Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...

39 Até Que A Morte Nos Separe


Notas iniciais
Dedico esse capítulo final a todos os leitores que sempre souberam me animar com seus reviews maravilhosos! É o último capítulo da fic, e é para todos vocês, meus lindos! E em especial, para a Yunmei Nyoko e para a Little Baker, duas últimas leitoras novas antes do fim da fic, que me deixaram super feliz por terem se manifestado!!! ;D

Foi extremamente difícil para Alice permitir que Bruce saísse de seu quarto com aquela expressão decepcionada no rosto... tudo o que a hippie não queria no momento era se tornar mais um motivo para alimentar a tristeza presente nas feições do Bilionário, mas acabou absorvendo esse papel com a última conversa que tiveram...

...E ainda mais com o que estava prestes a fazer.

Ela foi capaz de identificar nele cada traço inconformado, e a decepção em seus olhos somente crescia à medida que a hippie recusava sua ajuda... mas ela tinha os seus motivos para isso, e esses motivos eram fortemente estimulados pela crença irrefutável de que aquele caminho que ela escolheu era a melhor alternativa para proteger todos à sua volta, e inclusive proteger a si mesma.

Alice puxou longamente uma arfada de ar, até sentir que seus pulmões já estavam completamente cheios, e somente quando se deu conta de que eles não aguentariam mais nenhuma pequena porção de ar dentro de si, a hippie foi soltando-o aos poucos, mantendo os olhos fechados e apoiando a testa no vão formado entre seus joelhos.

Abraçou as próprias coxas, esperando pelo momento oportuno para dar início ao seu plano. Esperando pela presença do Doutor House... o médico seria sua melhor e única esperança agora! Somente com a ajuda dele, a hippie seria capaz de levar todas as suas escolhas adiante.

O próximo passo então seria convencê-lo a fazer parte em seu plano, e Alice simplesmente não fazia ideia se isso seria um obstáculo ou não...

– Eu realmente espero que você tenha mandado me chamar por um motivo importante – House disse enquanto entrava no quarto hospitalar, andando o mais apressadamente que a sua bengala permitia – eu estava no meio de um questionário com os funcionários e pacientes do hospital sobre o que eles acham a respeito da bunda da Doutora Cuddy, e você me interrompeu – comentou despreocupadamente, quase como uma acusação.

– Sinto muito por acabar com a sua pesquisa de campo – Alice revirou os olhos, incapaz de conter um riso baixo ao imaginar aquela cena um tanto bizarra.

– E então, a que devo a interrupção? – o médico perguntou, sentando-se pesadamente, porém ainda mantendo a bengala como uma fonte de apoio.

– É um assunto meio complicado... – a hippie franziu a testa, percebendo que não fazia ideia de como começar.

– Não existem assuntos complicados, só pessoas incapazes de abordá-los... – disse, como uma forma peculiar de incentivo para que a hippie prosseguisse.

– Certo – pigarreou, tentando ganhar tempo. Agora que estava prestes a pedir a ajuda de House, sua ideia pareceu-lhe um tanto ridícula, mas ela apenas o encarou e disse o que precisava ser dito – eu preciso de um grande favor seu!

– Eu sei que eu sou irresistível, mas não me relaciono com pacientes – avisou, dando um sorriso irônico – pelo menos não com aquelas que têm alguma doença venérea – ponderou, ainda sorrindo – se não for o seu caso, acho que posso abrir uma exceção! – piscou.

– Dá pra me levar a sério por um minuto? – a hippie brigou, mas seu tom irritado foi instantaneamente anulado pelo seu sorriso bem humorado – eu realmente preciso da sua ajuda!

House encarou o seu relógio de pulso, balançando a cabeça em um sinal claro de decepção.

– Bom, provavelmente eu já perdi a saída da Doutora Cuddy da clínica... – desabafou, desapontado – eu fiz um cartaz com as respostas dos funcionários e dos pacientes com as opiniões dadas a respeito da bunda da Doutora e colei na entrada do hospital, mas acho que acabei perdendo sua reação... então tudo bem, pode falar! Amanhã eu pergunto ao Wilson como foi...

– Uau... – Alice uniu as sobrancelhas, sentindo uma forte compaixão dessa tal Doutora Cuddy – bom, enfim, o caso é que eu preciso morrer – a hippie despejou, indo direto ao ponto, e encarando a feição indecifrável de seu médico. Depois de uma breve pausa em que os dois se olhavam, House finalmente quebrou o silêncio, dando de ombros.

– Bom, eu sempre quis fazer uma autópsia em alguém ainda vivo! – apoiou o queixo com os dedos, mirando distraidamente o teto, como se aquela fosse uma reflexão digna dos mais talentosos filósofos – Acho um grande desperdício ter que esperar o paciente morrer para realizar esse tipo de procedimento – concluiu, e Alice pôde sentir o quanto House zombava dela com aquelas palavras.

– Não, é sério! – manteve o tom urgente, ansiosa por uma resposta séria do médico – eu preciso que você me ajude a forjar a minha morte – disse, e agora o médico realmente deixou de lado o deboche e passou a encarar Alice com olhos curiosos e faiscantes.

– Isso é algum tipo de piada...? – arriscou.

– Eu nunca falei tão sério – continuou, um pouco mais confiante agora – essa é a única maneira de conseguir sobreviver a toda essa perseguição que me envolve. Mas eu só vou conseguir isso com a sua ajuda!

– Isso está completamente fora de cogitação – agitou a cabeça, negando, mas ao mesmo tempo seus olhos brilharam intensamente com essa mera possibilidade, traindo a entonação decidida de sua voz – eu não posso simplesmente forjar a morte de um paciente, isso implicaria muitas providências que acabariam nos denunciando... para começar, nem existe um diagnóstico coerente para explicar sua morte!

– Mas é claro que existe – Alice sorriu amplamente – eu levei uma forte pancada na cabeça, Doutor House, e como você mesmo sabe, casos como esses podem levar a um prognóstico de hemorragia cerebral. Coágulos de sangue formados no cérebro têm um enorme potencial para ser fatal – concluiu, triunfante pela expressão duvidosa do médico.

