Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
23 Lição n° 3: Conhecimento É Poder!
Notas iniciais
Alice olhou através da pequena abertura na parede da cela, tentando basear-se na tímida fresta de luz que invadia o minúsculo espaço para calcular a hora. A definição de ‘tempo’ na cadeia não era algo muito concreto. Da mesma forma que os minutos pareciam voar, os dias se arrastavam lentamente, dando início a um confuso paradoxo nos sentidos de Alice. Sem contar que era assustador pensar que o dia de sua audiência estava cada vez mais próximo.
Outra coisa que a incomodava – mas que nem por um decreto ela admitiria – era a falta que Coringa estava fazendo em sua vida durante todo aquele tempo de ausência forçada... esse sentimento proibido podia ser comparado a uma crise de abstinência proporcionada por um forte vício gerado por alguma droga potente que, de repente, foi arrancada do dependente químico.
Seria enlouquecedor, se a hippie não tivesse Ducard ao seu lado...
De certa forma, a presença dele era capaz de aquietar seus piores impulsos de sair procurando pela cela do Palhaço – nem que fosse para ver uma sombra distorcida de sua imagem! E as histórias sobre Bruce quase a fazia esquecer de que estava encarcerada em um minúsculo cubículo, sem o menor conforto. Alice devia muito a Ducard por isso! Ele era o responsável por manter os seus pés bem rentes ao chão, e sua cabeça grudada no pescoço.
Mas ainda assim, uma dúvida começou a rondar a consciência de Alice, e ela não lhe deu paz, até que criou coragem e resolveu perguntar...
– Por que você está me contando essas coisas sobre o passado de Bruce? – Alice uniu as sobrancelhas, intrigada, esperando pela resposta àquela pergunta que antes parecia não ter importância alguma, mas que agora passou a incomodar demais a hippie.
Ducard permaneceu tanto tempo em silêncio, que Alice pensou que ficaria sem sua resposta. Somente quando ela já estava prestes a desistir e mudar de assunto, seu companheiro de cela finalmente falou:
– Não existe arma mais poderosa do que a informação, Alice – ele disse, com um ar de “Poderoso Chefão” – e no momento, isso é tudo o que eu posso lhe dar.
– Arma? – repetiu, confusa – Pensei que a gente só estava fofocando mesmo... – brincou – Aonde você pretende chegar com tudo isso?
– Eu pretendo chegar no buraco da ferida. Na chaga que mais dói, na cicatriz que ainda está aberta. Através de mim, você será capaz de explorar cada falha na personalidade de Bruce e conhecer a fundo o seu Calcanhar de Aquiles.
– E por que eu ia querer fazer isso? – riu de nervoso – A minha intenção é me afastar do Almofadinha, e não arranjar mais motivos para me aproximar dele...
– Eu posso ver dentro dos seus olhos o quanto as suas palavras são falsas! Você quer ter a chance de atingir Bruce com a mesma intensidade que ele a feriu. E eu só digo uma coisa quanto a isso: suas forças precisam estar equiparadas para que você possa enfrentá-lo, e eu lhe ofereço a base de sua vingança com as minhas informações.
– Mesmo que eu quisesse me vingar, o que você ganha me ajudando a conseguir isso?
– A questão não é o que eu ganho, e sim o que eu não perco! – riu ao ver a expressão confusa da hippie – veja por esse lado: durante toda a minha vida eu fui um tipo de... caça talentos nesse quesito de treinamento físico e psicológico – fez uma pausa, dando um sorriso orgulhoso – eu nunca treinei incapazes, e eu vejo muito potencial dentro de você! Tudo isso se resume apenas a um meio de relembrar meu passado e me sentir vivo outra vez – tentou parecer inocente.
– Então você quer dizer que toda essa “ajuda” que está me dando não passa de um gesto altruísta de sua parte para tentar encobrir a nostalgia que você sente?
– Pode ser visto dessa forma – riu.
– Você vai se decepcionar comigo – falou baixinho – eu não tenho potencial e muito menos vontade de me vingar de Bruce... só quero a minha vida de volta!
– Alguém já disse o quanto você mente mal? Sua boca diz uma coisa, mas sua expressão é totalmente contraditória... e você não me parece o tipo de pessoa mediana que almeja voltar à vida antiga e deixar os desaforos de lado.
– Às vezes o desprezo é o castigo mais cruel que existe...
