Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
30 Lutando Contra O Próprio Destino
Notas iniciais
A cabeça de Alice girava rápido, enxurrando-a de acusações cruéis. Era como se aquela realidade fosse um balde de água fria caindo sobre a hippie em um dia gelado de inverno... será que tudo em sua vida precisava ser sempre tão complicado? Não podia, ao menos uma vez, não ser submetida às consequências desastrosas de seus atos? Alice sabia melhor do que ninguém que havia sido uma enorme imprudência de sua parte passar a noite com Coringa, mas nem sequer imaginou o quanto seria punida pelo seu momentâneo lapso de bom senso naquele dia.
Parecia ser azar demais para uma única pessoa...
A sala estava completamente silenciosa, um daqueles silêncios que prevê uma sonora tempestade. O Doutor Howard guardava os equipamentos que havia utilizado para examinar a paciente, parecendo considerar qual seria o próximo passo que deveria tomar diante daquela situação.
– Nós precisamos avisar o Doutor Arkham – Howard falou para Logan, que ainda estava sentado exatamente no mesmo lugar, mirando um ponto fixo qualquer.
O psiquiatra não respondeu... estava totalmente ausente daquele ambiente, ocupado em decifrar seus próprios pensamentos e os sentimentos oxidantes que vieram junto com eles. Não sabia exatamente em que acreditar naquele momento, e muito menos qual seria a melhor forma de agir.
– Logan?! – Howard chamou, conseguindo atrair a atenção do colega desta vez.
– Ah... me desculpe! Eu estava... – nem mesmo o psiquiatra soube descrever com palavras aquela mescla de sensações confusas que rondavam sua mente, então apenas suspirou e mudou de assunto – o que você dizia?
– Eu disse que nós precisamos avisar o Doutor Arkham sobre a gravidez da paciente.
– Sim... – Logan confirmou lentamente com a cabeça – precisamos. – concordou automaticamente, olhando de soslaio para o rosto Alice, como se não pudesse conter a atração de seus olhos pela imagem de sua paciente. A expressão da hippie era dura, completamente indecifrável para qualquer um, menos para Logan.
Naquele mês em que a tratou, o médico aprendeu a identificar cada pequeno traço de sua feição – desde expressões faciais complexas até a mais sutil mudança em seu rosto. E para ele, estava mais do que evidente de que o sentimento predominante que marcava o rosto de Alice naquele instante era o medo.
Aquele novo silêncio instalado entre os três foi novamente quebrado, dessa vez por causa da entrada abrupta de Andreia na sala, que escancarou a porta, e passou por ela segurando um maço de folhas nas mãos, e encarando-as com atenção. O cabelo curto da enfermeira se projetava para além de seus ombros devido à inclinação exagerada de sua cabeça.
– O exame de sangue vai ficar pronto em algumas horas – anunciou com uma voz pouco simpática – o senhor precisa de mais alguma coisa? – encarou Howard ao perguntar.
– Sim... – retribuiu o olhar – preciso que você chame o doutor Arkham aqui imediatamente.
– Algum problema? – a enfermeira perguntou, desconfiando de todas aquelas expressões perturbadas e da palidez repentina no rosto de Alice, e o seu tom era tão curioso que chegava a ser irritante.
– Apenas peça para o Doutor Arkham vir aqui, está bem? – Howard repetiu o pedido, parecendo exaltar-se com a crescente inconveniência de Andreia.
Ela apenas assentiu e saiu da sala o mais rápido possível, movida pela curiosidade de entender o que havia se passado ali enquanto esteve fora. Teve que se conter para não começar a correr pelos corredores que levariam até o amplo escritório do Doutor Arkham, para que assim pudesse voltar o mais rápido possível à cena do crime, e descobrir de vez o que havia acontecido em sua breve ausência.
Enquanto isso, o silêncio fúnebre voltou a se instalar entre os três, e ninguém queria ser o primeiro a quebrá-lo! Alice estava sentada na maca, estática, exatamente na mesma posição há vários minutos. Seus olhos estavam secos e as pupilas levemente dilatadas – pequenos sinais de seu organismo que denunciavam o medo terrível que sentia por dentro... inconscientemente, levou uma das mãos à barriga, como se fosse possível sentir o feto lá dentro.
