Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
29 Filme Triste: Um Novo Começo Para Recordar
Notas iniciais
A semana seguinte se passou de forma agonizante para Alice. Desde sua última consulta com Logan, a hippie foi vítima de sucessivas ondas de mal estar, que iam e vinham sem um padrão definido. Os enjoos sempre chegavam com tal força e intensidade, que faziam dela uma completa inútil em cima da cama. As dores de cabeça também haviam se tornado frequentes, muitas vezes começando como meras pontadas nas têmporas e evoluindo para nauseantes enxaquecas.
Alice estava de olhos fechados, deitada em sua cama, porém completamente consciente de tudo ao seu redor. Podia sentir cada gota de suor frio banhando seu corpo e manchando o lençol branco, as pontadas insistentes que teimavam em afligir suas têmporas, e por fim as intensas náuseas, náuseas que a faziam pensar quanto tempo mais seu estômago seria capaz de aguentar.
Abraçou seu próprio corpo em posição fetal numa tentativa inútil de amenizar o terrível desconforto que sentia apenas com aquele gesto ineficaz. Respirou fundo incontáveis vezes na esperança de conter o desagradável peristaltismo às avessas que começava em seu estômago. Não teve grande sucesso, e no momento em que sentiu que não conseguiria mais segurar a ânsia dentro de si, correu com pressa para o precário banheiro da cela. Em poucos segundos já estava encurvada no chão, despejando um líquido viscoso para dentro do vaso sanitário.
Sentiu uma incômoda queimação percorrer todo o caminho de seu esôfago. Alice já havia vomitado tanto naqueles dias, que não sobrou nada em seu estômago para pôr pra fora. De sua boca saía apenas bile, um líquido amarelado e amargo, tão amargo que era capaz de aumentar a ardência em sua garganta, já dolorida pelos sucessivos esforços.
Quando finalmente até mesmo a bile se recusava a sair, Alice encostou-se à parede, largando-se no chão de olhos fechados e com a cabeça levemente levantada na direção do teto.
– Pelo menos tem um lado bom nisso tudo – falou para si mesma – duvido que as coisas possam ficar piores!
O som de um estrondoso trovão ecoou com intensidade do lado de fora do manicômio, como um sinal de que as coisas não só podiam piorar como iriam piorar. A hippie estremeceu por dentro ao imaginar que seu tormento estava longe do fim, que o conceito de ‘paz’ em sua vida não passava de uma triste recordação. E além de tudo uma lembrança falsa, sem nenhuma base concreta para se apoiar.
Alice levantou-se rápido do chão ao ouvir os passos do segurança em volta de sua cela. Recompôs sua expressão doente o melhor que pôde enquanto ouvia a chave pesada sendo girada dentro da fechadura, e por fim ficou aguardando que ele entrasse, tentando parecer o mais normal possível.
Ela não podia arriscar perder a sessão com Logan por causa de um mal estar bobo. A verdade é que seus momentos na sala do psiquiatra eram os únicos capazes de lhe trazer alguma sensação de normalidade no meio daquele ambiente caótico e insano. Alice era obrigada a admitir que apreciava muito a companhia de Logan – mesmo como psiquiatra – e mais do que nunca ela desejava encontrá-lo essa semana para mostrar que não ficara brava com a última sessão.
O segurança finalmente destrancou a cela e abriu a porta sem qualquer resquício de afabilidade, revelando seu habitual rosto sem expressão.
– Hora do almoço – disse simplesmente, e Alice teve que fazer um grande esforço para não sair correndo novamente em direção ao banheiro. Somente a imagem da textura nojenta da comida servida no hospício era capaz de embrulhar seu estômago com uma intensidade assustadora. Inspirou todo o ar que seus pulmões eram capazes de armazenar, e o acompanhou para fora da sua pequena prisão.
Precisava apenas conseguir se concentrar o bastante para ser capaz de suportar o cheiro fétido do refeitório. Se ultrapassasse essa etapa, sabia que o resto do dia seria mais fácil... a grande provação seria passar pela comida do manicômio, porém, feito isso, não teria maiores problemas em fingir que estava bem. Era o que ela esperava!
Foi mais difícil do que a hippie imaginou. À menor proximidade com o refeitório e ela já começou a sentir novas ondas incômodas de enjoos percorrerem mais uma vez o seu corpo, e como se não bastasse, elas vieram com maior intensidade ainda do que mais cedo naquele dia.
Alice passou todo o horário de almoço quieta demais, com medo de que se abrisse a boca, saíssem mais do que palavras de dentro delas. Assim que Charada terminou de comer, a hippie empurrou o seu prato intacto na direção do vilão, sem trocar mais do que um olhar rápido com ele.
