mas acredito que ele saiba. Xanxus como sempre não responde, mas deixei recado com Squalo e ele parecia já ter conhecimento sobre o assunto.

- Isso é pior do que eu pensava.

Tsuna passou as mãos nervosamente pelos cabelos.

Como sempre o Arcobaleno tinha razão. O problema pessoal de seus amigos teria de esperar. O assunto agora era muito maior e envolvia o seu outro lado. Aquele que assumiu anos atrás que faria o que fosse preciso para proteger o maior número de pessoas possível.

Continua...

Notas finais
A Yooki me fez lembrar de um fanart do Gokudera chorando. Resolvi compartilhar porque achei muito bonito :3
http://bit.ly/i35JCA