Pensar que seu corpo agora servia como um meio de propagação dos genes de Coringa era algo perigosamente sedutor e ao mesmo tempo preocupante para a hippie. Um pedaço do Palhaço vivia dentro dela, e por mais que fugisse do psicopata, agora ela sabia que, de alguma forma, estaria ligada a ele para sempre.
Os pelos de sua nuca se arrepiaram com intensidade ao chegar a essa conclusão. Quanto mais ela tentava se afastar de Coringa, mais era tragada para seu mundo insano e consumida por ele. Parecia que todos os caminhos acabavam levando ao Palhaço, como se Alice nunca tivesse tido um controle mínimo sequer sobre o seu destino... na verdade, tudo acabou perdendo o sentido depois que o psicopata entrou em sua vida!
– Espero que seja importante, eu estava me preparando para uma reunião – o Doutor Arkham entrou bruscamente na sala, parecendo irritado pela interrupção. Revirou os olhos ao ver Alice – o que ela fez dessa vez? – perguntou, olhando ameaçadoramente para a hippie.
– Obrigado por trazê-lo, Andreia! – Howard encarou a enfermeira que estava bem ao lado de seu chefe – agora, se não se importa, pode nos deixar a sós...
A enfermeira assentiu à contra gosto, dirigindo-se para a saída. O Doutor Arkham esperava impacientemente por uma resposta ou esclarecimento, e por conta da atenção destinada ao médico, ninguém ali se deu conta de que Andreia permaneceu parada no batente da porta, prestando atenção a cada palavra trocada entre eles.
– Nós temos um problema, senhor... – Howard começou a falar e o coração de Alice disparou na mesma hora.
– Eu já cheguei a essa conclusão – Arkham respondeu secamente – e agradeceria se você fosse direto ao ponto! Como já disse, tenho uma reunião em poucos minutos, e detestaria me atrasar por culpa dos problemas imbecis dos pacientes... como se eu já não tivesse as minhas próprias preocupações... – resmungou, mal humorado.
– Bom, a Alice não se sentiu muito bem nesses últimos dias, então Logan a trouxe aqui para que eu a examinasse... – Howard fez uma pausa em seu breve discurso para encarar a fundo os olhos do Doutor Arkham – o caso é que a paciente está grávida – cuspiu a informação, vendo o rosto de seu chefe mudar de impaciente para surpreso. E há quilômetros era possível perceber que não se tratava de uma surpresa boa.
– Grávida? – repetiu, como se não tivesse ouvido com clareza – Você tem certeza?
– Sim – Howard confirmou – está bem no começo, por volta da quarta semana, mas não há dúvida! E todos os sintomas que a trouxeram aqui confirmam a gravidez...
Os lábios traiçoeiros de Andreia se abriram em um enorme sorriso, repleto de maldade, ao finalmente entender o motivo de tanto mistério. Mais uma vez injetou toda a potência de seu veneno contra Alice.
– Grávida, é? – gargalhou alto, atraindo os olhares em sua direção. A enfermeira riu ainda mais ao perceber todos os quatro pares de olhos indignados focando-a... simplesmente adorava ser o centro das atenções – Eu aposto o que for que esse filho é do Coringa – semicerrou os olhos para Alice, ainda mantendo aquele sorriso irritante estampado no rosto.
– Sem chance! – a hippie falou, depois de permanecer um longo tempo calada, fazendo o possível para não demonstrar o nervosismo que a possuía – O Coringa fez uma operação de mudança de sexo, e agora ele prefere ser chamado de ‘Dama de Ouro’... – Alice ficou séria por alguns segundos, mas logo em seguida começou a rir. Essa era uma das principais características marcantes da hippie: fazer o que estivesse ao seu alcance para disfarçar o medo, ou qualquer outro sentimento ruim, com risadas, risadas essas que seriam capazes de bloquear ou adiar futuras lágrimas.
– E ainda faz piada... – a enfermeira comentou com ódio – está vendo, Doutor Arkham? Ela zomba de todos nós!
– Pensei ter pedido para você se retirar – Howard intrometeu-se, realmente aborrecido com as inúmeras demonstrações de falta de ética da enfermeira.
