Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
22 Entre O Medo E O Fascínio
Notas iniciais
A nova rotina de Alice resumia-se a, basicamente, sair da cela apenas nos horários determinados das refeições, por poucos minutos e sob uma vigilância de ferro... o restante do dia era mantida naquele espaço minúsculo junto com Ducard. Aquele lugar exigia pouquíssimo esforço mental, e talvez tivesse sido enlouquecedor sem a presença de seu companheiro de cela.
Alice e Ducard estavam proibidos de se comunicar com outros presidiários, por isso eram mantidos o dia inteiro encarcerados, sem acompanhar os demais nos tradicionais trabalhos obrigatórios ou então nos típicos “banhos de sol”. Até mesmo o horário das refeições era diferente para eles, tudo para excluí-los ao máximo e evitar o contato com os outros.
Esse não era um procedimento padrão para os presidiários de Gotham, nem mesmo para aqueles que eram considerados perigosos demais para conviver com os outros prisioneiros no mesmo ambiente. Os dois estavam recebendo o tratamento diferenciado por causa da atitude do policial Smith em prender uma mulher junto com um homem.
Aquilo era um tipo de pecado capital em qualquer delegacia. Era estritamente proibido manter sexos diferentes no mesmo espaço, mas dentre os policiais, Smith – embora recentemente apresentasse sérios sinais de loucura – era sem dúvida o que tinha mais prestígio. Ninguém queria se opor às suas atitudes ou denunciá-lo ao Comissário pelo ato irresponsável, então faziam de tudo para que esse escândalo não vazasse, mesmo que toda a rotina da delegacia tivesse que ser alterada.
Por conta disso, Alice sempre estava acompanhada de Ducard, em qualquer hora ou lugar, e ela realmente aprendeu a gostar muito de sua companhia! O medo não fazia mais parte dos confusos sentimentos da hippie, pelo menos não com a mesma intensidade avassaladora de antes... ela acabou aprendendo que por trás de todo o seu jeito meio cruel de ser, havia uma pessoa escondida em algum lugar ali dentro que valia a pena lutar.
Parecia que de alguma forma, Ducard havia adotado Alice, protegendo-a e fazendo dela sua aluna. E essa afinidade entre aprendiz e mestre era uma relação de muito valor, que cativou imediatamente a hippie, mesmo tendo uma breve – porém adormecida – consciência do perigo que aquele homem transmitia.
Ducard, por sua vez, via-a de um jeito um pouco diferente, enxergando na jovem um potencial invisível até mesmo aos olhos mais atentos. Seria através dela que ele conseguiria vingar-se de tudo o que Bruce havia feito! Ele era capaz de distinguir nos olhos inocentes de Alice uma enorme mágoa disfarçada, que talvez nem ela conhecesse profundamente ainda. E aquilo, sem dúvida, era o primeiro passo para o ódio, e consequentemente para o desejo incontrolável de vingança.
Seu último aprendiz – Bruce – havia sido uma enorme decepção. Ducard havia apostado tudo no rapaz, entretanto, no final, ele provou-se fraco demais para entender o significado do seu treinamento. Mas agora ele sentia que com Alice seria diferente. Ele pensava nela como um punhado de argila: poderia tomar a forma que ele quisesse, se soubesse modelar direito. E para isso, seria necessário continuar contando sobre a vida de Bruce, até que na hora certa, começaria de fato sua modelagem, instigando a hippie a sentir necessidade de acertar suas contas com o Bilionário.
– Por que você foi presa? – Ducard perguntou, entre uma garfada e outra daquele almoço solitário, onde estavam apenas ele, Alice e um guarda parado bem ao lado dos dois parecendo uma estátua. Era Sheldon, que por azar do destino havia sido incumbido de vigiar os dois durante as refeições e sempre que saíam de suas celas.
– Eu fui acusada de ser cúmplice daquele palerma do Coringa – brincou com a comida enquanto falava. Sheldon tentou parecer alheio às palavras dos dois, mas estava extremamente atento a cada detalhe daquela conversa.
Ducard sentiu a gargalhada explodir através de sua garganta, sem controle. Aquele era um exemplo de situação aonde o destino resolve ser satírico ao extremo. Alice namorava Bruce e foi acusada de envolver-se com seu principal inimigo, Coringa... e se isso fosse verdade, seria ainda mais fácil projetar o seu ódio na hippie!
– Está rindo do quê, palhaço? – perguntou, chocada. Ela esperava qualquer tipo de reação: surpresa, temor, choque, raiva, indiferença, menos esta.
– Talvez um dia você abranja o significado dessa ironia... – disse, voltando a comer e ainda rindo.