– Você está esquisita hoje... – comentou, puxando o prato de Alice para mais perto do alcance de seu talher.
– Impressão sua – desviou os olhos da cena repugnante que era vê-lo devorar aquele almoço nojento, retomando a sua tática de respirar fundo para espantar a náusea. Quase sorriu ao pensar que se por acaso não conseguisse controlar sua ânsia, ninguém notaria a diferença entre a comida e seu vômito.
– Nada disso! – replicou, de boca cheia como sempre – você está parecendo um zumbi recém saído do ‘The Walking Dead’! Sua cara está horrível, você devia se olhar no espelho... é de assustar!
– Cala essa boca e come, antes que eu me arrependa e pegue o prato de volta! – irritou-se, falando baixo por conta da dor de cabeça, sem camuflar a irritação que tingia seu tom de voz, que mais parecia um sussurro fraco.
– Não está mais aqui quem falou – Charada inclinou-se possessivamente sobre a refeição, voltando a comer.
Foi complicado, mas Alice sobreviveu à hora do almoço. No caminho para a terapia, ainda estava inteira e sentindo-se triunfante por seu autocontrole, porém sabia que precisaria passar o resto do dia se contendo para não haver nenhum acidente indesejado na sala de seu psiquiatra. Mas só o fato de afastar-se do ambiente do refeitório, já fez com que Alice se sentisse infinitamente melhor. O pior havia passado!
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O clima arejado da sala de Logan também contribuiu bastante para fazer Alice se sentir um pouco mais disposta. A hippie sentou-se na cadeira destinada a ela, e logo que se encararam, Logan arregalou os olhos para a paciente, notando o quanto seu semblante estava abatido e meio fora de foco.
– Você está se sentindo bem? – perguntou, com indícios de hesitação na voz.
– Ótima – respondeu sem o mínimo de convicção, e logo em seguida sorriu o melhor que pôde para o médico – se você fosse obrigado a comer aquela lavagem de porco do refeitório todos os dias, também passaria mal às vezes...
– Acho melhor te dispensar da sessão de hoje... – olhou desconfiado para Alice, analisando a palidez de seu rosto.
– Sem drama, eu nunca estive tão bem – uma pontada dolorosa em seu abdômen desafiou suas palavras, como uma piada do próprio organismo de Alice para desmenti-la – talvez só um pouco cansada – disse, tentando disfarçar o gemido de dor baixo que escapou de seus lábios teimosos.
– Tem certeza? – Logan insistiu – podemos marcar para outro dia, e aí eu te levo até a enfermaria...
– Não! – Alice o interrompeu com uma voz levemente histérica – eu estou bem, juro! – sorriu sem muita persuasão – e eu realmente detesto o ambiente de hospital...
Logan a olhou com divertimento nos olhos, sem segurar a risada.
– Mas você é médica, Alice... como pode detestar hospitais?
– São as ironias do destino, não é mesmo? – riu junto com Logan – Eu sempre fugi do trabalho em hospitais, por isso mesmo vou prestar um concurso que... – a hippie calou-se de repente, enquanto a triste verdade caía sobre seus ombros com uma força terrível. O concurso havia sido na semana passada... Alice perdeu uma grande chance de realizar seu sonho de trabalhar no Brasil... – deixa pra lá – disse, triste, enquanto praguejava mentalmente por seu azar.
Logan estranhou a repentina mudança no humor da paciente, mas resolveu não fazer nenhum comentário a esse respeito. Ainda estava preocupado com a saúde de Alice.
– Você quer manter a sessão de hoje, então? – perguntou novamente, e ao ver que a hippie assentiu decidida, rendeu-se à sua vontade, percebendo que ela era teimosa demais para ser convencida do contrário – se por acaso você se sentir mal, podemos parar a qualquer momento, está bem?
– Obrigada – disse, sentindo-se fisicamente melhor, mas ao mesmo tempo dominada pelo desânimo e pela frustração de perceber que perdeu o concurso. Coringa simplesmente dizimou todos os planos de futuro que Alice havia traçado tão cuidadosamente para si... mas se tinha uma coisa que o Palhaço jamais conseguiria tirar da hippie, era a sua capacidade de renascer das suas próprias cinzas e dar a volta por cima! Ela estava mais do que determinada a passar por seus joguinhos sem sequer demonstrar o quanto eles eram prejudiciais para sua vida.
– Bom, antes de começar, eu queria conversar com você a respeito da nossa última sessão – o psiquiatra a encarou, mais sério do que o normal, e Alice soube imediatamente qual seria o assunto. A culpa por quase tê-la beijado estava estampada na testa do médico – acho que você merece um pedido de desculpas decente pelo meu comportamento lamentável naquele dia...