– O senhor mesmo disse que foi um pedido – defendeu-se, quase debochando do médico – portanto eu resolvi ficar. Mas por que vocês estão olhando para mim? Ela – Andréia apontou para Alice com nojo, esticando pouco o braço para não correr o risco de chegar perto da paciente o suficiente para tocá-la – é quem deve ser julgada aqui! Não sou eu que carrego um filho do Coringa – deixou vazar novamente a toxina em suas palavras, sorrindo com uma satisfação extra que dava nos nervos. Quase era possível ouvir o farfalhar do chocalho de uma serpente vindo da enfermeira.
– Hey, você já ouviu falar de um jogo chamado ‘Vida’? – Alice perguntou à mulher – a regra é muito simples: você cuida da sua e eu cuido da minha!
– Já chega! – o Doutor Arkham levantou o tom de voz, e imediatamente as duas se calaram – Logan, eu quero que você providencie a transferência da paciente para o manicômio da cidade vizinha. Não podemos correr o risco de mantê-la aqui e essa história da gravidez se espalhar por Gotham.
– Mas de qualquer forma essa história vai acabar chegando ao conhecimento público – Logan uniu as sobrancelhas, intrigado com o pedido de seu chefe.
– Não, não vai – disse com autoridade – essa criança não será registrada, portanto ela nunca irá existir.
– Mas senhor... – Logan levantou-se repentinamente da cadeira, já começando o seu protesto, mas foi interrompido pela voz histérica de Alice.
– Oi, eu estou aqui, sabia? – a hippie irritou-se – será que vocês podem parar de decidir o meu futuro como se eu não existisse?
– Sinta-se grata por estar ouvindo essa conversa – Arkham disse com desprezo – eu podia simplesmente mandar te transferir e você nem saberia o porquê – dizendo isso, dirigiu-se novamente a Logan – assim que essa criança nascer, eu quero que sejam feitos todos os exames de DNA possíveis. Talvez isso nos ajude de alguma forma a descobrir a identidade do Palhaço!
– Mas esse filho não é do Coringa! – “And Emmy goes to...” – E eu quero ver alguém provar o contrário! – Alice desafiou o Doutor Arkham, com uma expressão perfeita de dureza e determinação. O pouco que restou de sua sanidade soava o alarme de “Perigo” em sua mente. Se eles realmente chegassem à conclusão de que aquele filho era do psicopata, tudo estaria perdido para a hippie. Sua liberdade seria apenas uma doce lembrança cada vez mais inatingível...
– É mesmo? – o médico perguntou com escárnio, lançando o mesmo olhar de nojo que sempre incidia sobre ela todas as vezes que se dirigia à hippie – esse filho é de quem então? – sorriu maliciosamente, esperando pela resposta que ele sabia que seria mentira.
– Esse filho? – “Pensa, Alice! Onde está aquela inútil da Débie quando eu mais preciso dela?” – bom...
– E sabe o que é mais intrigante? – o Doutor Arkham a interrompeu, como sempre fazia, ainda com aquele sorriso cruel deformando seu rosto – segundo o Doutor Howard, essa gravidez já está na quarta semana, estou certo? – encarou o funcionário, buscando uma confirmação.
– Sim... – Howard concordou, hesitante.
– Interessante! Isso quer dizer que você engravidou enquanto ainda estava na cadeia, ou logo que foi transferida para cá... então eu me pergunto: você recebeu visitinhas ilícitas do Palhaço sem denunciá-lo? Isso parece realmente muito suspeito para quem afirma tão veementemente que não está envolvida com o Coringa...
– Eu já disse: esse filho não é dele! – repetiu, cruzando os braços sob o peito e arqueando a sobrancelha. Estava disposta a fazer o que fosse preciso para não deixar que Coringa atrapalhasse ainda mais sua vida.
– Quem é o pai, então? – repetiu a pergunta, com os olhos faiscando.
Todos na sala apenas observavam a pequena discussão entre Alice e o Doutor Arkham, mas Logan era o único que parecia realmente abalado com tudo aquilo. Ele sabia o quanto aquele incidente seria prejudicial para a hippie, o quanto isso diminuiria suas chances de se provar inocente. Em meio àquele caos, o médico teve uma ideia, que não seria a melhor para ele e provavelmente destruiria para sempre a sua carreira de psiquiatra, mas certamente ajudaria Alice – e isso já era o bastante.
– Eu sou o pai – afirmou calmamente, atraindo pares de olhos arregalados de todos os que estavam presentes.
