Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
38 Bifurcação. Qual Caminho Escolher?
Notas iniciais
"O que não nos mata só nos deixa mais... estranhos!"
Aquelas palavras de Coringa ficaram martelando incessantemente na cabeça de Alice... era como se a compreensão meramente surgisse, e plantasse na hippie a semente da dúvida e da solução ao mesmo tempo.
Simplesmente porque ela se via cada vez mais soterrada na enorme avalanche devastadora que tomou conta de sua vida, porque estava cada vez mais difícil livrar-se de toda a podridão que a acometeu... a hippie estava começando a acreditar que apenas a morte seria capaz de libertá-la daquele barranco que se alargava rapidamente sobre os seus pés, sem o menor controle. A morte, que ao que tudo indicava, parecia ser cada vez mais inevitável... cada vez mais próxima...
Quanto mais Alice tentava se distanciar de todo o caos que se instalou em Gotham, mais acabava envolvendo-se nele, como se ela não tivesse qualquer poder sobre o seu próprio destino... e isso sim a assustava! Como era possível acreditar que se afastou de seus maiores problemas, e acabar vendo-se no princípio de tudo novamente, com a rapidez de um estalar de dedos?
Aquela situação em que se encontrava era como um ciclo vicioso, agora a hippie podia enxergar essa verdade claramente. Não importava o quanto fugisse, sempre seria arrastada novamente ao ponto de partida, até o momento em que finalmente alguém resolvesse dar um fim a tudo aquilo. Agora só restava à Alice decidir se ela deixaria alguém completar o serviço de destruir definitivamente sua vida, ou se ela mesma criaria coragem para concluir o inevitável.
Não queria, absolutamente, deixar que Coringa ou até mesmo Harvey se vangloriassem por sua morte. Não lhes daria esse último gostinho, de forma alguma! Ela mesma o faria. Não precisaria reunir muita coragem para acabar de vez com aquela existência medíocre, simplesmente porque não havia nada em seu presente que pudesse lhe trazer algum remorso pela sua escolha.
Ou quase nada...
Imediatamente a imagem de Bruce projetou-se em sua cabeça, como uma réplica de sua mente, tentando mostrar-lhe o que ela ainda tinha a perder se resolvesse abandonar de vez aquele mundo insano. Mas quanto mais a hippie pensava no assunto, mais era consumida pela certeza de que Bruce acabaria sendo submetido à perda de Alice, seja pelas mãos de Coringa, pelas mãos de Harvey, ou pelas mãos da própria Alice...
Não lhe sobraram muitas escolhas então. Todos os caminhos pareciam levar ao mesmo destino, e se só cabia à hippie aceitá-lo, pelo menos faria questão de arranjar tudo do seu jeito. E ela até já sabia como...
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A porta do quarto de Alice foi se abrindo devagar, como se um enorme peso dificultasse aquele movimento tão simples. Ela olhou curiosa para a maçaneta que era empurrada lentamente, sem saber o motivo de tanta hesitação. Quando finalmente viu o rosto contido de sua visita, seus olhos se arregalaram de surpresa, e o seu peito pareceu afundar-se e esmagar-se ao mesmo tempo.
– Logan... – a sua voz falhou ao vê-lo tão abatido e receoso em aproximar-se de sua antiga paciente. Seus olhos eram tristes, e ele permaneceu um tempo parado perto da porta, encarando Alice como se ela fosse uma obra de arte rara de um museu, que nem sequer permitia uma aproximação, que deveria ser observada por trás de uma tela protetora de vidro, à distância...
– Desculpe por ter vindo – sua voz saiu mais polida do que o normal – eu vi a notícia da sua internação, e precisava saber se você estava bem – explicou-se, ainda parado junto à porta.
Alice sabia qual era o motivo de toda aquela formalidade nas expressões e palavras de Logan. Sabia por que ele nem ao menos queria se aproximar dela. Aquele maldito bilhete que Alice deixou antes de fugir, aquelas mentiras cretinas e traiçoeiras que ela escreveu com tanto pesar, pareciam ainda estar estampadas no rosto entristecido de Logan.
A hippie levantou-se da cama no mesmo instante, praticamente correndo em direção ao psiquiatra, querendo a todo o custo consertar o seu terrível erro com aquele que arriscou tudo para ajudá-la. Alice abraçou com força a cintura de Logan, deixando que sua cabeça se afundasse na curva de seu pescoço. Ela foi capaz de sentir a hesitação e a surpresa do médico pelo gesto repentino da hippie.
