Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
37 “I Believe In Harvey Dent”
Notas iniciais
Harvey estava deitado exatamente na mesma posição em que fora colocado quando foi internado no hospital. Simplesmente porque o mero pensamento de deslocar qualquer parte de seu corpo já era um processo doloroso...
Ele ainda podia sentir o cheiro de sua própria carne queimando... podia sentir o lado esquerdo do seu corpo ser carbonizado, como se ele ainda estivesse ardendo com as chamas que quase o consumiram completamente no momento da explosão. Mas não se importava. Mesmo estando ciente de cada porção agonizante que afligia o seu físico, simplesmente a ignorava com uma facilidade intrigante.
Aquela dor, que para muitos seria insuportável e enlouquecedora, para o Promotor era uma distração bem-vinda... era como se a ausência da tortura física pudesse desencadear um processo ainda mais doloroso em sua mente ao reviver o seu fracasso em tentar salvar sua noiva, e ele sabia que ser consumido pelas enfermidades mentais seria infinitamente mais desesperador...
E essa era uma das razões pelas quais Harvey não aceitava nenhum tipo de tratamento para amenizar a enorme queimadura que agora marcava metade do seu corpo. Precisava daquela aflição para distraí-lo. Também recusou qualquer tentativa dos médicos em convencer-lhe a reconstituir a pele completamente deformada de seu lado esquerdo. A cada vez que algum médico simplesmente cogitava a hipótese de uma intervenção cirúrgica, Harvey apenas negava veementemente com a cabeça, mesmo com as fisgadas dolorosas que a queimadura proporcionava com o gesto.
A parte desfigurada de seu corpo serviria como uma lembrança de tudo o que ele perdeu. Uma lembrança inconveniente que alimentaria diariamente a revolta que desgastava sua mente, que daria gás ao seu intenso desejo de vingança...
O Promotor encarava o teto, um tanto absorto dentro de suas próprias lembranças. O sorriso de Rachel era como uma tatuagem gravada em sua mente, uma gravura que ele sabia que não o deixaria em paz por muito tempo...
Ele nem reparou na figura uniformizada que de repente estava dentro de seu quarto, encarando-o com extrema atenção e mirando demoradamente a face deformada do Promotor, com uma satisfação pouco compreensível estampada no rosto.
O uniforme de enfermeira e a peruca loira contrastavam de forma incomum com a maquiagem borrada e a cicatriz em forma de sorriso. Chegaria a ser uma visão engraçada, se Harvey não se sentisse tão oco por dentro. Dent encarou Coringa naquele uniforme ridículo de enfermeira, sentindo o ódio começar a crescer dentro de si, sendo alimentado pela simples visão do Palhaço.
– O que faz aqui? – rosnou, rangendo os dentes, sem se importar com a dor repentina e aguda que o tomou apenas pelo fato de falar.
Coringa alargou o sorriso, aproximando-se da cama do Promotor a passos lentos, registrando e saboreando cada expressão aversiva que vazava através dos olhos azuis de Harvey.
– Vim prestar minhas condolências, Promotor! – respondeu com um sorriso amplo e sarcástico, ainda aproximando-se dele até finalmente ficar próximo o suficiente para ver as faíscas raivosas em seu rosto – aliás, belas cicatrizes! O fogo realmente fez um ótimo trabalho – riu, divertindo-se.
Harvey permaneceu um momento em silêncio, reparando no uniforme de enfermeira que Coringa usava. A roupa era extremamente branca, exceto por um pequeno boton redondo e preenchido pelas cores da bandeira dos Estados Unidos, com os dizeres “Eu acredito em Harvey Dent”. Aquele Palhaço parecia nunca poupar um desaforo...
– O que você quer? – estreitou o único olho que ainda lhe permitia formar alguma expressão – Como se não bastasse ter destruído tudo o que eu julgava valer a pena, ainda tem a audácia de vir até aqui zombar da minha condição?
– Entenda uma coisa, Harvey – Coringa balançou a cabeça, e os fios loiros da peruca seguiram aquele movimento – não foi nada pessoal, simplesmente... aconteceu! – disse inocentemente, como se ele fosse incapaz de controlar todos aqueles acontecimentos.