– O quê? – todos, inclusive Alice, perguntaram em uníssono, com a testa intensamente encrespada. Nenhum deles acreditou naquela informação que seus ouvidos traduziram para os seus cérebros. Será que era Logan quem tinha enlouquecido de vez naquele manicômio?
– Isso mesmo o que vocês ouviram. Esse filho que a Alice está esperando é meu. – “And Emmy goes to...”
– Logan – Alice chamou o nome do médico gentilmente –, isso realmente não é necessário...
– Eu acho melhor nós conversarmos a sós, Doutor Arkham – o psiquiatra disse, desconsiderando o comentário da paciente, antes que ela estragasse tudo.
– Certamente – Arkham fez questão de encarar profundamente os olhos de Logan, procurando por qualquer indício de brecha dentro deles, e não rompeu o contato visual, nem mesmo no momento em que dava ordens aos demais que se encontravam na sala. Logan sustentou o olhar do médico sem vacilar sequer uma única vez – Howard, acompanhe a paciente até sua cela. Andreia, termine de arrumar e organizar os equipamentos da sala – a enfermeira assentiu, porém olhando para Logan, como se ele fosse um completo desconhecido – e você, Logan, quero vê-lo na minha sala em meia hora, nem um minuto a mais.
Logan confirmou com a cabeça, e em seguida observou o seu chefe sair dali quase bufando – provavelmente em direção à reunião que mencionara mais cedo.
Alice, Howard e Andreia estavam parados no mesmo lugar, observando Logan e sem mexer um único músculo – nem mesmo piscavam. Pareciam perfeitas estátuas, era como se até mesmo os seus corações se recusassem a bater diante da revelação improvável do psiquiatra.
– Eu preciso falar com você – Alice cortou o silêncio, soltando todo o ar que havia ficado retido em seus pulmões por conta das palavras de seu médico.
– Eu sei – Logan respondeu – mas acho melhor você ir com Howard agora...
– Não, eu preciso falar com você agora! A minha cela pode esperar – Alice foi irredutível, e Howard intrometeu-se:
– Ela tem razão, Logan. É melhor que vocês conversem de uma vez... eu vou esperar do lado de fora, e quando vocês terminarem eu levo Alice até a sua cela. Vamos, Andreia – o médico praticamente teve que arrastar a enfermeira dali! Ela parecia estar em estado de transe. Quando a porta foi fechada, os dois ainda ficaram longos segundos se encarando, sem trocar uma única palavra.
– O que você pensa que está fazendo? – a hippie finalmente perguntou.
– Protegendo você e a criança.
– Sério? E quem protege você de si mesmo?
– Escute, Alice, por mais estranho que pareça, Arkham não é o pior manicômio que existe! Você seria transferida para um lugar sem nenhuma condição terapêutica decente, sem contar que o seu tratamento seria a base de remédios que certamente induziriam a um aborto.
– Mas isso não te dá o direito de interferir dessa forma! Você acabou de destruir sua carreira por nada – Alice praticamente suplicava com os olhos – o Doutor Arkham vai me transferir de qualquer jeito.
– Não se preocupe, eu vou cuidar disso.
– Você não percebe? – a hippie riu de nervosismo, ficando o mais próxima possível dele e abaixando o tom de voz para que somente Logan pudesse ouvir, caso Andreia estivesse bisbilhotando a conversa atrás da porta – Esse filho é do Coringa – sua voz saiu falha – e você está se colocando em um perigo cada vez maior se aproximando assim de mim.
– Eu não me importo com isso – Logan acariciou de leve o rosto da paciente – a sua segurança e a da criança são prioridade agora.
– Mas eu me importo! – Alice afastou a mão do psiquiatra, irritada, e bateu com força o indicador no peito do médico – você abandonou o meu caso só por conta de um incidente bobo que nem chegou a acontecer, e está estampado na sua testa que você ainda vai se culpar muito por isso, por acreditar que me fez algum mal! Como acha que eu vou me sentir sabendo que fui a culpada por destruir de vez a sua carreira profissional?
– É diferente... – defendeu-se.
– Concordo, é diferente! Os seus motivos são infundados, os meus são concretos – retrucou, teimosa.
