Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
24 Quanto Vale O Seu Sorriso?
Notas iniciais
Algumas vezes o cérebro humano é incapaz de processar de imediato uma declaração absurda... normalmente, quando isso ocorre, alguns segundos extras são desperdiçados para conseguirmos interpretar aquilo que acabamos de ouvir, de tão ridícula que a informação possa soar aos nossos ouvidos.
Era exatamente por esta situação que Alice passava naquele momento! Será que entendeu direito o que Ducard disse? Bruce se vestia de Batman nas horas vagas? A hippie riu somente ao cogitar a veracidade dessa hipótese.
– Espera aí, volta a fita – endureceu o rosto ao notar a expressão séria de Ducard – você está me dizendo que o Banana do Batman e o Tonto do Bruce são a mesma pessoa?
– Exatamente – Ducard sentiu-se triunfante ao detectar aquela famosa expressão de decepção na face incrédula da hippie. Muitos sentimentos confusos estavam evidentes nela, e isso certamente tornaria o seu propósito de revanche muito mais fácil.
– Mas isso não faz sentido... – Alice recusava-se a acreditar, mesmo sendo capaz de enxergar todas as provas apontando para Bruce.
– Não faz sentido? Pense em tudo o que eu te contei sobre ele, Alice! Encaixe as peças, e você verá que dois mais dois são quatro!
– Se Bruce fosse o Batman, ele nunca escolheria se fantasiar de morcego – tentou argumentar, mesmo sabendo que não estava sendo convincente, mas ao mesmo tempo sentindo uma enorme necessidade de provar que aquilo era uma grande mentira – você mesmo disse o quanto Bruce detesta morcegos!
– E isso só prova que eu tenho razão. Bruce precisava projetar essa repulsa que sente para os criminosos, somente assim eles compartilhariam o pavor de Bruce através do que o Batman representa. Além do mais, foi uma forma de tentar superar o próprio medo...
Alice não podia negar o quanto tudo aquilo fazia sentido! Os acontecimentos finalmente começaram a se encaixar: O olhar familiar de Batman de repente ajeitou-se perfeitamente ao rosto do Bilionário... A recusa do Cavaleiro das Trevas em machucá-la no interrogatório que fez quando Coringa fugiu de sua casa... A ausência de Bruce sempre que Batman estava por perto... A necessidade de um grande investimento financeiro para os acessórios do Homem Morcego...
Como ela não havia percebido isso antes?! Todas as evidências estavam bem diante do seu nariz e a hippie nem sequer juntou os fatos... mais uma vez sentiu-se estúpida por cair nas mentiras de Bruce! Nem por um segundo ele confiou nela, todas as lembranças do curto relacionamento que tiveram eram baseadas em dissimulações, em falsas verdades!
– Você o treinou para que ele se tornasse a aberração que é hoje? – Alice perguntou com desprezo.
– Eu fui o Mestre dele, sim, mas como você pôde perceber na última história que lhe contei, Bruce me traiu, se aproveitou do meu treinamento e não completou a prova final para entrar para a Liga das Sombras. E hoje a verdadeira máscara que ele carrega é a de empresário. O Batman é sua verdadeira identidade, há muito tempo ele foi consumido por tudo o que seu símbolo representa.
– Sabe o que aquela fantasia ridícula representa? – perguntou, revoltada, e logo em seguida respondeu à própria pergunta – a impunidade dos fortes, a anarquia dos fracos... ele se esconde atrás de uma máscara e acha que pode fazer justiça com as próprias mãos, como bem entender! Isso é heroísmo ou uma necessidade patética de se sentir no controle de tudo? – seu tom de voz foi subindo gradativamente, descontrolado pelo sentimento de fúria – Aonde todos veem um “Justiceiro”, eu vejo um “Vingador” de meia tigela! – bufou, parando seu desabafo para respirar.
