Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
20 Lição n° 1: Quem Brinca Com Fogo Se Queima!
Notas iniciais
O Comissário Gordon encarava pela primeira vez o rosto limpo de Coringa na sala de interrogatório, sem ser capaz de evitar o sentimento de orgulho que inflou seu ego por ter sido ele o responsável pela captura do Palhaço. Finalmente iria colocá-lo atrás das grades, e Gordon era o grande responsável por esse feito.
Contudo havia algo de muito errado naquela situação. A expressão do psicopata não condizia com sua posição desfavorável... Coringa sorria para ele, como se debochasse do Comissário! Será possível que nem perdendo ele saía daquela pose?
– Eu quero os nomes – Gordon disse, autoritário, sem desviar os olhos em nenhum momento do sorriso perturbador que Coringa ainda esboçava.
Ele gargalhou. E por Deus, como aquele som era irritante para Gordon! Daria tudo para tirar a farda e fazer um pouco de justiça com as próprias mãos. Se ao menos pudesse se esconder atrás de uma máscara assim como Batman...
– Se eu lhe der os nomes, Comissário – estreitou os olhos ao pronunciar o título, ainda zombando –, você teria que demitir mais da metade do seu pessoal. Não acho que seja nada seguro para Gotham ter um desfalque desses no número de policiais!
– CALA A BOCA! – gritou, perdendo o controle – você perdeu, Coringa! O jogo acabou. Sua única chance de reduzir um pouco sua pena é colaborar com as investigações policiais.
– Mas que injustiça... – estalou os lábios – tudo o que eu quero é proteger a cidade de ataques criminosos! Já Imaginou o caos que uma delegacia vazia pode gerar, com vários bandidos e psicopatas soltos por aí?!
– Você está brincando com a pessoa errada. Mais cedo ou mais tarde eu vou descobrir cada rosto que trabalhou para você, e nesse dia, vou sentir um imenso prazer em jogar a chave da sua cela fora.
– Se tem tanta certeza de que pode encontrá-los sozinho, por que está tão desesperado para arrancar essa informação de mim? – sua postura era totalmente despreocupada, o que irritava Gordon ainda mais. Ele parecia inatingível...
– Quem faz as perguntas aqui sou eu! – bufou – Por que você insiste em proteger seus capangas? Nada nem ninguém têm importância pra você!
O ambiente foi preenchido novamente pela gargalhada de Coringa. Gordon cerrou os punhos, discretamente, fazendo o possível para esconder seu ódio e deter os espasmos musculares de sua mão, que queria a todo o custo acertar um belo soco no meio daquele sorriso prepotente.
– Proteger? – o Palhaço riu mais uma vez – ora, Comissário, assim eu vou duvidar de que você merece esse título! Francamente, eu adoraria ver todos aqueles idiotas na cadeia.
– Então diga os nomes – rosnou, sentindo a pouca paciência que lhe restava ir embora.
– Eu até poderia dizer – ficou sério pela primeira vez, mas logo em seguida voltou a sorrir – mas é bem mais divertido ver a frustração no seu rosto!
Agora foi a vez de Gordon sorrir, tentando retribuir naquele gesto todo o escárnio que o Palhaço usou com ele até agora.
– Você não quer colaborar? Azar o seu! Era você quem eu queria prender, não me importo se não encontrar seus cúmplices. Você vai mofar na cadeia, isso se tiver sorte e não for transferido pra Arkham – voltou a sentir-se vitorioso, mas Coringa continuava indiferente a tudo aquilo. Parecia até... entediado!
– Tentando usar psicologia reversa comigo? – revirou os olhos – Sinto muito decepcioná-lo, Comissário, mas isso só funciona com amadores! – riu novamente – não se preocupe, Rosquinha. Eu direi um nome, mas apenas um! – cruzou os braços sobre a mesa, mantendo os olhos focados em Gordon.
– Quem? – perguntou rápido demais, sem conseguir ocultar a curiosidade.
– Alice Rubídia de Assis Romanov III.