– Se o motivo da minha prisão é tão engraçado, me diz o seu – cruzou os braços – Por que você está aqui, nesse retiro forçado?
– Ainda não é a hora para falar nisso. Mas em breve você vai saber!
Alice enfiou uma enorme garfada daquela comida não identificável na boca, sentindo-se frustrada.
– Você sempre foge das minhas perguntas... – reclamou, ainda mastigando.
– Mas todas elas serão respondidas, só que no momento conveniente!
– Você me faz lembrar o Mestre Yoda com todos esses ensinamentos de paciência, sabia? – riu – As orelhas também são bem parecidas!
“Mestre Yoda? Eu estou mais para Darth Sidious...” – Ducard pensou amargamente.
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Ao término do almoço, Sheldon levou os dois de volta à cela, sem pronunciar nenhuma palavra ou olhar para qualquer um dos prisioneiros. Tudo o que Alice queria era um momento a sós com ele, para tentar entender seu repentino afastamento e aventurar-se a explicar que era inocente de todas – ou pelo menos de quase todas... – aquelas enxurradas de acusações que haviam caído sobre sua cabeça da noite para o dia.
O barulho da porta sendo trancada sempre deprimia a hippie, mas por um lado ela ficou feliz em estar de volta, pois era somente quando Ducard e ela estavam sozinhos que ele contava mais a respeito do passado desconhecido de Bruce. Esperaram em silêncio até que o policial sumisse de vista. Somente depois disso, a conversa entre os dois começou.
– E então, o que você tem pra mim hoje? – Alice perguntou, empolgada.
– Talvez essa história que eu vou contar agora seja a mais importante de todas as que envolvem Bruce. É a partir dela que uma série de atos e consequências é desencadeada. O dia que mudou para sempre o destino de um garotinho que tinha tudo e de uma hora para a outra passou a não ter nada...
Alice abraçou as próprias pernas, tentando controlar a tradicional ansiedade que antecedia cada nova história. Toda a sua atenção estava voltada para a narração de Ducard, e aquelas primeiras palavras foram tão envolventes, que a hippie sentiu uma onda de calafrios incontroláveis percorrer todo o seu corpo, como se de repente a temperatura tivesse caído bruscamente.
"Havia passado algum tempo depois do acidente de Bruce com os morcegos, porém o ocorrido tinha marcado de tal forma o Pequeno Wayne, que de vez em quando ele podia jurar que sentia aquelas asas em contato com sua pele novamente. Normalmente isso ocorria no final do dia, quando a escuridão da noite trazia consigo a lembrança e o desespero da escuridão do poço.
Bruce nunca contou essas pequenas alucinações para ninguém. Tudo o que ele queria na vida era parecer tão forte como seu pai – que sempre foi o grande herói de sua infância. Mas nem sempre era possível manter o autocontrole... constantemente Bruce era assombrado por pesadelos daquele terrível dia, e por várias vezes já havia acordado ao som dos próprios gritos no meio da noite.
Isso ainda acontecia, porém com uma frequência muito menor... aos poucos Bruce estava conseguindo superar aquela fase de medo! O dia seguinte era sempre melhor do que o dia anterior, e seu estado apático finalmente atenuava-se com o passar do tempo. Ele sabia que nunca seria capaz de se livrar daquele trauma completamente, mas só o fato de sentir que obtinha sucesso – mesmo que lento – no esforço sobre-humano para esquecer o episódio, já era compensador.
Dessa forma a família Wayne foi retomando sua rotina, deixando o passado para trás e focando-se no presente, retomando assim suas atividades costumeiras. Normalmente eles sempre tiravam pelo menos um dia na semana para atividades em família.
Esta noite eles iriam à ópera. Todos na Mansão, principalmente a mãe de Bruce — Martha Wayne –, adoravam ir ao teatro para admirar o talento dos grandes ícones da música clássica que sempre estavam fazendo uma turnê pela cidade. E hoje retomariam essa prática! Todos ali precisavam de um pouco de distração depois do susto que haviam levado com a queda de Bruce no poço.
Martha contemplava seu pequeno filho naquela roupa social, ajeitando impecavelmente o tecido, sem esconder um sorriso orgulhoso de mãe coruja.
– Lindo como sempre – deu um beijo barulhento em sua testa, marcando-a de batom.
– Mamãe! – reclamou, rindo.
– Que culpa eu tenho se não dá pra parar de te beijar? – riu também, começando uma série de beijos em cada parte do rosto do filho. Quando terminou, sua face estava completamente marcada com tons diferentes de vermelho, e Martha sentiu o coração esquentar ao ouvir as gargalhadas de Bruce depois de tanto tempo sem ver um único sorriso iluminar seu rosto angelical.