Os braços de Logan permaneceram parados no ar por um tempo, totalmente indecisos, mas logo ele correspondeu ao abraço, apenas encostando levemente as mãos nas costas de Alice.
– Me desculpe... – a hippie sussurrou com a voz engasgada, afundando-se ainda mais ao conforto do corpo de Logan – eu nunca quis escrever aquele bilhete idiota, mas eu tive que me afastar de você! – levantou os olhos para encará-lo – muitas coisas acabaram saindo do meu controle, e eu não queria envolvê-lo em mais nenhuma das minhas confusões...
O rosto do psiquiatra se suavizou um pouco, retomando uma fração da mesma expressão doce que Alice se lembrava e tanto adorava, e ele a apertou gentilmente em um abraço reconfortante.
– Por que você foi embora daquele jeito? – Logan perguntou baixinho, passando os dedos carinhosamente pelo cabelo de Alice.
– É uma longa história... – respondeu triste, e desanimada com a perspectiva de ter que tocar naquele assunto novamente – acho que é melhor você se sentar – aconselhou, puxando-o para perto de sua cama e fazendo-o sentar-se à sua frente.
Alice olhou fundo em seus olhos brilhantes, sentindo o coração pular avidamente em seu peito ao aproximar-se novamente daquele assunto proibido. Segurou com força a mão do psiquiatra, sem saber se fez isso com a intenção de reconfortá-lo pela notícia da morte de Krusty, ou para consolar a si mesma.
Contou tudo para ele, desde o momento em que viu o bilhete na cama vazia de Krusty – abordando o tema do sequestro – até a hora em que acordou naquele hospital e descobriu que Batman a havia salvado no lugar de Rachel.
Passou longos minutos apenas falando, engasgando-se em algumas partes ao recordar mais uma vez cada detalhe do assassinato frio de seu filho marcado em sua memória, e observando as reações pasmas e incrédulas de Logan a cada fato narrado. Se antes sua feição era abatida, agora era completamente deprimida e perturbada.
– O Krusty... morreu? – perguntou, como se achasse necessário confirmar algo que parecia não ter ouvido ou entendido direito. Alice apenas assentiu com a cabeça, passando a encarar o lençol ao experimentar novamente aquela dose de derrota que sempre a consumia quando falava, ou simplesmente pensava, naquele assunto. Engoliu em seco, apertando um pouco mais a mão de Logan, quase que inconscientemente – não era para ser assim – ele disse, com um tom desesperado – a culpa foi toda minha!
– Como a culpa pode ter sido sua, se quem fez tudo errado fui eu? – Alice o encarou com um sorriso tão triste quanto o olhar que lançava a ele.
– Eu tinha que proteger vocês... esse era o plano!
– Você fez muito mais por mim e por Krusty do que eu vou ser capaz de agradecer – rebateu, passando a mão afetuosamente por seu rosto inconformado, e sentindo a aspereza de sua típica barba mal feita roçar em sua pele. Dessa vez, quem tomou a iniciativa do abraço foi Logan, e aquele abraço sim foi como nos velhos tempos. Foi como estar em casa mais uma vez.
– Eu senti a sua falta – confessou, com a voz embargada e parecendo não querer soltar Alice nunca mais.
– Eu também! – a hippie respondeu, e sua voz tornou-se receosa quando voltou a falar – mas você terá que ser forte agora! Eu preciso saber que você vai ficar bem, independente do que acontecer comigo de agora em diante...
– Do que você está falando? – Logan afrouxou o abraço, a fim de encarar o rosto de Alice para tentar entender melhor o rumo que aquela conversa tomava. Apenas os seus braços se mantiveram entrelaçados, e agora o psiquiatra podia mirar a falta de confiança que tingia o negro dos olhos de sua antiga paciente.
– Estou só dizendo que eu quero que você se afaste de vez de toda essa loucura, que refaça a sua vida e que não se deixe abater por causa de uma paciente insana que você acabou ajudando – deu um meio sorriso para ele, que ainda a olhava confuso, sem ter a menor noção do que a hippie estava querendo dizer. Seus olhos eram uma mistura complexa de vários sentimentos unidos, dos quais alguns Alice conseguiu identificar como angústia, ansiedade e... remorso?! Não sabia ao certo...
O psiquiatra tinha a intenção de perguntar sobre quais eram as intenções de Alice com aquelas palavras, mas acabou sendo interrompido pelo barulho da porta se abrindo.