– Não precisa se preocupar com isso, Logan! De verdade, eu sei que você não teve intenção nenhuma de se aproveitar da situação... – começou a defendê-lo, mas logo foi interrompida pela voz suave e ao mesmo tempo decidida de seu médico.
– Por favor, Alice, me deixe concluir – pediu, e a hippie imediatamente calou-se – o fato é que eu pensei muito sobre isso durante essa semana, e cheguei a uma conclusão sobre o que devo fazer – fez uma breve pausa, engolindo em seco antes de voltar a falar – Minha única escolha é abandonar o seu caso! Eu não posso mais ser o seu psiquiatra, Alice.
Os olhos da hippie se arregalaram com a decisão tomada, e ela sentiu um profundo vazio no peito e um incômodo aperto na garganta. Logan era a única coisa boa que havia lhe acontecido naquele manicômio detestável! Lágrimas embaçaram seus olhos ao perceber naquele instante o quanto a companhia do médico era importante para si... tendo ele por perto, Alice tinha a sensação de que ainda havia esperanças para ela, mas se ele a abandonasse... se até ele a abandonasse, tudo acabaria indo por água abaixo!
– Isso é meio radical, não acha? Afinal, nada aconteceu... – sorriu de nervosismo, tentando demonstrar que aquilo não seria capaz de abalar a relação harmoniosa de paciente-médico que eles tinham. Logan riu, porém sem humor algum.
– Nada aconteceu porque você é muito mais decente do que eu, e porque você foi muito mais esperta ao impedir a tempo. Se dependesse de mim, teria acontecido, Alice, e isso já é o bastante para fazer com que eu me afaste do seu caso. Você sendo médica, sabe melhor do que ninguém que esse tipo de situação deve ser logo cortado pela raiz.
– Por favor... – sussurrou, quase implorando e segurando as mãos do médico entre as suas – Eu preciso de você, por favor, não desista de mim agora... – Logan encarava tristemente os dedos de Alice apertando os seus com força, como se isso pudesse impedi-lo de ir embora.
– Sinto muito por tudo isso – suspirou, desviando seus olhos das mãos para o rosto de sua paciente – hoje será nossa última sessão, Alice. E eu nem sabia se deveria fazê-la, mas achei justo que você soubesse dessa decisão por mim. Não se preocupe, tem psiquiatras muito melhores do que eu em Arkham – sorriu com bondade e angústia ao vislumbrar o rosto inconformado de sua paciente.
– Essa é a sua decisão final? – perguntou com pesar, já sabendo qual seria a resposta.
– Não existe outra opção plausível numa situação como essa – tentou explicar – mas você sempre poderá contar comigo para qualquer coisa que precisar, está bem?
– Se você acha melhor assim... – a hippie afastou sua mão do aperto reconfortante do psiquiatra, e depois de uma breve pausa se encarando mutuamente, Alice fez sua última tentativa, apelando – se eu ficar realmente louca por cair nas mãos de um psiquiatra incompetente, a culpa vai ser toda sua, e eu vou fazer questão de jogar isso na sua cara pelo resto da vida!
– Infelizmente eu vou ter que correr esse risco – riu.
– Parece meio estranho que a minha sanidade fique em jogo e quem esteja correndo algum risco aqui seja você... – resmungou, estreitando os olhos.
– Acredite, Alice, você vai estar bem melhor sem mim – seu tom era tão triste quanto o seu sorriso – e eu vou entender se você não se sentir à vontade em fazer essa última sessão comigo...
– Você não vai se livrar de mim mais rápido do que o necessário, pilantra!
Logan pareceu satisfeito com o fato de Alice não rejeitar sua última consulta, e quando falou, sua voz soou um pouco mais animada.
– Hoje eu vou fazer diferente, então. Ao invés de te direcionar a contar o que eu quero ouvir, vou deixar que você mesma escolha o que achar relevante. Pode falar sobre o que quiser!
– Eu não me importo de continuar de onde paramos...
– Melhor ainda! – sorriu, decidido a ser capaz de tirar o melhor daquele último encontro. Logan sabia que, por ter se envolvido tanto, não havia sido um bom psiquiatra para Alice, mas pelo menos terminaria seu trabalho com ela com o máximo de ética que ainda podia lhe restar, e de certa forma isso não deixava de ser reconfortante... O psiquiatra aguçou os ouvidos para a última narração que escutaria de Alice, prestando o máximo de atenção em suas palavras.