Na mesma hora os olhos do Comissário brilharam com a acusação vinda do próprio Coringa. Os instintos de Gordon sempre apontaram para a hippie, porém as provas nunca foram conclusivas a ponto de prendê-la. Definitivamente sua sorte estava começando a mudar!
Um meio sorriso – pouco visível graças ao seu bigode volumoso – formou-se no lado esquerdo do rosto de Gordon, que quase se esqueceu da presença do Palhaço ali. Talvez, se não estivesse tão empolgado com a ideia de prender Alice, se não estivesse perdido nas próprias conclusões, se prestasse um pouco de atenção ao criminoso a sua frente – apenas talvez – teria visto a satisfação nos olhos de Coringa por manipulá-lo. Mas o Comissário estava cego para todo o resto.
O policial Smith entrou com tudo na sala com os olhos vidrados de ódio, puxando o Comissário de volta à realidade.
– Seu filho da puta! – gritou para Coringa, parecendo um animal descontrolado.
– Smith... – Gordon interveio.
– Eu só preciso de um minuto com ele, Comissário. Por favor – controlou a voz ao dirigir-se ao seu chefe.
O Palhaço observava tudo com um ar de leve interesse, certamente achando graça na situação. Gordon analisou bem o rosto suplicante de Smith e suspirou, entendendo a dor evidente no fundo de seus olhos. De todos os homens que Coringa prejudicou, Smith foi sem dúvida o mais lesado. As cicatrizes invisíveis dele eram tão profundas e permanentes quanto às de Coringa.
– Você tem cinco minutos – cedeu, saindo da sala. Coringa sorriu para o policial e foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– Como vai, sogrinho?
– Você pode ir saindo dessa posição superior, seu merda!
– Hum... – ele pareceu pensativo – Mas a sua filha adorava as minhas posições...
Aquilo foi à gota d’água para o policial. Ele cambaleou em direção ao Palhaço e acertou um soco perto do olho esquerdo de Coringa, olhando com nojo para a sua mão simplesmente pelo contato com aquele verme, mas ao mesmo tempo feliz por provocar um pouco de dor nele. Contudo, Coringa gargalhava, como se tivesse ouvido a piada do ano.
– Sabe, policial, a Harley era mesmo uma delícia! – lambeu o lábio inferior – pena que a pobrezinha enlouqueceu, não é mesmo? Nunca conheci uma mulher que gostasse tanto de apanhar que nem ela!
– Você a deixou naquele estado patético – a garganta do policial ardeu ao ouvir o apelido de sua filha depois de tanto tempo tentando esquecê-lo. Imediatamente o nome dela ocupou todo o espaço de sua mente. Harleen Quinzel, sua única filha, apaixonada pelo pior criminoso de Gotham, e internada no manicômio que antes era seu local de trabalho.
– Eu nunca a obriguei a fazer nada. O melhor é admitir de uma vez que sua filha nunca foi... digamos, uma pessoa de bem!
Infelizmente, Smith viu verdade em meio ao venenoso comentário do Palhaço. Harley sempre foi uma decepção para o pai, seus métodos para conseguir o que queria eram, no mínimo, contestáveis. Mas mesmo com toda a maré de desapontamentos que vinham de sua filha, o policial nunca imaginou que ela chegaria ao ponto de envolver-se com um criminoso da magnitude de Coringa, e mesmo assim nunca pôde deixar de amá-la.
Sua carreira brilhante como psiquiatra em Arkham só foi conquistada graças ao proveito que ela tirava de sua própria beleza, e aos pequenos “favores” que fazia aos seus superiores para subir na carreira. Favores esses que obrigou Smith a expulsá-la de casa, por vergonha. Até mesmo na escola e faculdade ela seduzia os professores em benefício próprio...
– Ela só precisava encontrar o caminho certo de volta. Eu podia tê-la ajudado se você não destruísse a vida dela!
– A índole da sua filha nunca a deixaria seguir o caminho que você chama de certo. Você foi um pai horrível! – gargalhou – mas de certa forma eu devo agradecê-lo por isso, porque sua filha foi muito útil. Na cama então... – levantou as sobrancelhas, mal-intencionado.