– Mesmo assim – ele teimou, claramente resistente àquele plano – não há registro de qualquer sintoma de hemorragia cerebral na sua ficha para explicar a sua morte súbita.

– Não vão haver registros simplesmente porque os sintomas não se manifestaram... não a tempo de alguma intervenção médica, pelo menos – disse, tranquilamente – sem sintomas, sem tratamento, sem chance de reverter a situação clínica!

House tirou o seu tradicional frasco laranja de remédio do bolso, pensativo, engolindo alguns comprimidos com a própria saliva. Alice o observava atentamente, quase se esquecendo de respirar, apenas esperando, impaciente, que o médico cedesse ao seu apelo.

– É um tanto complicado esse seu pedido – ponderou, ainda pensativo – se qualquer coisa desse errada, por mínima que fosse, poderia acabar com a minha carreira.

– Não existem pedidos complicados, só pessoas incapazes de realizá-los – editou as próprias palavras de House, com um sorriso triunfante no rosto – e você já passou por cima de todo o código de ética da Medicina, forjar a morte de um paciente seria apenas mais um item na sua lista gigante, e eu duvido que seja o pior deles...

– De fato, não seria – House concordou com um sorriso travesso, mas ainda recusando-se a ceder – e quanto ao seu enterro? – arqueou uma sobrancelha, desafiando-a a encontrar uma solução coerente para aquele empecilho – pretende colocar uma boneca no caixão? – debochou.

– Não – respondeu tranquilamente – simplesmente porque eu nunca quis ser enterrada – sorriu – eu sempre simpatizei mais com a cremação...

– O que também não deixa de ser um problema! – retrucou.

– Nem tanto – a hippie discordou – basta manter o caixão fechado, o que é uma prática muito recorrente, ainda mais em procedimentos crematórios – deu de ombros, como se aquele fosse o menor de seus problemas.

– Olha, Alice, eu sou o médico responsável pela sua recuperação, e simplesmente não posso permitir que o meu nome acabe envolvido em um erro médico tão grosseiro quanto esse que você sugere. A hipotética causa da sua morte me tornaria um completo imbecil até para os médicos mais incapazes, por eu não ter descoberto a tempo um problema tão óbvio.

Alice mirava diretamente os intensos olhos azuis do médico, com uma expressão extremamente séria agora. Antes de lhe responder, a hippie ajeitou-se melhor em sua cama, sentando em cima das próprias pernas cruzadas.

– Você jamais seria visto como um profissional incompetente por isso, simplesmente porque esse tipo de acidente é muito mais frequente do que os médicos gostam de admitir... e aliás, eu pensava que a opinião alheia não fazia a menor diferença para você, não é mesmo? – lembrou-lhe – Eu posso ver em seus olhos o quanto você queria ter essa oportunidade que eu estou pedindo agora – fitou-o com receio, esperando estar certa em sua análise – quantas vezes você já imaginou como seria bom se simplesmente pudesse dar um fim na pessoa que você é hoje e recomeçar tudo do zero? – fez a pergunta, mas não esperou pela resposta – o que eu estou te pedindo é bem mais do que uma segunda chance... estou intercedendo pela única possibilidade que existe para que eu de fato consiga sobreviver! Porque, por mais estranho que pareça, a minha melhor esperança está na morte. Somente ela será capaz de me dar o dom do recomeço...

House a encarava sério, parecendo confirmar as palavras de Alice apenas com o entendimento em sua expressão. Ele brincava distraidamente com o frasco de remédio, mas parecia nem estar consciente desse gesto, apenas continuava mirando a hippie enquanto o seu conflito interno ainda estava visivelmente colocando a dúvida em sua resposta.

– Caso eu resolva ajudá-la... – começou, depois de uma longa hesitação, e Alice abriu um enorme sorriso para o médico, sabendo que aquela causa já estava ganha – ... nós teremos que tomar algumas providências para que isso possa convencer aqueles dois abutres lá fora – disse, apontando para a persiana da janela, onde era possível ver a silhueta de Bruce e Logan.

– Certo! O que você tem em mente? – Alice perguntou, e House abriu um enorme sorriso antes de responder.

– Sintomas! – foi tudo o que disse, parecendo animado – Pronta para o show?

– Que se abram as cortinas – respondeu, retribuindo ao sorriso amplo do médico. Eles ainda sorriam quando o Doutor House apertou o único botão de uma espécie de controle remoto, chamando os enfermeiros em um pedido desnecessário de socorro.

Bruce e Logan estavam sentados em duas pontas opostas do sofá em frente ao quarto de Alice, esperando que ela terminasse a conversa com o seu médico, em uma disputa silenciosa para ver quem a visitaria primeiro assim que o Doutor House saísse pela porta.

Estavam a longos minutos nessa condição, sem trocar uma única palavra, apenas encarando-se de canto de olho algumas vezes, ambos mostrando-se profundamente irritadiços com a presença do outro.

Uma equipe de enfermeiros apareceu de repente, andando apressadamente pelos corredores com a urgência do chamado, empurrando uma maca vazia, e fazendo os dois se alarmarem assim que viram as figuras paramentadas entrarem com pressa no quarto de Alice. Bruce levantou-se na mesma hora, tentando enxergar o que acontecia através dos pequenos vãos das persianas que cobriam a janela. Logan parecia extremamente tenso em cima da maciez do sofá. Levantou-se também, indo para perto de Bruce.

– O que será que está acontecendo ali? – Logan dirigiu-se a Bruce, pela primeira vez usando um tom que não era acusador ou irônico.

– Era o que eu gostaria de saber também – o Bilionário respondeu, dando um suspiro longo e preocupado.

A porta do quarto de Alice abriu-se com estupidez, e agora a maca não estava mais vazia, mas era ocupada pelo corpo inconsciente da hippie. Seu corpo parecia completamente mole diante da oscilação contínua dos movimentos meio bruscos da maca, seus olhos se mantinham fechados e sua boca levemente aberta. Os enfermeiros mantiveram o ritmo rápido pelos corredores, e logo atrás saiu o Doutor House, tentando acompanhar a rapidez daqueles passos.

