Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
19 Não Faça O Que Eu Digo, Não Faça O Que Eu Faço!
Notas iniciais
– Perdoar Bruce... até parece! – Alice resmungava consigo mesma enquanto finalmente avistava sua casa, depois de uma longa e demorada caminhada. Ultimamente seus passos, e a distração que seu ritmo constante proporcionava, provaram-se grandes aliados para esvaziar a cabeça de Alice das lembranças que ela tanto queria esquecer.
Seus pés latejavam com intensidade, certamente já formando possíveis bolhas devido ao esforço recente de seu longo e atormentado 'passeio'. Ignorou a dor e começou a procurar pela chave em sua bolsa – extremamente desorganizada –, levando alguns minutos a mais para encontrá-la. Depois de finalmente girar o metal na fechadura e empurrar a maçaneta, adentrou em sua casa, ainda resmungando sozinha com as recordações passeando pela sua mente.
– Ainda se eu fosse tão estúpida quanto o Harvey... – a frase perdeu-se no ar, inacabada, e Alice sentiu o corpo inteiro enrijecer e congelar com a cena que viu a míseros metros diante de si. A chave escorregou de sua mão, provocando um leve som do baque entre o metal e o piso.
Coringa estava ajoelhado no centro da sala acariciando levemente a barriga de Capitu com a ponta afiada de uma larga faca. Olhou para o rosto de Alice, sorrindo e mantendo o objeto cortante deslizando agora pelo pescoço da cachorra, que parecia alongar-se de prazer com o carinho, sem saber que ele poderia ser letal dependendo da pressão exercida.
– Até que enfim você chegou! Já estava ficando impaciente com toda essa demora – disse, com um tipo de calma e crueldade na voz que esconde uma catástrofe de proporções incalculáveis – Pensei que ia perder o espetáculo! – voltou sua atenção para a faca perto do maxilar de Capitu, que estava inerte ao lado do Palhaço. Tão imóvel que poderia até estar...
– Deixa ela em paz – avisou, conseguindo reencontrar sua voz, apesar de estar um pouco irreconhecível e aguda.
Ele inclinou a cabeça em resposta, como se fosse um garotinho curioso em busca de uma explicação complexa.
– Você não está em posição de exigir nada! A não ser que exija algo que eu queira lhe dar... – riu, fitando-a como se estivesse faminto e visse em Alice um banquete.
– Ok, vamos acabar de uma vez com isso! – deixou que sua bolsa caísse no chão e começou a estralar o próprio pescoço, como um tipo de aquecimento – O seu problema é comigo, Libélula, então pare de tentar me atingir através de outros. Cai dentro, palhaço! – disse, com os punhos cerrados em frente ao seu rosto, e dando pequenos pulinhos em aquecimento, o que tornava a cena ainda mais ridícula.
Coringa gargalhou, debochando.
– Não seja estúpida, Alice... Eu posso acabar com você a qualquer hora!
– Estúpida é a senhora sua avó! – disse, exaltada – E se você fosse tão competente assim, Senhor Palhaço, já teria conseguido me matar há um bom tempo!
– O que sugere que talvez eu não tenha a intenção de te matar ainda, Docinho – disse pausadamente, como se fosse um professor explicando uma difícil lição a um aluno com sérios problemas de aprendizado.
– Certo, primeiro: não me chame de Docinho, isso faz eu me sentir gorda. Segundo: não use esse tom comigo, parece que eu sou deficiente mental, e terceiro...
– “...não me olhe desse jeito que eu me sinto uma puta...?” – Coringa tentou adivinhar, divertindo-se.
– Bom, não era isso... mas serve também! – disse ao reparar na forma possessiva e maliciosa com que ele a encarava. Balançou a cabeça, tentando espantar as próprias impressões e continuou – Na verdade eu ia dizer que não vou cair nesse seu joguinho. Você está usando essa desculpa para esconder sua incompetência na operação “Piores Maneiras de Destruir a Vida da Alice”, que até agora tem sido um fracasso miserável!
– Será mesmo? – levantou uma sobrancelha, e logo em seguida voltou a acariciar a cachorra, que ainda estava exatamente no mesmo lugar, e os dedos de Coringa dançavam com a faca sobre seu pelo macio – Porque eu posso pensar em meios muito mais eficazes para devastar sua vida aos poucos, adiando sua morte ao máximo. Tem noção do quanto é delicioso destruir uma vida sem necessariamente tirá-la?
Alice percebeu a ameaça evidente direcionada à Capitu camuflada naquelas carícias com o gume afiado, e tentou de todas as formas ganhar tempo para que as engrenagens enferrujadas e lentas de seu cérebro começassem a funcionar. Não ousou aproximar-se para não correr o risco de irritar o Palhaço.