Smith queria dar outro soco em Coringa. Na verdade, quando imaginou esse encontro, pensou que iria espancá-lo até perder o controle, mas agora simplesmente não conseguia reagir... a derrota que sentia o impedia de qualquer movimento, de qualquer reação e a culpa que sempre o assombrou por ter desistido de Harley e a expulsado de casa era como um ácido concentrado em contato com sua pele, corroendo seus tecidos. Apenas olhou para o chão, ouvindo novamente as palavras duras de Coringa:
– Não foi nada pessoal, sogrinho! É que eu tenho uma enorme queda por putas... quase impossível de controlar.
– Desgraçado... era você quem devia estar internado naquele manicômio, e não Harley.
Coringa sorriu, e o modo como fez isso foi tão cruel que até mesmo Smith experimentou uma dose de medo. Esse não era um sentimento muito comum na vida do policial – pelo menos não depois que ele perdeu sua filha de vez para a insanidade – mas naquele momento sentiu como se fosse um garotinho que teme encontrar um monstro embaixo da cama.
O Comissário Gordon entrou novamente na sala, revezando um olhar receoso que ia de Smith para Coringa, e de volta para Smith, como um ciclo vicioso, sem entender as expressões tão diversas que marcavam as feições dos dois.
– Eu preciso levá-lo agora, Smith – disse, por fim.
– Tudo bem, Comissário. Eu já terminei com ele...
Não, Smith estava apenas começando, essa era a verdade! Sabia que nunca seria capaz de atingir o Palhaço da mesma forma que ele o atingiu, mas se vingaria de Coringa, nem que fosse a última coisa que conseguisse fazer em sua vida miserável! Isso era uma promessa! Por sua Harley, e mais ainda por ele mesmo.
Antes que o Comissário saísse da sala de interrogatório, Coringa ainda deu um último sorriso em direção ao policial Smith, ridicularizando mais um pouco a sua deplorável e humilhante situação:
– Mande lembranças para Harley quando visitá-la, policial. Diga que eu estou morrendo de saudade da minha coelhinha!
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Depois do desastroso desfile, Alice simplesmente não conseguia livrar-se das lembranças que insistiram em ficar martelando sua cabeça. Nem mesmo quando dormia a imagem e as palavras do Palhaço deixavam de atormentá-la... a perseguição entre eles havia ultrapassado a barreira física e atingido um estágio ainda mais preocupante e perturbador: o inconsciente.
Alice estava sentada em sua mesa de jantar, segurando uma colher de leite e cereal no ar, a meio caminho de sua boca, enquanto remoia novamente cada detalhe do desfile. Cada palavra, gargalhada e expressões doentias estavam ali, como uma tatuagem que marcaria sua mente para sempre. Ouviu batidas insistentes em sua porta, que a fez derrubar o leite na regata que estava usando, graças ao susto.
– Não tem ninguém! – gritou para a porta, limpando a roupa freneticamente.
– Abre a porta, Alice! – ouviu aquela voz conhecida, e abafada pela madeira, do lado de fora, parecendo irritada.
Ela bufou, descontente ao reconhecer aquela voz.
– O endereço requisitado não se encontra disponível no momento. Deixe seu recado após o sinal!
– Eu preciso falar com você! É importante! – insistiu.
– Cara, eu sou muito boazinha mesmo! – disse enquanto destrancava a porta e puxavava a maçaneta. Quando ela estava escancarada, olhou bem para o homem parado diante dela, arqueando uma única sobrancelha – Parece que você gosta de um barraco...
Bruce a olhava de um jeito diferente... desconfiado... quase receoso. Ela esperou que ele começasse a falar, mas como ele continuou em silêncio apenas encarando-a, agora parecendo decepcionado, Alice disse, irritada:
– O que você quer agora? O dinheiro que eu te dei para as coisas que o Satanás destruiu não foi suficiente?