Bruce encarou a cena por um momento, um pouco admirado pela presença do psiquiatra. O Bilionário ainda segurava firme a maçaneta quando finalmente perguntou:
– Cheguei em má hora? – sua voz mantinha o tradicional tom educado, mas Alice percebeu instantaneamente a irritação que sua polidez tentava esconder. A hippie abriu a boca para responder, mas Logan foi mais rápido.
– Na verdade, chegou sim! – manteve a mesma entonação afável, apesar da grosseria evidente de seu comentário. Alice franziu a testa para Logan, chocada. Nunca vira o médico dedicar uma única dose de sarcasmo para quem quer que fosse, e agora ele simplesmente esbanjava a ironia através de seus olhos e de suas palavras.
– Suponho que quem deva responder à minha pergunta seja Alice – Bruce rebateu, estreitando os olhos para o psiquiatra, e finalmente entrando no quarto.
– Hey, vamos parar de atirar farpas, por favor? – a hippie tentou apaziguar os ânimos, mas foi como se ela nem estivesse presente.
– É engraçado que a opinião dela signifique alguma coisa para você agora – Logan levantou-se, culpando Bruce – onde estava toda essa consideração quando Alice foi internada em Arkham e você nem mesmo tentou ajudá-la?
– Eu estou aqui, sabia? – Alice protestou indignada, acenando freneticamente com uma das mãos para tentar chamar a atenção dos dois, mas novamente foi completamente ignorada.
– Eu estava tentando soltá-la por meios legais! – Bruce contestou, deixando que a irritação transbordasse diante daquela acusação – mas você simplesmente estragou tudo quando resolveu fugir com ela, como se Alice realmente fosse uma criminosa que só conseguiria reconquistar sua liberdade por meios ilícitos!
– Pelo menos eu fiz algo bem mais concreto do que simplesmente tentar! – Logan também deixou o tom respeitoso de lado, e era possível ver que uma veia irritada saltava de seu pescoço.
– E olha só aonde os seus atos irresponsáveis trouxeram Alice – Bruce apontou para a cama hospitalar, de forma delatora – é dessa forma que você julga conveniente ajudar alguém?
– Eu vou me casar com o Coringa, colocar um piercing no olho e tatuar “aluga-se” na minha bunda – a hippie disse entediada, mais uma vez percebendo que sua presença não estava sendo levada nem um pouco em consideração naquela discussão ridícula. Sua voz nem parecia ser ouvida por aqueles dois cabeças-duras...
– Infelizmente era o que estava ao meu alcance, já você poderia ter feito muito mais por ela, mas simplesmente acomodou-se diante da sentença que ela recebeu! – Logan apontou um dedo acusador na direção de Bruce, e estava difícil ver qual dos dois estava mais vermelho de raiva.
– E o que te leva a pensar que eu simplesmente não fiz nada? Se nós colocarmos na ponta do lápis, Doutor, toda a “ajuda” que você insiste em dizer que deu à Alice meramente perde o sentido diante do que eu tentei fazer por ela! Se não fosse pela sua imprudência, eu teria conseguido livrá-la daquele manicômio com o nome limpo...
– CALEM-SE, CALEM-SE, CALEM-SE, VOCÊS ME DEIXAM LOUCA! – Alice gritou, finalmente conseguindo chamar a atenção dos dois para si – Céus, e dizem que a infantil aqui sou eu? – brigou, realmente irritada com aquela cena entre eles, aproveitando para dar a sua bronca agora que aqueles dois pares de olhos teimosos finalmente a encaravam – que tal dar uma abaixada nos níveis de testosterona e conversar como gente civilizada?
Bruce e Logan se entreolharam rapidamente, e nada mais disseram. Suas expressões ainda eram tensas, o que deixava o clima praticamente sufocante, mas aquilo pouco importava para a hippie. Ela ainda encarava os dois com uma expressão irritada, como uma mãe que flagra os dois filhos se estapeando e os coloca de castigo.
– Vocês acham mesmo que podem ficar disputando sobre quem me ajudou e me prejudicou mais? Isso é ridículo, vocês não têm mais sete anos, ou será que eu me enganei?
Os dois permaneceram em silêncio, apenas encarando-se mutuamente, como se continuassem aquela briga somente pelo olhar. Alice suspirou longamente, balançando a cabeça com a criancice dos dois.