A vida longe do orfanato provou-se muito melhor do que eu sequer podia imaginar – nada de regras exageradas ou fanáticas, pessoas agradáveis que sempre se mostravam gentis para com os outros, e o melhor de tudo: minha primeira visão de como seria um lar de verdade. Lá eu realmente me sentia em casa, e percebi de imediato o quanto esse sentimento era maravilhoso!
Também aprendi o verdadeiro significado da amizade. Não que minha samambaia tivesse sido uma companhia insuficiente para me mostrar o valor inestimável desse sentimento durante o tempo que fiquei no orfanato, muito pelo contrário. Sam foi e sempre será o meu bem mais precioso! Porém eu não podia negar que era diferente criar um laço com outras pessoas... receber sorrisos, olhares... Era tudo muito díspar para mim, e eu estava deslumbrada em descobrir e explorar esse novo mundo!
O próprio prédio da escola tinha uma arquitetura bem mais suave e agradável do que o orfanato, que era repleto de disposições rudes e até mesmo sombrias... tudo ali parecia ser mais convidativo, e de fato era. Eu finalmente me sentia feliz!
Parecia um sonho, surreal demais para me permitir acreditar que era verdadeiro, que eu realmente estava convivendo com tudo aquilo. Eu finalmente senti o vazio dentro de mim sendo preenchido, dando-me uma sensação gostosa e aconchegante de quentura no peito, como se aquele ambiente fosse o responsável por despertar a vida dentro de mim – uma vida que eu achava que havia se perdido há muito tempo, mas que na verdade estava apenas adormecida, esperando pelo melhor momento para despertar.
Logo que cheguei à escola, imediatamente simpatizei com um garoto meio magricela e anti-social – que tornou-se meu único, porém valioso, amigo. Assim como eu, ele também tinha problemas de relacionamentos com as outras pessoas, e aos poucos eu fui descobrindo o quanto essa característica era divertida nele, apesar de irritante às vezes...
Eu estava em meu quarto, preparando o material que usaria para as aulas que teria no dia, quando me sobressaltei ao ouvir o escandaloso toque do meu celular me avisando que eu recebi uma nova mensagem de texto. Cacei o aparelho escondido embaixo do lençol da minha cama bagunçada, e vi que o recado era de Sheldon.
“Venha rápido até meu quarto! Emergência!!!”
– Bom dia pra você também! – resmunguei para a tela luminosa do aparelho, devido à frieza daquelas palavras e ao meu tradicional mau humor matinal. Calcei rapidamente minhas botas e me olhei de relance no espelho quadrangular preso na parede de meu quarto, somente para ver se eu estava parecendo uma sem-teto com aquele cabelo despenteado... passei a mão por algumas mechas teimosas, tentando desembaraçar o máximo possível, e saí apressada em direção ao dormitório masculino.
Eu conhecia muito bem as ‘emergências’ do meu amigo, e todas elas eram capazes de me fazer bufar de raiva! Mas se eu não o socorresse, Sheldon ficaria pegando no meu pé por um bom tempo, disso eu sabia. Quando eu estava de frente para o seu quarto, havia mais três mensagens dele me perguntando por que eu estava demorando tanto. Apenas revirei os olhos e ignorei todas elas...
– Sheldon! – eu bati três vezes na porta – Sheldon! – novas batidas – Sheldon! – terminei o ritual das batidas e esperei pela resposta do meu anfitrião mal humorado. Ouvi sua voz abafada dentro do aposento, permitindo que eu entrasse. Rodei a maçaneta calmamente e o vi deitado na cama, e não tive certeza se vi certo, mas parecia que ele tremia...
– Quem você pensa que é para imitar o jeito com que eu bato na porta? – perguntou, tentando parecer indignado, mas sua expressão doente não combinou muito com aquele tom.
– É só para você saber o quanto essa sua mania é irritante – me aproximei da cama, olhando para Sheldon com um pouco de desconfiança sobre sua aparente doença – você está bem? – perguntei entediada, tendo total consciência de que ele faria uma tempestade em copo d’água... Dito e feito!
– Se eu estou bem? – arregalou os olhos de indignação pela minha pergunta – eu estou quase me desfazendo em muco e você me pergunta se eu estou bem? – Sheldon fungou profundamente, como para comprovar o quanto estava doente.
– Sem drama, colega! – briguei – isso é só um resfriado... não me diga que essa era a emergência? – fiz uma careta de irritação por saber que aquela era uma pergunta totalmente retórica e desnecessária.
– Sim – sua voz parecia a de uma pessoa à beira da morte – eu preciso de um pequeno favor seu – fungou mais uma vez, com uma expressão exagerada de dor.
– Lá vem... – resmunguei – você não vai pedir para eu assoar o seu nariz, vai? – arrisquei, com receio.