– Vamos limpar logo isso – sorriu de forma doce e tentou arrumar novamente o cabelo que ela mesma havia bagunçado – senão a gente vai se atrasar ainda mais. Seu pai parece uma moça se arrumando!
Os dois riram, e a voz indignada de Thomas Wayne preencheu o aposento.
– Como assim eu pareço uma moça? – colocou uma das mãos em volta da cintura da esposa e com a outra fez um cafuné na cabeça de Bruce, bagunçando novamente seu cabelo recém-arrumado – eu demoro a me arrumar porque não é fácil ficar à altura de vocês dois!
– Claro! – Martha riu, revirando os olhos – No dia do nosso casamento eu pensei que você fosse a noiva, de tanto que demorou! Você devia seguir o exemplo do Alfred. Os ingleses inventaram a pontualidade!
– Impossível, meu anjo! – Thomas sorriu – Alfred é um ser superior a toda raça humana, você não pode me comparar a ele...
Bruce riu gostosamente. Realmente, Alfred era a pessoa mais dedicada que ele já viu em todos os seus longos oito anos de vida. A mansão sem o Mordomo seria um completo caos, e não era preciso ter muita idade para entender o quanto ele era indispensável para os Wayne, que chegavam a considerá-lo como parte da família.
~*~*~
Os Wayne finalmente já estavam acomodados em suas poltronas marcadas, esperando o início do espetáculo – que não devia demorar muito para começar, já que somente algumas luzes do palco estavam acesas. O resto do teatro era preenchido pela penumbra, o que incomodou um pouco Bruce... desde o dia do acidente, ele não sabia lidar muito bem com a escuridão.
Mas aquilo já estava praticamente superado! Não deixaria que uma lembrança difusa estragasse o passeio com seus pais.
Os bailarinos entraram no palco ao som da ópera, já executando uma bela interpretação corporal da música de fundo. A elasticidade de seus movimentos precisos era realmente impressionante! Naquele momento, nem mesmo as sombras do teatro incomodavam mais o pequeno Wayne.
E assim passaram os primeiros minutos do espetáculo: sedutores, envolventes, de uma profissionalidade capaz de tirar o fôlego! O problema foi quando a coreografia começou a mudar... quando o fascínio deu lugar ao medo. A dança agora girava em torno de panos negros, que faziam um movimento muito parecido com o ruflar de asas. Asas negras...
Foi como se Bruce sentisse que havia caído novamente no poço. Mesmo naquele espaço enorme, respirar tornou-se difícil, e aquela lembrança que ele pensou ter superado, voltou à tona ainda mais forte, ainda mais viva!
Seu cérebro comportou-se da mesma forma que funciona uma vacina: a primeira dose estimula uma produção grande de anticorpos, porém quando o corpo é submetido a uma segunda porção da mesma vacina, o organismo é muito mais eficiente e rápido em sua resposta, produzindo um número muito maior e significativo desses anticorpos.
E a segunda dose daquela lembrança foi exatamente assim. Potencializou o medo que Bruce sentiu da primeira vez, e o temor que parecia já estar controlado dentro dele, na verdade estava apenas adormecido, esperando um momento oportuno para se mostrar novamente, mais eficaz e poderoso.
Suas pequenas mãos apertaram com força o braço da cadeira, e seus olhos retornaram ao mesmo aspecto desfocado daquele dia. Cada passo de dança em conjunto com os panos, faziam com que Bruce sentisse novamente o contato com os morcegos, e o momento era tão real, tão amedrontador, que parecia impossível continuar controlando por muito mais tempo os gritos que queriam a todo custo se libertar de seu peito sufocado.
Começou a ofegar, sentindo todo o corpo tremer e a sua consciência ameaçando abandoná-lo. Iria desmaiar, podia sentir isso de cada célula do seu corpo! A verdade é que Bruce não aguentaria reviver aquele trauma por muito mais tempo, então talvez perder a consciência fosse a melhor defesa que seu organismo podia lhe proporcionar naquele momento.
Respirou fundo, procurando por qualquer fiapo de controle, mas não o achou, e sentiu-se cada vez mais afundado em suas próprias lembranças. Thomas reparou que de repente o filho pareceu endurecer na cadeira ao seu lado, e levou um susto ao ver a palidez de Bruce. Ao tocar sua mão, notou o quanto ela estava fria e molhada.
– Filho? – chamou, preocupado – O que houve?
– Podemos... ir... embora? – falou pausadamente, com um pouco de dificuldade e sem conseguir tirar os olhos dos tecidos pretos.
Thomas olhou para a direção que o filho encarava, e no mesmo instante compreendeu o que afligia Bruce. Pelo jeito aquele forte traumatismo psicológico estava longe de ser superado.