– Entendo a sua raiva – sorriu por dentro, satisfeito por vê-la tão irritada e inconformada com aquela revelação – eu também não o vejo como um herói, muito pelo contrário! Ele destruiu tudo em que eu acreditava ao provocar aquele incêndio. Seus métodos são dignos desta cela. Os verdadeiros vilões são pessoas como Bruce, que sempre conseguem caminhar às margens da lei sem sofrer qualquer tipo de consequência, e nós acabamos pagando no lugar deles.
Alice reparou no modo enojado com que Ducard olhou para a prisão.
– Você está preso por culpa dele, não é? – perguntou baixinho.
– Sim... – Ducard mirava um ponto fixo em algum lugar além das grades cinza e sem vida, como se somente o seu corpo estivesse ali, e sua mente vagasse bem longe nas lembranças que tanto queria apagar.
– Como aconteceu?
Se Ducard tinha a intenção de responder à sua pergunta, Alice jamais saberia. Naquele instante o policial Smith bateu no metal, chamando a atenção da hippie de forma um tanto bruta e mal humorada, como sempre.
– Visita para você! – seu olhar direcionado a ela era de puro nojo.
Alice surpreendeu-se ao ver Smith ali... havia se acostumado com Sheldon a acompanhando para todos os lugares, e certamente a presença do amigo era muito mais agradável do que aqueles olhos cruéis e inquisidores...
O policial destrancou a cela, e logo depois de algemá-la com uma força completamente desnecessária, conduziu-a por aquele caminho tão conhecido até a sala de visitas. E por mais ou menos metade do percurso os dois permaneceram em silêncio, até que Alice não conteve a pergunta que saiu involuntariamente de sua boca:
– O que aconteceu com o policial Sheldon?
– Não é da sua conta! – atacou, olhando-a através de sua visão periférica. Mas logo após proferir essas palavras, riu, parecendo mudar de ideia quanto à sua resposta – mas talvez você deva saber o mal que fez a ele, não é mesmo? As autoridades descobriram que você foi colocada numa cela junto com um homem... e como Sheldon era responsável por te vigiar, foi considerado culpado e exonerado do cargo no mesmo dia – sorriu com uma malícia arrepiante – talvez até tenha que responder por um processo! – balançou a cabeça, como se reprovasse a atitude do ex-colega de trabalho.
– O quê? – Alice arregalou os olhos, sem acreditar na cara de pau daquele policial – mas foi você quem me colocou ali... Sheldon não pode ser responsabilizado pelos seus trambiques!
– E quem vai dizer isso às autoridades? Você? – debochou, aumentando ainda mais a raiva que Alice sentia dele, que de tão fanático chegava a ser corrupto – Sheldon não tinha crédito nenhum aqui, ninguém iria acreditar na palavra dele, principalmente tendo uma advogada do seu naipe... – riu, ainda mais perverso.
– É esse o tipo de defensoria pública que o povo de Gotham tem? – Alice sentia-se cada vez mais revoltada com toda a podridão daquele lugar – vocês são piores do que a própria máfia!
– Quietinha... – revirou os olhos, sem o mínimo de paciência para os discursos moralistas de Alice – Antes que eu tenha que culpar outro policial por impedir que você converse com sua advogada – ameaçou, arqueando uma sobrancelha.
– É a minha advogada que está aqui? – perguntou, sentindo o alívio percorrer seu corpo.
– Veja você mesma... – abriu a porta, dando passagem para que Alice entrasse, e logo em seguida fechou-a novamente, deixando a hippie a sós com sua visita.
– Jackie! – suspirou ao ver que se tratava de sua provável futura advogada.
– Alice! – cumprimentou, sorrindo timidamente por ver a amiga naquela situação – me desculpe pela demora! Parece que de repente todos resolveram contratar meus serviços de uma só vez... está uma loucura! – tentou explicar.
– Tudo bem... O importante é que você veio! Espero que possa arranjar espaço para mais uma cliente na sua agenda...
– Lógico que sim! Afinal, eu ainda vou poder cobrar um rim de você... – as duas riram, mas logo Jacqueline ficou séria novamente quando voltou a falar – terei que fazer umas perguntas sobre o seu caso, tudo bem?
– Manda!
– Bom, antes de começar eu preciso saber quando será a sua audiência...