– De fato, mas não para pessoas como Bruce – balançou a cabeça – você está jogando um jogo errado com ele... a indiferença não funciona! É só pensar nas histórias que eu lhe contei até agora: Bruce ainda carrega o trauma dos morcegos e perdeu completamente sua estabilidade com a morte dos pais. Essa sequência de eventos, principalmente a perda dos pais, abalou completamente a sua confiança nos outros, e o fechou para qualquer tipo de relacionamento verdadeiro, por isso que ele nunca permanece muito tempo com a mesma mulher. Logo, seu desprezo seria um alívio para ele, pois assim ele se livra do trabalho de te dispensar, entende?
Alice entendia muito bem... Ducard havia acabado de pronunciar indiretamente palavras que a hippie tentou evitar durante todo aquele tempo que o casal não estava mais junto. No fundo sempre soube que a incompatibilidade dos dois acabaria separando-os, mas não queria admitir que a verdadeira responsável por essa separação fosse a incapacidade de Bruce se manter fiel a alguém, ou se permitir gostar de outra pessoa que não fosse Rachel.
– Eu prefiro não falar nisso... – Alice pediu, envergonhada pela análise coerente de Ducard.
– A questão agora é: você precisa escolher um lado. Eu não estou contando todo o passado de Bruce para fazer fofoca, como você mesma disse... meu objetivo é maior do que esse, e é imprescindível que você saiba disso antes que eu prossiga com a próxima história. Agora chegou a hora de decidir se quer seguir esse novo caminho, ou se quer dar passos para trás e ter sua vidinha de volta...
Alice abriu a boca para rebater que ainda queria sua vida de volta, mas logo em seguida a fechou. Não sabia o que responder, a verdade é que antes de Coringa e Bruce fazerem aquela reviravolta na rotina de Alice, sua existência era um tanto vazia, sem grandes expectativas e atrativos. Não queria sua antiga vida de volta, disso ela sabia!
O silêncio foi mais do que suficiente para Ducard entender a dúvida da hippie.
– Acho que eu já tenho minha resposta – disse, sentindo-se vitorioso ao perceber que ela estava considerando sua sutil proposta de vingança.
– Nem eu tenho uma resposta ainda – suspirou – mas em uma coisa você tem razão, eu não quero mais ser essa pessoa idiota que todos pisam em cima e fica por isso mesmo... mas também não quero passar para o outro extremo e me tornar uma pessoa vingativa – fez uma breve pausa, analisando suas opções – eu escolho o caminho novo! Mas um caminho alternativo, que eu ainda não sei exatamente qual é...
– Eu não poderia esperar outra atitude sua – disse, tentando disfarçar a enorme satisfação que sentiu consigo mesmo ao obter aquela pequena conquista em sua trama, que visava corromper alguns princípios da hippie – eu disse que você tem potencial!
– Não sei se quero dar o troco em Bruce, mas certamente quero entender seu passado... talvez um dia essas informações extras possam me ser úteis!
– Mesmo que depois de tudo você decida esquecer que me conheceu e que ouviu todas essas histórias de mim, ainda assim você acabará descobrindo que o conhecimento é sempre uma dádiva poderosa, e perigosa ao mesmo tempo – sorriu, sem evitar tornar o gesto um pouco macabro – a curiosidade é o motor propulsor que move o mundo. Aprenda desde já uma coisa, Pequeno Gafanhoto: em poder da curiosidade e das informações certas, ninguém será capaz de machucá-la novamente! – disse, quase carinhosamente, e começou a narrar mais um episódio do passado de Bruce.
"Os anos passaram rápido após a morte de seus pais, e era muito estranho ver como as pessoas, aos poucos, ficavam indiferente a tudo o que havia acontecido na noite do assassinato. Toda a estabilidade de Bruce havia sido tirada dele, e nos primeiros meses, isso era de interesse público, mas conforme o tempo corria, apenas ele, o último Wayne, era capaz de recordar cada detalhe e se revoltar na mesma proporção.
Agora Bruce já era um adulto, contudo ainda carregava consigo os pesadelos de criança.
Gotham não era mais uma opção para ele naquele momento! O ar da cidade estava cada vez mais irrespirável, e todos aqueles anos não foram capazes de acalmar a revolta que regou toda a sua infância. Precisava mudar-se dali o quanto antes...
Toda a sua incapacidade de permanecer em Gotham tinha como principal motivo o fato de estar rodeado por lembranças dolorosas em cada canto daquele lugar. O principal motivo era esse, mas nem de longe era o único... Havia muito mais razões implícitas – que incentivavam sua decisão de sumir – do que a tormenta de conviver com aqueles terríveis traumas. Uma obsessão o impulsionava a seguir um caminho diferente.