– Querida, acho melhor irmos – sussurrou no ouvido de Martha, que não fez objeção alguma ao pedido do marido, apenas levantou-se e começou a abrir caminho entre a plateia sentada, em direção à saída, e um pouco preocupada pelo seu tom urgente.
Na mesma hora que Bruce ultrapassou a porta do teatro, sentiu-se melhor com a brisa fresca daquela noite de outono que tocou gentilmente seu rosto. O ar parecia não se opor mais ao caminho de seus pulmões, e ele finalmente conseguiu respirar direito.
– O que aconteceu? – Martha perguntou, parecendo um pouco confusa, e Bruce abaixou a cabeça, envergonhado por ter estragado a noite dos dois.
– Eu não estava me sentindo muito bem – disse Thomas ao perceber o constrangimento do filho com aquele assunto. Bruce não podia se sentir mais grato com a atitude do pai de desviar as atenções dele. Quando voltassem para a Mansão, agradeceria por isso!
– Vamos para casa então, querido! – Martha sugeriu.
– Ótima ideia! – Thomas sorriu – O que acha, Bruce?
– Ah... por mim tudo bem!
Estavam indo em direção ao carro, quando foram abordados num beco escuro por um homem com uma arma na mão, parecendo desesperado.
– A carteira! – ele disse, apontando a arma para Thomas, que tentou parecer equilibrado.
– Tenha calma – olhou nos olhos do homem tentando transmitir confiança. Martha, mesmo em estado de pânico, se colocou na frente de Bruce, movida pelo seu instinto materno de proteger o filho.
– Passa logo o dinheiro antes que seus miolos voem! – o homem falou, mirando uma arma meio trêmula bem no meio da cabeça de Thomas.
– Eu vou te dar o dinheiro, está bem? – pegou a carteira e tirou todas as notas de dentro dela, dando ao bandido – aqui está, agora por favor, abaixe essa arma – pediu, com cautela.
– Eu quero as joias também! – apontou a arma para o pescoço de Martha, que sentiu o corpo gelar na mesma hora.
Inconscientemente, levou a mão ao colar, como se pudesse protegê-lo do homem com aquele gesto irresponsável. Não queria se desfazer do colar. Não por causa do dinheiro, mas aquela joia especialmente tinha um valor sentimental que nada seria capaz de substituir. Foi o primeiro presente que Thomas lhe deu quando se casaram.
– Por favor, o colar não... – implorou numa voz meio chorosa, como se isso pudesse ser capaz de comover o assaltante. O homem irritou-se com a recusa, apontando a arma diretamente para o peito de Martha.
– Passa esse colar agora! – repetiu a ordem.
– Martha, dê o colar a ele! – Thomas pediu, deixando um pouco do nervosismo escapar em sua voz ao ver a arma apontada para a esposa. Ela começou a tirar os brincos e pulseiras, mas manteve o colar no pescoço. O homem parecia novato no ramo dos assaltos, e estava claro que ele não sabia lidar muito bem com a teimosia de algumas vítimas.
Thomas percebeu – através dos olhos do homem – que ele decidiu atirar, e conseguiu colocar-se entre a bala e a esposa no momento do disparo. O tiro acertou um pouco abaixo do seu peito, fazendo-o cair no mesmo instante e arfar de dor.
– Não! – Martha gritou, olhando o corpo ensanguentado do marido. Bruce mantinha os olhos fechados com força, esperando que tudo aquilo pudesse ser um sonho. Quando abriu as pálpebras e viu o pai caído – parecendo estar em seus últimos momentos de vida – deu tudo para ser assombrado pelos morcegos novamente, pois se fosse perseguido por aquela nova cena, sabia que nunca teria chance de se recuperar. Sabia que a carga era pesada demais para seus ombros de criança.
Foi quando ouviu o segundo disparo e viu que agora era sua mãe quem caía no chão. Soube que ela estava morta antes mesmo de olhar para o buraco que a bala fez ao entrar em sua testa. O homem foi embora correndo, sem ao menos pegar o colar do pescoço de Martha...
– Bruce... – ouviu a voz fraca do pai chamando-o. Ajoelhou-se ao seu lado, sentindo grossas lágrimas caindo de seus olhos assustados – você precisa ser forte agora! – acariciou o rosto do filho.
– Vai ficar tudo bem, pai! – Bruce disse aquilo numa tentativa de convencer mais a si mesmo do que ao pai.
– Eu sei que vai! – Thomas sorriu com um pouco de dificuldade – você é um garoto forte! Eu e sua mãe sempre tivemos muito orgulho de você. – tossiu, fazendo uma careta que traduziu toda a dor que estava sentindo – Eu te amo, filho! Seja um bom rapaz, está bem?