– Amanhã, no final da tarde – respondeu tranquilamente, sem se importar com a repentina feição de desespero da advogada.
– A audiência é amanhã? — sua voz saiu bem mais aguda do que o normal – Alice, eu não tenho condições de formular uma defesa em tão pouco tempo...
– Jacqueline Pereira, você não me engana! – levantou as sobrancelhas, interrompendo-a – aposto qualquer coisa como você acompanhou cada novidade do meu caso, e se duvidar até tem o esboço de uma defesa brilhante para a minha situação. Estou errada?
– Eu não sou tão obcecada assim – suas bochechas enrubesceram, confirmando a teoria de Alice.
– Não, imagina... – riu – bom, então isso quer dizer que você vai me aceitar como cliente, certo?
– Sim – Jacqueline rendeu-se, sem esconder o entusiasmo por ser a advogada desse famoso caso – mas preciso saber de todos os detalhes antes!
– Eu sou inocente, se é isso o que você quis perguntar...
– Precisa me dar mais informações do que isso se quiser minha ajuda... – disse, com uma curiosidade insaciável pelos dados certos, parecendo um abutre sobrevoando uma carcaça fétida.
Alice contou tudo o que podia. Desde o começo daquele vício – quando o Palhaço ficou internado em sua casa – até os últimos encontros, mas sempre tentando parecer a vítima assustada, escondendo cada sentimento obscuro que era compartilhado entre o psicopata e ela, transformando todos os fascínios em ameaças, editando e modificando cada pedaço da história. O motivo de suas mentiras nada tinha a ver com se julgar culpada, longe disso. A hippie apenas não podia deixar que ninguém soubesse o quanto era dependente do Palhaço... isso certamente a colocaria em maus lençóis! E mesmo contando apenas meias-verdades, ela não podia sentir-se melhor por finalmente desabafar aquilo com alguém.
A advogada acreditou em cada palavra de Alice! Era possível identificar todas as reações de angústia que Jacqueline manifestava conforme a hippie narrava os fatos. Apesar da compaixão que demonstrava sentir pela amiga, parecia cada vez mais satisfeita por conhecer todo aquele emaranhado confuso que envolvia a trama complexa de Alice e Coringa.
Depois de longos minutos, toda a sua versão estava descrita, e Alice teve certeza de que Jacqueline já estava em posse de alguma defesa genial que a livraria de todo aquele pesadelo! Pesadelo esse que já havia crescido em proporções gigantescas e tomado tempo demais em sua vida: aquilo nada mais era do que um tumor maligno, em intensa proliferação, chegando a ser letal sem um tratamento adequado.
– E tem mais uma coisa que eu quero que você use na minha defesa...
– Tem mais? – Jacqueline pareceu espantada, achando que já havia ouvido de tudo.
– Sim – Alice confirmou com a cabeça – sabe o policial que me trouxe até aqui? – a advogada assentiu, prestando o máximo de atenção – o nome dele é Smith, e ele me fez dividir a cela com um homem! Quero que ele perca o cargo por causa desse desrespeito com a lei e com os meus direitos de presidiária.
– Meu Deus, Alice... – exclamou, pasma – quando eu acho que essa história não tem como ficar pior, você me surpreende ainda mais! Pode ficar tranquila, esse policial irá pagar pelo que fez! E tudo isso só torna ainda mais fácil a nossa vitória, você vai ver! – transmitiu tanta confiança em suas palavras, que Alice ficou bem mais tranquila sobre o resultado da audiência.
– Isso é ótimo! Porque daqui a algumas semanas eu preciso estar livre! Ainda tenho um concurso para passar... – pensou alto consigo mesma.
O tempo com a advogada havia se esgotado antes que ela percebesse, e Smith a conduzia a caminho da cela, novamente em silêncio. Porém, num certo trecho do trajeto, Alice percebeu a mudança no percurso tradicional.
– Para onde está me levando? – encarou o rosto intenso do policial. Seu semblante era tão duro e tão frio que as próprias barras de ferro pareciam mais aconchegantes.