– Não tem nada a ver com dinheiro. Tem a ver com isso.
O Bilionário jogou um exemplar do jornal da cidade para que Alice visse a manchete. A hippie olhou desconfiada para ele antes de prestar atenção no jornal. Quando viu a foto na primeira página, teve vontade de vomitar.
– Mas o que é isso? – arregalou os olhos.
– Eu esperava que você me dissesse... – Bruce foi seco. Pela primeira vez desde que se conheceram, ele a tratou com frieza. Provavelmente isso a teria magoado se a hippie não estivesse tão hipnotizada por aquela simples folha de jornal, que com certeza faria uma revolução ainda maior em sua vida.
Metade da página era ocupada por uma foto do dia do desfile, com a terrível imagem de Alice e Coringa se beijando. Uma das mãos da hippie brincava com os cachos de Coringa, de um jeito tão íntimo que ela seria incapaz de convencer uma mosca de que não estava envolvida com o Palhaço. Coringa, por sua vez, a segurava em um forte abraço, um abraço de posse que dava a impressão de que os dois faziam parte do mesmo corpo.
E a notícia ao lado da foto não poderia ser mais cruel. Conforme os olhos da hippie desciam pelas linhas, seu queixo caía cada vez mais com a manchete. Sim, ela estava seriamente encrencada!
A GAROTA CORINGA
Alice Rubídia de Assis Romanov III – ultimamente mais conhecida como a Gata Borralheira de Gotham – foi alvo de grande empolgação para a cidade por fazer com que os habitantes do país inteiro acreditassem que ela havia sido capaz de fisgar o solteiro mais cobiçado da famosa Gotham City – o empresário multibilionário Bruce Wayne.
O relacionamento dos dois foi o grande alvo da mídia nas últimas semanas, graças ao anonimato de Alice e à ilusão que ele proporcionou a todos de que um romance como esse só poderia ser capaz de acontecer em ficções de livros e novelas.
Porém nossos jornalistas e fotógrafos descobriram um possível envolvimento secreto de Alice com ninguém menos do que o criminoso mais perigoso e procurado do momento – o psicopata que se autodenomina Coringa. Tal relacionamento nos leva a crer que Alice tem atuado como sua cúmplice em todas as ações delituosas do Palhaço, inclusive no atentado recente ao prefeito Anthony Garcia no Desfile de comemoração ao aniversário da cidade.
Aquela que um dia o povo de Gotham acreditou que se tornaria a Cinderela de um conto de fadas moderno, hoje tem sua máscara arrancada e mostra a verdadeira vilã que é.
– Mas... que abuso! – disse, indignada, sem conseguir tirar os olhos da foto do jornal.
– Eu realmente espero ouvir uma boa explicação.
Alice encarou o rosto de Bruce, cerrando os olhos.
– E desde quando eu te devo alguma explicação? – sua mão tremia de raiva. Ele desconsiderou sua pergunta.
– Eu já falei com meu advogado, ele estará à sua disposição, mas antes eu preciso saber a verdade sobre você e Coringa – sua feição, assim como o tom de sua voz, parecia cansada e triste.
– Em primeiro lugar: Nós não temos mais nada, portanto não ache que pode vir até a minha casa para me cobrar alguma coisa. Segundo: Quem me deve uma explicação aqui é você, mas eu não quero ouvi-la, então cale a boca. Terceiro: pega o seu advogado e enfia no...
– Você está com problemas, Alice – Bruce a interrompeu – essa foto e essa matéria podem fazer um estrago na sua vida se você não tiver uma boa defesa. Só gostaria de saber se você realmente merece ser defendida...
Alice sentiu todo o choque daquela acusação preencher os seus sentidos mais primitivos. Sem ter muito controle da incômoda perplexidade que a dominou, deu um tapa na cara de Bruce, provocando um sonoro estalo ao contato. Simples assim – um ato sem controle – da mesma forma quando sua pele toca em algo quente e seu sistema nervoso reage imediatamente com impulsos, que realizam um reflexo instantâneo de retirar a mão. Um tipo natural de defesa irreprimível.