Essas foram as últimas palavras que Bruce ouviu de seu pai antes de ver a vida abandonando seus olhos de vez. O brilho característico de seu olhar intenso, de uma hora para a outra não estava mais lá — apagou-se junto com a pequena esperança que Bruce ainda guardava de que aquilo não passava de um sonho ruim, de que o amanhecer traria sua vida de volta com os primeiros raios de sol... mas tudo era real demais para ser um simples pesadelo! Bruce nem se atreveu a encarar o rosto de sua mãe, com medo de vislumbrar outra vez seu semblante vazio, já sem expressão.
Experimentou novamente a sensação atemporal que o havia possuído dentro do poço. Se passou quinze minutos ou quinze dias ajoelhado ali, ele não sabia dizer. Ele não se importava! Nada em sua cabeça fazia sentido...
Bruce nem notou a poça volumosa de sangue que se formava ao seu redor, um sangue que de certa forma era seu, e que agora se perdia junto à imundice do asfalto... três viaturas estacionaram rapidamente perto da travessa, e alguns policiais saíram apressados do carro para socorrer o garoto. Bruce não reagiu a nenhuma tentativa dos homens fardados de chamar sua atenção, mais uma vez estava alheio ao mundo... Seu corpo estava ali, mas a sua mente vagava muito distante de tudo que se passava no beco escuro, nem chegou a sentir quando foi arrancado da cena do crime pelo policial Gordon."
Alice ficou em silêncio, tentando controlar o forte sentimento de compaixão ao ouvir aquela nova história... Ducard apenas encarava a hippie, esperando pacientemente pelo seu comentário, e tendo total consciência de que a sua narração havia provocado um tipo piedoso de comoção em Alice. Contudo, ele já esperava por isso, ciente de que ainda não era a hora certa de colocar seu plano em prática e instigar a vingança dentro dela.
– Ele... ele viu os pais serem assassinados? – Alice finalmente falou, parecendo chocada.
– Sim – confirmou – e eu ouso dizer que isso transformou Bruce para sempre. Foi a partir daí que toda a sua vida sofreu uma reviravolta e nunca mais encontrou o eixo certo.
– Eu sabia que os pais de Bruce tinham morrido quando ele era criança, mas presenciar tudo isso... – a hippie pronunciou aquelas palavras com espanto, inconformada por perceber o quanto elas eram hediondas – Bruce era só uma criança! – concluiu seu pensamento confuso, sentindo-se cada vez mais indignada.
– Uma criança que precisou enfrentar situações de adultos, e todo esse conjunto de eventos foi essencial para moldar cada característica que Bruce carrega até hoje.
Alice encarou os próprios pés, pensativa. Sentiu-se diretamente afetada pelos problemas do Bilionário, e odiou-se por isso! Estava mais do que na hora de aceitar que não tinha mais nada com Bruce, que o relacionamento deles não passou de uma mentira, um conto de fadas sem o “felizes para sempre”.
Sheldon passou por ali – fazendo sua tradicional ronda – quando percebeu o clima estranho dentro da cela.
– Alice! – chamou, atraindo a atenção dela no mesmo instante – Preciso falar com você a respeito da sua audiência! – aquilo não era exatamente uma mentira, mas serviu como uma desculpa para falar a sós com a hippie.
– Certo, tudo bem – ela respondeu, parecendo estar mais aérea do que o normal, o que deixou o policial ainda mais desconfiado.
Eles caminharam em silêncio pelos corredores. Tudo o que Alice queria era aquele tempo sozinha com Sheldon, mas estava sem ânimo algum para tentar convencê-lo a contar sobre o motivo do seu súbito distanciamento. Só conseguia pensar em duas coisas no momento: a primeira era em Bruce, claro, e a segunda era como se sentia estúpida por não conseguir cortar de vez o vínculo com o empresário, não depois de tudo o que ele fez...
Os dois entraram em uma sala ampla – que provavelmente devia ser usada para os interrogatórios da polícia – e Sheldon apontou a cadeira à frente dele para que Alice sentasse. Ela obedeceu, ainda em silêncio.
– Alice... – a voz dele saiu baixa e suave, com uma pontada extra de preocupação. Aquele tom intrigou a hippie, que o olhou com a testa franzida e a cabeça levemente inclinada. Sheldon encarou bem fundo dentro de seus olhos negros, lembrando-se rapidamente o quanto já havia se perdido dentro daquele olhar – Eu preciso saber se Ducard está... se ele está se aproveitando de você por ficarem no mesmo espaço... Você sabe, tentando praticar o coito sem o seu consentimento – concluiu com seu mínimo tato, mantendo a pose rígida e apreensiva.