– Aconteceu...?! – o Promotor repetiu, inconformado, não acreditando no cinismo do psicopata. Ajeitou-se o melhor que pôde em cima da cama hospitalar, mas logo parou de se mexer ao sentir o roçar incômodo dos lençóis sobre as suas queimaduras – eu devo supor que você se julga inocente pela morte da Rachel? – o olhou com nojo.
– Completamente inocente! – Coringa levantou as mãos num sinal de rendição, como se mostrasse estar desarmado – você deveria se focar nos verdadeiros culpados – comentou despreocupadamente – sabe, Promotor, eu não planejo as coisas. Simplesmente deixo que elas sigam o seu curso natural, e então elas somente acontecem... se agora a sua noiva está morta, foi porque Batman escolheu salvar a outra, já pensou nisso?
O Palhaço inclinou a cabeça de leve, esperando pela reação de Harvey – que apenas o encarava em silêncio. A verdade é que o Promotor já havia perdido a conta de quantas vezes culpou mentalmente Batman e Alice pela morte de Rachel, com mais frequência até do que culpava Coringa... o psicopata quebrou novamente o silêncio, e Harvey nunca havia visto uma expressão tão insana no rosto de alguém.
– Eu dei o dom da escolha para Batman, mas ele preferiu deixar sua noiva morrer e salvar aquela que um dia foi acusada de ser minha cúmplice. Você percebe o quanto isso soa estranho? – riu, sem esconder a satisfação que sentiu ao perceber o reconhecimento de Harvey naquelas acusações – foram eles os culpados pela morte da...
– Rachel – ele completou, secamente, e Coringa pareceu não se importar.
– A questão é que Rachel não está mais aqui porque Alice está viva. Não me culpe por isso, eu sou completamente louco, não é mesmo? – riu alto.
Harvey desviou o olhar da figura doentia do Palhaço, fixando sua atenção em um ponto qualquer do quarto e ignorando completamente a presença do psicopata bem ao seu lado. O Promotor reconhecia o quanto aquelas palavras, apesar de serem um tanto venenosas, tinham um grande fundo de verdade. Se não fosse por Alice, sua Rachel ainda estaria viva, isso era um fato...
– Mas e então, Promotor... – Coringa o puxou novamente para a realidade com sua voz debochada – ... vai querer o seu acerto de contas? – perguntou, lambendo o canto dos lábios e adotando aquele mesmo sorriso cruel que sempre se fazia presente antes de um de seus atos hediondos. Da mesma forma, seus olhos brilharam intensamente, sabendo o quanto Harvey seria manipulável naquela condição de dor.
O Promotor apenas encarou o Palhaço de volta, e em sua expressão havia a resposta que Coringa tanto queria.
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Alice segurava o controle remoto entre sua mão, passando distraidamente por vários canais pouco interessantes que não lhe chamavam a menor atenção... era oficial: estava perigosamente entediada naquele hospital. Revirou os olhos ao passar por mais um programa de fofoca apelativo.
– Será que não passa mais Bob Esponja nessa porcaria de televisão? – resmungou.
Apertou novamente o botão do controle remoto, trocando mais uma vez de canal. Parou por um momento, rindo ao ver a imagem tosca do Patati e do Patatá apresentando porcamente o seu programa matinal... lembrou-se instantaneamente dos capangas de Coringa com aquelas máscaras ridículas de palhaço e na semelhança que existia entre aqueles disfarces e a maquiagem dos apresentadores.
Ela ainda sorria enquanto mudava de canal, porém logo o seu sorriso morreu quando viu a imagem do galpão em que esteve presa, agora completamente destruído pelas chamas. Aumentou o volume compulsivamente, e logo o seu quarto foi completamente preenchido pela voz alta e polida do repórter, ainda com a imagem do lugar deteriorado.
– ...assim que o corpo de bombeiros conseguiu conter o incêndio causado pela explosão, iniciou-se uma busca a procura de possíveis corpos perdidos nos escombros do galpão. Já está confirmado que esse ataque duplo em pontos diferentes da cidade foi causado por Coringa, em mais um de seus frequentes atentados. O ataque resultou em três mortos, dos quais apenas dois corpos foram identificados através do que restou da arcada dentária, e dez feridos. Nossos legistas descobriram dois corpos com marcas de tiros, sendo que um deles pertencia a uma criança de no máximo quatro anos, mas que não foi identificada – Alice sentiu sua pele se arrepiar pela simples menção de seu filho – e o outro corpo pertencia ao policial John Smith Quinzel, que durante muitos anos dedicou-se bravamente ao trabalho no departamento da polícia e lutou com enorme afinco contra o crime organizado. Certamente é um grande exemplo a ser seguido, que fará muita falta para a equipe de policiais. A polícia de Gotham fará uma homenagem em sua lembrança ao final dessa semana, com todas as honras militares...