– Se sua obsessão não é me matar, então como explica essa cicatriz? – apontou para o pescoço, onde uma fina linha rosada ainda mantinha-se visível.
– Eu tinha tudo sob controle – começou a andar durante a explicação, finalmente se afastando de Capitu. Quando ele não estava mais tão perto da cachorra, Alice correu para seu lado, aliviada, examinando cada parte de seu corpo à procura de algum machucado – No dia em que lhe marquei com esta bela cicatriz, queria testar seu limite. Ver até que ponto o prazer se sobreporia à dor, e como você reagiria à mescla de sensações contrárias. É isso que nós dois representamos, Alice. Uma mistura perfeita de sensações opostas, que quando estão juntas são inebriantes, mas separadas não significam absolutamente nada.
Alice sabia exatamente o que Coringa queria dizer, por mais que tentasse negar essa compreensão para si mesma. Aquela fina barreira entre dor e prazer que ele a fez quebrar, tornou o momento complexo, impossível de traduzir. Todos os reflexos desobedientes que seu corpo tinha quando estava perto dele, misturados à adrenalina que a dor proporcionou, só fizeram com que Alice ficasse ainda mais perigosamente viciada ao seu toque. Ela estremeceu ante aquele mero reconhecimento.
– Então – tossiu brevemente para que sua voz saísse mais firme e controlada, tentando fazer o possível para não deixar Coringa perceber que ela entendia perfeitamente a mensagem de seu comentário –, se eu não tivesse chutado o “Coringuinha” na hora, você não teria rasgado minha garganta até me matar? – perguntou, cética.
– Não – sorriu, deixando à mostra seus dentes amarelados. Aquilo sim era um típico “Sorriso Amarelo” –, rasgaria apenas o suficiente.
– Puxa, fico lisonjeada – revirou os olhos, irônica, e logo em seguida retomou o assunto – Mas espera aí... e quando você me jogou do 15° andar? A gravidade estava sob seu controle também? Explica essa agora! – desafiou, triunfante.
– Aquilo foi só uma distração pra tirar o Batman da festa... Sinceramente, eu esperava que você conseguisse chegar a essa conclusão sozinha – balançou a cabeça, fingindo estar terrivelmente decepcionado.
– Bom, é que caras normais, quando querem se livrar de alguém, não jogam outras pessoas de um prédio, sabe... Você podia simplesmente ter falado: “Hey, Batman, está passando um caminhão carregado de sangue lá embaixo!” – tentou imitar a voz de Coringa – Pronto, problema resolvido, ele sairia na mesma hora!
O Palhaço riu, começando a aproximar-se de Alice – que percebendo o movimento fez o possível para se distanciar de Capitu, para que o psicopata não se sentisse tentado a ameaçá-la novamente. Coringa interpretou o gesto da hippie como medo pela sua tentativa de aproximação. Sorriu, apressando ainda mais o passo.
– Eu vim fazer uma proposta de emprego para você. – de tudo o que Alice esperava ouvir do psicopata, aquela era sem dúvida a mais estranha de todas.
– Hein? – não segurou o riso – Não estou meio velha pra entrar pro circo?
Coringa não deu a menor atenção ao comentário da hippie, e continuou falando como se não houvesse sido interrompido.
– Você podia largar essa vidinha medíocre que tem aqui, e vir comigo. Estou precisando suprir o desfalque de médicos no meu proletariado... – quando Alice se deu conta, ele já estava próximo demais, desenhando um sorriso puramente maldoso em seu rosto.
– Acho que você confundiu minha profissão... eu sou só médica, e não médica veterinária!
Esperou pelo golpe, ou no mínimo algum castigo por ter proferido tais palavras, mas na verdade o que veio foi a risada alta e descontrolada de Coringa, surpreendendo-a.
– Nós somos muito parecidos, Alice! Você e eu só nos importamos com o momento, nunca medimos as consequências futuras. Alguém como você não foi feita para viver seguindo regras – nesse instante Coringa já desafiava as leis da física que diziam que dois corpos não são capazes de ocupar o mesmo espaço – Eu posso abrir seus olhos para toda a dissimulação que ronda a convivência entre as pessoas. Posso te mostrar o quanto as leis são falhas, posso te emancipar dessa prisão camuflada que o sistema nos impõe. Comigo você vai experimentar o que é ser livre de uma forma completa, sem regras, sem nada que a prenda...
Alice encarava fundo nos olhos do seu possível carrasco, perguntando-se se aquilo era mais um de seus elaborados truques ou piadas. Depois de muito se esforçar, conseguiu formular uma frase que parecia fazer sentido, mas ela tinha suas dúvidas... quando Coringa se aproximava daquele jeito parecia que tudo perdia um pouco da razão.