– Agora você está sob a minha supervisão – respondeu secamente – não espera que eu a coloque naquela mesma cela novamente, não é?
– Eu não esperava da primeira vez que você fez isso – destacou o pronome – por que seria diferente agora?
– Simples, na primeira vez eu tinha um imbecil a quem culpar! Mas dessa vez não, porque o seu caso foi passado para mim com a demissão do idiota do Sheldon, então tudo tem que correr nos conformes.
– Hey, só eu posso xingar o tonto do Sheldon! – defendeu o amigo – O cara é estranho? Sim, e daí! É molenga? Sim, e daí! Ele pode até ser meio autista, mas é o meu Sheldon! – disse, vendo que Smith não dava a mínima para seu falatório. Sem conseguir manter-se calada, perguntou: – então quer dizer que agora eu vou para a ala feminina?
– Não. A ala feminina está lotada.
– E então como vai ser? – Alice estava ficando impaciente com o repúdio que Smith sentia por ela – vai trocar um homem por outro? Melhor ficar com o Ducard!
– E quem disse que na cadeia uma pessoa precisa necessariamente ficar presa acompanhada com outras do mesmo sexo ou de sexo diferentes?
– Então você quer dizer que... vai me colocar na solitária? – perguntou, com uma pontada de pânico na voz.
– Você aprende rápido – Smith riu, zombando de Alice.
– Não, por favor! Eu preciso continuar com Ducard – implorou. “Preciso saber mais sobre Bruce! Sobre Batman... ou sei lá quem ele seja de verdade!”
– Pouco me importa o que você quer – sorriu, adorando a sensação de ser o responsável pelo desconforto de Alice – você não está em uma colônia de férias!
Alice bufou de raiva. Não podia ser transferida justo agora... justo no momento em que Ducard exploraria mais a fundo o passado e os erros de Bruce! Odiou ainda mais aquele policial desprezível.
Após ter sua algema retirada, foi trancada na solitária gelada e escura. Ficar sozinha era exatamente o que ela não precisava no momento... sabia que a solidão despertaria sua mente a remoer cada palavra de Ducard, a reviver todas as lembranças que ele havia lhe contado – só que desta vez com olhos diferentes, sabendo que cada fato de seu passado teria uma parcela no caminho ilícito que Bruce escolheu para sua vida.
– Idiota! – xingou alto, aproveitando a solidão à sua maneira. A hippie sentou-se no canto mais escuro da cela, e cobriu o rosto com as mãos, cansada de sua vida. Daria tudo para ser outra pessoa agora...
“Será que Rachel sabe que o queridinho dela sai toda noite fantasiado de Morcego?”
Claro que sabe! Bruce confia nela! – a vozinha em sua mente respondeu, inflexível e cruel, antes mesmo que Alice terminasse de projetar a pergunta em seus pensamentos.
– Obrigada, Débie! – disse, irônica, afundando o rosto entre seus próprios joelhos e tentando ocupar o menor espaço permitido pelas leis da física, como se fosse possível diminuir sua dor ao encolher-se o máximo possível.
Uma única lágrima grossa percorreu um caminho tortuoso em seu rosto, porém não mais tortuoso do que aquela posição desfavorável em que se encontrava...
Foi transportada de volta à realidade quando ouviu a grossa tranca da solitária se abrir e uma tímida e fraca luz iluminar o local. Imediatamente levantou o rosto, com uma pontada de esperança.
– Vai me tirar daqui? – perguntou ao vulto parado em frente à porta, acreditando que se tratava do policial Smith.
– De jeito nenhum, você foi uma menina muito malvada! – o homem riu, e na mesma hora Alice reconheceu a quem pertencia a voz e a risada doentia. Coringa agora se aproximava dela com seu tradicional sorriso no rosto, e a hippie pôde ouvir que alguém os trancava novamente, mas foi impossível ver seu rosto.