– O que está em jogo aqui é muito mais do que a minha carreira – Logan cobriu a mão da hippie, que ainda estava pousada de forma acusadora no peito do psiquiatra, com a sua, e Alice sentiu todo o calor passando para a pele fria de seus dedos – o que realmente importa é não deixar que você fique à mercê da loucura do Doutor Arkham. Ele está obcecado em tornar as coisas o mais difícil possível para você, e se ele realmente acreditar que você está grávida do Coringa, qualquer chance de provar sua inocência seria dizimada. Você nunca mais conseguiria sair de um hospício a não ser que fosse para ser transferida para outro... e eu acredito na sua inocência.
– Como você pode dizer que eu sou inocente depois de ouvir que esse filho é do Coringa? – perguntou, perplexa. Alice esperava receber uma enxurrada de acusações depois dessa confissão. Para a sua surpresa ainda maior, Logan deu uma risada baixinha.
– Eu trabalho nisso há anos... tenho mais experiência com psicopatas do que a maioria dos médicos daqui, e eu logo vi que você só é perigosa quando faz piadas!
– E ainda se atreve a ofender as minhas piadas... – a hippie resmungou, sendo incapaz de conter o riso que escapou sem querer de seus lábios, mesmo ainda estando brava com a atitude de Logan.
– Enfim, eu não sei o que o Coringa fez, ou quais foram as circunstâncias que te levaram a se aproximar do Palhaço, mas eu sei que você é inocente.
– Eu agradeço de verdade por toda essa confiança que você deposita em mim, mas você vai ter que desmentir essa história. Não é justo livrar uma pessoa inocente colocando outra na mira de fogo.
– Já está feito, Alice. Nem se eu quisesse voltar atrás, isso não melhoraria em nada a minha situação atual.
Logan tinha razão, e Alice sabia muito bem disso. Sua carreira de psiquiatra estava com os minutos contados depois da culpa que ele absorveu para si, mas a hippie ainda tinha esperança de amenizar a situação do médico com a verdade sobre sua gravidez.
– Mesmo assim, se você não voltar atrás e disser que mentiu para me proteger, eu mesma vou contar que esse filho é do Coringa. Eu não vou deixar que você sacrifique o psiquiatra brilhante que existe em você por causa de alguém como eu. Não vale a pena... hoje você pode não se arrepender, mas amanhã, com certeza vai!
– Eu não vou me arrepender. – o psiquiatra sorriu do jeito mais doce que Alice já havia visto na vida, e sentiu que borboletas brincavam em seu estômago com o olhar intenso que Logan depositou sobre ela em seguida – A minha maior frustração enquanto fui seu psiquiatra era me sentir impotente por não conseguir te ajudar como você merecia, e agora eu posso fazer isso!
– Você me ajudou como pôde, e nem faz ideia do quanto essa ajuda foi importante para mim – Alice sustentou aquele olhar, mesmo sentindo que a pele de seu rosto ficava cada vez mais ruborizada ao fazê-lo – mas isso que você está fazendo agora não é certo! E eu não posso conviver com essa culpa...
– Vai ficar tudo bem – Logan afagou os cachos definidos que se formavam na ponta do cabelo da hippie, ainda encarando-a daquele mesmo jeito sufocante – não precisa se preocupar comigo!
– Não vai ficar tudo bem... – Alice sussurrou encarando os próprios pés, tão baixo que Logan precisou aguçar os ouvidos para conseguir entender o que ela dizia – eu não quero ser nociva pra você da mesma forma que o Coringa é para mim – desabafou – Independente do rumo que a sua conversa com o Doutor Arkham tome, eu vou contar a verdade para ele, e talvez você não seja tão prejudicado...
O médico posicionou delicadamente a mão sob o queixo da paciente, erguendo-o até que os seus olhos se cruzassem novamente. Ela parecia triste e cansada, de um jeito que despertou em Logan uma vontade ainda maior de continuar protegendo-a. A expressão da hippie esvaziou completamente a cabeça do psiquiatra, e de uma hora para a outra ele não lembrava mais o que estava prestes a lhe dizer.
Mas qualquer palavra naquele momento não seria tão eficaz quanto a plenitude do silêncio que cobriu o ambiente em volta dos dois, como se um material isolante os separasse da realidade. Até mesmo a rotação da Terra pareceu congelar à medida que a distância entre eles se tornava cada vez menor, cada vez mais insignificante...
– Isso ainda parece errado... – Alice cochichou, porém dessa vez não fez nada para impedir a aproximação do psiquiatra, e espantou-se ao notar que ela também contribuía para diminuir o pequeno espaço entre eles.