– Eu não acredito.... – a hippie tinha uma expressão pasma no rosto enquanto via algumas fotos do policial Smith passando na TV, e uma enorme revolta crescia em seu peito mais uma vez apertado – aquele maldito ainda morreu como herói!
– ...a Advogada Rachel Dawes foi a terceira morte desse atentado. Dentre os seriamente feridos, está o Promotor Harvey Dent, que até então se provou nossa melhor esperança para limpar de forma lícita as sujeiras das ruas de Gotham, e que agora se encontra internado no Hospital de Gotham com queimaduras graves pelo corpo. Também está internada no Hospital de Gotham a criminosa Alice Rubídia de Assis Romanov III, que há alguns anos foi condenada por seu envolvimento com Coringa...
A hippie desligou a televisão, inconformada com aquelas notícias distorcidas sobre os acontecimentos. Smith seria enterrado como um herói, enquanto Krusty foi porcamente dado como morto pela mídia e Alice ainda era vista como uma criminosa de alta periculosidade... era injusta demais essa inversão de valores! O assassino de seu filho seria lembrado como um grande policial, um exemplo a ser seguido, quando na verdade ele não passava de um louco. Um assassino que só merecia o desprezo alheio, mas que ao invés disso ganharia a admiração e o respeito até mesmo de desconhecidos...
Seus dentes rangeram de frustração, e sua cabeça nunca pareceu latejar tão forte como agora. Daria tudo para poder contar a verdade à mídia, dizer o quão podre aquele policial era... mas tudo isso só iria piorar a situação de Alice ainda mais! Smith já estava morto, não poderia pagar pelos seus erros, e em contrapartida a hippie acabaria revelando que teve um filho com Coringa, e mais uma vez seria bombardeada de acusações.
Teria que engolir o próprio orgulho diante dessa injustiça e nunca falar desse assunto com ninguém... a impunidade daquele mundo hipócrita acabaria prevalecendo mais uma vez, e a impotência que Alice sentia diante daquele fato era altamente corrosiva.
Simplesmente não conseguiu permanecer quieta em cima daquela cama... não com toda aquela revolta acumulativa que já estava se tornando tão comum na rotina de Alice. Ela levantou-se de um pulo, praguejando na mesma hora por sua falta de cuidado ao sentir a cabeça protestar devido à pouca delicadeza nos gestos da hippie. Ignorou a dor, e saiu de seu quarto pela primeira vez desde que foi internada ali, como uma tentativa de fugir dos próprios pensamentos. Ela sabia que essa tática não era muito eficaz, mas só o fato de estar caminhando um pouco já melhorou drasticamente o seu humor.
Assim que ultrapassou a porta e deu de cara com os corredores, percebeu o quanto aquele hospital deveria ser grande... a visão do prédio do lado de fora já era capaz de dar uma vaga dimensão da grandiosidade daquele lugar, mas os corredores amplos e bem arejados com certeza eram mais eficientes para demonstrar o quanto o Hospital de Gotham era espaçoso. Chegaria a ser aconchegante, se não fosse um hospital...
Concentrou-se no ritmo de seus passos, inspirando profundamente aquele odor hospitalar típico, percebendo o quanto chegou perto de enlouquecer dentro de seu temporário quarto, acompanhada unicamente de seus próprios pensamentos pouco reconfortantes.
Cada pisada vinha junto com a sensação gostosa do chão frio sob seus pés. Alice sabia que andar descalça por um hospital estava bem longe de ser uma ideia genial, mas por alguma razão, manter seus pés em contato com o chão sempre foi algo que a acalmou. O calor sendo roubado de seus pés pelo piso era certamente um tipo de terapia muito eficaz para a hippie.