– As regras são requisitos básicos para uma boa convivência, e eu não me importo de viver com elas...
Coringa gargalhou, e Alice pôde sentir o hálito quente vindo de sua boca, de tão próximo que estava. Ela nem percebeu que ficou totalmente imprensada na parede, sem qualquer lugar para correr caso o Palhaço tentasse alguma coisa. Mas a questão era: Ela tentaria escapar?
– Isso foi um conceito que te obrigaram a aceitar. Você não teve opção, todos te programaram sobre o jeito conveniente de ser, pensar, agir... mas no fundo você rejeita essas regras. Você não suporta não ter escolha. Por isso você sempre procura fazer parte da minoria, por isso sempre quer se isolar do resto do mundo...
– Posso saber como, de repente, você acha que sabe tanto assim sobre mim? – desviou-se do assunto principal, tentando ocultar a surpresa pelas verdades que reconheceu naquelas palavras.
– Eu sei o suficiente sobre você, Docinho – sussurrou perto demais, beijando seus lábios com força, e terminando o contato tão repentinamente quanto começou. Sua voz saiu um tanto sedutora e envolvente quando voltou a encará-la daquele jeito sufocante – Inclusive sei sobre o jovem William, seu inocente irmão caçula. É um ótimo garoto, não acha? – seu sorriso foi sombrio, e uma risada baixa escapou de sua garganta quando percebeu as sobrancelhas de Alice se unirem em total surpresa. A hippie até pôde sentir o peito do psicopata tremer sutilmente com a risada, de tão próximos que estavam.
– Isso é uma ameaça? – arfou, quase gaguejando, perplexa por ele saber da existência de seu irmão, quando quase ninguém sabia.
– Não! – fingiu-se ofendido – Eu chamaria de... – fez uma pausa, inclinando a cabeça levemente, como se procurasse pela palavra certa – Não, você está certa, é mesmo uma ameaça! – gargalhou com vontade – Mas tente pensar que é um estímulo a mais para você aceitar a minha proposta – sorriu amplamente.
– Aceito! – ela disse na mesma hora.
– Sério? – Coringa pareceu levemente surpreso.
– Lógico que não, palhaço – riu, e logo em seguida repetiu as palavras que ele disse para ela naquele mesmo dia, reproduzindo o mesmo tom de decepção – Eu esperava que você conseguisse chegar a essa conclusão sozinho.
– Então você escolheu medir forças comigo... – gargalhou novamente, divertindo-se – Não é muito sensato e muito menos inteligente de sua parte, mas eu gosto! – posicionou os lábios bem rentes ao seu ouvido para o que disse a seguir, sem ultrapassar o limiar de um sussurro provocativo – Mas é bom que você saiba que está começando um jogo comigo, e que eu nunca aceito perder. No final das contas, você vai se submeter a minha vontade do mesmo jeito.
– Se enganou, meu bem, pode vir quente que eu estou fervendo!
O psicopata deixou que seus lábios formassem novamente um daqueles sorrisos sombrios. Quase era possível vê-lo tremer de expectativa, e isso realmente a assustou... Coringa, sem mais nenhuma palavra – mas ainda com um brilho sádico nos olhos – afastou-se de Alice, que o olhava com desconfiança. Achava impossível que ele fosse embora assim, sem sua vingança, mas Coringa continuou caminhando até a saída, e quando abriu a porta, olhou uma última vez para a hippie, ainda esboçando um sorriso estimulado.
– Você escolheu o jeito mais difícil pra você e o mais divertido pra mim! Espero que ainda esteja inteira quando eu te derrotar – lambeu os lábios, sentindo uma satisfação extra quando voltou a falar – Que os jogos, de fato, comecem!
Alice ainda ouviu sua risada abafada se afastando conforme o Palhaço saiu de sua casa, e foi impossível não sentir arrepios com aquele som ameaçador. Será mesmo? Foi tão fácil assim recusar a sua oferta? Sem nenhuma nova cicatriz, sangue ou mais provavelmente sua morte?
Talvez não a sua morte, mas a morte de alguém que amasse... instintivamente pensou em Will, e um calafrio medroso percorreu cada centímetro de sua pele. Agora ele não estava seguro... Alice não suportaria perder a pequena “família” que havia acabado de ganhar.
Sem pensar, saiu correndo de sua casa à procura do Palhaço, olhando freneticamente para todos os cantos na esperança de encontrá-lo e tentar reverter essa situação de alguma forma, mas já não havia nem sinal dele, em lugar algum...
– Como ele saiu tão rápido? – praguejou, repleta de frustração, depois de alguns minutos revirando o local sem sucesso.