Bruce e Logan imediatamente começaram a seguir o fluxo, cada um deles ocupando um lugar ao lado do médico.

– O que aconteceu? – Bruce perguntou, tenso, sem tirar os olhos do rosto tombado de Alice.

– Ela entrou em coma – respondeu, sem diminuir a frequência de seus passos mancos e sem nem olhar para o Bilionário.

– Coma? – Logan pareceu incrédulo – como isso aconteceu? Ela estava completamente saudável...

– Isso era o que nós acreditávamos – House o interrompeu, mantendo o tom de voz tão apressado quanto os seus passos – tudo indica que Alice esteja em um estágio avançado de Hemorragia Subaracnoidea. Aquela pancada que ela levou na cabeça provavelmente rompeu alguns vasos sanguíneos que se encontram no espaço subaracnoideo da meninge cerebral, e isso levou a uma hemorragia interna.

– O senhor pode traduzir o que isso significa? – Bruce pediu, inquieto.

House cessou sua caminhada por um momento, bufando de impaciência.

– Casos como esse são extremamente instáveis, como vocês devem ter notado. O coma súbito da paciente foi causado como um sintoma tardio de uma hemorragia cerebral por conta daquele ferimento em sua cabeça, e o fato de ela já entrar em coma indica que o caso é grave, então, se me permitem, eu vou entrar naquela sala e espero não ser mais atrasado por perguntas cretinas. Logo alguém virá explicar a situação da paciente, mas por ora vocês devem esperar aqui – avisou, retomando sua caminhada apressada para dentro da sala em que os enfermeiros levaram Alice.

O Doutor House escancarou a porta e logo tornou a fechá-la, enquanto via que os enfermeiros já preparavam todos os equipamentos cirúrgicos necessários. Um deles olhou com urgência na direção do médico enquanto ainda aprontava a sala.

– Doutor, o senhor precisa confirmar o diagnóstico, deve fazer uma punção lombar na paciente imediatamente...

– Saiam daqui – House mandou, e todos passaram a olhá-lo, um tanto pasmos pela sua ordem.

– Mas Doutor... – outro enfermeiro estava prestes a protestar.

– Já disse para saírem! – irritou-se, interrompendo o funcionário – Eu cuido sozinho da paciente a partir de agora.

Eles se entreolharam por um momento antes de acatar a ordem, finalmente deixando a sala livre para House e Alice. Assim que o último enfermeiro saiu, a hippie abriu apenas um olho, certificando-se de que estavam finalmente sozinhos.

– Até que enfim – ela sussurrou, sentando-se na maca e massageando o pescoço – eles não são muito delicados para transportar os pacientes – reclamou.

– É porque, teoricamente, você está em coma – rolou os olhos na direção da hippie, mas logo voltou sua atenção para a porta fechada, assegurando-se de que não havia ninguém próximo o suficiente para escutar os murmúrios dos dois. Somente quando ficou satisfeito em ver que todos os enfermeiros já estavam a uma distância segura, ele mancou até Alice.

– Como foi? – ela perguntou – Bruce e Logan... eles acreditaram?

– Foi mais fácil do que dar uma rasteira em um cego – gabou-se com um sorriso metido – eles estão quase tendo um filho lá fora – riu, e Alice encarou a porta, triste... não era justo manipulá-los dessa forma, mas aquilo realmente era o melhor para todos. A hippie sabia que faria um enorme favor a eles privando-os da sua companhia.

– Ainda dá para voltar atrás – House trouxe-a de volta ao presente, reparando em sua hesitação.

– De jeito nenhum – sorriu brevemente – o espetáculo tem que continuar até que as cortinas se fechem novamente!

– Que bom, porque eu não ia deixá-la desistir – avisou, parecendo empolgado com a mentira, e ainda mais instigado em ver até onde toda aquela improvisada farsa seria capaz de chegar.

– Nós só temos um problema mal resolvido agora – Alice começou a morder distraidamente a unha de seu polegar – eu não faço ideia de como sair daqui sem ser reconhecida...

– Essa parte você deixa comigo – sorriu, já tendo o esboço de um plano incomum em mente.

Alice e House enrolaram algumas poucas horas na sala, revisando mentalmente todas as providências que deveriam tomar agora que o plano já estava em andamento. Eles repetiram tudo o que deveria ser feito várias vezes, até se darem por satisfeitos de que não haveria nenhuma falha, nada que pudesse denunciá-los.

– Você vai lá agora? – a hippie perguntou, engolindo em seco, sabendo que aquela seria a parte mais dolorosa do plano para ela.

– Já passou tempo mais do suficiente para dar a notícia – respondeu, parecendo bem mais decidido a levar aquilo adiante do que a própria Alice – e nós não podemos mais nos dar ao luxo de perdê-lo.

– Certo, você tem razão – assentiu – é melhor acabar logo com isso...

– Me espere aqui – avisou, e logo ultrapassou a porta, sumindo da vista da hippie.

O médico encontrou dois pares de olhos aflitos que esperavam por notícias. Assim que Logan e Bruce viram House, foram até sua direção, sedentos por qualquer novidade do estado instável de Alice.

– Como ela está? – os dois perguntaram praticamente juntos, e ambos pareciam apreensivos pela resposta.

House balançou negativamente a cabeça, encarando o piso frio, com uma expressão que beirava a incredulidade. Se a carreira de médico não desse certo, certamente a de ator seria a melhor opção.

– Ela não resistiu – informou, voltando a olhá-los – a hemorragia demorou muito para se manifestar, e simplesmente não havia o que ser feito para reverter a situação. As chances de sobrevivência já eram ínfimas, e mesmo que a paciente conseguisse resistir, seria submetida a alguma sequela grave por conta do estágio avançado em que seu estado se encontrava...

– O senhor... – Bruce fez uma pausa, como se tentasse engolir uma enorme espinha de peixe presa em sua garganta, arranhando-a dolorosamente ao passar – o senhor está dizendo que a Alice... não sobreviveu? – seu rosto pareceu exausto de uma hora para a outra.