Ninguém falou nada por um longo e interminável segundo, mas palavras pareciam ser indispensáveis diante do complexo contato visual que instalou-se entre eles, deixando o clima sufocante.
– Sai daqui – abriu a porta, esperando que ele sumisse de seu campo de visão, antes que se descontrolasse novamente. Bruce não se mexeu.
– Então é assim que vai ser agora? — sua voz ainda era fria e distante – Você mudou... não é mais a mesma Alice que eu conheci.
– Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo, tudo muda o tempo todo no mundo! – ainda segurando a maçaneta da porta para ele passar, disse: — e a nível de decepção, nós seríamos um casal perfeito. Agora, se você não se importa, eu preciso fazer qualquer outra coisa que não seja olhar para a sua cara.
Bruce a encarou uma última vez antes de sair, e quando passou por ela nem sequer olhou para trás. Um nó apertado e incômodo formou-se em sua garganta quando fechou a porta, quando se deu conta da falta que ele fazia em sua vida, e que a sua desconfiança certamente era mais dolorosa do que aquele tapa...
– A culpa é sua – acusou-se – desde o começo você sabia que isso não terminaria bem, e olha só no que deu!
A hippie percebeu que ainda segurava o jornal, com uma força muito além da necessária. Esqueceu-se completamente de devolvê-lo a Bruce... olhou outra vez para a foto, apesar de tentar evitar ao máximo encará-la novamente, mas seus olhos pareciam atrair-se naturalmente por aquela imagem, como se fosse um metal atraído por um ímã.
– Certo... agora estou realmente ferrada! – fez uma careta ao imaginar o povo de Gotham correndo em bando atrás dela com tochas incandescentes, da mesma forma que ocorria no tempo da caça às bruxas...
Tudo havia acontecido de uma só vez. A volta do Palhaço para a cidade, suas aparições posteriores e agora o atentado contra o prefeito. Ninguém havia conseguido tomar fôlego entre uma situação e outra... quando parecia que tudo estava melhorando, uma nova e inesperada reviravolta aparecia para desestabilizar mais uma vez a frágil esperança de todos, despedaçando-a como um cristal delicado que cai no chão.
A convivência de Alice com Coringa havia dado início à contagem regressiva de uma poderosa bomba, e tudo aquilo desencadeou uma série de eventos que fugiram totalmente do controle da hippie. Agora – ela sabia – seria apenas uma questão de tempo para que essa bomba detonasse bem em cima de sua cabeça. E um tempo muito mais curto do que ela podia imaginar...
Seu telefone não parava de tocar, vários jornalistas tentavam desesperadamente marcar uma entrevista exclusiva com ela. A última ligação que Alice atendeu – antes de se enfurecer de vez e tirar o telefone da tomada – foi de uma revista de fofoca de péssima categoria.
– Senhorita Romanov? – a voz da jornalista tremia de expectativa – gostaria de dar-lhe a chance de esclarecer todos esses boatos dando sua versão do que realmente existe entre a senhorita e Coringa...
Alice interrompeu o falatório da mulher, imitando porcamente um sotaque mexicano agudo:
– Sinto mucho, niña! Usted ligou para el número incorrecto. Pero no desligue! Su ligação és muy importante para nosotros! – deixando a voz ainda mais aguda, cantarolou alto no telefone, dando ênfase aos “R’s” – Arriba!
Imediatamente a mulher encerrou a ligação e Alice desistiu de manter o telefone funcionando. Não haveria sossego enquanto não eutanasiasse o aparelho! No instante em que arrancou o fio da tomada, achou que finalmente teria um pouco de paz, porém o som de batidas insistentes ecoou pela sua casa – mais uma vez!
Sem se dar ao trabalho de abrir a porta, gritou, sentada no sofá:
– Não, eu não tenho interesse em dar nenhuma entrevista a qualquer que seja seu jornal ou revista de fofoca!
– Aqui é o Comissário Gordon, e eu sugiro que você abra essa porta se não quiser vê-la arrombada!