Bruce queria ser capaz de entender a essência do crime, de sondar a fundo os pensamentos mais hediondos que rondavam os distúrbios de mentes psicopatas. Sentia uma enorme necessidade de se infiltrar à porção podre e esquecida da sociedade, um mundo totalmente estranho para o último Wayne vivo, que sempre fora criado com nada menos do que o melhor. Somente assim se tornaria capacitado o suficiente para entender de uma vez por todas por que os fins justificam os meios.
Alfred o ajudava a separar algumas poucas roupas que Bruce carregaria em sua longa jornada pela compreensão do ser humano. O mordomo parecia mais pensativo do que o normal, talvez sentindo o peso da decisão de Bruce em seus próprios ombros.
– O senhor tem certeza do que está prestes a fazer, Patrão Bruce?
– Tenho! – não hesitou em sua resposta – Preciso ir embora daqui o quanto antes... não dá mais para fingir que está tudo bem – parou de mexer em sua mochila compacta para encarar o mordomo – Durante todos esses anos eu tentei me convencer de que as coisas iam melhorar, mas isso nunca aconteceu... na verdade o tempo teve um efeito reverso! A cada dia eu me sinto mais comprometido com a maldita noite do assassinato!
– E isso se deve ao fato de que o senhor ainda se julga culpado pela morte dos seus pais? – vindo de Alfred, aquilo parecia uma pergunta retórica! Era impressionante como sua refinada perspicácia nunca deixava passar nenhum detalhe, por menor que fosse.
– Se não fosse por mim eles ainda estariam vivos, Alfred... – baixou os olhos, encarando o piso frio – eu fui o responsável por fazê-los sair do teatro mais cedo!
– Não é verdade! Não é justo que o senhor carregue esse fardo baseado nos erros dos outros... a única pessoa culpada nessa história é o homem que puxou o gatilho!
– Talvez um dia eu consiga me convencer disso, mas ainda não... antes eu sinto que preciso passar por essa experiência, tentar desvendar o que se passa em mentes criminosas, tentar me desligar desse meu mundo de mentiras e ir em busca de mais realidade.
– O senhor acredita mesmo que pode encontrar a paz de espírito que tanto almeja apenas mesclando-se à escória da sociedade? Essa convivência só irá revoltá-lo ainda mais, Patrão Bruce!
– Que seja... eu não me importo! Sou incapaz de calcular os efeitos que essa viagem pode causar, mas sinto que é isso que eu preciso fazer agora.
– Então só me resta lhe desejar boa sorte – Alfred rendeu-se, usando o mesmo tom triste de um pai que se despede do primogênito.
– Não vai ser tão fácil assim se livrar de mim! – brincou, percebendo a angústia do mordomo que durante todo esse tempo o criou como um filho – está pensando que eu vou embora para sempre e que essa mansão vai ficar de herança pra você?
– O senhor acredita mesmo que eu seria capaz de me apossar da Mansão Wayne? – fingiu estar ofendido – eu estou de olho é na sua empresa... – os dois riram.
– Vou sentir falta desse seu senso de humor, Alfred... e principalmente do seu chá!
– Fico lisonjeado, Patrão Bruce! Meu senso de humor e meu chá estarão aqui, esperando o seu retorno.
– E não se esqueça dos biscoitos – sorriu.
– Bom, nesse caso eu vou querer um aumento – disse, arrancando mais algumas risadas de Bruce.
– Tente não fazer muitas festas enquanto eu estiver fora! – encarou os olhos do mordomo, sentindo um enorme vazio por deixá-lo ali – adeus, Alfred.
– Até logo, Patrão Bruce. Espero que encontre o que procura.
~*~*~
Bruce apressou-se em sair logo da mansão rumo à sua viagem incerta. Desde a morte dos seus pais, Alfred tornou-se um tipo de porto seguro. O mordomo foi – por muito tempo – o único elo que o prendeu à sanidade, graças à enorme dedicação e apoio que ofereceu a Bruce quando este ainda era criança e tudo parecia querer desabar. Por isso, aquela despedida não podia ter sido mais difícil para ambos.
Mas agora era tarde demais para pensar em voltar atrás... sua decisão já estava tomada, e ele não desistiria do seu objetivo de tentar entender o que movia uma pessoa a seguir todos os caminhos errados, sendo até capaz de matar para satisfazer os próprios interesses.