– Por acaso você acha que eu tenho cinco anos? – perguntou, irritadiço.
– O que você quer então? – tentei controlar meu tom de voz impaciente, mas acho que não fui capaz.
– Eu preciso que você passe Vick Vaporub no meu peito enquanto canta “Gatinho Fofinho” – disse sério, me entregando um pequeno frasco do Vick enquanto eu o encarava perplexa. Aquele frasquinho aberto imediatamente inundou o quarto com o delicioso perfume de cânfora, e de certa forma aquele aroma agradável conseguiu me acalmar.
– É brincadeira, não é? – arqueei uma sobrancelha, em dúvida.
– Não... – respondeu ainda mais sério, como se minha pergunta não fizesse o menor sentido.
– Eu não vou cantar “Gatinho Fofinho”! – ri – e muito menos passar Vick no seu peito, pode esquecer!
– Pelo amor de Galileu, Alice, qual foi a última vez que eu te incomodei por precisar da sua ajuda?
– Ontem, quando você me fez procurar uma joaninha dentro do seu ouvido. – respondi prontamente.
– Certo, vou reformular a pergunta: tirando as emergências médicas, qual foi a última vez que eu te incomodei pedindo sua ajuda?
– Ontem, quando você me fez procurar uma joaninha dentro do seu ouvido. – disse novamente, agora com os meus braços cruzados sob o peito.
– E todas as coisas boas que eu já fiz por você, não vai levar nada em consideração?
– Cite uma! – eu o desafiei.
– Eu sempre deixo você se sentar do meu lado nas aulas... – a maneira como Sheldon disse aquilo fazia parecer com que fosse um enorme favor, digno de recompensa.
– É o único lugar que sobra – respondi entre meus próprios risos, e logo em seguida suspirei – você não vai me deixar em paz enquanto eu não fizer isso, né? – eu conhecia muito bem o gênio forte do meu amigo, e não queria acabar me atrasando para as aulas por causa daquela ‘discussão’ besta.
– Não mesmo! A minha saúde depende disso... – eu revirei meus olhos mais uma vez ao ouvir aquelas palavras exageradas, mas acabei cedendo.
– Abaixa logo a gola dessa blusa, seu nerd hipocondríaco! – mandei, e ele imediatamente obedeceu, sentindo-se vitorioso. Eu me sentei ao lado dele na cama e comecei a passar o Vick Vaporub em seu peito com a ponta dos dedos, e cantando ao mesmo tempo a música que ele tanto queria – Soft kitty, warm kitty, little ball of fur...
– Mas o que você está fazendo? – reclamou, interrompendo a minha cantoria desafinada – você tem que passar o Vick com movimentos circulares no sentido horário, senão os meus pelos vão ficar embaraçados!
Eu aspirei todo o ar daquele aposento que meu pulmão permitiu, contando até dez e fazendo uma prece silenciosa para não quebrar a cara do meu querido e irritante amigo: “Minha Nossa Senhora do Chuveiro Elétrico, dai-me resistência!”
...
– Preciso de sua ajuda! – Sheldon sussurrou no meio da aula de História, parecendo preocupado ao encarar um ponto fixo da sala. A ponta de seu nariz estava muito vermelha, e ele ainda fungava vigorosamente, mas parecia estar bem mais disposto. Do jeito que Sheldon era nerd, nada melhor do que uma aula para fazê-lo se sentir revigorado...
– Ah, jura? – eu dei uma risada baixa e contida, enquanto rabiscava em meu caderno – o Grande Sheldon Cooper pedindo ajuda a uma reles mortal como eu? – perguntei bem humorada enquanto ele me observava com sarcasmo – Acho que você é esperto o suficiente para resolver os seus problemas sozinho... – provoquei.
– Esperto? – me olhou indignado – Eu teria que perder 60 pontos de QI para ser considerado esperto!
– O que você quer, Shelly? – rolei meus olhos, rindo de sua resposta narcisista.
– Que bom que perguntou – empolgou-se – preciso que você me ajude a me livrar da Amy! Acho que estou em algum tipo de relacionamento com ela, e você me parece ser expert em acabar com eles – Sheldon disse esperançoso, enquanto eu o encarava com meu queixo levemente caído e a testa enrugada.
– Muito obrigada pela consideração... – bufei – E antes que você pergunte, isso foi ironia! – voltei a escrever, como se Sheldon não estivesse ali.
– Vamos lá, Alice... você é a única pessoa capaz de me ajudar a me livrar da garota! – insistiu.