– Não, ela não sobreviveu – repetiu, de forma mais clara, e imediatamente calou-se.

Logan deixou-se sentar na poltrona que antes lhe serviu de espera, apoiando pesadamente a testa com a base das mãos, simplesmente incapaz de acreditar em seus ouvidos. Bruce permaneceu estático, exatamente na mesma posição, ainda encarando o médico com uma tristeza evidente refletida em seus olhos. Primeiro perdeu Rachel, e agora Alice... parecia-lhe um fardo grande demais para carregar...

– Eu sinto muito – o Doutor House disse, virando-se novamente para voltar ao quarto em que Alice estava.

– Doutor – Bruce chamou, sentindo sua voz sair falha – será que é possível entrar um pouco na sala? Só para vê-la uma última vez... – pediu.

– Isso não será possível. A paciente já está sendo preparada para a autópsia, e eu devo levá-la imediatamente ao necrotério do hospital, para ter certeza da causa de sua morte – virou-se novamente, deixando os rostos incrédulos e inconformados de Bruce e Logan para trás, entrando mais uma vez na sala.

Alice era apreensão pura quando House retornou, e assim que ele fechou a porta atrás de si, já foi bombardeado pela curiosidade da hippie.

– Como eles reagiram? – perguntou, mordendo internamente a bochecha, incapaz de controlar seu estado crítico de ansiedade.

– Eles deram alguns pulos de alegria e convidaram toda a equipe médica para comemorar a notícia em um restaurante caro, tudo por conta deles – respondeu ironicamente.

– House! – a hippie o repreendeu pela brincadeira fora de hora.

– Escute, Alice, eu decidi te ajudar, e estou fazendo o que posso para isso, mas agora você precisa escolher o seu lado. Não adianta nada você forjar sua morte para ter uma oportunidade de recomeçar se você continuar sentindo-se ligada à sua vida antiga desse jeito – repreendeu-a – você precisa se desatar completamente do seu passado para isso dar certo.

– É fácil falar... – resmungou.

– A escolha foi sua, então cabe a você arcar com as consequências que ela traz. E agora não dá mais para desistir – completou.

– Eu sei... só preciso de um tempo para me acostumar com a ideia – disse, com pesar, percebendo o quanto seria difícil se desfazer daquela parte da sua vida.

– E então, podemos continuar? – perguntou, segurando um enorme lençol claro nas mãos.

– Manda a ver – deu um sorriso triste, imaginando como Bruce e Logan deveriam estar agora. O Doutor House a cobriu completamente com o lençol assim que a hippie deitou-se novamente, empurrando com dificuldade a maca para fora com uma das mãos, enquanto a outra apoiava o seu peso na bengala. Alice fez o que estava ao seu alcance para manter-se o mais imóvel possível embaixo daquele lençol meio azulado, e quando atravessaram o corredor, pôde sentir os olhares de Bruce e Logan incidindo diretamente sobre a maca em que ela era transportada. Soltou um suspiro baixo, baixo o suficiente para que somente ela o ouvisse, porém alto o bastante para que toda a sua derrota se extravasasse no som. Teve que controlar a vontade insana que se apoderou dela de sair debaixo daquela fina coberta e tranquilizar os dois.

– Doutor House! – uma voz feminina chamou, parecendo correr para alcançá-lo.

– Como vai, Doutora Cuddy – o médico a cumprimentou enquanto ainda mantinha o ritmo mais apressado que sua perna defeituosa permitia – o que você achou da nova decoração do hospital? – perguntou cinicamente, referindo-se ao tal cartaz que ele colou na entrada.

– Do que você está falando? – pareceu confusa, mas logo mudou de assunto, distraindo-se com a maca que o médico empurrava – o que aconteceu? – apontou para o lençol que cobria Alice, e ela implorou mentalmente para que as batidas frenéticas de seu coração não a denunciassem.

– A paciente teve uma complicação. A colisão que ela levou na cabeça foi muito mais grave do que nós acreditávamos, ela evoluiu para uma hemorragia cerebral, que acabou se manifestando tarde demais e levando a paciente a óbito – explicou tranquilamente, fazendo a hippie se impressionar com a facilidade e competência com que ele mentia.

– Você realmente dispensou a ajuda dos enfermeiros na hora de socorrer a paciente? – perguntou, parecendo estar a par da situação.

– Parece que aqueles inúteis já foram se queixar para a chefe – o médico revirou os olhos, sem nem ao menos alterar a velocidade de seus passos, por mais que eles fossem dolorosos.

– Isso foi um tanto imprudente de sua parte... – começou a bronca, mas logo parou de falar quando o Doutor House cessou bruscamente sua caminhada e virou-se para encarar a médica. Alice prestava atenção em cada palavra, tentando prever até que ponto ele estaria encrencado por ter dispensado o auxílio dos enfermeiros.

– Doutora Cuddy, a paciente morreria de qualquer jeito! O caso dela se mostrou completamente irreversível, tamanha a intensidade com que a enfermidade se manifestou – defendeu-se – e aqueles idiotas só estavam me atrapalhando com todo aquele desespero, por isso, sim, eu me livrei dos inúteis e fiz tudo o que estava ao meu alcance sozinho – terminou de falar e recomeçou sua caminhada apressada.

A médica apenas levou a mão à testa, suspirando diante da teimosia incurável de House... se ele não fosse o médico mais brilhante do hospital, certamente já o teria demitido há tempos! Mas pela sua competência, valia a pena passar por cima de sua arrogância... no final das contas, o saldo por manter o Doutor House em sua equipe de médicos era positivo. Ela voltou a segui-lo, correndo um pouco para alcançar a distância que ele já havia percorrido.

– Pedir que você siga os regulamentos do hospital não é nada de extraordinário – comentou, irritada.

– Me demita então – desafiou, sorrindo ao perceber que Cuddy parou de segui-lo feito sua sombra, mantendo apenas um olhar aborrecido sobre suas costas enquanto ele ainda mancava em direção ao necrotério. Ela o perdeu totalmente de vista quando House virou em um corredor, e a presunção do médico a fez bufar de raiva enquanto ela tomava o caminho oposto até a sua sala.