Sua atenção era desviada para cada ala do hospital por qual passava. Neurologia, endocrinologia, diagnósticos, psicologia, exames... o lugar simplesmente tinha de tudo! Devia ser o sonho de qualquer médico trabalhar ali, menos para Alice. Tudo o que ela mais queria dentro da sua profissão era exatamente o oposto de todo aquele luxo... queria ir àqueles lugares degradados que espantavam todos os profissionais, queria ser capaz de levar um pouco de esperança aos pacientes atormentados pelo abandono. Mas acabou desviando-se cada vez mais de seus planos. Seus sonhos provaram-se apenas isso: sonhos... como uma garotinha que descobre que o Papai Noel nunca existiu, e que a Páscoa não é abastecida de chocolates por um coelho.
– Mas é até melhor assim... – Alice pensou alto, ainda distraída com sua breve caminhada e um tanto presa naqueles pensamentos – sempre me partiu o coração imaginar como devia ser doloroso para um coelho da páscoa botar um ovo de seis quilos...
A hippie cessou seus passos ao se deparar com a ala infantil de câncer. Ao lado da porta, havia um suporte preso na parede com várias fichas resumidas de cada pequeno paciente. Alice olhou para os lados, prestando atenção se vinha alguém. Aparentemente ela estava sozinha... aproveitou essa privacidade temporária para folhear rapidamente cada uma das fichas, vendo diversos casos complicados de câncer em crianças das mais variadas idades. Crianças que deveriam estar brincando no pátio da escola, infernizando a vida de alguma professora de alfabetização, gritando, correndo... mas que ao invés disso estavam presas em uma cama de hospital, talvez sem entender muito bem que a maioria ali tinha os dias contados...
Ela abriu a porta com um pouco de receio, procurando por algum médico ou enfermeira que pudesse estar ali tratando de algum dos pacientes... sorriu ao perceber que não havia qualquer indício de adultos no quarto, apenas crianças deitadas em suas camas, a maioria delas dormindo.
– Olá... – uma garotinha disse, olhando Alice com curiosidade e apertando com força um sapo de pelúcia.
– Oi! – Alice sobressaltou-se ao se dar conta de que era observada intensamente por aqueles enormes olhos infantis – que lindo sapo. Qual é o nome dele?
– Caco – respondeu timidamente – mamãe me deu quando eu vim morar aqui, e disse que ele sempre vai me ajudar com o meu problema. Mas eu não acredito, porque ele nunca falou comigo – avisou, como se desafiasse Alice a discordar de sua lógica.
– É, faz sentido – disse, aproximando-se da cama da menina. Levou o dedo indicador até os lábios e franziu a testa, como se fizesse um enorme esforço para pensar – mas... é uma pena que você não acredite! Eu mesma só vou ao médico acompanhada do Milu, meu cachorro de pelúcia!
A menina olhou-a desconfiada.
– Você não é grande demais para ter um bichinho de pelúcia? – perguntou, levando as mãos até a cintura, sem nunca largar o seu fiel sapo. A hippie olhou para os lados com uma cautela exagerada, e se aproximou ainda mais da encantadora garota, sussurrando num tom baixo o suficiente para que somente ela a ouvisse.
– Você pode guardar um segredo? – perguntou, e a menina imediatamente assentiu freneticamente, adotando uma expressão curiosa e apertando ainda mais o sapo em seus braços – tem brinquedos que são especiais... eles não podem falar com você, mas eles estão vivos aí dentro. E quando um brinquedo é especial assim, se você os apertar bem forte quando está com medo de alguma coisa, o medo simplesmente vai embora – disse, num tom misterioso que fez a criança se inclinar um pouco mais para perto de Alice.
A menina encarou o seu sapo, parecendo espantada.
– Então o Caco é especial?
– Eu não sei... – levantou os ombros, na dúvida – você se sente segura quando o abraça com força?
– Sim... – hesitou, como se fosse difícil acreditar naquilo, mas incapaz de rejeitar o quanto aquela resposta era verdadeira.
– Então ele é especial, assim como o meu Milu! – concluiu, como se fosse o óbvio – e você pode acreditar na sua mãe! Ele sempre vai ser uma ótima companhia quando você estiver com medo – sorriu ao perceber o quanto a menina olhava fascinada para o seu brinquedo, como se tivesse um tesouro raro nas mãos – qual é o seu nome, gatinha?
– Tiana – ela respondeu com um largo sorriso, encarando Alice com olhos brilhantes.