Alice deu um sorriso sincero ao guarda, vislumbrando um breve relance do antigo cúmplice de sua adolescência. Porém, naquele dia, sua sinceridade resumia-se à tristeza, e Sheldon percebeu isso – mesmo depois de todo aquele tempo sem ver ou falar com sua antiga amiga, ainda sabia traduzir cada expressão da hippie.
– Não precisa se preocupar – “Se é que você ainda se preocupa”, pensou amargamente – Ducard nunca fez nada para me machucar!
– Tem certeza? – insistiu – Se algum dia ele encostar em você, por favor me avise!
– Posso saber o motivo do interesse repentino? – levantou uma sobrancelha, desafiando-o a responder.
– Nenhum em especial – deu de ombros – Eu não estou fazendo isso por você, apenas não concordo com o procedimento do policial Smith! Faria isso por qualquer um...
Alice tentou não demonstrar o quanto aquelas palavras duras a afetaram. Sheldon escolheu o pior dia para alfinetá-la com seu desprezo...
– Tenho certeza que sim. Era só isso?
– Não! – respondeu, seco. Toda a preocupação que Alice pensou ter visto nele não havia durado mais do que alguns poucos segundos – Preciso te passar as informações referentes ao seu julgamento.
– Então desembucha logo... – ela o incentivou – do mesmo jeito que você quer se ver livre de mim, eu quero me ver livre de você, então vamos acabar logo com isso!
Sheldon arregalou os olhos, surpreso.
– Ela está marcada para a próxima semana. Você já tem um advogado, ou eu preciso encaminhar algum do governo para cuidar do seu caso? – Olhou para Alice com certo desdém, como se sugerisse que nem mesmo o mais competente profissional seria capaz de inocentá-la.
– Eu tenho uma advogada, mas preciso ligar para ela...
– Certo – concordou, olhando para o seu relógio de pulso – você pode fazer isso agora, e depois que começar o horário de visitas eu vou levá-la até uma mulher que está insistindo em lhe ver.
– Uma mulher quer me ver? Por acaso seria o Coringa? – perguntou, séria, mas logo começou a rir.
– Sinto decepcioná-la, mas você não pode visitar seu amante – sua voz era inflexível.
– Ai, Sheldon... – suspirou, ainda rindo de sua expressão chocada – Mesmo depois de todos esses anos você não me conhece nem um pouco! Sabe, se é tão torturante assim ficar perto de mim, você devia pedir para ser transferido para outro serviço! Aposto que iam entender se dissesse que não quer ter nenhum tipo de contato com a “Garota Coringa”! – riu novamente, sem humor.
– Fui eu que pedi para ser colocado nesse caso!
Foi a vez de Alice ficar em choque.
– O que você pretende com tudo isso? Ficar por perto para me ver afundar de vez?
– Vamos logo... – desconsiderou suas perguntas – Eu não tenho o dia todo!
– Espera! Por favor, Sheldon, me explica o que aconteceu pra você desistir de mim...
– Eu não desisti de você... só fui obrigado a me afastar por motivos maiores!
– Que motivos? Vamos, Sheldon, considere todos os bons tempos da nossa amizade! Pense em todas as piadas nerds que só nós dois entendíamos!
O policial parecia analisar o caso meticulosamente, ponderando se deveria ou não contar seu problema a ela.
– Você vai rir da minha cara – afirmou.
– Ora, não seja injusto! Quantas vezes eu já ri da sua cara?
– Eu podia ficar aqui a semana inteira citando todas as vezes que você já fez piadas às minhas custas... – arqueou a sobrancelha.
– Sheldon, eu prometo – destacou a palavra, levando os indicadores em forma de ‘X’ até a boca e beijando o meio dos dedos, selando sua promessa – que não vou rir da sua cara se você me contar o que aconteceu!
Ele suspirou, revirando os olhos e dando-se por vencido.
– Eu tenho um tipo raro de sociofobia – declarou – e foi você quem me fez descobrir isso!
– O quê? – perguntou, confusa – Eu sempre soube que você era mais anti-social do que a normalidade permite, até sociopata, mas colocar a culpa em mim já é demais!
– Eu tenho fobia de hippies – disse em voz alta, sentindo-se ridículo – e foi no final do ensino médio, que você começou a agir e se vestir como uma hippie medonha, que eu descobri essa minha doença e tive que me afastar de você... pronto, falei!