House prestou atenção à pequena movimentação no corredor que levaria ao necrotério, diminuindo consideravelmente o ritmo de seus passos, e o que antes era traduzido em pressa pelas passadas rápidas que o médico dava, agora era uma necessidade quase ilógica de enrolar o máximo que pudesse. Assim que ele se viu sozinho no corredor, mudou bruscamente o trajeto que fazia, indo em direção à sua própria sala e deixando o necrotério cada vez mais distante com seus passos novamente apressados na direção contrária ao seu suposto destino.

O médico conduziu a maca para dentro de sua sala, e assim que o fez, trancou a porta e fechou completamente as persianas abertas de sua janela, o que escureceu imediatamente o ambiente. Alice permaneceu estática, sem saber ao certo se já podia se manifestar ou não, até o momento em que o Doutor House puxou com rapidez o lençol que cobria a paciente.

Ela olhou em volta, sentando-se devagar na maca, relaxando ao perceber que eles finalmente estavam sozinhos. House a fitava com uma expressão intrigada, como se no fundo ele duvidasse desde o começo de que Alice realmente iria até o fim com aquele plano. Sim, ele estava um tanto surpreso pela ousadia da paciente.

– E agora, como eu saio daqui? – a hippie perguntou, baixo demais, temendo estragar a sua própria farsa. House deu um sorriso amplo, a cada minuto parecendo mais estimulado com toda aquela situação.

– Isso vai ser muito divertido... – disse vagamente, ainda sorrindo, fazendo Alice franzir a testa pelo seu tom descontraído e ansioso.

– Que São Charlie Chaplin me proteja – deu um meio sorriso desconfiado.

– Sim, Roxanne, eu sei que parece estranho, mas eu preciso dos seus serviços aqui no hospital – o Doutor House andava pela sala enquanto falava ao celular. Alice escutava a conversa atentamente, mas quanto mais ouvia, menos entendia quais eram os planos do médico – e traga uma muda extra de roupa e sapatos! Eu explico melhor quando você chegar – ele parou de andar, tombando levemente a cabeça para o lado, parecendo analisar Alice de cima a baixo – ora, Roxy, ninguém vai te barrar... apenas diga que eu estou te esperando e peça para ser anunciada na minha sala! – ele fez uma pausa, sorrindo com a resposta da garota – até logo então – desligou o aparelho, sentando-se em sua enorme cadeira de couro preta.

– O que você tem em mente? – a hippie perguntou, assim que ele encerrou a chamada, pouco se importando em tentar disfarçar a curiosidade.

– Você vai ver – massageou a perna, certamente sentindo mais dor do que o normal pelo esforço de carregar Alice na maca pelo hospital. Mais uma vez ele tirou seus comprimidos do bolso, engolindo três de uma só vez, e sua expressão pareceu se aliviar só por saber que em breve o remédio faria efeito e amenizaria aquela maldita dor que sempre estava presente em sua perna...

– Eu tenho até medo da resposta – riu.

– No final das contas, acho que eu mereço me divertir um pouquinho depois de colocar minha própria liberdade em risco para te ajudar a reconquistar a sua – zombou, e Alice fez uma careta.

– Acho que eu vou acabar me arrependendo muito por ter pedido a sua ajuda...

– Provavelmente vai – confirmou, e os dois riram.

– Obrigada por tudo! De verdade, você foi incrível... se antes eu o admirava como profissional, agora o admiro como a pessoa sensacional que você é – deixou-se sorrir ao ver o leve rubor em suas bochechas pálidas.

– Desse jeito eu vou acabar vomitando – simulou desagrado, contudo sua expressão mostrava o quanto ele ficou sem jeito com as palavras da hippie. Isso porque o médico só estava habituado a receber críticas pela forma pouco convencional com que ele tratava os colegas de profissão e pacientes, elogios não eram nada corriqueiros em sua rotina.

– Pode vomitar, eu não ligo – riu, encarando-o novamente com repleta admiração até mesmo em suas expressões mais sutis – as pessoas o veem como um cretino, e de certa forma elas têm razão, mas eu posso dizer com orgulho que conheci uma parte sua pela qual realmente vale a pena suportá-lo!

– Eu imagino que isso tenha sido um elogio...? – House perguntou, na dúvida.

– Talvez... – arqueou brevemente uma sobrancelha, fazendo-o rir.

– Doutor House – uma voz fina e vacilante ecoou do viva-voz de seu telefone fixo – tem uma... – hesitou – mulher aqui na recepção chamada Roxanne que insiste em falar com o senhor. Ela disse que tem hora marcada...

– Ótimo, deixe-a entrar – o médico respondeu, animado.

– Sério? – a secretária perguntou, baixinho, mas House encerrou a chamada antes de se dar ao trabalho de responder.

Um minuto e meio depois, uma mulher escandalosamente chamativa entrou na sala do médico. Ela era alta, e os vários centímetros de seu salto vermelho sangue a deixavam ainda maior. Seu rosto moreno era preenchido por uma maquiagem forte, e todo o seu corpo estava praticamente à mostra com a pouca roupa que usava. Ela sorria largamente para o médico, e este retribuía o gesto com a mesma empolgação.

– Eu sou obrigada a admitir que você realmente me surpreendeu por querer os meus serviços aqui no hospital – ela disse com sua voz levemente rouca e bem humorada, e deixou o queixo cair quando notou a presença de Alice – então... hoje a nossa brincadeirinha será a três? – levantou uma sobrancelha, encarando a hippie.

– Só se você não se importar em praticar necrofilia – Alice comentou baixinho ao entender qual era a profissão da morena, começando a rir. Afinal, agora ela estava quase oficialmente morta... Roxanne pareceu realmente confusa com o seu comentário, mas logo sua atenção foi novamente desviada para o Doutor House.

– Infelizmente hoje eu te chamei por outra razão – o médico explicou – eu preciso que você transforme ela – apontou para a hippie – em uma colega de trabalho sua – sorriu.