– Você não sabe o significado de “solitária”? – perguntou, tentando disfarçar todos os pequenos sinais que poderiam denunciar o quanto ela queria vê-lo de novo: a pulsação forte de seu coração, o repentino bambear de suas pernas, e por fim o brilho diferente em seus olhos. Coringa estava sem maquiagem e vestia o mesmo uniforme ridículo que o dela. Seus cachos agora eram de um loiro escuro, que caíam despenteados pelo seu rosto.
– Aposto que você sentiu minha falta, Docinho!
– Senti... – revirou os olhos – mas logo passou quando eu fui ao McDonald’s e vi uma foto sua na caixinha do McLanche Feliz.
Coringa gargalhou, e aquele som tão familiar arrepiou os pelos de sua nuca. Mas não era por medo do Palhaço... o corpo da hippie tremeu com a satisfação de vislumbrar sua imagem novamente, de saber que estava tão perto do seu vício que bastava esticar um pouco o braço para poder tocá-lo!
– A cadeia ainda não destruiu seu senso inconsequente? Estou impressionado! – riu novamente.
– Eu sei o que você pretende com tudo isso! Sério, não vai dar certo... esse seu joguinho não me afeta!
– Esse é só o começo de tudo, Alice! Você ainda tem muito o que provar – chegou perto demais, posicionando o seu rosto a poucos centímetros do rosto de Alice, e ainda sorrindo.
Ela bufou, tentando não perder o controle dos seus sentidos ao perceber a respiração do Palhaço tão próxima da sua.
– Quantas chances desperdicei, quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém!
– Você não tem nada a provar para o mundo? – levantou as sobrancelhas, como se duvidasse – Me prove, então! – Coringa a puxou para mais perto de si, segurando sua cintura com força e passando a ponta da língua pela curva de seu pescoço, fazendo as pernas da hippie tremerem ainda mais.
– Não foi isso que eu quis dizer! Ow, mente conspurcada... — sussurrou baixinho ao perceber as más intenções por trás de suas palavras.
– Mas aposto que você se animou com a ideia! — riu, ainda explorando o seu pescoço.
– Você é muito convencido, sabia? — tentou afastar o Palhaço, mas nem mesmo seu corpo a obedecia. As reações de seu sistema nervoso estavam completamente à mercê da proximidade de Coringa, e essa sensação Alice conhecia muito bem...
Ele não respondeu, ao invés disso mordeu com força a base de seu rosto, aonde ficava a curva do maxilar. Provavelmente a mordida teria doído se Alice não estivesse tão anestesiada pelo cheiro de Coringa.
– Como você conseguiu entrar aqui? — tentou distrair sua mente do repentino furacão que estava se formando em seu peito. Ele riu com a pergunta, olhando-a nos olhos, mantendo o rosto praticamente grudado ao dela.
– Você já devia ter percebido que eu sempre consigo o que quero.
– É, estou vendo — rolou os olhos, irônica — aposto que todos os seus capangas são da polícia!
Coringa voltou a brincar com seu pescoço, e ficou ainda mais difícil para Alice controlar os impulsos e protestos de seu corpo. A vontade que tinha era se jogar em cima dele — e esquecer-se de todos os sentimentos que afligiam sua mente dolorida.
Ainda tinha um fiapo de auto-controle, quando tudo de repente foi pelos ares. Coringa encontrou sua boca, abrindo os lábios da hippie com os seus, sem esbarrar com qualquer indício de resistência de sua parte.
“Dane-se!” – esse foi o último pensamento coerente de Alice, deslumbrada por sentir novamente o toque quente do Palhaço — "pelo menos assim serei acusada de uma coisa que eu fiz!"
Alice caçou o lóbulo da orelha de Coringa, e ao encontrá-lo entre seus dentes, mordeu suavemente a pele desprendida do pescoço, enquanto brincava com seus cachos com uma das mãos. Fez o percurso de sua cicatriz com a boca, até finalmente encontrar os lábios de Coringa bem rentes ao seu.
E naquele beijo, ela matou a sede que há muito tempo a consumia em silêncio. Seus lábios se moviam com uma sincronia perfeita, como se um fosse capaz de adivinhar as vontades do outro, sem a necessidade de uma única palavra trocada. Somente se descolaram por um momento, e Coringa olhou para ela, divertido e surpreso ao mesmo tempo.