Alice o encarou por um momento, totalmente desacreditada do que ouviu, e logo em seguida começou a rir descontroladamente. Não quebrou sua promessa de propósito – foi algo realmente incontrolável – mais forte do que ela. Sem dúvida aquela era a declaração mais bizarra que já havia ouvido, e na mesma hora, todo o distanciamento repentino do amigo começou a fazer sentido, por mais cômica que a situação fosse!
– Você garantiu que não ia rir – acusou-a com uma pontada de raiva na voz, mas ao mesmo tempo parecendo extremamente aliviado por finalmente ter criado coragem para contar aquilo.
– Desculpe, Sheldon, mas você é muito “zoável”! Fobia de hippies? – tentou controlar as gargalhadas, sem conseguir – Por incrível que pareça, isso é a sua cara: estranho e divertido! – riu novamente. Fez uma pequena pausa logo em seguida, esperando ser capaz de controlar aquela crise de riso antes de voltar a falar – mas então, por que você pediu para me vigiar se teoricamente você deveria estar morrendo de medo de mim agora?
– Bom, sem ofensas, mas você não parece em nada uma hippie com esse uniforme de presidiária! E foi a forma que eu achei de ver se você ia continuar me afetando, mesmo estando presa. No começo foi difícil, mas agora sua presença já está suportável!
– Então nós podemos voltar a ser amigos enquanto eu não parecer uma hippie? – perguntou, divertindo-se.
– Por que não? – deu de ombros – Não que eu me importe...
– Esse é o Sheldon que eu conheço! – riu.
Ele a conduziu até o telefone da delegacia, que ficava a uma distância muita curta da sala de interrogatórios, e Alice ficou parada em frente ao aparelho, dando-se conta naquele instante de que não fazia a menor ideia do número de sua advogada...
– Você não teria uma lista telefônica por aí, teria? – perguntou, vendo Sheldon revirar os olhos de impaciência, e destrancar a pequena estante que havia ali perto, aonde provavelmente eles guardavam o famoso livro amarelo.
– Por que isso não me surpreende? – entregou a enorme lista à Alice, que deu um sorrisinho metido.
– Porque você sabe que sua amiga é desligada! E digo mais, não me aborreça, senão me visto de hippie e vou até a sua casa te assombrar à noite! – imaginou-se correndo atrás de Sheldon como um zumbi, e ele dando gritos afeminados enquanto tentava fugir dela. Não pôde deixar de rir!
– Vejo que você não evoluiu nada desde o ensino médio... – provocou.
– Evolui sim: aprendi a lutar Kung Fu, então fique quieto, a não ser que queira sentir a força do meu pé na sua bunda! – Sheldon deu um discreto sorriso, e Alice começou a descer os olhos pelos intermináveis nomes e telefones – Jacqueline Pereira! – apontou para o nome no papel, começando a discar o número que estava ao lado.
Depois de apenas dois toques, Alice ouviu a voz conhecida da amiga do outro lado da linha.
– Alô...
– Jackie! Nossa, há quanto tempo – empolgou-se – tudo bem com você? Puxa, nós temos tanta coisa pra conversar...
– Er... – Jacqueline a interrompeu, parecendo confusa – Quem está falando?
– Ah, não reconhece mais minha voz, sua viada? – silêncio – Alice Rubídia de Assis Romanov III... Esse nome extremamente comum te lembra alguma coisa?
– Ai meu Deus! – disse, afobada – Alice! É você mesma? Cacete, eu estava falando em você nesses dias quando li o... – ela parou de falar de repente, com medo de ter ido longe demais.
– Quando você leu o jornal, não é? Tudo bem, peste, minha imagem não está das melhores mesmo...
– Me conta tudo: o que foi aquela foto com o Coringa?!
– Então... é mais ou menos por causa disso que estou te ligando! Eu preciso de uma advogada para explicar esse mal entendido aos acéfalos da promotoria! Será que você pode vir até a delegacia de Gotham? Assim podemos conversar melhor!
– Tudo bem, sem problemas! Só que hoje está meio impossível, mas eu passo aí assim que der.
– Muito obrigada, Jackie – respirou aliviada – você nem imagina o quanto está me ajudando! Juro que se um dia você precisar de um transplante de rim, eu te ajudo a encontrar um doador!
– Nossa, fiquei até emocionada agora! – riu – Você sabe mesmo como convencer as pessoas.
Sheldon fez sinal para que Alice desligasse o telefone, pois ainda precisava levá-la até a sala de visitas.
– Preciso desligar... – disse, triste. Era bom ter uma conversa normal, depois de tantas palavras insanas – venha o mais rápido possível, está bem? – pediu.
– Pode deixar! E você, mocinha, esteja me esperando com meu rim! – as duas riram, e logo depois de uma rápida despedida, encerraram a chamada.