– Como é que é? – Alice perguntou, sentindo que sua testa se franzia de forma exagerada.

– Eu avisei que tirá-la do hospital seria por minha conta – House respondeu, defendendo-se – então deixe que eu faça isso do meu jeito!

– Será que nós podemos conversar um instante? – ela pediu, semicerrando os olhos.

– Roxy, você se importa de esperar aqui por um minuto?

– Pode ir lá, querido! Enquanto vocês se resolvem eu vou ajeitando os meus equipamentos cirúrgicos – piscou, começando a revirar sua enorme bolsa tão vermelha quanto o seu sapato.

– Vem! – Alice o puxou fortemente pelo pulso, sem se importar se isso aumentaria a dor em sua perna. Ela os trancou no banheiro da sala do médico, cruzando os braços ao encará-lo sem o mínimo de paciência – o que você está pretendendo fazer?

– Tirá-la daqui, mas não é óbvio? – ele se fez de inocente, rindo da expressão da hippie em seguida.

– E a sua intenção é me fantasiar de prostituta para isso? – olhou-o sem entender.

– É... – afirmou com um aceno de cabeça – você entendeu muito bem o plano!

– Você tem problemas? Eu preciso sair daqui discretamente, sem que ninguém me veja, e não parecendo um pavão ambulante como ela! – brigou.

– Se você tiver alguma ideia para sair do hospital sem ser reconhecida, fique à vontade, se não, sugiro que siga o meu plano! Além de dar certo, vai ser extremamente divertido para mim, e você não pode me negar isso – deu um sorriso triunfante.

– Você não presta! Esqueça todos os elogios que eu lhe disse – retrucou, irritada, destrancando o banheiro e voltando à sala, e logo depois House a seguiu, claramente divertindo-se.

– E então, fofa, pronta para a transformação? – a mulher perguntou com um enorme sorriso no rosto.

– Tudo bem, eu aceito esse plano, mas só com uma condição: quero ficar parecida com a Julia Roberts em “Uma Linda Mulher” – usou um tom autoritário que fez Roxanne rir.

– Você vai ficar melhor! – gabou-se, entregando-lhe a roupa e os sapatos extras que House havia pedido. Alice olhou um pouco desanimada para a roupa extremamente justa e para os saltos enormes, mas rendeu-se ao plano, retornando ao banheiro para substituir a túnica hospitalar pela mini saia preta e uma regata clara que deixaria metade de sua barriga exposta.

Assim que terminou de se vestir, encarou por breves segundos o resultado, mas logo saiu do banheiro, sem querer pensar muito naquele plano insano, apenas deixando que ele seguisse o seu curso. Afinal, pra quem já estava se fingindo de morta, aquilo parecia fichinha...

– Fantástico! – a morena bateu palmas alegremente, aprovando a troca da túnica por suas próprias roupas – você ficou incrível!

– Mas ainda sou eu! – Alice reclamou – qualquer um reconheceria o meu rosto.

– Querida, com essa roupa ninguém perderia muito tempo olhando para o seu rosto – respondeu, sincera – mas não se preocupe, nós vamos deixá-la outra pessoa – balançou alegremente um pequeno frasco de rímel entre seus dedos finos.

Alice teve que rir diante da empolgação da mulher, lançando um olhar divertido e conformado na direção de House.

– Não olhe para mim, a profissional aqui é ela! – o médico disse, e a mulher pareceu satisfeita com a sua colocação.

– Chega de papo, eu tenho muito trabalho a fazer aqui – levou uma das mãos ao queixo, tentando se decidir qual a melhor forma de fazer aquela transformação que o médico lhe pediu. Balançou a cabeça, parecendo decidir-se – eu vou fazer algo bem básico em você, está bem? Algo discreto, mas deslumbrante – avisou.

– Você tem carta branca – Alice assentiu, sentando-se na maca que a trouxe até ali e fechando os olhos para que a mulher pudesse dar início à sua obra prima – só me deixe irreconhecível – completou a frase, já sentindo Roxanne começar o seu trabalho com uma concentração além da normal.

Ela trabalhava rápido, e seus traços pareciam precisos e decididos ao mais leve toque. Alice podia senti-la repuxar suas pálpebras fechadas com a esponjinha macia de uma sombra, e logo em seguida contornar os seus olhos com um líquido viscoso e gelado. Seus dedos iam e vinham pela pele de Alice, executando movimentos perfeccionistas capazes de gerar inveja em muitas maquiadoras renomadas.

Roxanne mantinha-se em silêncio absoluto, deixando que a destreza de sua prática falasse por ela, parecendo uma verdadeira profissional em ação. Poucos minutos foram necessários até que ela terminasse de vez com o serviço, e a morena não pôde evitar o enorme sorriso que tomou conta de seu rosto ao admirar seu trabalho.

– O que você acha, querido? – ela pediu a opinião de House.

– Perfeito, Roxy! Eu não podia esperar nada menos de você – elogiou, impressionado.

– Só falta um último detalhe, fofa – avisou, passando nos lábios de Alice um batom que, além de ser extremamente vermelho, ainda era composto por vários pontos brilhantes, como se alguém tivesse derrubado acidentalmente um potinho de glitter no produto – sim, eu sou uma artista! – elogiou-se quando terminou, entregando um pequeno espelho redondo para a hippie.

– Céus! – Alice surpreendeu-se com sua imagem – você chama isso de “discreto”? – teve que rir, e o som saiu admirado ao perceber que ela mesma parecia não se reconhecer naquele reflexo – genial! – exclamou, ainda segurando o espelho à sua frente.

– Obrigada, obrigada – fez breves reverências, como se agradecesse a uma enorme plateia que a aplaudia.

– Então vamos, eu já estou fazendo hora extra aqui – House pegou sua bengala, caminhando até a porta e escancarando-a. As duas o seguiram, e Alice não podia estar mais insegura sobre atravessar o hospital sem ser reconhecida. Seus passos eram vacilantes naquele salto enorme, e isso só alimentava ainda mais o seu nervosismo.