Seu primeiro passo – e na verdade único plano – foi misturar-se aos criminosos ao redor do mundo. Nunca tinha destino certo, apenas vagava aleatoriamente com olhos atentos a qualquer indício de marginalidade, procurando por suas respostas.
E assim Bruce permaneceu por anos: escondendo-se nas sombras da sociedade e interagindo com figuras que qualquer pessoa – em seu juízo perfeito – tentaria evitar a todo custo. Perdeu a conta do número de vezes que foi preso e que se deixou prender, tudo para satisfazer a obsessão incontrolável que sentia de dar algum significado à podridão que rondava o mundo através das pessoas.
Quem o visse naquele estado deplorável jamais seria capaz de reconhecer o empresário multibilionário e de aparência impecável que Bruce foi um dia. A fuligem estava sempre presente em seu rosto magro, e suas roupas eram trapos dignos de mendigos. Tornou-se irreconhecível também pela sua índole! Bruce provou experimentalmente a teoria de Karl Marx, que dita que o meio modifica o homem: aos poucos ele foi se tornando uma pessoa fria, cética e um pouco cruel – todas essas características atribuíram-se a ele por osmose, resultado da convivência e do ambiente em que estava.
E nada mais o atingia! Bruce parecia uma versão surrada de Arnold Schwarzenegger em “O Exterminador do Futuro”, tudo o que julgava importante agora era baseado naquela missão que ele mesmo se deu, e falhar não era uma opção.
Nunca ficava no mesmo lugar por muito tempo, estava sempre viajando quando não permanecia preso. Era assim que garantia o seu anonimato e ao mesmo tempo relacionava-se com todo o tipo de mentes delinquentes – desde simples ladrões de batatas até gênios do crime organizado.
Mas foi uma de suas viagens que realmente marcou!
Bruce estava numa região extremamente montanhosa do Himalaia – mais especificamente conhecida como Butão – um lugar deteriorado pelo seu próprio povo. Aquele ambiente seria mais um exemplo perfeito para que ele continuasse sua fatigada busca de encontrar algum motivo, coerente, que explicasse a satisfação que alguns tinham pelo crime.
Lá foi o último destino de seu itinerário, e sendo assim, o último lugar em que se viu trancafiado em uma cela. Porém não por muito tempo, não dessa vez!
Bruce havia sido preso por conta de uma briga com outros marginais, não sabia ao certo o motivo. Tudo o que podia se lembrar do episódio era de acordar numa cela suja, fedendo a urina de rato, e perceber o vulto de um homem a sua frente.
– Eu vi o modo como você lutou com aqueles homens... impressionante! – a figura parada diante de Bruce comentou ao perceber que o prisioneiro havia acordado – aonde aprendeu a bater desse jeito?
– Quem é você? – Bruce sentiu sua voz sair rouca, devido a todo o tempo que ficou em silêncio – e por que está aqui? – a desconfiança havia se tornado sua única companhia, por isso era impossível não extravasá-la em seu tom de voz.
– A pergunta certa é por que você está aqui! Do jeito que luta, podia ter se livrado daqueles guardas sem problema nenhum, mas nem tentou resistir...
– Isso não é da sua conta – respondeu friamente, ainda encontrando resistência em sua garganta para a passagem das ondas sonoras de sua própria voz.
– Sinto o cheiro de ódio – sorriu, satisfeito – arma poderosa! Ainda mais quando pode ser controlada...
– O que você quer? – Bruce encarou o rosto do homem por um momento, substituindo a hostilidade por uma curiosidade sincera.
– Quero te fazer uma proposta, Wayne – destacou o sobrenome de Bruce, e no mesmo segundo em que o fez viu a máscara cética que cobria seu rosto cair, e imediatamente seus olhos se arregalarem de surpresa – pensou que poderia ficar anônimo para sempre nesses trapos? – riu – você é famoso demais para conseguir esse feito!
Bruce permaneceu em silêncio, apenas analisando a figura altiva e prepotente do misterioso homem que havia descoberto sua farsa.
– Minha proposta é simples: eu estou aqui para te convidar a entrar para um grupo seleto de guerreiros, a Liga das Sombras! Venha comigo, e se você conseguir provar seu valor nos treinos, poderá conquistar a honra de fazer parte da Liga e receber um treinamento destinado apenas aos melhores.
– Eu não preciso ser treinado – debochou – como você pôde ver, eu luto melhor do que todos os criminosos daqui juntos!