O pânico de imaginar Coringa se vingando através de Will estava fazendo com que ela perdesse de vez o controle sobre seu bom-senso. Como algo poderia ser arrancado tão rápido de sua vida, se ela mal havia ganhado? Tentou acalmar-se com respirações profundas, concentrando-se no próximo passo que deveria dar agora.
“Avisar a polícia?” – descartou essa hipótese antes mesmo que o pensamento se materializasse por completo em sua cabeça – “E se eu procurar por ele naquele depósito abandonado?”
Não seja besta, Alice – uma voz preencheu a confusão de seus pensamentos, repreendendo-a – Com certeza ele não fica mais lá depois que você descobriu aonde era...
– O que eu faço então? – perguntou alto, tendo plena consciência de que estava conversando com uma voz que não existia, e que talvez esse fosse o primeiro passo para a jornada da loucura. O mais perturbador nem era falar com essa vozinha em sua cabeça, era ouvir as respostas nitidamente, como se realmente estivesse conversando com alguém...
Peça ajuda ao Bruce.
– Você está louca? Vou te chamar de Débie, ok? Escuta, Débie, eu prefiro amputar minha própria cabeça a pedir alguma coisa pra'quele imbecil!
Você vai ter que escolher entre seu orgulho e seu irmão.
A voz em sua cabeça foi irredutível com aquelas palavras, e antes que Alice pudesse replicar, ou sequer cogitar tal hipótese, o telefone tocou, fazendo a hippie sobressaltar-se com o barulho agudo do aparelho. Correu para atendê-lo.
– Alô? – sua voz era apreensão pura.
– Senhorita... Alice Rubídia de Assis Romanov III? – um homem perguntou, hesitando brevemente ao pronunciar aquele estranho nome em voz alta.
– Sim, sou eu... – disse baixinho.
– Aqui quem fala é o Policial Watson – apresentou-se – Sua presença aqui na delegacia está sendo requisitada imediatamente.
O coração de Alice palpitou, esperando pelo pior.
“Eles sabem que Coringa esteve aqui! Aposto que minha casa deve estar cheia de escutas policiais escondidas em cada canto...” – pensou, sentindo raiva e medo da certeza repentina que experimentou de que aquilo era verdade, mas logo em seguida ponderou melhor a situação – “Mas isso não é uma coisa ruim... agora eles sabem que todo o meu envolvimento com Coringa não passou de um terrível acidente!”
Toda aquela onda ininterrupta de pensamentos e sinapses não levou mais do que alguns poucos milésimos de segundo para percorrer a cabeça da hippie, que começou a sentir que se tranquilizava de forma lenta, porém contínua.
– Entendi – tentou parecer calma e inocente – apareço aí em um instante.
– A senhorita não quer saber o motivo? – o policial Watson estranhou a pouca curiosidade da mulher. Normalmente ele precisava explicar inúmeras vezes a razão de suas intimações informais.
– Não precisa, obrigada! Já estou a caminho – Alice encerrou a ligação, e Watson sentiu-se extremamente grato por isso. Seu honorário já estava no fim, mas o trabalho estava muito longe de acabar. Aquele seria um dia excepcionalmente longo...
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“Pelo menos agora que eles já sabem que eu sou inocente, posso pedir que eles protejam o Will!” – Alice pensou, parada diante da delegacia e encarando o enorme letreiro do distrito policial, como se ele se traduzisse em uma sentença de morte. Detestou relembrar todos os momentos que passou ali, e praguejou intensamente ao ver-se prestes a passar mais uma vez por aquelas portas de vidro. Suspirou lentamente, adentrando de vez no seu prédio de tortura particular.
Já havia se familiarizado tanto com aquele ambiente, que nem precisou ser acompanhada por ninguém, embora fosse o regulamento. Simplesmente saiu andando até a sala de Gordon, e um policial imediatamente foi atrás da hippie, para impedi-la.
– Espere! – gritou o homem – Você é a senhorita Alice, não é?
Ela virou-se para encará-lo. Ainda estranhava o fato de as pessoas reconhecerem-na o tempo todo. Malditos jornais!
– Sim, sou eu!
– A senhorita está indo para a sala errada. Venha, eu te acompanho – os dois começaram a tomar uma direção oposta.
– Eu não vou falar com o Comissário? – espantou-se.
– Não! – o policial riu, achando graça naquela pergunta – Esse tipo de serviço não é responsabilidade do Comissário.
– Não é? – Alice ficou confusa – Mas ele estava tão obcecado com o meu caso...
O policial nada disse, apenas abriu a porta de uma sala bem menos convidativa e arejada, convidando-a a entrar.
– Pode esperar um momento? Eu vou chamar o policial encarregado dessa área.