– Devia ter te mandado pra cadeia há mais tempo!
– Ah, cala a boca! – reclamou, diminuindo novamente a pouca distância que havia se formado entre eles. A respiração dos dois foi se tornando mais rápida, ofegante, e tão indomável quanto aquele momento. O Palhaço fez mais uma irritante pausa com seu falatório, alfinetando a hippie.
– Você está muito insaciável pra alguém que não me queria por perto! – riu ao mesmo tempo que voltou a beijar Alice. Foi a vez dela interromper o momento para dar a sua resposta.
– Eu estou fazendo justiça! Estou presa aqui porque fui acusada de ser sua cúmplice, nada mais justo do que cometer o erro pelo qual estava pagando inocentemente! É como eu sempre digo: é melhor pedir perdão do que permissão! – concluiu, vendo o olhar surpreso e divertido do Palhaço – Mas se você preferir eu posso ficar quietinha ali naquele canto em que eu estava... – ameaçou se afastar do Palhaço, e em resposta ele a puxou de volta com força, moldando mais uma vez seus lábios ao da hippie, e ela não pode deixar de rir durante o beijo.
Em Coringa ela podia extravasar toda a sua raiva pela revelação que havia recebido mais cedo. Sua frustração se esvaía gradualmente a cada toque correspondido do Palhaço, e antes que pudesse se dar conta, nada mais daquela loucura externa de sua vida a incomodava, não com seu vício ali, tão perto, tão palpável, tão real! À medida que sua mente se esvaziava, as lacunas do seu desejo eram totalmente preenchidas.
Explorar um ao outro era a única regra a qual os dois se submeteriam. Alice acomodou as mãos dentro do uniforme monocromático, sentindo cada músculo definido, e também as inúmeras cicatrizes em alto relevo que marcavam o corpo do Palhaço. Tentou tirar aquele pano inconveniente dali, e Coringa – percebendo sua impaciência – arrancou a própria camisa.
Alice o imitou e se desfez da enorme blusa, que mais parecia um vestido de tão grande. Encarou o peito nu de Coringa, vislumbrando todos os detalhes e tentando guardá-los em sua memória. Da mesma forma, ele também admirava cada curva bem definida da hippie, analisando-a como se ela fosse a caça e ele o caçador.
Ela passou suavemente a ponta do dedo pelo corpo de Coringa, reproduzindo o caminho de uma de suas cicatrizes. Envolvendo os braços em torno do seu pescoço, circundou a cintura do Palhaço com suas próprias pernas, deixando o rosto dos dois mais ou menos no mesmo nível. Seus olhos se cruzaram, e era impossível identificar qual dos dois emitia mais êxtase. Coringa mantinha uma das mãos apoiando as costas da hippie, enquanto a outra emaranhava-se ao seu longo cabelo. Puxou seu rosto novamente, iniciando mais uma onda ininterrupta daquele contato irreprimível entre seus lábios.
Alice envolveu ainda mais o aperto de suas coxas ao corpo de Coringa, sentindo que qualquer espaço livre que pudesse haver entre eles seria uma grave heresia. A sensação de seu cheiro, seu toque, seu gosto eram inebriantes... o beijo tornou-se ainda mais intenso, mais íntimo à medida que o contato de seus corpos ardiam em suas peles.
Estava difícil respirar, contudo puxar o ar para dentro dos pulmões parecia uma necessidade secundária para ambos. Coringa posicionou Alice na precária cama da solitária – sem interromper o beijo – cobrindo totalmente o corpo arrepiado dela com o seu próprio corpo. Suas pernas formavam um enlace perfeito, e as mãos continuavam desvendando cada centímetro do outro através do tato. Um tipo de “Estudo Avançado de Anatomia em Método Braille”.