– É o nome de uma princesa, sabia?! De uma linda princesa com o seu sapo – disse, e a menina riu de um jeito gostoso e contagiante, que fez o peito de Alice esquentar. Logo ela percebeu que todas as outras crianças já estavam acordadas com a breve conversa das duas, e todas elas pareciam curiosas com a presença da hippie e com as risadas que as duas davam. Talvez aquelas crianças estivessem acostumadas apenas com a presença de médicos e visitas com cara de enterro, e isso definitivamente não era nada saudável...
Naquele quarto havia sete crianças e uma cama vazia, e logo a hippie tomou o espaço na cama desocupada, olhando para cada rostinho hesitante que a encarava.
– Você é médica? – um deles perguntou, de testa franzida ao perceber que Alice usava o mesmo traje de paciente que eles, e na grossa faixa que envolvia sua cabeça.
– Bom... – a hippie virou de costas para todos eles, revirando os armários por um breve momento e encontrando algumas pequenas bolas vermelhas e macias, provavelmente usadas como fisioterapia para possíveis fraturas nas mãos ou nos membros superiores. Aquela bolinha era tão macia que Alice não sentiu qualquer dificuldade em fazer um pequeno rasgo nela com suas mãos, e antes de virar-se novamente para encarar as crianças, prendeu a esfera vermelha em seu nariz, cobrindo-o completamente – sim, eu sou médica! – respondeu ao se virar, arrancando sonoras gargalhadas e gritinhos de contentamento das crianças, que imediatamente sentaram-se na cama – do que vocês estão rindo, pestinhas? Por acaso eu tenho cara de palhaça?
Mais risos foram ouvidos, e dessa vez Alice riu junto com eles, completamente envolvida pelo som delicioso que é uma gargalhada de criança.
– Eu estava reparando bem em vocês – a hippie voltou a falar, com a voz meio engraçada por causa da bola que prendia o seu nariz – vocês acham que estão enganando a quem com essas carinhas saudáveis? Aposto que todos vocês estão aqui para fugir da escola, não é mesmo? – perguntou com um tom falsamente repreendedor, que novamente fez os olhos das crianças brilharem e se iluminarem com novos sorrisos – algum de vocês podia me ajudar? Eu acho que estou resfriada – disse, apontando para a bola vermelha presa em seu nariz – vocês acham que o meu nariz está inchado?
– Sim! – todos responderam ao mesmo tempo, com uma empolgação que encantou Alice.
– Está muito inchado, tia! – um garoto bochechudo de olhos verdes frisou, sem ao menos piscar.
– Oh, meu Deus, mas será que é grave? – Alice perguntou preocupada, aproximando-se do belo menino – Você poderia apertar um pouco o meu nariz para ver se ele volta ao normal? – ele apenas assentiu, com olhos arregalados, como se fosse uma enorme honra ser convidado a apertar o nariz de alguém. Sua mão gorducha foi em direção à bola vermelha, fechando-se em torno dela e apertando-a com força. Ele imediatamente afastou os dedos ao sentir a maciez aveludada da pequena bola, sorrindo de um jeito deslumbrado.
– É fofinha! – comentou, encantado.
– Você acha que o meu caso é grave, Doutor? – Alice levou as mãos ao rosto, como se esperasse pela terrível notícia.
– Não tem mais jeito... – o menininho balançou a cabeça negativamente ao som das risadas das outras crianças – você precisa de um nariz novo!
– Que ideia genial! – exclamou, dirigindo-se agora a todas as crianças – alguém aí tem um nariz sobrando? – todos fizeram silêncio, revezando olhares entre os colegas – vamos lá, pessoal, pode até ser um nariz igual ao do Voldemort! – ninguém respondeu, todos apenas encaravam Alice como se ela fosse a oitava maravilha do mundo – bom, então eu serei obrigada a pegar o nariz de um de vocês à força – disse, voltando a fuçar o mesmo armário em que pegou a bola vermelha e agora encontrando uma seringa enorme, mas sem a agulha – e aí, quem se habilita a tomar uma pequena injeção? – as crianças começaram a gritar, e algumas até chegaram a correr pelo quarto, fugindo de Alice. Ela deu um amplo sorriso, correndo atrás dos fujões. Agarrou uma das garotas pela cintura, e ela se revezou entre gritinhos alegres e gargalhadas – que tal você? O seu nariz é realmente uma graça!...