– Você precisa andar com mais firmeza se quiser convencer alguém – Roxanne observou os passos desajeitados da hippie – tente encarar um ponto fixo à sua frente, isso ajuda a se equilibrar.

– Talvez o Doutor House pudesse fazer a gentileza de me emprestar a bengala – disse, fazendo-a rir, de um jeito tão escandaloso quanto tudo na mulher.

Vários olhares curiosos e indignados os seguiam conforme eles diminuíam a distância até a saída. Quando Alice finalmente estava próxima o suficiente da porta, quase abrindo-a, quando acreditava que poderia sair dali sem problemas, a voz irritada da Doutora Cuddy ecoou pelo ambiente, e mais uma vez o coração da hippie saltou de seu peito, um tanto incômodo.

– Mas o que significa isso? – a médica rangeu os dentes de raiva, revezando o seu olhar entre House, Roxanne e Alice.

Os três se viraram para encará-la, e ela realmente parecia uma fera. Mais do que isso, ela parecia enciumada.

– O que você acha que significa? – House perguntou com ironia, passando os braços pela cintura das duas. Roxanne soltou um gemidinho baixo com o gesto, quase um ronrono, enquanto Alice parecia cada vez mais tensa naquela situação.

– O que essas duas estão fazendo aqui? – perguntou, com um olhar de ódio.

– Bom, pelo jeito isso vai demorar – Roxanne comentou casualmente, sem se importar com o tom grosseiro que a médica usou para se referir a ela – eu vou esperar lá fora, Greg! – acariciou a barba semi grisalha de House, saindo do hospital em seguida, com um andar marcado por um intenso rebolado, exagerado até. Alice permaneceu parada no mesmo lugar, incapaz de se mover.

– Por acaso está com ciúmes? – House perguntou com um sorriso satisfeito no rosto, o que irritou ainda mais a expressão de sua chefe.

– Pouco me importa o que você faz fora do seu horário de expediente, desde que você não inclua a clínica nisso.

– Assim você me ofende – disse, cínico – essas duas distintas moças só estão me ajudando a chegar em casa! Eu sou aleijado, esqueceu? – apontou rapidamente para a sua perna manca.

– Essa realmente foi à gota d’água, House – comunicou – você não é tão indispensável quanto acredita para eu ser obrigada a aturar esse tipo de comportamento – parou um pouco de falar, vendo que todas as atenções se depositavam sobre os dois, e assim que percebeu todos aqueles olhares curiosos dos pacientes e funcionários sobre eles, diminuiu o tom de voz – eu quero conversar com você na minha sala, agora!

Alice respirou fundo uma única vez, percebendo que se não interferisse, provavelmente ficaria a noite inteira ouvindo Cuddy explodir com House enquanto ele a alfinetava. Não, ela não estava disposta a colocar todo o seu plano em risco por causa daqueles dois.

A hippie encostou todo o seu corpo na lateral do médico, levando os lábios bem próximos ao seu ouvido, porém falando alto o suficiente para que a Doutora Cuddy pudesse ouvi-la também.

– Não se esqueça que eu cobro por hora, querido – usou uma voz sedutora que ela simplesmente não reconheceu como sendo sua.

– Está vendo? Eu vou acabar tendo prejuízo por sua causa – House encarou Cuddy de modo acusador – nos vemos amanhã – virou-se, indo em direção à saída sem esperar pela resposta ou reação da médica. Alice o seguiu, incapaz de descrever o quanto estava aliviada por finalmente sair dali...

Roxanne os esperava sentada em uma bela Honda Repsol preta, e a hippie simplesmente estancou quando viu House acomodar-se nela, colocando a chave na ignição e iniciando o ronco agradável do motor.

– Jura que você tem uma moto? – perguntou, incrédula, passando a mão hesitante pela pintura impecável e brilhante da espantosa e linda motocicleta.

– Excentricidades de um pobre aleijado – explicou, sorrindo – você não vem? – perguntou, acelerando de modo a aumentar o barulho potente do motor, como se fosse um convite para fazê-la sentar-se atrás dele no banco de couro.

– Com certeza! – sorriu de um jeito bobo, ajeitando-se com cuidado atrás das costas de House e segurando firme em sua cintura, enquanto Roxanne estava na frente do médico, apoiando seu peso com as mãos pousadas no guidão, por cima das mãos de House.

O médico imediatamente deu a partida, e mesmo com toda a velocidade adquirida bruscamente pela moto, parecia que suas rodas apenas flutuavam sobre o asfalto. Alice fechou os olhos, deixando que o vento brincasse com seu cabelo da maneira que ele quisesse, fazendo com que seus fios apenas obedecessem aos seus comandos. E a sensação era maravilhosa! Era como estar livre mais uma vez...

A brisa, que tocava gentilmente o seu rosto e levava consigo o calor de sua pele, deixava a sensação gostosa de um possível recomeço. De uma segunda chance em que ela finalmente poderia tentar espantar todos os seus piores erros da lembrança – ou pelo menos não ver-se obrigada a encará-los todos os dias. Sorriu ao ser tomada por essa nova esperança, por finalmente sentir-se capaz de dar um passo que não fosse em falso.

A hippie abriu os olhos, sentindo-os secarem imediatamente ao serem submetidos à velocidade da moto, mas não se importou. Estava empolgada demais para notar a pouca lubrificação de seu globo ocular, ou então a intensidade do frio que a fazia tremer. Apenas queria continuar desfrutando do efeito calmante que a velocidade exercia sobre ela, e aproveitando os seus últimos minutos quando percebeu a sutil, porém constante, freada.

Alice foi a primeira a descer ao perceber que a saia que usava se levantava cada vez mais e que não cobria praticamente mais nada. Ajeitou-a o melhor que pôde enquanto House e Roxanne desciam logo em seguida. Ele mancou em direção a uma bela casa, tirando um molho de chaves do bolso e procurando pela certa, demorando um pouco para achá-la.

As duas o seguiram, e assim que a porta estava destrancada, os três entraram no domicílio, aliviando-se brevemente por se livrarem do clima frio que tornava o lado de fora quase congelante.