Alice inclinou levemente o corpo para cima, tentando alcançar a outra peça do uniforme em Coringa. Ao sentir a textura do pano vagabundo, deslizou-o para baixo, a fim de livrar-se daquele inconveniente empecilho. Alice riu baixinho, imaginando se a roupa íntima do Palhaço seguiria o mesmo estilo de seu terno roxo. Foi a vez de Coringa arrancar, impaciente, a calça da hippie, e ao fazê-lo, articulou a pele macia e agora nua de sua coxa junto à lateral de seu corpo, voltando a beijá-la.
Os batimentos cardíacos estavam tão fortes e irregulares, que certamente poderiam ser ouvidos sem o auxílio de um estetoscópio. A cela era fria, mas os dois irradiavam calor numa medida muito além da normal, como se estivessem passando por surtos de febre, porém uma febre sedutoramente deliciosa – que nenhum remédio seria capaz de curar!
Sentir a pele dele em contato com a sua era tão surreal quanto viver um sonho. E o medo de acordar não podia ser mais assustador... Como se o Palhaço tivesse lido seus pensamentos, mordeu o lábio inferior de Alice – reproduzindo nela o mesmo efeito de um beliscão – e ela instantaneamente relaxou em seus braços, percebendo o quanto aquele momento era real. Real a ponto de fazer com que ela desejasse que tudo se passasse em um plano onírico, para nunca mais sair dele, para não precisar enfrentar o dia seguinte e todas as implicações de seus atos...
Mas nada disso importava agora! Tudo o que sua mente conseguia processar era o quanto precisava de Coringa o mais perto possível. Arranhou de leve suas costas, apertando ainda mais a pele dele contra a sua, sem jamais querer soltá-lo. Ele correspondeu, aumentando a urgência do beijo com o mesmo instinto de posse, como se ela fosse um território a ser conquistado.
Não havia qualquer cenário ao redor dos dois. Era apenas Alice e Coringa em seu universo paralelo, aonde nada nem ninguém seria capaz de desfazer o forte elo que se firmava entre eles naquela noite! O peso de Coringa sobre Alice só instigava ainda mais a estranha vontade de mantê-lo seu para sempre, e a sede por sua boca parecia apenas aumentar. Quanto mais o tinha para si, mais queria tê-lo por completo. E aquele vício secreto saiu totalmente de seu controle agora. Mais do que nunca necessitava de Coringa, e sabia que jamais chegaria o dia em que deixaria de saciar-se dele.
"Wait, I think it's time
Your fire's lit and so is mine
Go turn out the light
Don't be afraid, tonight's the night
And I won't, I won't try to change you
But I will, I will if I want to
Yeah, it always brings me down
When you're not around
I still need you
Oh, You do something for me baby
I cannot control it, baby
You do something for me
Oh, You do something crazy to me
I cannot control it, baby
You do something for me
And I feel so down
When you're not around
Boy, we're almost there
I'll lay your clothes over my chair
Pull the shades down low
We're both ready so lose control
And I won't, I won't try to tame you
But I will, I will if you want to
Yeah it always brings me down
When you're not around
I still need you
Oh, You do something for me baby
I cannot control it, baby
You do something for me
Oh, You do something crazy to me
I cannot control it, baby
You do something for me
And I feel so down
When you're not around
And I won't, I won't try to tame you
But I will, I will if you want to
Yeah it always brings me down
When you're not around
I still need you
Oh, You do something for me baby
I cannot control it lately
You do something for me
Oh, You do something for me baby
I cannot control it lately
You do something for me
Oh, You do something crazy to me
I cannot control it, baby
La la la la la la la la
You always bring me down"
(Something Crazy – Lady Gaga)
Alice dormia profundamente, e pela primeira vez naquela noite sua respiração era baixa e regular. Coringa encarava seu rosto sereno, sentindo-se vitorioso ao recordar todos os detalhes daquela noite. A luxúria dele sendo correspondida pelo olhar de desejo da hippie, os toques incontroláveis, a sensação incalculável de prazer... evidências que provavam o quanto ela era dependente de seu toque.
Sorriu, satisfeito, e sussurrou baixinho em seu ouvido, sabendo que seu sono pesado a impediria de acordar.