– Bem se vê que você herdou a covardia do seu pai... – balançou a cabeça em sinal de reprovação, com os olhos faiscando.
Bruce sentiu o sangue subir rapidamente através de todo o seu rosto, e imediatamente foi pra cima do homem, perdido em sua própria fúria pela ofensa destinada ao seu pai. Estava cego para o mundo, apenas queria provocar dor em qualquer um que sequer manchasse a memória pura que ele tinha de sua própria família.
Preparou um golpe certeiro mirando bem no meio de seu olho esquerdo, querendo – no mínimo – arrancar aquele globo ocular do rosto debochado do homem, que por sua vez, permanecia parado, sorrindo e parecendo tranquilo diante da ira descontrolada de seu oponente. Somente no último segundo antes do golpe, naquele segundo decisivo em que o impacto é quase certo, o homem desviou-se do soco de forma tão ágil que Bruce foi incapaz de ver a direção que seu inimigo tomou. Bruce sentiu todas as articulações de seus braços sendo totalmente imobilizadas, e um sussurro quase inaudível e letal preencheu o espaço entre seus ouvidos:
– Nunca mais subestime meu treinamento, Bruce! Ele é muito mais do que simples força bruta! Você tem talento, mas ainda está oco por dentro... é incapaz de controlar os próprios sentimentos, e isso para um guerreiro é uma sentença de fracasso, mais cedo ou mais tarde, como você acabou de comprovar. Enquanto não aprender a superar seus medos e usar seu ódio a seu favor, será um alvo frágil, fraco, medíocre! Aprenda desde já uma coisa: a força crua, sem um preparo mental, não vale absolutamente nada. E então, ainda recusa meu treinamento?
– Quem é você? – perguntou novamente, ofegando um pouco, e sentindo cada perímetro de seu braço torcido arder. Mesmo não vendo a expressão do homem, teve certeza de que ele sorriu ao responder sua pergunta.
– Sou Henri Ducard, seu novo Mestre! – soltou os braços de Bruce, que caiu, totalmente desequilibrado – Vamos sair logo daqui – ofereceu sua mão para que o Bilionário pudesse levantar.
~*~*~
Bruce imaginou que Ducard tivesse articulado algum plano mirabolante de fuga em mente, mas tudo o que ele fez foi conduzi-lo tranquilamente até a saída, sem nenhuma tentativa de esconder o prisioneiro que levava ilicitamente consigo. Talvez essa Liga das Sombras realmente fosse uma instituição muito poderosa e respeitada naquele degradado lugar...
Após uma longa caminhada – marcada por extensos morros sinuosos – o Mestre e o Aprendiz chegaram à casa mais alta, que parecia um mosteiro, no pico da maior colina – totalmente isolada de qualquer lugar.
Tudo ali exalava um ar estranho de falsa calmaria. Como um silêncio fora do normal que prevê uma tragédia... ou talvez Bruce tivesse passado tanto tempo convivendo com ladrões, que agora sentia que era impossível não desconfiar de tudo e de todos. Tentou afastar a má impressão que experimentou admirando o lugar, que era de uma simplicidade estonteante.
– Pronto para começar o treino? – Ducard interrompeu os devaneios de Bruce, entregando-lhe uma longa espada e já se posicionando para lutar.
– Mas agora? Eu estou exausto...
– E você acha que seu oponente vai se importar com seu cansaço? – investiu contra Bruce, iniciando o duelo – aprenda a ser o dono do seu corpo, Bruce – dizia a cada golpe rápido de sua espada – esqueça a fraqueza de seu físico e concentre-se totalmente no seu oponente! Quem tem que comandar seus movimentos é a sua mente, não se esqueça.
Os reflexos de Bruce estavam totalmente lentos – ele mal conseguia desviar-se da intensidade precisa que Ducard colocava em todos os seus movimentos – e cada músculo implorava por um descanso, mas Bruce jamais se daria por vencido enquanto ainda conseguisse manter seu corpo ereto. Ele apenas se defendia, não conseguiu atacar o Mestre uma única vez...
E assim foi durante semanas. Mesmo descansado, Bruce não conseguia sequer tocar Ducard com a ponta de sua espada, enquanto ele já havia recebido inúmeros hematomas de seu Mestre. Era impressionante ver como Ducard dominava perfeitamente cada técnica, todos os seus movimentos eram friamente calculados, pesados e medidos!