– Estou simplesmente exausta – Roxanne reclamou, tentando alongar as costas e o pescoço – será que eu posso usar a sua banheira, Greg? – sorriu, como uma criança travessa que pede um brinquedo caro fora da época do Natal.

– Você já sabe o caminho, Roxy – assentiu, piscando para ela.

– Ele é o meu melhor cliente! – a morena elogiou-o para a hippie, já indo apressada em direção ao banheiro. Alice teve que rir com aquele comentário. O barulho do salto de Roxanne sobre o piso da casa foi tornando-se mais distante à medida que ela se afastava com rapidez.

– Você já sabe o que vai fazer agora? – House direcionou um olhar curioso para a hippie assim que viu-se sozinho com ela.

– Não faço ideia – respondeu, radiante – não é incrível?

– Você fez tudo isso e nem ao menos tem um plano? – perguntou, parecendo incrédulo.

– Aquilo que nós menos planejamos é o que mais dá certo – disse, inspirando-se na própria imagem de Coringa para chegar àquela conclusão – não se preocupe, eu vou me sair muito bem morta – riu, simplesmente feliz por ter dado tudo certo até aquele momento.

– Talvez... – ponderou – mas ainda assim, não parece muito sensato que você fique vagando sem rumo por aí. Para onde você vai agora?

– Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou! – deixou seus dentes à mostra em um sorriso mais do que sincero.

House balançou a cabeça, em uma reprovação divertida. Havia uma espécie de admiração em seus olhos cada vez que ele encarava Alice, talvez por reconhecer a ousadia de seu plano, e maravilhar-se com essa demonstração de atrevimento por parte da hippie.

– Bom, seja lá qual for o seu próximo passo, você precisa de roupas que a cubram – fitou-a de cima a baixo – espere aqui – pediu, andando com o auxílio de sua inseparável bengala e sumindo de vista por breves minutos.

Alice aproveitou aquele momento sozinha para observar melhor a casa. Tudo ali era simplesmente a cara do médico... à primeira vista parecia desleixada, mas tornava-se aconchegante com o passar do tempo, conforme cada objeto fazia questão de manter-se indispensável naquela pouca decoração. Não demorou muito, e logo House apareceu novamente, vindo em sua direção com um enorme sobretudo apoiado em um dos braços.

– Vista isso – entregou-lhe o casaco pesado.

– Obrigada! – Alice suspirou, aliviada por saber que não precisaria vagar por Gotham naqueles trajes minúsculos que usava. Ela vestiu o casaco masculino, sentindo seu corpo inteiro se esquentar na mesma hora. A peça ficou tão grande nela, que chegou a esconder os seus joelhos.

Eles caminharam até a saída, e logo que Alice girou a maçaneta e abriu a porta, parou para olhar o médico uma última vez, e uma dúvida lhe ocorreu, fazendo sua testa se franzir.

– Como você vai explicar o sumiço do meu corpo do hospital? – pareceu preocupada, temendo colocá-lo em uma situação delicada em seu emprego.

– Não se preocupe com isso. Apenas siga o seu caminho e nunca mais ouse pensar em sua antiga vida! Você está tendo uma oportunidade invejável, não a desperdice com apreensões bobas.

– Como eu posso ser capaz de te agradecer por tudo isso? – perguntou, sinceramente grata por aquele médico tão incrível ter entrado em sua vida.

– Apenas admita que eu sou o melhor médico que você já conheceu, inclusive melhor do que você – provocou.

– Eu até posso concordar que você é melhor do que eu, mas ainda assim você ficaria em segundo lugar no meu ranking de competência – disse, desafiando-o a discordar de sua opinião.

– Mesmo? – House arqueou uma sobrancelha – e eu ficaria atrás de quem?

– Do Doutor Chapatin – respondeu, sorrindo e piscando ao mesmo tempo, satisfazendo-se ao notar o divertimento nos olhos de House — nós nos vemos por aí, então — estendeu a mão, esperando que o médico a apertasse. Assim que ele o fez, a hippie puxou o Doutor House para um abraço, que tentava traduzir toda a sua gratidão. Finalmente Alice ultrapassou a porta, aconchegando-se ao enorme casaco que o médico lhe dera, indo rumo ao desconhecido. E naquele momento, soube que o desconhecido era a sua melhor escolha. Sua melhor esperança.

No meio do caminho tinha uma hippie
tinha uma hippie no meio do caminho
tinha uma hippie
no meio do caminho tinha uma hippie.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma hippie
tinha uma hippie no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma hippie

(Carlos Drummond de Andrade, em parceria com Arrriba)

Notas finais
Eu pensei em milhares de coisas para colocar na despedida dessa fic... bom, provavelmente eu vou esquecer a maioria delas =P Antes de mais nada, quero agradecer a cada um de vocês por toda a paciência de chegarem até aqui... amo vocês! (não, eu não estou bêbada, só seriamente fragilizada pelo fim da fic...) E, a essa altura, eu sei que posso dizer que tive os leitores mais incríveis que eu poderia querer, cada comentário, cada palavra de apoio, foram vocês que me motivaram a chegar até esse último capítulo e ainda ter em vista uma Segunda Temporada! VOcês são mesmo incríveis!!! Além de toda essa sessão 'mela cueca', queria fazer um agradecimento mais do que especial àquelas pessoas que recomendaram a fic! Cada palavra de apoio que vocês dedicaram à essa história estranha me fazia querer pular de alegria (e eu pulava, agora resta saber quem é que vai se responsabilizar pelas multas do meu prédio ;D)!!!! Espero que esse último capítulo não tenha sido decepcionante... Eu sei que estou esquecendo de dizer alguma coisa! Bom, enfim... ... Posso contar com vocês na Segunda Temporada?? =] Para quem respondeu 'sim' a essa pergunta, eis o link da continuação das desventuras da pobre Alice: http://fanfiction.com.br/historia/264721/A_Face_Oculta_Da_Lua Mais uma vez, muito obrigada por tudo! ;D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!