– Nós vamos ter um filho, o que pode ser mais errado do que isso? – ele riu baixinho com a própria piada, e no segundo seguinte cruzou os poucos milímetros que ainda os separavam.
O lábio inferior do médico encostou-se gentilmente ao lábio superior da paciente em um beijo rápido, porém doce. O afastamento entre eles foi tão inesperado quanto o contato, interrompido pelos pigarros de Howard que vinham da porta – agora escancarada – da sala.
– Logan – o Doutor Howard começou a falar, e sua expressão era impenetrável – eu preciso levar a paciente agora, e você deve ir até a sala do Doutor Arkham...
– Certo... me desculpe pela demora – Logan caminhou apressado em direção à saída, e antes de cruzar a porta, lançou um último e rápido olhar para Alice, que parecia completamente constrangida por Howard ter flagrado os dois naquele momento que jamais deveria ter acontecido.
![]()
Logan esperava impacientemente do lado de fora da sala do Doutor Arkham, aguardando o momento em que aquela reunião finalmente terminaria. Somente quando escutou várias cadeiras sendo arrastadas ao mesmo tempo dentro da sala de seu chefe, parou de andar de um lado para o outro e apurou os ouvidos em uma tentativa de prever o quanto ainda demorariam com futilidades.
Antes que pudesse se irritar com a demora, quatro homens engravatados e de traços orientais saíram do local acompanhados pelo Doutor Arkham, que se revezava para apertar a mão de todos eles.
– Agradeço por terem vindo! É um grande prazer fazer negócio com os senhores – o médico sorriu em meio aos apertos de mão, despedindo-se dos executivos que seguravam enormes pastas pretas, tão cuidadosamente polidas que quase chegavam a brilhar contra a luz.
Quando os homens desapareceram do campo visual do Doutor Arkham, o sorriso sumiu de seu rosto, dando lugar a uma expressão mal humorada e intolerante.
– Entre, Logan – disse, dando passagem para que o psiquiatra adentrasse em sua sala meio bagunçada por conta da recente reunião. Ele obedeceu, e em poucos segundos, os dois já se encaravam, cada um esperando que o outro começasse a falar.
– Explique-se – o Doutor Arkham o incentivou a começar.
– Não há nada o que explicar além do que já foi dito... a Alice está esperando um filho meu, isso já é auto explicativo.
– Você espera mesmo que eu acredite nisso? – Arkham analisou o médico com um olhar de águia, atento a todas as suas pequenas reações.
– O senhor não tem motivos para duvidar. Por que eu contaria uma mentira capaz de destruir a minha vida profissional? Não faz o menor sentido – manteve o seu olhar firme.
– Era justamente isso o que eu estava me perguntando – o Doutor Arkham inclinou-se no encosto da cadeira, com as mãos cruzadas em seu colo e uma única sobrancelha arqueada, esperando pela resposta que viria a seguir, mas ela não veio – você está realmente disposto a levar isso adiante?
– Acho justo arcar com as consequências – disse simplesmente.
O Doutor Arkham bufou, sem a menor paciência para aturar a teimosia do funcionário, e voltou-se novamente para frente para encará-lo melhor. Pousou os cotovelos sobre a mesa e apoiou o próprio queixo com o dorso das mãos, como se nessa posição pudesse ser capaz de decifrar mais nitidamente o que se passava na cabeça de Logan.
– Eu não acredito que... – Arkham parou de falar de repente, e seu rosto se iluminou em um entendimento súbito, como se as peças de um difícil quebra cabeça se encaixassem repentinamente – foi por isso que você me pediu para liberá-la do tratamento? E foi por isso que decidiu entregar o caso dela para outro psiquiatra?
– Bem... – Logan surpreendeu-se com o modo perfeito com que as circunstâncias o haviam favorecido, e aproveitou para se agarrar àquela coincidência – foi por isso sim – mentiu – eu me envolvi com a paciente e comecei a fazer o possível para me distanciar dela. Mas com esse filho que ela está esperando, as coisas mudaram...
– Ok, você se divertiu com a garota, quem sou eu para julgá-lo por isso? – o Doutor Arkham falou aquilo com uma naturalidade que deixou Logan de queixo caído, e o sentimento de nojo pelo seu chefe voltou ainda mais potente – a questão agora é que precisamos nos livrar do bebê sem que ninguém perceba o que você fez – olhou para o teto, como se pensasse, e em seguida encarou novamente Logan, que ainda estava perplexo – e, por favor, da próxima vez tome os cuidados necessários para não engravidar outra paciente, está bem?