– Mas por que você quer se livrar da Amy? – voltei a encará-lo, finalmente largando a caneta em cima do caderno – Ela realmente parece gostar de você, e acredite em mim, não vai ser nada fácil encontrar outra depois! – ri, e logo em seguida fiz uma careta ao ver sua expressão irritada – hum... Ok, então diga a ela que você é gay, pronto, assunto resolvido! – concluí, triunfante, mas ele ainda me encarava com a mesma feição enfadonha e totalmente intolerante para as minhas piadas – ou então fale que o signo dela não é compatível com o seu, sei lá, Sheldon...
– Ah, o zodíaco – seu tom foi reprovador, e ele quase falou a palavra com nojo – isso só funcionaria se ela acreditasse que eu faço parte da desilusão cultural em massa de acreditar que a aparente posição do sol em relação às constelações na hora do meu nascimento afetou minha personalidade de alguma forma – arqueou as sobrancelhas, como se esperasse mais de minha capacidade de inventar desculpas – tenho certeza de que esse não é o caso!
– O que você quer que eu faça então? – perguntei, perdendo a paciência.
– Não me importo! Mas já que você foi a responsável por me apresentar à Amy, nada mais justo do que você ser a pessoa que me faça ficar livre dela! – ele disse com certa autoridade, como se fosse minha obrigação resolver seu problema.
– Gay! – olhei séria para ele, mas logo comecei a rir um pouco alto demais, atraindo a atenção de alguns alunos que estavam em volta e do professor, que para a minha sorte tinha acabado de fazer alguma piada qualquer sobre a matéria.
Eu estava longe de ser uma pessoa popular entre os alunos, mas os professores sempre despejaram muita confiança em mim. Eles tinham tanta fé na minha capacidade, que meu maior medo nem era não ser boa o suficiente, era decepcioná-los de alguma forma – principalmente Aldinho, que acreditou em mim desde o começo. – Em resumo: sim, eu era tão nerd quanto Sheldon!
Aquele ambiente fazia com que eu me sentisse uma personagem saída do filme X-men, vivendo dentro da escola de superdotados do Professor Charles Xavier! O fato de ter sido escolhida por minhas habilidades e me deparar com tantas pessoas talentosas e extremamente inteligentes, me remetiam ao filme como referência, como se eu realmente pudesse ser especial de alguma forma.
Me apeguei tanto ao colégio e aos professores, que quando fui aprovada em Harvard, não pude deixar de sentir uma pontada de tristeza em meio à minha enorme euforia. Mesmo com toda a empolgação que experimentei por ter entrado em uma das melhores faculdades do mundo, senti um enorme peso dentro do peito por abandonar o único lugar que um dia eu pude chamar de casa, o único lugar que teve o poder de me devolver a autoestima que aquele orfanato arrancou de mim tão desumanamente...
Alice parou sua narração de forma brusca. Logan percebeu que ela mantinha os olhos fechados com uma força além da normal, e estava ainda mais pálida do que quando entrou em sua sala. O médico pôde ouvir a respiração profunda da paciente aumentando de volume cada vez mais, como se a frequência das puxadas de ar para dentro do corpo pudessem aliviar de alguma forma sua dor ou desconforto...
O psiquiatra aproximou-se da hippie no mesmo instante, e assim que ficou perto o suficiente, posicionou dois de seus dedos no pulso esquerdo da paciente, tentando medir sua pulsação. A frequência cardíaca parecia normal, pelo menos.
– Eu vou te levar até a enfermaria – Logan disse, instigando Alice a se levantar.
– Não quero... – disse, manhosa, recusando sua ajuda – só estou um pouco enjoada, daqui a pouco passa!
– Isso não foi uma sugestão, Alice! Eu vou levá-la até a enfermaria – o médico falou de forma firme, conseguindo finalmente levantar a hippie, que não tinha muitas forças para rejeitar o gesto, e segurá-la pela cintura para evitar que ela caísse.
– Isso é abuso de poder – reclamou – você nem é mais meu psiquiatra!
– Por hoje eu ainda sou, e agradeça por isso! – sorriu – se fosse qualquer outro você provavelmente estaria sedada a uma hora dessas... – disse, enquanto a conduzia em direção à ala hospitalar.
Alice permaneceu quieta o resto do caminho, com medo até mesmo de abrir a boca para falar. Sabia que a qualquer momento começaria a vomitar outra vez, e definitivamente não queria fazer isso no meio dos corredores... Logan também ficou em silêncio, apenas reparando no rosto doente de Alice enquanto caminhavam.
E naquele momento, sua decisão de abandoná-la como paciente pareceu ainda mais insuportável para ele... um fardo ainda maior por culpa de sua falta de profissionalismo – principalmente no que dizia respeito à última consulta que tiveram! – Logan sabia que se culparia por suas atitudes irresponsáveis com Alice por um longo tempo ainda, e por mais que essa decisão doesse, ele se via completamente sem escolhas.