– Quanta educação! – reclamou para si mesma, incapaz de evitar o receio que sentiu ao ouvir a voz irritada do Senhor Cabeça de Batata. Abriu a porta, olhando entediada para o homem. – sinto muito, mas já fiz minha doação de rosquinhas ao “Polícia Esperança”...
O Comissário sorriu de forma cruel e satisfeita, reparando no jornal completamente amassado entre a mão da hippie.
– Vejo que já leu as notícias do dia... – disse, sarcástico.
– Pois é! Viu só que bomba?! – Alice perguntou, mostrando a página de economia e fingindo-se interessada – A criação de ostras cresceu quase 5% esse ano... quem diria! – apontou para uma pequena matéria no rodapé da página que abordava o assunto.
– Quando terminar de fazer piadas me avise – disse, impaciente.
– Tudo bem, senhor! – Alice posicionou a mão direita na cabeça, imitando a saudação policial a um superior – Eu aviso! – começou a empurrar a maçaneta, mas Gordon posicionou com força a palma de sua mão na madeira escura, impedindo que a porta se fechasse. Ela suspirou, rendendo-se – O que você quer?
– Alice Rubídia de Assis Romanov III – ele fez uma pausa, saboreando cada parte do nome da hippie antes de pronunciar as palavras que tanto desejou, desde o seu primeiro encontro com ela – você está presa!
Pareceu que a cena havia sido pausada por algum controle remoto depois daquelas palavras, pois os dois permaneceram extremamente imóveis, quase sem respirar, por um tempo considerável – ambos tentando digerir o momento à sua maneira – até que Alice suprimiu o silêncio oportuno.
– Quando você diz “presa” quer dizer tipo... presa? – uniu as sobrancelhas, sem entender a gravidade da situação.
– Você entende as coisas rápido! – revirou os olhos – agora vamos!
– Ei, espera aí! Não é assim... posso pelo menos saber sob qual acusação estou sendo levada? – sua voz estava tensa.
– Você nem imagina? – os olhos do Comissário faiscaram de um jeito estranho. Era impressionante como naquela cidade alguns mocinhos às vezes pareciam os vilões...
– É por causa dessa matéria estúpida? – apontou para o jornal – você não pode me prender baseado em uma fofoca não comprovada!
– Não, eu não posso! – ele concordou ainda sorrindo.
– E então? Isso foi alguma armadilha para ver se eu confessava alguma coisa?
– Ah, felizmente eu não preciso mais da sua confissão para te prender!
– Não? – Alice perguntou confusa.
– Faltam algumas páginas no seu jornal... – o Comissário comentou, mudando repentinamente de assunto, o que desconcertou ainda mais a hippie.
– Pois é... – ela disse, por fim, dando de ombros – é que eu só me interessei pela matéria das ostras!
– É uma pena! Porque várias páginas do jornal foram dedicadas à prisão de Coringa.
Aquelas palavras realmente surpreenderam Alice. Foi como sentir um enorme balde de água fria caindo com tudo em sua cabeça – inclusive junto com o balde.
– O Coringa foi preso? – perguntou, chocada.
– Por que está tão surpresa? — o Comissário exalava veneno naquelas palavras.
– Simples: vocês são incapazes de conseguir medir forças com ele! Se teve uma coisa que eu aprendi a respeito do Palhaço é que ele nunca dá ponto sem nó.
– Você parece conhecê-lo muito bem... – comentou maldosamente.
– Desembucha logo: por que você vai me prender? – perguntou, já prevendo qual seria a resposta.
– Coringa confessou seu envolvimento com ele – disse com imensa satisfação – você está sendo presa por ser cúmplice do Palhaço – sorriu mais uma vez, como se pensasse “Eu sempre soube! Você nunca me enganou!”
– E lá vamos nós – suspirou, totalmente desanimada...