– O senhor está dizendo que vai acobertar o que eu fiz? – perguntou, ainda nauseado pela figura do Doutor Arkham.
– Mas é claro! – ele riu com a pergunta, como se a resposta fosse óbvia demais até mesmo para uma criança – eu também já fui jovem, rapaz – deu uma piscada – a única diferença é que eu sabia evitar desastres como esse... e convenhamos – abaixou o tom de voz – eu ainda sei!
Logan simplesmente não conseguia acreditar naquilo que ouvia... o Doutor Arkham sempre foi um tipo de referência para qualquer psiquiatra, era o tipo de profissional que todos no ramo admiravam e queriam seguir os passos, mas agora ele deixava sua máscara cair totalmente, e pior, parecia se orgulhar e se vangloriar dos seus erros hediondos para com os pacientes. Logan ouviu sua própria voz sair fraca, como se tentasse buscar o profissional que um dia ele tanto admirou.
– Mas o senhor pareceu ficar tão nervoso quando eu disse que era o pai da criança... por que ainda vai tentar resguardar a minha imagem depois do que eu fiz?
– Ah, Logan... – Arkham suspirou – esse sempre foi o seu maior defeito! Você é certinho demais... é lógico que eu fiquei irritado, você jamais devia ter confessado isso na frente de testemunhas! Agora eu vou precisar dar um “cala a boca” naquela fofoqueira da Andreia, senão amanhã mesmo o manicômio inteiro vai ficar sabendo do seu pequeno deslize.
– Eu me recuso a continuar fazendo parte disso – Logan resmungou para si mesmo.
– O quê? – Arkham encarou-o curioso, sem entender.
– Se é dessa forma que o senhor conduz o manicômio, eu estou fora. Me demito – o psiquiatra levantou-se e foi em direção à saída a passos largos.
– Logan! – Arkham chamou, e o psiquiatra parou onde estava, porém nem se deu ao trabalho de dar meia volta e encarar o seu chefe – O que pensa que está fazendo? Eu digo que estou disposto a te ajudar a se livrar desse problema e é assim que me agradece?
– O senhor ouviu bem – recomeçou a andar.
– Saia por essa porta e dê adeus à sua carreira, entendeu? – ele ameaçou, mas Logan fingiu que não ouviu e continuou sua caminhada, completamente decidido a abandonar de vez aquele ambiente podre, e sentindo-se leve por isso, como se uma bigorna tivesse acabado de sair de cima de suas costas.
No entanto, para a hippie, este peso parecia apenas crescer...
Alice estava deitada no colchão duro de sua cela, encarando o teto sem o menor ânimo. Não sabia dizer se estava mais preocupada com a sua situação ou com a de Logan... tudo parecia um enorme nó confuso em sua cabeça, várias cenas dos últimos acontecimentos a atormentavam cruelmente, sem o menor indício de piedade.
As lembranças simplesmente vinham em sua mente, nítidas e rápidas como um flash. A imagem de um Coringa indefeso caído inconsciente na porta de sua casa, a descoberta de que ele na verdade era um psicopata procurado, sua breve relação fracassada com Bruce, a mãe que sempre foi apenas um ser ausente em sua vida, a companhia de Ducard na prisão, a identidade revelada de Batman, o manicômio, e agora sua gravidez.
Realmente parecia muita coisa para um único par de ombros conseguir carregar... e pela primeira vez em todo aquele tempo, Alice focou sua atenção para a identidade de Batman. Com todas as atribulações e reviravoltas que sua vida passava, nem sequer conseguiu analisar e remoer o fato de que Bruce era o Cavaleiro das Trevas – ainda parecia algo surreal demais para sequer beirar a realidade, mas todas as evidências realmente apontavam para o empresário. Nenhum tipo de defesa parecia plausível para tirá-lo daquela suspeita.
A hippie encarou a intensa escuridão que estava formada do lado de fora do manicômio – através da pequena fresta de sua janela – imaginando quanto tempo já havia se passado desde que o Doutor Howard a trouxe de volta até sua cela... no mínimo várias horas, com certeza. Em meio ao tumulto de seus pensamentos, não pôde deixar de se perguntar como havia sido a conversa entre Logan e o Doutor Arkham...