– Tudo bem... – ao dizer isso, o homem fechou a porta e saiu a passos rápidos dali, visivelmente apressado – Que estranho! Talvez Gordon não tenha mais interesse porque já sabe que eu sou inocente. Aposto que o Senhor Cabeça de Batata está me evitando para não precisar se desculpar pelas acusações – resmungou para si mesma, cruzando os braços enquanto fungava em desprezo.
Esperou não mais do que dois minutos, quando o policial Teógenes entrou na sala, com um enorme sorriso de contentamento. A hippie surpreendeu-se ao ver que era ele quem estava cuidando do caso.
– Tenho ótimas notícias pra você! – saudou-a com um olhar brilhante, parecendo satisfeito consigo mesmo.
– Eu sei – respondeu, retribuindo o sorriso –, mas eu adoraria saber em que momento vocês começaram a me vigiar...
O sorriso do policial desapareceu na mesma hora, e ele ficou claramente confuso com o comentário de Alice.
– Vigiar você? De onde tirou isso?
– Não precisa disfarçar! De que outra forma vocês saberiam que eu sou inocente? Tem escutas na minha casa? – arriscou, ansiosa pela resposta.
– Sinceramente, eu não sei do que você está falando! O policial Watson não explicou a razão da sua presença aqui hoje quando lhe telefonou?
– Bom, não... eu pensei que sabia qual era o motivo...
– Tudo bem, eu explico então. Lembra-se do retrato falado que eu fiz sobre o homem que invadiu sua casa? – Alice assentiu, sentindo-se frustrada por perceber que havia se enganado sobre a causa de terem-na chamado – Nós encontramos um homem exatamente com aquelas características!
Os olhos da hippie se arregalaram, e sua voz saiu levemente desesperada.
– O quê? Eu acho que não entendi...
– Encontramos o bandido – repetiu, sentindo-se cada vez mais confuso. Ele esperava outra reação por parte de Alice ao ouvir uma notícia daquela – agora só precisamos que você faça o reconhecimento do homem para que possamos prendê-lo...
– Espera, calma aí – tentou organizar os pensamentos – deixa eu ver se entendi: você está me dizendo que encontrou um homem albino com todas as descrições que eu dei naquele dia? O bigode de Hitler, os piercings, até a tatuagem de crânio escrita “Prerigo”?
– Exatamente. Foi por isso que você veio dar queixa, não foi? Para que encontrássemos o bandido... – elucidou, unindo as sobrancelhas em uma única, marcada pela desordem do próprio desentendimento.
– Claro! – Alice tentou sorrir, mas sem sucesso.
– Ótimo. Então vamos, ele já está na sala para o reconhecimento.
“Não acredito nisso....” – Pensou, enquanto caminhavam em silêncio para a outra sala – “Como é que algum imbecil tatua ‘Prerigo’ no braço e deixa crescer um bigode à la Hitler? Um cara desse merece ser preso, não merece?”
A voz na sua cabeça voltou a atacar, impiedosa:
Se você não admitir que esse homem é o assaltante, todos terão mais um motivo para desconfiar de você!
– Cala a boca, Débie! – disse, com raiva.
– O quê? – Teógenes a olhou desconfiado.
– Ãhn... nada! Desculpe, eu pensei alto.
O policial destrancou a porta, dando passagem para Alice entrar. Imediatamente a hippie viu o suspeito através de uma enorme tela de vidro, que ela sabia que não permitia nenhuma visão da sala em que estava para o suposto “criminoso”.
Realmente o homem tinha todas as características principais que Alice havia descrito em sua última visita à delegacia. Seus lábios se abriram de surpresa, e de repente ela se deu conta do quanto estava tensa com aquela improvável situação. Teógenes nem sequer percebeu a reação adversa da hippie.
– Certo, agora você só precisa assinar alguns papéis para que possamos prendê-lo oficialmente... – ele empurrou a papelada para perto de Alice, juntamente com uma caneta.
– Eu não posso – disse, tomando sua decisão.
– Não pode?
– Esse não é o assaltante que invadiu a minha casa! – cuspiu, em um único fôlego, antes que se permitisse mudar de ideia.
– É claro que é esse homem! Suas descrições foram extremamente precisas, ninguém mais corresponderia a esses traços! – Teógenes argumentou, imaginando que aquele comentário fosse uma piada de mau gosto.
– Eu sinto muito. Não é esse.
– Está falando sério? – ele parecia incrédulo.
– Estou sim – desviou os olhos em direção ao chão.
– Como pode ter certeza? Você disse que não conseguiu ver o rosto dele com clareza...
– Não é ele – repetiu, encarando o policial nos olhos – Isso é tudo?