Mais uma vez Alice teria que enfrentar a hostilidade da delegacia, só que agora numa situação visivelmente pior. Sentia a humilhação crescer cada vez que olhava para a algema que apertava seus pulsos de um jeito cruel. Cruel porque ela não havia oferecido resistência alguma para acompanhar Gordon, e mesmo assim ele fizera questão de algemá-la, tratando-a como uma criminosa perigosa, que precisava de toda a vigilância e cuidados possíveis.
Sentiu todos os olhares de nojo em cima dela enquanto era conduzida por Gordon através do distrito policial assim que novamente pôs os pés no estabelecimento. Alice nunca foi muito ligada à opinião alheia, mas não aguentava mais a hostilidade que a cercava. Isso não era saudável para nenhuma hippie...
– Eu quero fazer minha ligação! – as palavras simplesmente saíram quando cruzaram por um telefone, antes de sequer pensar no assunto e analisar suas hipóteses.
Gordon encarou-a a contragosto. Não poderia negar isso a ela, por mais que tivesse vontade de trancar Alice, jogar a chave fora e esquecê-la ali para sempre.
– Você tem cinco minutos – disse, mal humorado, ficando a uma distância segura dela.
“Certo, e agora... pra quem eu ligo? Bruce nem pensar!” – descartou rapidamente, antes que Débie entrasse em ação novamente – “Tirando o Will, eu não tenho família, mas também não quero preocupá-lo com isso...”
Sem saber exatamente pra quem pedir socorro, Alice apenas deu de ombros e discou um número a esmo, com um pouco de dificuldade graças à algema, brincando de Uni-duni-tê com os dígitos do telefone. Ela não tinha ninguém para ligar, mas de forma alguma abriria mão desse direito! Em apenas alguns toques, ouviu a voz de uma mulher, que pelo timbre parecia ser idosa.
– Alô...
– Olá, bom dia! – Alice cumprimentou, simpática – Posso roubar cinco minutinhos do seu tempo, Senhora [...] – ela parou de falar, sem saber o nome da mulher.
– Whitburn – completou rapidamente – Maggie Whitburn!
– Eu estou atrapalhando a senhora? – Alice perguntou com receio, e teve a impressão de que a mulher sorriu antes de respondê-la.
– De jeito nenhum, minha filha! – pela voz, Alice teve certeza de que Maggie devia ser uma daquelas adoráveis senhoras solitárias que sentia falta de uma boa conversa. Perfeito! – Em que posso ajudá-la?
– Pode parecer um pouco estranho, mas... eu só precisava conversar com alguém um pouco, senhora Whitburn! Só por uns quatro minutos, se não for incomodá-la – calculou o tempo aproximado que lhe restava.
– Me chame de Maggie, querida! – disse, animada – Sabe, no meu tempo as coisas eram exatamente assim. As pessoas se importavam muito mais com as outras, não era essa coisa fria de hoje! Qual é o seu nome, meu bem?
– Pode me chamar de Alice – sorriu com a empolgação da mulher.
– Alice... lindo nome! É muito bom conversar com alguém, Alice. Ultimamente minhas únicas companhias são alguns gatos que eu tenho. Lógico, eu adoro todos eles, mas às vezes sinto falta de receber respostas...
– Ah, eu sei bem como é! Também moro sozinha com sete cachorros – sentiu um aperto ao pensar neles sozinhos... implorou mentalmente para que Will visse o quanto antes a mensagem que ela lhe mandou, enquanto estava na viatura a caminho da delegacia, pedindo para o irmão ir olhá-los pelo menos uma vez por dia...
– Sete cachorros? Jura? – Maggie perguntou, animada – Eu sou a típica solteirona que tem trocentos gatos! – as duas riram.
A conversa prolongou-se pelos próximos minutos restantes, Maggie quase não deixava Alice falar, de tanto contar suas próprias histórias, e a hippie não podia ter se divertido mais com aquela doce senhora!
Gordon aproximou-se de Alice quando o tempo liberado da ligação se esgotou, estranhando as risadas sonoras que a hippie soltava. Normalmente essas ligações eram tensas, complicadas de se fazer, pois abordava o tema da prisão... mas o Comissário – de certa forma – já sabia que se tratando de Alice, tudo fugia do convencional!