– Bruce, eu preciso conversar com você. Logan, por favor, nos deixe um pouco a sós – a voz da hippie saiu endurecida, e sua expressão manteve-se impassível mesmo com o olhar surpreso do psiquiatra e com o sorriso vitorioso do Bilionário. Sua feição distante estava fazendo o possível para ignorá-los do mesmo modo que eles haviam acabado de fazer com Alice. Pura pirraça, mas uma pirraça que visava manter seu orgulho explosivo em segurança.
Esperou até que Logan saísse, sabendo que futuramente até poderia sentir-se culpada por sua frieza, mas, por ora, sentiu-se satisfeita por demonstrar que não havia gostado nem um pouco da infantilidade dos dois ao redor de um assunto que era tão delicado para ela.
Bruce aproximou-se da cama de Alice, agora com o mesmo sorriso gentil que sempre estava estampado em seus lábios, porém a hippie continuou olhando-o séria, com os braços cruzados sob o peito e sem dizer uma única palavra enquanto ele ainda caminhava em sua direção.
Ele sentou-se na cama, parecendo um pouco envergonhado agora.
– Me perdoe por isso – acariciou o rosto da hippie, que ainda estava sério demais – seu amigo realmente conseguiu me tirar do sério – riu, encabulado.
– Logan é muito mais do que um amigo pra mim – avisou – ele realmente arriscou muita coisa para me ajudar, então nunca mais insinue que as ações dele foram menos nobres do que as suas!
– É justo – aquiesceu com um aceno sutil, apesar de não concordar nem um pouco com os métodos que o psiquiatra utilizou para ajudá-la – mas será que agora podemos esquecer esse assunto?
Alice mirou o sorriso recatado do Bilionário, sentindo que suas próprias expressões se suavizavam gradativamente, quase sem o seu consentimento. Quando percebeu, já estava sorrindo de volta para Bruce, sentindo-se incapaz de se irritar por muito tempo com ele.
– Eu me dei conta de que ainda não agradeci por você ter... você sabe, me tirado daquele galpão... – completou, com cuidado, temendo andar no campo minado que era aquele assunto. Um assunto que sempre remeteria à lembrança de Rachel, e que qualquer passo em falso poderia desencadear novamente a dor nos olhos de Bruce, e até mesmo o arrependimento.
– E o que você tem em mente para me agradecer à altura? – perguntou com um sorriso divertido no rosto.
– Na verdade nada... – riu – o plano era só agradecer mesmo!
– Tem certeza? – Bruce ainda sorria quando aproximou seus lábios do pescoço de Alice, brincando com sua pele agora completamente arrepiada.
– Você está me saindo um belo agiota, senhor Wayne – comentou bem humorada, esquecendo brevemente a tensão do assunto que estava prestes a iniciar.
– Eu aprendi com a melhor – sussurrou, encontrando a cintura de Alice com as mãos. A hippie o imitou, pousando suas próprias mãos no corpo de Bruce, aproximando-se dele. E assim ficaram por longos segundos, com Bruce ainda explorando o seu pescoço e Alice tentando encontrar a melhor maneira de dar início ao seu discurso.
– Nós precisamos conversar – reclamou, ciente de que aquela proximidade não faria assunto nenhum evoluir.
– Uhum – Bruce concordou, parecendo não prestar atenção em uma única palavra. Desviou o seu rosto do pescoço de Alice e passou a encará-la – o que você tem de tão importante para me dizer? – perguntou baixo.
– Eu... – Alice começou, mas logo parou de falar ao sentir-se puxada para um mundo à parte ao encarar Bruce tão de perto – ... esqueci! – respondeu, surpresa.
Bruce soltou um riso baixo e bem humorado com sua resposta, balançando de leve a cabeça. O Bilionário deslocou uma das mãos que estava pousada na cintura de Alice, levando-a até o rosto da hippie e intercalando dois de seus dedos em sua orelha esquerda.
Alice sabia que aquilo não estava certo... sabia que seria crueldade demais alimentar esse tipo de esperança com o que estava prestes a fazer, e que provavelmente Bruce só se machucaria ainda mais depois que Alice levasse seu plano adiante, mas sua mente simplesmente se esvaziou quando ele reduziu a pouca distância que ainda os separava, selando gentilmente seus lábios aos dela, e ela simplesmente correspondeu ao beijo.
A mão de Bruce foi deslizando gentilmente de seu rosto, dançando com lentidão pelo seu pescoço, ombro e costas – deixando um rastro de formigamento por onde passava – até encontrar novamente a cintura de Alice e puxá-la em sua direção, para um abraço mais forte.