Teógenes ficou sem palavras por intermináveis segundos, até que disse, triste:
– Na verdade não. Você terá que dar novas descrições que excluam esse suspeito do crime. Até agora todas as características foram fiéis, então você terá que explicar o porquê de não ser esse o criminoso que invadiu sua residência, para que assim possamos começar uma nova busca com detalhes mais fiéis.
– Eu tenho que fazer isso agora? – perguntou, nervosa, sem saber que explicação daria.
– Bom, de acordo com o protocolo padrão deveria ser agora, mas devido às circunstâncias teremos que marcar para outro dia, talvez amanhã.
– Que circunstâncias?
– Você não ficou sabendo? A polícia de Gotham fará um desfile hoje em homenagem ao aniversário da cidade. Logo em seguida o prefeito faz seu tradicional discurso... – mudou repentinamente de assunto após encarar a hippie por um momento, sentindo-se cansado – Nós entraremos em contato com você novamente.
Alice percebeu que o policial estava realmente decepcionado, e não pôde evitar o sentimento de culpa e pena por ter mentido para ele e o induzido ao erro. Mas também não podia permitir que um homem inocente fosse preso por causa de uma terrível coincidência, por mais que um homem daqueles merecesse a prisão apenas pela alusão feita a Hitler.
Saiu da delegacia, totalmente agradecida por esse Desfile ter adiado o próximo encontro – que certamente seria desastroso – com os policiais.
Parecia até ser uma ótima oportunidade para distrai-la um pouco daquele enorme circo em que sua vida se transformava. Um circo que a cada dia pegava mais fogo... Inspirou profundamente, sentindo seus pulmões se encherem com rapidez, e animando-se com a perspectiva de ingerir uma dose de normalidade, por menor que fosse, simplesmente por assistir ao evento.
Bastou chegar perto o bastante do local em que se celebraria o aniversário da cidade que Alice notou os cuidadosos preparativos para o tal desfile tomarem forma. Tudo parecia terminado, apenas poucos detalhes estavam sendo revisados para que nada acabasse saindo dos eixos na comemoração do aniversário da cidade. A tensão dos trabalhadores em volta deixava claro que o evento estava prestes a começar, e qualquer erro seria inadmissível.
Aquele deveria ser um momento de esperança para os habitantes de Gotham, algo que pudesse fazê-los esquecer o caos que havia tomado conta da cidade desde que o Palhaço resolveu transformá-la em um picadeiro. Um picadeiro totalmente controlado por ele, cuja única perspectiva de conserto estava em Batman.
Mas hoje seria diferente... todo o sentimento de terror e desordem inspirado por Coringa iria esvair-se, mesmo que por poucas horas. Nada mais seria do que uma doce fuga da realidade, onde provavelmente o prefeito diria aquilo que todos queriam e necessitavam ouvir: Que tudo estava sob controle, que tudo ficaria bem...
E mesmo sabendo que não passava de ilusão, Alice queria sentir a confiança das pessoas, queria compartilhar dessas poucas horas de esperança que significaria esse desfile. Ficou sentada, apenas observando cada último retoque minucioso nos detalhes. Tirou o celular da bolsa e discou automaticamente o número que já havia decorado.
Três toques. Nada. Cinco toques... nada!
“Atende, Will! Por favor, eu preciso saber se você está bem...” – mordeu o lábio inferior, odiando o medo que se formou dentro de si por causa daquela espera agonizante entre um toque e outro, e ao mesmo tempo sentindo-se incapaz de encerrar a chamada.
– Alice? – a voz de Will foi como música para seus ouvidos, sedentos por aquele som.
– Will! Graças a Odin! Você está bem? Aconteceu alguma coisa? Por que demorou tanto para atender? – foi incapaz de conter as incontáveis perguntas, e logo ouviu a risada confusa do irmão no outro lado da linha, e imediatamente tranquilizou-se. Sim, ele estava bem! Mas por quanto tempo?
– Eu estou ótimo! Não deveria estar?
– Desculpe, só fiquei preocupada com a demora... – tentou se explicar, fazendo uma careta ao imaginar a expressão descrente do irmão.
– Você está levando muito a sério essa história de irmã mais velha, sabia... – comentou bem-humorado, ainda rindo.
– Tá, foi mal! – riu também – Vou tentar não pegar muito no seu pé... só queria saber se você vai assistir ao desfile hoje.
– Vou sim. Já estou a caminho da cidade. Quer que eu passe na sua casa e te dê uma carona?
– Não precisa, obrigada! Eu já estou aqui... A gente se vê então?
– Com certeza! Até mais tarde.
– Até! – “E tente não se meter com nenhum psicopata até chegar aqui!”