A hippie apertava a menina entre seus braços, gentilmente, e ela apenas ria, com vontade. O sorriso da hippie parecia distante naquele momento ao som das gargalhadas infantis. Era como se ela sentisse que compensava uma parte dos erros que cometeu com Krusty, apenas por levar um pouco de alegria àquelas crianças tão desestruturadas por problemas que elas nem sequer podiam entender. Era como sentir o próprio filho radiante entre seus braços, como se ela pudesse criar aquela lembrança que nunca existiu...
Uma pequena lágrima escorreu tímida pelo rosto de Alice, se perdendo ao canto de seu largo sorriso, enquanto a bela menina ainda se deliciava com o momento de distração causado pela hippie.
A porta abriu-se com estupidez, trazendo-a de volta para aquele sublime momento aonde vários pares de olhos infantis e cheios de vida ainda a fitavam com um tipo raro de adoração. Uma enfermeira morena encarou a cena, incrédula, ainda segurando a maçaneta da porta que ela escancarou tão bruscamente.
– Mas o que está acontecendo aqui? – sentiu sua testa se franzir ao ver a baderna que havia se instalado naquele quarto.
– E é como eu estava dizendo para vocês, crianças... – Alice pousou novamente a menina no chão, adotando um semblante completamente sério e rígido – Sempre comam verduras! – disse, reparando na completa confusão que marcava o rosto da enfermeira – Com licença... – passou pela morena, esquecendo-se completamente de tirar a bola vermelha do nariz.
Fez o trajeto de volta até o seu quarto, sem evitar o sorriso bobo que simplesmente se recusava a sair de seu rosto... proporcionar aqueles breves momentos de alegria àquelas crianças teve um efeito completamente renovador sobre Alice! Ela foi instantaneamente consumida pela certeza absoluta de que aqueles anjinhos fizeram um bem muito maior para ela do que ela fez para eles com aquelas pequenas brincadeiras.
A hippie sentia-se leve naquele momento... uma leveza que não experimentava há um bom tempo, principalmente depois que seu filho se foi, mas que agora a fazia sorrir para o nada feito uma retardada.
Ainda ria quando entrou novamente em seu quarto, contendo-se ao ver uma enfermeira de cachos loiros parecendo mexer em algumas gavetas, de costas para Alice. Estranhou a tranquilidade da mulher... a hippie imaginou que alarmariam o hospital inteiro se por acaso dessem pela sua falta em seu breve passeio, mas a enfermeira parecia estar indiferente à ausência da paciente em seu quarto. Alice apenas deu de ombros, agradecendo mentalmente por não ser vítima das neuroses que imaginou que envolveria a sua “fuga”.
– Desculpe por ter sumido do quarto sem avisar ninguém – a hippie começou a dar uma explicação, como uma pequena forma de agradecer indiretamente pelo suposto silêncio da enfermeira – eu só senti necessidade de caminhar um pouco...
– Pensei que você não voltaria mais hoje... – a loira disse, ainda virada de costas para Alice, que estancou ao ouvir aquela voz conhecida. Uma voz grossa demais para pertencer a uma mulher... Só podia estar ficando louca de vez – estava começando a desistir de fazer a minha visita – finalmente virou-se, encarando a hippie e deixando à mostra sua maquiagem borrada – a propósito, belo nariz! – Coringa debochou, cruzando os braços sobre o uniforme ridículo de enfermeira que o vestia.
– Céus... – a hippie sentiu o queixo cair enquanto finalmente tirava a bola vermelha de seu nariz, e uma gargalhada incontrolável saiu de sua boca ao perceber o quanto aquele uniforme lhe caía bem e até valorizava a cintura do psicopata – você está ridículo! – lançou, incapaz de evitar o comentário sincero.
– Você nunca vai aprender a ter noção do perigo, Alice? – o Palhaço usou um tom ameaçador, mas a peruca loira que caía sobre seus ombros simplesmente tirava qualquer credibilidade que aquela ameaça pudesse ter, fazendo-a rir ainda mais.
– Cara, você podia ter se fantasiado de médico ao invés de enfermeira, já pensou nisso? Seria muito melhor para a sua imagem! As pessoas comentam... – disse, posicionando os lábios entre os dentes para tentar suprimir a vontade quase incontrolável de rir, sentando-se sobre os lençóis brancos de sua cama. Ele apenas a encarava entediado – e então, Palhaço-Enfermeira, como você se sentiu quando soube que Batman me salvou? – alfinetou, sentindo um arrepio de prazer com aquelas palavras.