O psiquiatra fazia o trajeto de forma mecânica, e mal percebeu quando já estavam em frente à enfermaria do manicômio... Ultimamente Logan estava muito mais preso em seus pensamentos do que o normal, e só ele sabia o quanto era irritante ver-se constantemente desligado de tudo à sua volta, apenas entretido com seus próprios erros.
Logan despertou de mais uma de suas abstrações, conduzindo Alice para dentro da enfermaria. A hippie nunca havia ido até aquela parte do manicômio, mas tudo naquele recinto era tão branco que parecia exatamente com todos os outros lugares do hospício, exceto pelos equipamentos que eram exclusivos daquela sala.
– Boa tarde, Doutor Logan – uma enfermeira baixa, de cabelos curtos e lisos o cumprimentou com um brilho extra nos olhos e um sorriso simpático, parecendo nem reparar em Alice ao lado do médico. Talvez a palidez da hippie fosse tanta, que já havia se confundido ao branco maçante daquelas paredes...
– Boa tarde, Andreia – retribuiu o cumprimento, mas sem tirar os olhos de Alice, o que pareceu irritar a enfermeira – a minha paciente não está se sentindo muito bem, você poderia chamar o Doutor Howard para examiná-la?
– Certamente – respondeu, olhando para Alice com desprezo. Estava claro que a mulher estava enciumada pela atenção excedida que Logan destinava à paciente, mas a hippie não deu a menor importância a isso! Na verdade, ela teve que controlar a vontade infantil que sentiu de mostrar a língua para a enfermeira enquanto ela saía à procura do tal médico...
– E então, como você está se sentindo? – Logan perguntou assim que ficaram sozinhos.
– Como se minhas tripas quisessem sair pela boca! – disse, exagerando. Alice o encarou por um momento, tentando gravar aquela feição gentil em sua memória, já que provavelmente não veria mais o seu psiquiatra – e como vai ser de agora em diante? – perguntou por fim.
– ...Não entendi... – respondeu depois de um breve momento de hesitação.
– Você acha que se afastar do meu caso vai mudar alguma coisa, mas não vai! Eu sei o quanto você se culpa pela nossa última sessão, mas fugir não vai resolver nada! – tentou mais uma vez fazer com que ele mudasse de ideia a respeito de sua decisão.
– Não se trata de fugir – encarou a hippie com aquela mesma tristeza que aparecia em seu belo rosto todas as vezes que pensava ou falava no assunto – essa foi a única maneira que eu encontrei de tentar compensar meu erro, e ficar um pouco mais tranquilo com a minha consciência.
– Foda-se a consciência – Alice levantou os braços rapidamente ao nível de sua cabeça, irritada – se pelo menos tivesse acontecido alguma coisa eu até te entenderia, mas não aconteceu nada para a sua consciência pesar tanto e te fazer tomar uma atitude tão radical dessas...
– Não adianta – ele balançou a cabeça negativamente – eu não vou mudar de ideia...
– Isso não vai ficar assim... eu sei o que você fez no verão passado! – Alice usou o seu melhor tom ameaçador, fazendo Logan rir. A hippie sabia o quanto sentiria falta daquele som...
A enfermeira voltou acompanhada do médico, e parecendo emburrada ao ver Logan e Alice rindo juntos. O psiquiatra parecia nem notar a irritação da mulher, e a hippie pouco se importava. Já estava farta de tipos como a Harley infernizando-a por causa de paixões não correspondidas...
– Você é a Alice, certo? – o Doutor Howard perguntou, ajeitando seus pequenos óculos retangulares para mais perto dos olhos castanhos. Seu nariz fino e a pele oleosa, certamente fariam com que aqueles óculos deslizassem novamente para a ponta de sua narina mais cedo ou mais tarde.
– Depende – ela respondeu um tanto séria – se eu estiver devendo dinheiro ao senhor, então meu nome é Bárbara...
– Uma paciente com senso de humor – Howard arregalou os olhos para Logan – isso é meio difícil de acontecer aqui em Arkham.
– Pois é, eu dei sorte – Logan sorriu para Alice, e a enfermeira intrometeu-se na conversa, fazendo um comentário maldoso a respeito da hippie:
– O senhor teve muita sorte mesmo! – deu um sorriso falso – tratar a loucura da parceira do Coringa não é para qualquer psiquiatra. – a mulher enfatizou aquelas palavras, como se isso pudesse fazer Logan perceber que não havia motivo algum para admirar Alice. Todos a encararam perplexos por um momento, e por fim decidiram unanimemente que o melhor seria ignorá-la. A hippie agradeceu mentalmente por se sentir tão indisposta, pois a vontade que tinha era a de levantar e usar um dos métodos torturantes de Coringa para se vingar da verdade que havia naquelas palavras.