Desligou o aparelho, voltando a prestar atenção no alvoroço “Pré-Desfile”. Todos os preparativos estavam prontos, mas mesmo assim tudo era revisado novamente. Várias pessoas já estavam no local esperando pelo início, acumulando-se em uma pequena aglomeração ainda dispersa... talvez, assim como Alice, todos estivessem sedentos por um pouco de distração. Por um pouco de qualquer coisa que não fosse o medo e a apreensão que tingiam aqueles dias obscuros.
A multidão já se aglomerava em volta do palanque, aonde o prefeito faria seu discurso, e os próprios policiais estavam por perto, revendo suas posições e ocupando-as conforme o que havia sido designado para cada um.
Foi quando ela a viu! Tudo o que conseguiu vislumbrar – em meio àquela aglomeração já formada – foi uma cicatriz de proporções e formas alarmantes, que repuxava o rosto do suposto policial em um sorriso doentio e nada alegre.
Sua retina capturou apenas uns poucos segundos daquela visão, mas mesmo assim ela sabia que era o suficiente para fazê-la reconhecer o dono daquelas cicatrizes. A hippie podia jurar que viu Coringa ali, infiltrado entre os policiais fardados, mas ela o perdeu de vista antes mesmo que conseguisse piscar.
A hippie deu um pulo na mesma hora, tentando encontrar novamente a imagem camuflada do Palhaço em meio às fardas dos policiais, mas sua procura foi totalmente em vão. Nem sinal dele.
– Que ótimo, agora além de ouvir vozes eu estou tendo alucinações do Bozo... – seu coração estava disparado, mais uma vez. Como Alice ainda não teve um infarto fulminante era um grande mistério, ainda mais com todas aquelas mudanças bruscas em sua frequência cardíaca.
O espetáculo já ia começar, e nem sinal de seu irmão... o prefeito subiu no palanque ao som dos aplausos animados dos residentes de Gotham, apenas Alice permaneceu impassível ao alvoroço... ela mal conseguia se mexer de tão tensa que havia ficado depois da sua breve, porém nítida, alucinação.
_ Muito obrigado pela presença de todos aqui – o prefeito disse, com um enorme sorriso estampado no rosto – hoje é um dia muito especial para nós! Nossa querida e aconchegante cidade completa mais um aniversário...
“Aconchegante? Ele podia usar uma lista interminável de palavras, menos essa... Circo, manicômio, berço de psicopatas, caverna de morcegos, picadeiro...” – Alice se perdeu em seus devaneios sobre possíveis descrições para a cidade, não prestando a menor atenção à continuação do discurso do prefeito Garcia.
Foi quando ela o viu de novo. E agora a hippie teve certeza de que era Coringa que estava ali, disfarçado de policial. Tentou abrir espaço entre a multidão, sem ousar perdê-lo de vista, mas era um feito praticamente impossível. Conseguiu vê-lo com clareza dessa vez. Seu rosto – totalmente limpo – estava inclinado para baixo, certamente para tentar esconder o tão temido “sorriso” gravado em sua pele. Assim como todos os outros policiais, estava fardado, e... segurando uma metralhadora! Ok, isso não tinha como terminar bem...
– O que você está aprontando dessa vez, palhaço? – perguntou a si mesma, erguendo o pescoço para não perdê-lo de vista como da primeira vez que o viu.
Ao término do discurso do prefeito, as homenagens dos policiais começaram. De forma sincronizada, todos apontavam a arma para o céu e em seguida disparavam um único tiro, de acordo com as ordens e comando de um superior – o Comissário Gordon.
Nesse momento Alice notou o leve sorriso repuxando os lábios de Coringa, quase imperceptivelmente, além do brilho travesso que percorreu seus olhos – o mesmo brilho que ilumina o rosto de uma criança logo antes de aprontar – e soube na mesma hora que a confusão estava formada.
Arriscou uma nova tentativa de aproximar-se novamente do grupo de policiais para avisar alguma das autoridades sobre a presença de Coringa. Porém a aglomeração havia ficado tão densa, que era impossível penetrá-la mais, ou até mesmo retroceder...
Mais uma vez, o Comissário Gordon ordenou:
– Preparar! – todos posicionaram as armas à sua frente – Apontar! – as metralhadoras foram inclinadas em direção ao céu – Fogo!
Alice viu toda a cena passar diante de seus olhos em câmera lenta, registrando cada simples movimento do Palhaço e focando-se apenas nele. Enquanto todos os outros policiais atiravam para cima, na mesma posição, Coringa desviou a arma com movimentos precisos, apontando-a diretamente para o prefeito e puxando o gatilho.
E por intermináveis segundos atordoados, ninguém, exceto Alice, soube explicar o ferimento repentino no ombro do Prefeito Anthony Garcia. Todos procuravam – confusos e assustados – pelo autor do disparo, até que viram o Palhaço abrir espaço pela multidão, juntando-se a vários capangas, que antes pareciam meros espectadores e agora brandiam suas armas desafiadoramente.