– Aliviado... – respondeu com um sorriso enorme no rosto, e Alice franziu a testa, confusa.
– Aliviado?! Eu esperava qualquer resposta, menos essa! Pensei que você tinha ficado puto... – Alice fez uma pausa, encarando-o de cima a baixo – ... ou puta, né, vai saber! – riu novamente, achando aquela situação um tanto hilária.
– Aliviado por não ter perdido a chance de te matar pessoalmente – avisou, ignorando as risadas da hippie e incidindo um olhar perigoso em sua direção.
– Ah, jura? – perguntou, deitando sobre os travesseiros macios e brincando distraidamente com a bola que Alice ainda segurava firmemente, como um troféu por ter arrancado aquelas gargalhadas das crianças – é realmente impressionante essa sua enorme vontade de me matar, e mais impressionante ainda é a sua incompetência em terminar de vez esse serviço tão simples... assim as pessoas vão começar a duvidar da sua capacidade! – sorriu debochadamente.
– Você acha mesmo? – Coringa aproximou-se do rosto divertido de Alice – até agora foi muito divertido manter você, Docinho! Mas ultimamente eu tenho pensado que prefiro ver o circo pegar fogo, ao invés de continuar com essa palhaçada que é a sua existência...
– Ahhh, agora eu entendi! – a hippie estalou os dedos em frente ao rosto, como se a compreensão finalmente a iluminasse – Você quer incendiar o circo e deixar a vida de palhaço para trás, aí resolveu buscar um emprego alternativo de enfermeira! Bem esperto... esse uniforme lhe cai... muito bem! – riu mais um pouco.
– Eu devo admitir que sua petulância sobreviveu muito bem a tudo o que você passou... Impressionante! – sorriu – Vamos ver se sua visita também se encanta por esse seu jeito irritante...
– Visita? Não vai me dizer que você trouxe a horda completa de palhaços até aqui? – perguntou, referindo-se aos capangas de Coringa – perguntinha básica: você vai obrigar os seus capangas a usar esse uniforme também?
O psicopata nada disse, apenas dirigiu-se até a porta com um sorriso de expectativa, abrindo-a e fazendo um breve sinal com a cabeça, como se indicasse que a tal visita já podia entrar. Alice suspirou pesadamente, perguntando-se por que não ficou no quarto das crianças. A alegria que elas lhe proporcionaram em breve seria esgotada pela companhia doentia de Coringa. A hippie já podia sentir aquela leveza gostosa a abandonando...
Um homem entrou devagar no quarto de Alice, sendo ajudado por mais dois homens, que com certeza eram capangas do Palhaço. Ela engasgou-se violentamente ao notar a metade desfigurada e completamente queimada da sua improvável visita... quando Bruce havia lhe contado que o lado esquerdo de Harvey estava completamente deformado pelo fogo, Alice se chocou, mas em nenhum momento imaginou a gravidade da situação que via agora.
– PELA CARECA DO MESTRE DOS MAGOS – Alice gritou de surpresa – FREDDY KRUEGER, É VOCÊ?!
Os capangas de Coringa a olharam meio incrédulos enquanto ainda guiavam Harvey para mais perto da cama em que Alice agora estava sentada, em uma posição totalmente ereta pelo susto que levou ao encarar o Promotor, que antes tinha traços tão angelicais.
– Alice... – Harvey disse, com desprezo, andando com extrema dificuldade, como se cada passo dado fosse uma enorme tortura.
– A que devo a honra da visita? – perguntou, sentindo sua voz sair nervosa enquanto se dava alguns beliscões, para garantir que estava acordada.
– Acho que nós temos um assunto pendente para resolver, não é mesmo? – sorriu com a metade boa de seu rosto, enquanto a outra metade permanecia praticamente imóvel, deixando aquele sorriso ainda mais macabro do que deveria ser.
Alice abraçou as próprias pernas, sabendo que sua expressão devia ser a mais idiota possível. Seus olhos simplesmente recusavam-se a desviar a atenção daquelas queimaduras grosseiras... e quanto mais as encarava, mais seu queixo caía com aquela visão deprimente.
– Eu não sei do que você está falando... – Alice finalmente respondeu, mas o som saiu tão baixo que, no começo, teve sérias dúvidas se Harvey fora capaz de escutá-la.