– Você quer se vingar do homem que matou o seu pai ou não? – provocou, instigando Bruce a acertá-lo em um dos treinos.
– Meus golpes são mais do que suficientes para dar conta daquele assassino – arfou, completamente exausto, jogando a espada no chão e sentindo-se vencido.
– Nunca largue sua arma, Bruce – Ducard falou irritado, posicionando sua própria espada rente ao pescoço do aluno – pensei que você já tivesse aprendido essa lição!
– É inútil... eu não posso competir com você!
– Sabe quem foi o verdadeiro culpado pelo assassinato dos seus pais?
Bruce pareceu desconcertado com a pergunta, mas respondeu mesmo assim.
– O desgraçado que puxou aquele gatilho! Joe Chill... – falou o nome com ódio, lembrando-se de quando ele foi capturado e preso pela polícia de Gotham, sob a acusação de homicídio do casal Wayne.
– Não, Bruce! A culpa foi do seu pai.
– O quê? – perguntou, chocado.
– Seu pai não soube reagir! Deixou que um marginalzinho qualquer tirasse a vida da esposa e a própria vida, e até colocou você em perigo. A culpa é única e exclusivamente do seu pai. Ele era um fraco, e eu vejo essa mesma fraqueza em você, e esse é o pior defeito que alguém pode ter. Está na hora de encontrar sua força e me enfrentar direito, Bruce. Reaja! Não cometa o mesmo erro grosseiro do seu pai!
Bruce ainda ficava enfurecido ao ouvir críticas contra sua família, mas já havia aprendido com Ducard muita coisa sobre como controlar seus sentimentos durante um conflito. E foi exatamente isso que ele fez naquele momento!
Agarrou sua espada e deixou que sua mente controlasse os instintos de seus golpes – que estavam cada vez mais fortes e perfeitos – extravasando a raiva numa medida certa o suficiente para acertar o Mestre, pela primeira vez, desde que havia começado a medir forças com ele.
Olhou incrédulo para o ferimento que havia acabado de fazer no ombro de Ducard, desacreditando que finalmente tinha progredido a tal ponto. O sangue escorria tímido pelo braço do Mestre, mas este sorria, orgulhoso ao observar a obra-prima que havia feito de Bruce.
– Você está pronto! – abriu ainda mais o sorriso ao pronunciar aquelas palavras.
~*~*~
Entrar para a Liga das Sombras agora era apenas uma questão de tempo. Bruce havia passado com êxito nos testes impostos pelo seu Mestre, e agora tudo o que precisava fazer era dar uma última prova do seu valor, um teste final que mediria a força adquirida pelo aluno no período de treinamento.
Ducard nem por um segundo duvidou de sua capacidade. Apostou todas as suas fichas no potencial daquele que até hoje havia sido o seu melhor aprendiz! E Ducard não costumava errar quando julgava a aptidão de alguém, e dizia para quem quisesse ouvir que Bruce tinha tudo para um dia se tornar o líder da Liga das Sombras...
Mas pela primeira vez, ele se enganou. Bruce provou-se um incapaz em sua prova final, dizimando todas as expectativas que Ducard lhe confiou tão cegamente. Bruce falhou em sua última prova por ser fraco, chegando a destruir tudo que o Mestre tanto prezava..."
– Qual foi esse teste que Bruce não passou? – Alice perguntou, curiosa.
– Trata-se de um tipo de ritual de passagem, a última prova para se tornar um verdadeiro guerreiro da Liga das Sombras, mas eu não posso dizer como é feito, pois esse teste é secreto. Apenas quem já passou por ele pode saber como é – disse, misteriosamente – Mas o teste em si não tem relevância, é o acontecimento posterior que nos interessa agora. Inconformado com sua incapacidade, Bruce incendiou a sede da Liga, deixando todos os seus integrantes ali, para arder junto com o fogo!
Alice estava boquiaberta diante daquelas palavras de Ducard. Podia acreditar que Bruce tinha todos os defeitos do mundo, mas ser um assassino? Não combinava com o perfil do Almofadinha...
– Bruce tentou matar os integrantes da Liga? – perguntou, convencida de que havia entendido errado as palavras do seu companheiro de cela.
– Sim... – Ducard fez uma pausa, esperando que Alice digerisse aquela história, e deu seu golpe final, aquele que desestabilizaria de vez a opinião da hippie a respeito do Bilionário – e logo depois disso, ainda revoltado, Bruce se tornou aquele que todos conhecem como Batman, o Cavaleiro das Trevas!
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