– Pronto, Senhor Policial! Pode me levar para a minha cela de luxo agora...
– Ainda não. Você tem uma visita, esqueceu?
– Ah... que sorte a minha! – disse, abusando do sarcasmo – Se for o Bruce, eu não quero vê-lo!
– É uma mulher – explicou novamente.
– Dá no mesmo... bom, que seja! Vamos acabar logo com isso.
Sheldon, ao conduzi-la até o local em questão, abriu a porta da mesma sala de visitas em que Alice recebeu Bruce, dando passagem para que ela entrasse. A hippie olhou para dentro, curiosa sobre quem estaria lá. No instante em que reconheceu aqueles traços, começou a praguejar alto para si mesma.
– Não é possível, eu devo ter feito strep tease na Santa Ceia para merecer isso! – bufou de raiva.
Rachel pareceu não se ofender com a recepção pouco calorosa de Alice. De certa forma ela esperava por isso, sabia que a hippie a receberia com todas as pedras que coubessem em sua mão. Tentou ser simpática mesmo assim.
– Boa tarde, Alice! Como você está?
– Pergunta cretina! – exclamou, mostrando as algemas que prendiam seus pulsos – como você acha que eu estou? Isso aqui não é exatamente uma colônia de férias em Acapulco...
– Só perguntei por educação...
– Podia ter tido um pouquinho dessa "educação" antes de cogitar colocar uma galhada no seu noivo... – encarou Rachel com raiva – Veio fazer o que aqui? Eu já deixei o caminho livre para você e o banana do Bruce, não precisava vir até aqui para ouvir isso da minha boca e me impor sua desagradável presença...
– Alice, eu não quero nada com Bruce... de verdade, fiquei me sentindo um lixo por saber que vocês romperam por minha causa! E pode acreditar em mim, mesmo que eu quisesse reatar com ele, Bruce prefere você!
– Vai contar essa história para o Harvey dormir, porque a mim vocês não enganam mais.
– Você pode não acreditar, mas é com o Harvey que eu quero passar o resto da minha vida. Bruce foi importante demais para mim, eu nunca vou poder negar isso, mas é apenas uma boa lembrança do passado. Nós ficamos confusos quando nos encontramos naquela festa, mas a cada dia que passa, temos mais certeza de que devemos seguir caminhos diferentes.
– Aonde você quer chegar com toda essa ladainha?
– Eu vim aqui tentar consertar o erro que cometi naquela maldita festa. – seus olhos pareciam sinceros, mas a hippie não conseguia acreditar em uma única palavra – Por favor, Alice, dê outra chance ao Bruce. Eu sei o quanto ele está mal por ter perdido você, e eu estou ainda pior pelo o que fiz com você e com o Harvey... nós erramos, mas todos merecem uma segunda chance!
– Você realmente espera que eu confie na sua palavra? – esperou em vão por uma resposta – Vocês tentam justificar o que fizeram como algo banal, como se fosse um absurdo eu não perdoar esse tipo de atitude! Pela milionésima vez eu vou repetir: não aceito traição. Isso é o tipo de coisa que só gente baixa, sem o mínimo de respeito, faz. Pode ser algo corriqueiro na vida de vocês, mas eu não aceito! E eu agradeceria muito se vocês me esquecessem de vez!
– O Harvey me perdoou. Por que você não pode fazer o mesmo por Bruce? – Rachel insistiu novamente, como se Alice tivesse falado tudo aquilo em Mandarim e a mulher a sua frente não tivesse entendido uma só sílaba de seu recente discurso moralista...
– Você não entendeu absolutamente nada do que eu disse. Vou tentar traduzir para a sua língua: eu acho que você e Harvey realmente foram feitos um para o outro! Você é uma vaca e ele é um touro... não podia ter uma combinação mais perfeita! E de quebra você ainda pode dar uns amassos no Bruce que o Promotor nem vai ligar!
– Não ofenda a minha integridade! – pela primeira vez durante aquela visita, Rachel mostrou sinais de irritação.
– Integridade? – zombou – Minha filha, você é tão rodada que devia se chamar "Beyblade"! Não venha falar de integridade para mim...
Rachel levantou-se rápido, visivelmente ofendida, e o movimento brusco fez sua cadeira cair no chão, provocando um som irritante.
– É impossível tentar ter uma conversa civilizada com você. Realmente foi um erro ter vindo até aqui!
– Finalmente nós duas concordamos com alguma coisa. Vai e não volta, colega! – disse, vendo Rachel sair batendo os pés, como se fosse uma garotinha mimada que não aceita ser contrariada. Quando ficou sozinha na sala, pensou alto, consigo mesma: – Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam! E essa abstinência uma hora vai passar...
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