– Eu acho que sabe... – acomodou-se, o melhor que conseguiu, no mesmo banco em que o Doutor House havia se sentado quando foi se apresentar para sua paciente. O promotor jogou todo o peso de seu corpo para o lado direito, a fim de aliviar a dor cortante das queimaduras por todo o seu lado esquerdo – você sabe por que eu estou nesse estado patético, Alice?
– Bom, patético você sempre foi... – a hippie comentou baixinho, antes mesmo que pudesse pensar e medir as consequências de suas palavras antes de soltá-las – quer dizer... você sempre se mostrou muito tolerante às puladas de cerca da Rachel... – tentou consertar, mas apenas piorou a situação – esquece!
– Você ainda ousa falar de Rachel nesse tom? – rosnou, enfurecido – você só está viva agora porque ela morreu!
– E você quer que eu faça o quê? – olhou-o entediada, já imaginando o rumo que aquela conversa tomaria – está me culpando pela morte da sua noiva, Promotor?
– É isso o que parece, não é? Você não acha que merece ser acusada por matar a minha futura esposa?
– Não... – Alice disse bem devagar para que ele fosse capaz de entender – o único culpado por isso está bem atrás de você, vestindo um uniforme ridículo de enfermeira e com uma peruca loira um tanto suspeita.
– Pois eu vejo muito mais sentido em culpar você do que culpar Coringa – Harvey retrucou, e o Palhaço olhou satisfeito para Alice, levantando as sobrancelhas em sua direção de forma vitoriosa.
– Você só pode estar brincando! Harvey, você realmente deixou que essa enfermeira de meia tigela te manipulasse desse jeito?
– Não se trata de manipulação. É a mais pura verdade – respondeu, inflexível, e Alice era perfeitamente capaz de ver o ódio crescendo perigosamente dentro dos olhos azuis do Promotor enquanto ele a encarava.
– Não é possível que você esteja se escutando... – balançou a cabeça em sinal de negação, procurando por qualquer indício do Harvey simpático, doce e tonto que ela havia conhecido há alguns anos.
– Você não passa de uma bandidazinha facilmente corrompível que acabou se bandeando para o lado do Coringa por um preço qualquer. Rachel não... Rachel foi a pessoa mais incrível que já existiu, ela sim merecia viver. Era para aquele maldito Morcego ter ido atrás dela, mas ao invés disso ele salvou você, uma garotinha ridícula que só sabe se meter em encrencas e que acaba envolvendo pessoas inocentes nas suas confusões...
– Você é problemático, sabia? Escute bem uma coisa, Freddy Krueger, sou mais do que seu olho pode ver, então não desonre o meu nome! – replicou, irritando-se com aquela enxurrada de acusações sem sentido.
– Nós ainda vamos nos encontrar por aí, Alice! – comentou, numa ameaça clara – a vingança é um prato que eu ainda vou fazer questão de preparar, pode apostar. E eu só não acabo com isso agora mesmo porque quero degustar cada sabor exótico que o acerto de contas pode me proporcionar... agora eu ainda estou muito susceptível à dor causada por essas queimaduras, mas pode esperar por notícias minhas em breve – avisou, e seu rosto se fechou em uma expressão endurecida.
Alice ainda parecia perplexa enquanto o Promotor saía de seu quarto com a mesma dificuldade com que entrou, novamente sendo ajudado pelos capangas de Coringa. Os três sumiram de vista, e mais uma vez a hippie ficou sozinha com o Palhaço, que sorria largamente.
– Mas o que foi isso? – perguntou para si mesma, encarando a porta que agora estava novamente fechada.
– Uma ameaça – Coringa respondeu à pergunta, dando de ombros.
– Sério? – revirou os olhos – não sei o que seria de mim sem as suas conclusões brilhantes – disse sarcasticamente, voltando a conversar consigo mesma após aquele comentário – e era só o que me faltava ter mais um louco me mantendo na sua mira de fogo – resmungou.
– Não se preocupe, Docinho! – o Palhaço sorriu diante da expressão incomodada da hippie, piscando para ela – O que não nos mata só nos deixa mais... estranhos!
– Então eu acho que você já quase morreu vááárias vezes! – disse, vendo um sentido bizarro naquele comentário do Palhaço-Enfermeira.
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