Gordon imediatamente reagiu ao ataque inesperado, montando um grupo armado dos melhores policiais para perseguir Coringa, porém seria difícil caçá-lo com toda a gritaria e obstrução de passagem criada pela presença do psicopata, mas mesmo assim montaram sua busca e foram ao seu encalço, trocando tiros com os capangas.
O prefeito estava caído no chão, e todas as atenções agora estavam voltadas para ele, mas tudo o que Alice menos desejava no momento era presenciar o desfecho daquele atentado. Saiu o mais depressa que pôde da catástrofe que se instalava ali, afastando-se com dificuldade, porém conseguindo aumentar o ritmo da caminhada conforme saía do alvoroço.
Começou a correr, sentindo o enorme peso em seu peito tentando afundá-la cada vez mais naquela areia movediça em que estava. Quanto mais lutava para sair dela, mais submergia na podridão que a cercava.
Cessou sua corrida, ofegando, sem distinguir se arfava pelo cansaço ou pelo susto, e mesmo estando longe da confusão, ainda conseguiu observá-la por completo daquela distância. Só não contava com o que aconteceu em seguida...
– Aproveitou o show, Docinho? – ouviu a voz divertida do Palhaço bem atrás de si.
– Você realmente sente a minha falta, hein – virou-se para encará-lo – já é o segundo encontro só hoje! – cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, tentando não reparar em como ele ficava um pedaço de mau caminho sem a maquiagem e usando aquela farda.
– É que eu sou um homem muito generoso e compreensivo, como você já deve ter notado...
Alice interrompeu o discurso do Palhaço com uma série de gargalhadas incontroláveis, que chegaram a provocar lágrimas em seus olhos, de tanto que riu.
– Você é muito comicuzinho, sabia? – disse, segurando a própria barriga, que ainda se contraía com os risos.
– Não abuse da sorte – avisou – enfim, como eu dizia, por ser o homem benevolente que sou, resolvi te dar mais uma oportunidade para você aceitar a minha proposta. E acredite, essa é sua última chance.
– Já disse: não tenho interesse em fugir com o circo! – irritou-se.
– Você sabe que vai perder de qualquer jeito, não é? – sorriu de contentamento.
– Eu vou pagar pra ver! – desafiou, levantando os olhos semicerrados em sua direção.
Coringa riu, nitidamente satisfeito com a situação, e logo em seguida adotou um semblante que Alice não foi capaz de decifrar. Parecia uma mistura de obsessão e divertimento, ou então sadismo e desejo... era difícil dizer. Mesmo estando sem a maquiagem tradicional, suas expressões ainda tinham o mesmo efeito perturbador.
– Qual é o seu problema? Eu salvei sua vida, o mínimo que você podia fazer era me deixar em paz!
– E você quer que eu te deixe em paz? – perguntou com um sorriso malicioso.
Não! Em todos os anos de sua existência vazia, poucas vezes sentiu-se tão completa como quando estava com ele. Coringa havia sido sua salvação e ao mesmo tempo sua perdição, mas aquele sentimento pelo Palhaço de alguma forma trouxe a hippie de volta à vida.
– Sim... – respondeu sem um pingo de convicção, arrancando novas risadas de Coringa. Tirando as cicatrizes, ele parecia um homem normal quando ria daquele jeito. Lembrou-se do tempo em que ele ficou em sua casa, e imaginou como as coisas poderiam ser diferentes para os dois se Coringa não tivesse seguido todos os caminhos errados...
– Você mente muito mal – a voz dele a trouxe de volta ao presente – se essa é sua última palavra, nós nos vemos em breve.
Para a total surpresa de Alice, ele a beijou, mas não do mesmo jeito que havia sido mais cedo em sua casa, dessa vez o beijo foi completo – quase gentil – mas sem perder a urgência. Todas as misturas de sensações podiam ser traduzidas pelo toque rude e pretensioso de Coringa. Só ele era capaz de despertar ao mesmo tempo uma forte batalha entre a guerra e a paz em sua mente quando a tocava, e isso – a hippie sabia muito bem – culminava na sua constante falta de reação perto daquele par de cicatrizes.
Os dois estavam tão entretidos em explorar um ao outro, que nem se deram conta do inesperado flash que iluminou o rosto unido do “casal” por breves segundos...
Ao finalmente se soltarem, perceberam-se incapazes de interromper o contato visual. Sem mais nenhuma palavra trocada, no entanto com tudo dito por aquele olhar malicioso e vitorioso, Coringa correu em direção à confusão, mesclando-se a ela como um verdadeiro lorde do caos e da anarquia.
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