Sobressaltou-se ao ouvir o barulho de uma chave entrando no trinco de sua cela. Não sabia ao certo que horas eram, mas tinha completa consciência de que estava um tanto tarde para visitas. Seu coração disparou ao ver a porta sendo aberta lentamente, e a hippie praticamente podia ouvir uma musiquinha de suspense ao fundo, como nos filmes de terror quando algo ruim está prestes a acontecer.
– Não tem ninguém aqui! – Alice praticamente gritou em direção à porta que ainda se abria.
– Fale baixo, Alice! – o homem reclamou, sussurrando.
– Logan! – ela suspirou de alívio ao reconhecer a voz e a figura agora exposta do psiquiatra – o que você está fazendo aqui?
– Cumprindo a minha promessa! – disse vagamente – Vamos, nós não temos muito tempo! – ele começou a puxar o braço de Alice para fora da cela, mas ela o deteve.
– Do que você está falando?
– Eu vim te tirar daqui. Não é isso que parece?
– Você vai me deixar fugir?
– É, é... mas você precisa falar baixo, senão vai acabar estragando tudo. Vamos! – ele tentou conduzir Alice novamente para o lado de fora, mas ela livrou-se do psiquiatra e deu um passo para trás.
– Eu não vou deixar você jogar sua vida de vez no lixo! Achei que isso já estava bem claro.
– Não tem mais nada que possa ser feito para destruir ainda mais a minha imagem. Eu me demiti, e o Doutor Arkham ficou furioso – disse com uma satisfação e um brilho estranho nos olhos.
– De nós dois, você é o louco! Eu não vou fugir, amanhã eu vou contar toda a verdade para o Doutor Arkham e você vai conseguir o emprego de volta!
– Tarde demais. Alice, essa é a nossa única chance, você vai ser transferida amanhã mesmo se continuar aqui, e contar a verdade não vai melhorar em nada a minha situação, acredite.
– Viu só o que você fez? – ela o encarou, irritada – Agora nós dois estamos ferrados!
– Não estaremos ferrados se fugirmos! Vem comigo. A melhor coisa para nós dois no momento é ficar o mais longe possível dessa cidade.
– Você é mesmo impossível, sabia? Me deixa completamente sem escolhas com as suas atitudes. Você tem noção do quanto eu vou me culpar por ter sido a responsável em te fazer desistir de toda a sua carreira?
– Não se sinta. Eu já não aguentava mais trabalhar para o Doutor Arkham há um bom tempo. E então, o que me diz? Eu não vou fugir e te deixar sozinha aqui, então a escolha é sua.
Alice olhou para os lados, à procura de algum sinal da segurança noturna, mas parecia estar tudo às moscas.
– Ah, que se dane! Eu é que não quero passar o resto da minha vida internada em hospícios... vamos sair logo daqui!
– É assim que se fala – o médico abriu um enorme sorriso, e segurou a mão de Alice para que ela o acompanhasse para fora. Porém, quando chegaram à porta, Logan sentiu a hesitação da paciente, e ouviu sua voz saindo preocupada.
– Logan, espere! Antes de mais nada, eu preciso esclarecer uma coisa – o psiquiatra voltou a atenção para a hippie e percebeu o quanto ela parecia constrangida – eu não posso corresponder ao que você espera de mim... quer dizer, eu não estou pronta para nenhum tipo de relacionamento agora, e queria pedir desculpas se eu dei a entender que estava... – Alice concluiu seu pensamento confuso, esperando hesitante pela reação do médico, que para sua grande surpresa, sorriu.
– Não precisa se preocupar com isso – disse, olhando diretamente para os olhos negros da paciente e acariciando a maçã de seu rosto – eu entendo que você passou por muitas coisas em pouco tempo, e imagino que tudo isso ainda não tenha sido digerido – respondeu, num tom que não poderia ser mais compreensivo – eu sempre vou ser aquilo que você precisar. Um médico, um amigo, um irmão... e se um dia você estiver disposta a tentar algo a mais, eu poderei ser essa pessoa, se você quiser.
– Por que você tem que ser tão adorável? – Alice perguntou com pesar, e como resposta recebeu um beijo carinhoso e apressado no alto de sua testa.
– Vamos, nós não temos muito tempo!
Fale com o autor