Ela retribuiu o gesto, aceitando sua proximidade de bom grado, quase incapaz de recusá-la. Era como acolher um tempo bom de seu passado, que Alice pensou que jamais voltaria...
E se Rachel estivesse viva nesse exato momento? – a vozinha chata em sua cabeça perguntou, fazendo Alice estancar com essa súbita hipótese – será que Bruce ainda se mostraria tão interessado?
“Ele me escolheu...” – a hippie argumentou, ignorando-a, mas ela voltou a atacar.
E se essa ‘escolha’ não passar de uma tentativa de compensar todos os erros que Bruce já cometeu com você? Como um contrapeso para se livrar do remorso de saber que ele teve sua parcela de culpa em tudo de ruim que acabou te perseguindo...
Alice afastou-se de Bruce de forma abrupta, incapaz de ignorar aquela possível verdade. Ele a olhou confuso, sem entender, e a hippie tentou se concentrar na conversa que já havia sido adiada demais, e suas palavras foram estimuladas pela paranoia de seus pensamentos recentes.
– Agora que você já teve o agradecimento que queria, acho que podemos retomar a conversa – disse, sorrindo.
– Você se lembrou qual era o assunto? – debochou.
– Infelizmente sim – os dois riram por um momento, e Alice olhou para o lado, hesitando em começar o seu discurso – sabe, Bruce, eu realmente sei que devo muito a você... e imagino o quanto deve ter sido difícil perder a Rachel por minha causa – o rosto de Bruce empalideceu na mesma hora em que a hippie pronunciou aquele nome, e seu sorriso converteu-se em uma linha reta e tensa – e independentemente do que aconteça a partir de agora, eu quero que você saiba o quanto eu sou grata a você, por tudo!
– Bom, bastava me agradecer, não precisava transformar isso em uma despedida – riu, mas logo parou ao perceber que Alice manteve-se séria, evitando encará-lo – isso por acaso é uma despedida? – perguntou, na dúvida.
– Digamos apenas que eu não estou mais disposta a afundar ainda mais aqueles que eu amo junto comigo. Acho que já está mais do que na hora de ser capaz de lidar sozinha com os meus problemas, e de não envolver mais ninguém neles.
– Talvez você deva deixar essa escolha para aqueles que se importam com você, e não simplesmente excluí-los de sua vida como se eles nunca tivessem existido! – argumentou.
– E acumular mais pesos para a minha consciência? Não, muito obrigada! Eu já carrego muita dor alheia nas minhas costas.
– E eu posso saber qual é o plano genial que a fez acreditar que você será capaz de sobreviver a tudo isso sozinha? – Bruce estava visivelmente tenso com aquela conversa.
Alice teve que rir... porque sobreviver simplesmente não fazia parte do plano, mas isso ela teria que omitir.
– Infelizmente você não pode saber, porque se eu te contasse teria que te matar depois e me livrar do corpo – brincou, mas Bruce não riu. Ele sequer alterou sua expressão – a questão é que eu finalmente me dei conta do único jeito de limpar de vez toda essa merda que foi jogada no ventilador, e nessa minha saída não tem espaço para mais ninguém – olhou-o com pesar, sentindo-se cada vez pior ao ver sua expressão inconformada.
– Eu não sei que tipo de loucura passou pela sua cabeça dessa vez, mas você não precisa deixar que Coringa exerça esse tipo de influência sobre você! Afastar-se de quem te ama só vai tornar os propósitos do Palhaço muito mais fáceis, porque você simplesmente não vai ter em quem se apoiar quando ele tentar derrubá-la – falou devagar, na esperança de que Alice se desse conta do quanto era estúpida essa decisão.
– Não, Bruce. Me afastar de quem eu amo vai me devolver a paz por saber que essas pessoas estarão seguras pelo simples fato de não serem mais próximas de mim, e esse é todo o apoio que eu preciso no momento – concluiu.
– Essa foi a coisa mais idiota que eu já ouvi! – lançou, surpreendendo a hippie – Coringa jamais vai deixar de perseguir as pessoas próximas a você, porque ele sabe que enquanto você estiver viva, isso vai machucá-la, independente de você continuar próxima dessas pessoas ou não.
Alice riu novamente, e apenas ela entendia a beleza de seu sacrifício. De fato, enquanto a hippie estivesse viva, Coringa jamais cessaria suas intermináveis torturas psicológicas e físicas com aqueles que ela amasse... mas depois de morta, a coisa mudaria completamente de figura!