– Bom, já que você não me deve dinheiro, posso chamá-la de Alice – o médico sorriu, voltando ao assunto de interesse – e então, qual é o problema?
– O Doutor Logan me disse que precisava fazer um exame de Toque, então eu vim dar apoio moral para ele! – todos riram, menos Andreia, que se mantinha em pé no canto da sala apenas observando a cena com uma expressão indecifrável.
– A Alice não está se sentindo muito bem, acho melhor dar uma examinada – Logan explicou vagamente.
– O que você está sentindo, Alice? – Howard perguntou gentilmente.
– Nada de mais, só um pouco de enjoo e tontura... eu estou me sentindo mais cansada do que o normal de uns dias pra cá, e também algumas dores abdominais um pouco fortes. Mas tenho certeza de que isso não passa de uma indisposição passageira!
– Isso nós iremos descobrir em breve – disse, enquanto anotava rapidamente em seu grosso bloco de notas – você se importa se fizermos alguns exames?
– Sem problemas – a hippie disse um pouco entediada – é como diz o conhecido ditado: Quem está na chuva é para chegar aos moinhos de Roma... Ou qualquer coisa parecida com isso... – deu de ombros.
O Doutor Howard pediu para que a enfermeira tirasse um pouco de sangue do braço de Alice, e a mulher fez questão de errar a veia por várias vezes, tornando o procedimento o mais desagradável possível... somente depois de várias tentativas, Andreia finalmente encheu uma ampola com o sangue da paciente.
Ela limpou porcamente os vários locais em que a agulha perfurou o braço da hippie com uma satisfação sádica nos olhos. Logan e Howard não viram nada, pois discutiam fervorosamente sobre as causas dos sintomas de Alice, o que encorajou a enfermeira fazer o que bem quisesse com a paciente. A hippie manteve-se imparcial a tudo, orgulhosa demais para reclamar sobre a falta de competência da mulher, e ao mesmo tempo se recusando a dar-lhe o gostinho de saber que estava sendo afetada por aquele comportamento infantil.
“Espera até a hora da saída, sua vaca!” – Alice pensou com raiva, apertando o band-aid circular sobre sua veia agora dolorida.
– Leve o sangue da paciente até o laboratório, Andreia – Howard pediu à enfermeira, que pegou a ampola e saiu, deixando o ambiente muito mais leve, pelo menos na opinião da hippie – Deite-se aqui, Alice, por favor – abriu uma porta e apontou para uma maca que estava dentro da outra sala – eu vou fazer um ultrassom abdominal para descobrir o que está causando as dores, tudo bem?
– Certo – assentiu enquanto deitava no local indicado. Logan estava sentado em um canto da sala, observando cada pequeno movimento de sua paciente, aproveitando aqueles últimos momentos em que estavam passando juntos para ter o máximo de lembranças possíveis dela. Era realmente muito estranha a maneira com que Logan se sentia na presença de Alice... independente de todas as acusações que a levaram até Arkham, ele a queria por perto, por razões que fazia questão de não admitir, mas que estava cada fez mais difícil de fazê-lo.
O médico ajeitou novamente seus óculos e em seguida colocou luvas descartáveis, começando a preparar os procedimentos necessários para o exame. Ligou todo o sistema conectado ao monitor e passou um gel frio por todo o espaço do abdômen da paciente, e ao encostar o aparelho na pele de Alice, já foi possível ver a imagem escurecida do ultrassom aparecendo no compacto monitor.
– Vamos ver o que há de errado aqui – puxou assunto, dançando com o aparelho pela pele lubrificada de Alice e sem tirar os olhos da tela – parece que está tudo certo com o seu fígado... – desceu um pouco mais, levando apenas alguns segundos para encontrar o que queria, e mais alguns minutos para analisar – seu intestino também está em ótimas condições – elogiou, ainda deslizando mais para baixo.
De repente o aparelho estancou abaixo do umbigo da hippie, e ela sentiu a mão do médico endurecer sobre o gel que roubava o calor de sua pele. O silêncio repentino de Howard despertou a curiosidade de médica de Alice – que não se conteve e olhou para a imagem do monitor – dando um pulo de susto em cima da maca.
– Isso é... – sua voz se perdeu com o desespero da imagem de seu útero.
– Sim – Howard confirmou, parecendo tão estático quanto Alice, desviando pela primeira vez seus olhos do monitor para encarar a paciente – você está grávida!
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