– O tempo acabou – disse, autoritário.
– Ah, tá... – respondeu, triste – Maggie, foi um enorme prazer falar com a senhora, mas eu realmente preciso ir agora! Muito obrigada pela conversa – despediu-se.
– Ah, querida, o prazer foi todo meu! Me ligue quando quiser!
– Pode deixar! – riu, e ambas desligaram o telefone. Alice voltou-se para Gordon novamente – Pronto... já podemos ir!
– Tem uma pessoa que terá um imenso prazer em prendê-la – disse, chamando o policial Smith para acompanhá-la até sua cela. O homem apareceu com um sorriso que fez Alice tremer... era impressão dela ou os policiais eram mais amedrontadores do que os próprios mafiosos? Sinceramente, com toda aquela tortura psicológica, a hippie não fazia mais distinção entre um e outro!
– Sabia que nos veríamos em breve – Smith disse enquanto se aproximava de Alice. Dirigindo-se a Gordon, agradeceu: — Obrigado pela honra, Comissário!
Honra? Ok, aquilo era demais! Ultrapassou o limiar da tolerância de Alice.
– Por acaso eu tenho cara de Oscar pra você sentir honra em me levar? – perguntou irritada, enquanto era guiada pelo policial sem o mínimo de delicadeza.
– Sabe, conheço uma pessoa perfeita para dividir a cela com você. Sei que ele vai adorar esse senso de humor – riu, dizendo isso quando já estavam sozinhos no corredor com todos os presos a olhando maliciosamente e fazendo gestos obscenos.
– Ele? – ela repetiu horrorizada – você está dizendo que eu vou dividir a cela com um homem?
– Ah, não se preocupe, Alice! Se você soube lidar com Coringa, qualquer outro será fichinha pra você – riu de um jeito sombrio. Aquele homem realmente devia ser muito problemático...
– Isso é contra a lei! – reclamou, sentindo o desespero sair junto com sua voz.
– Também é contra a lei ser cúmplice de um criminoso – mudou completamente sua expressão, fuzilando-a apenas com o olhar.
Alice estava totalmente sem palavras diante daquele absurdo. Ou o policial era inteiramente louco, ou tinha um profundo ódio por ela... ficou observando-o destrancar uma das celas, percebendo seu mais novo “colega de quarto” escondido nas sombras que o beliche fazia no chão. Usaria esse abuso de autoridade como defesa no tribunal. Faria com que a carreira de Smith fosse dizimada!
O seu coração acelerou-se de tal forma, que a sua pressão sanguínea devia estar a mil. Podia sentir a velocidade exagerada das hemácias percorrendo cada artéria, e sentiu um repentino mal-estar ao encarar novamente o homem encapuzado pelas sombras. Alice teve um forte ímpeto de correr para o mais longe dali, mas respirou fundo e conteve-se enquanto Smith a empurrava para dentro da cela...
Ao entrar completamente em seu novo lar, fechou os olhos com força enquanto ouvia o metal da porta se fechar atrás de si. Ofegou ao ouvir a chave trancando-a com o homem misterioso, e antes que Smith sumisse de vista, gritou para ele:
– EI!!! NINGUÉM AQUI ME DISSE QUE EU TENHO O DIREITO DE PERMANECER CALADA! – reclamou – QUE TIPO DE POLICIAIS VOCÊS SÃO, HEIN?!
O policial não estava mais lá, desconsiderou totalmente os gritos e protestos da hippie, desaparecendo pelos corredores. Alice apoiou suas costas na grade e foi deslizando, até sentar-se no chão, sentindo-se derrotada e sem saber o que esperar daquele lugar.
Tremeu por dentro quando viu apenas o vulto dos lábios se enviesando no rosto do homem maquiavelicamente, o prisioneiro apenas a poucos passos de distância de si. Sem conseguir definir seus traços de forma concisa, a hippie apenas notou aquele cruel e enigmático sorriso que marcaria para sempre a sua vida.
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