– Pode parecer estranho para você, mas vai dar certo! – disse, verdadeiramente confiante.
– Não, não vai! – respondeu, alterado – e você sempre parece incapaz de perceber que se afastar daqueles que se importam com a sua segurança nunca dá certo... é só prestar atenção nas consequências dessa sua fuga – comparou, parecendo determinado a fazê-la enxergar o seu ponto de vista – Você tentou escapar de todo o seu passado e acabou quase morrendo em um galpão prestes a explodir. Isso nunca poderia dar certo... – ressaltou.
– Não subestime a minha capacidade de aprender com os meus próprios erros, Bruce. Eu sei muito bem que essa fuga teve consequências desastrosas sobre mim, e repeti-la só atestaria a minha burrice. Meu objetivo agora vai muito além de uma simples fuga! – avisou, misteriosamente.
– Eu não te entendo – Bruce suspirou, em um desabafo – depois de todo o meu esforço para mantê-la segura, você quer simplesmente desaparecer, se colocando mais uma vez em um perigo certo...?
– Eu realmente queria poder te explicar – lamentou de forma sincera – mas acredite, eu não tomei essa decisão desconsiderando tudo o que você fez por mim, muito pelo contrário! Se eu estou disposta a abandonar toda a parte que fez a minha vida valer a pena, é justamente para proteger você e todos os outros que podem acabar se ferindo nessa minha guerra particular. Não pense que é uma escolha fácil para mim... – destacou, totalmente na defensiva.
Bruce levantou-se da cama, passando a mão nervosamente sobre os fios perfeitamente arrumados de seu cabelo, inconformado por Alice ser tão irredutível e teimosa. Mas ele também saberia ser teimoso. Não deixaria Alice estragar sua vida ainda mais com aquele plano incompreensível que a deixou tão perigosamente confiante. Voltou a encará-la, em um esforço visível para manter-se calmo.
– Alice, por favor, me escute pelo menos dessa vez – implorou – você não tem a menor chance de sair ilesa de tudo isso se resolver enfrentar Coringa sozinha, pouco importa qual seja o seu plano brilhante... eu posso protegê-la, você sabe disso! Por que se nega a receber ajuda? Por que insiste em dificultar as coisas para você mesma?
– Porque eu simplesmente não posso mais ver ninguém se machucar no meu lugar, está bem? – sua voz despontou levemente mais alta dessa vez, saindo um pouco de seu controle – eu aceitaria a sua proteção, e isso só seria um estímulo ainda maior para que Coringa continuasse fazendo da minha vida um inferno! O desafio é uma excitação a mais para o Palhaço, você mais do que ninguém já devia ter entendido isso.
– Essa é realmente a sua última palavra? – seu rosto era cansado, e de repente Bruce aparentava ser, no mínimo, uns dez anos mais velho.
– É sim – abrandou o tom de voz, levantando-se e indo de encontro ao Bilionário, que estava a poucos passos de distância – e eu espero que um dia você consiga me entender, e quem sabe não sentir mais tanta raiva pela minha escolha.
Bruce balançou de leve a cabeça, inconformado. Seus argumentos haviam se esgotado, mas ele simplesmente não podia aceitar aquela loucura.
– Eu não vou deixar você fazer isso – advertiu – não vou permitir que se afaste e que se coloque em um risco ainda maior!
Alice sorriu carinhosamente para ele, percebendo o enorme desperdício em desprezar a sua companhia, e sentindo-se brevemente tentada a recuar em sua decisão, apenas para poder usufruir um pouco mais de sua presença valiosa. Mas simplesmente não podia... retroceder agora estava fora de cogitação, porque, de certa forma, aquela sua decisão também serviria como uma proteção para Bruce, e era isso o que importava.
Ela envolveu com força os braços em volta do corpo do Bilionário, triste por pensar que aquele poderia ser o último abraço que lhe daria... imediatamente, Bruce também a apertou em volta de si, com uma força que talvez o consolasse, em vista da perspectiva falha de que seria capaz de manter aquele abraço protetor por tempo suficiente para tirar aquelas ideias estranhas da cabeça de Alice.
– Você vai permitir, sim – a hippie disse em meio ao abraço – porque você simplesmente não terá escolha – deixou que seu rosto descansasse em Bruce, enquanto ele parecia cada vez mais tenso naquela posição.
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