– Espero que você saia inteira do que ainda está por vir, Docinho! – inspirou profundamente o perfume que sempre estava presente em seus cabelos – Odiaria perder esse belo conjunto... – riu baixinho, tendo que se controlar para não repetir a dose daquela noite.
Em vez disso saiu de fininho dali, indo preparar a grande surpresa que faria para Alice quando ela despertasse.
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Antes mesmo de Alice acordar por completo, sentiu o cheiro de Coringa invadir suas narinas. Sem perceber exatamente do que se tratava, sorriu, tendo consciência apenas de que aquilo era uma coisa boa. As recordações da noite passada foram voltando aos poucos, e cada nova lembrança provocava um arrepio diferente na hippie.
Ainda sonolenta, começou a distinguir e separar os flashes de memória que surgiam incontroláveis em sua mente. Será que tudo não passou de um sonho? De um daqueles sonhos tão reais que fazem a gente jurar que realmente aconteceu? Abriu os olhos, e sentiu o cheiro de Coringa novamente. A imagem de seu rosto limpo não saía de sua cabeça.
– Bom dia, Docinho! – a voz de Coringa preencheu o aposento, fazendo Alice assustar-se, mas ao mesmo tempo ainda bêbada de sono.
– O que você está fazendo aqui? – soltou um bocejo antes mesmo de terminar a pergunta.
– Você não se lembra do que nós fizemos aqui? – gargalhou – Todos os presidiários estão reclamando que não conseguiram dormir essa noite por causa do barulho dessa cela!
– Jesus, Maria, José! – exclamou – Não foi um sonho?! – sentou-se na cama em um único pulo.
– Eu não sei com que frequência você tem esse tipo de sonho comigo, mas dessa vez foi real! – riu diante da cara de espanto da hippie.
Olhando para a feição maliciosa de Coringa, teve certeza de que tudo realmente aconteceu, e agora cada detalhe da noite penetrava a fundo seu cérebro, como uma navalha cortante. Sentiu o rosto corar, ardendo de vergonha. Coringa voltou a alfinetá-la:
– Não precisa ficar envergonhada! Você deu pro gasto...
– Dei pro gasto? – repetiu, furiosa – Vá se foder! Eu devia estar drogada, viu... – resmungou.
– Ainda não... – Coringa disse com um sorriso estranho.
– Como assim, “ainda não”? – franziu a testa, esperando pela resposta. Coringa caminhou até a cama e Alice percebeu que ele segurava uma seringa, que continha um líquido meio transparente – o que você vai fazer com isso? – sua voz saiu aguda pelo pânico.
– Exatamente isso que você está pensando – disse, segurando com força um de seus braços.
– Hey, pare já com isso, seu doente! – Alice o socava com toda a energia que a condição de "recém-acordada" a permitia. Coringa parecia nem sentir suas tentativas frustradas de fazê-lo parar. Era como se ele estivesse injetando o misterioso líquido em uma pessoa desmaiada.
Alice sentiu ânsias de medo quando a agulha furou seu braço, e mais ainda quando percebeu que todo o líquido já estava em sua corrente sanguínea. O Palhaço agora passava um pedaço de algodão levemente umedecido com álcool e colocava um pequeno band-aid sobre o local perfurado da veia.
– O que você fez? – Alice perguntou com a voz manhosa de uma criança, sentindo instantaneamente o efeito da droga em seu organismo.
– É meu presentinho para você se sair bem na audiência de hoje, Docinho! – gargalhou – fique tranquila, eu só injetei um pequena dose de Dietilamida do Ácido Lisérgico, não há nada com o que se preocupar. Isso vai... – parou, pensando por um minuto – te tornar bastante autêntica no tribunal! – riu, divertindo-se com a própria piada.
– Você injetou LSD em mim? – perguntou chocada, sentindo o corpo bambear — e no dia da minha audiência? – sua voz estava histérica e fraca ao mesmo tempo.
– Shhh – Coringa segurou a hippie como se ela fosse um bebê choroso, embalando-a em seu colo – vai ficar tudo bem, Princesa!
– Cretino... – foi a última coisa que lembrou de ter dito antes que tudo perdesse o sentido.
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