Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...

3 Alice Rubídia de Assis Romanov III


Respirava alto, usando o som cadenciado das inspirações para se blindar das tantas dúvidas que permeavam sua mente.

O Palhaço estudava o teto do recinto com minúcia, inquieto e absorto por conta da improvável anfitriã que o abrigara na própria casa, sem saber se realmente podia confiar na sua ignorância, ou se toda aquela esquisitice tão oportuna não passava de uma engenhosa dissimulação – o que nem de longe deixava de ser uma opção plausível para aquele dilema que parecia não querer ser solucionado.

Mas mesmo aquela sendo a opção mais óbvia, várias controvérsias faziam questão de destruir a credibilidade dos pensamentos que poderiam desembocar nesta alternativa... Pelo simples fato de não fazer o menor sentido pensar que alguém que queria o seu mal cuidasse de ferimentos que tinham alto potencial para ser fatal quando não tratados. A questão que realmente o assombrava em meio às suas elucubrações era imaginar por que alguém que conhecesse a extensa vida de crimes de Coringa se esforçaria para salvá-lo de um destino como a morte?

Chegou a cogitar que a mulher, ao menos até certo ponto, concordava com o modus operandi caótico de suas ações criminosas, mas de todas, essa era uma hipótese que lhe parecia extremamente improvável. Por mais inusitado que lhe parecesse, a conclusão que mais parecia verossímil a si é que talvez aquela estranha figura realmente fosse ignorante quanto à identidade do Palhaço. Essa conclusão nem de longe chegava a ser minimamente confortável ao homem de cicatrizes, contudo, verdadeira ou não, teria que entrar no jogo de sua anfitriã até desvendar suas reais intenções, caso tudo não passasse de uma dissimulação grotesca.

A única certeza que Coringa tinha acerca de tudo aquilo, é que tal comportamento, de uma forma ou de outra, fazia parte de uma máscara que ela carregava, conscientemente ou não. Tal qual todas as pessoas, ela também se mostrava ao mundo de forma falsa, freando seus maiores instintos, e o Palhaço só precisaria fazer o que sabia melhor; deixar que essa máscara caísse e mostrar à pobre hippie toda a verdade de sua existência medíocre e desajustada, jogando-a contra a hipocrisia que ronda e devassa qualquer tipo de convívio social, sempre tão previsível por ser tão desonesto, tão podre nas raízes de sua essência.

Coringa ainda sentia dores terríveis no local atingido pela bala, não conseguindo sequer mover-se com um mínimo de desenvoltura, por isso sabia que ainda teria que ficar algum tempo naquele tedioso quarto esperando que melhorasse, e, enquanto isso, precisaria continuar fingindo e camuflando sua verdadeira identidade de criminoso para conquistar a confiança de Alice pelo tempo que aquela missão se tornasse necessária. Uma tarefa penosa visto a intensidade de sua atual impaciência e desconforto.

– E depois de recobrar tudo o que aquele maldito policial me privou, volto aqui e dou um fim a ela e ao lugar! – completou o pensamento em voz alta, quase sem querer, com um sorriso enviesado no rosto, que repuxava ainda mais suas cicatrizes, dando-lhe um ar extremamente sombrio e quase animalesco ante a perspectiva de retornar aos seus habituais afazeres.

Ansiava por isso, mais do que tudo.

Coringa sobressaltou-se com o estalo da maçaneta, e por um breve momento ficou preocupado ao imaginar se Alice havia ouvido seu último comentário, que nem ao menos deveria ter tido a ousadia de se projetar para além dos próprios pensamentos. Por mais que aquela preocupação brevemente o afligisse, ela logo o abandonou, pois a hippie entrou no quarto carregando o seu tradicional semblante calmo, e o Palhaço acabou tranquilizando-se com a afabilidade costumeira estampada naquele sorriso. Mas ver tamanha doçura voltada justamente para si era algo no mínimo desconcertante.

– Como está se sentindo, Libélula Saltitante? – perguntou distraidamente, dona dos mesmos ares avoados.

– Já estive melhor... – respondeu de má vontade, irritadiço com nada muito específico.

– Imagino! Você deve estar sentindo falta do seu parceiro, o agroboy. Quer que eu avise alguém que está hospedado aqui?

Coringa respirou fundo, tentando se controlar... Teria que aguentar aquelas insinuações ainda por um bom tempo se quisesse manter seguro o próprio disfarce. Seu maior consolo naquelas circunstâncias foi pensar que, antes de matá-la, iria fazer questão de mostrar àquela riponga todo o teor de sua masculinidade. Sentiu uma vontade quase irrefreável de colocar aquela deliciosa ideia em prática na mesma hora, porém conseguiu conter o impulso, tentando parecer neutro ao responder num tom excluso de qualquer emoção ou fraquezas do gênero.

– Não haverá necessidade... – respirou fundo, profundamente desagradado com a palavra que proferiu a seguir, apenas pelo desejo de manter-se naquele jogo estranho – Obrigado. – forçou-se a agradecer, torcendo o nariz como se fizesse um esforço descomunal apenas por pronunciar aquele mísero conjunto de sílabas, soando a si mesmo como uma verdadeira punhalada, tão o mais dolorosa do que o projétil que furou sua carne.

Alice se sentou na beirada da cama, colocou sua samambaia ao seu lado e deu início a um intenso encarar destinado ao rosto do psicopata, que sustentou o olhar por tempo indefinido ainda em completa dúvida quanto a melhor maneira de agir. E ao mesmo tempo em que Coringa mais uma vez recolhia-se em si com suas conjecturas, parecia que a hippie também era vítima de um tipo de conflito interno, decidindo se devia quebrar o silêncio com sua pergunta ou não.

Finalmente a curiosidade prevaleceu sobre a prudência, essa última sempre sufocada tratando-se daquela mulher de estranhos hábitos.

– Por que você tem essas cicatrizes? – um vinco duvidoso brotou entre seus olhos, demonstrando um interesse real, quase palpável à medida que esperava por uma resposta.

– Longa história... – Coringa não queria prolongar o assunto, não naquele momento inoportuno, e deixou isso mais do que claro naquele mísero par de palavras secas, porém a mulher pareceu não perceber a recusa do hóspede em manter uma conversa sobre a sua vida e seu tortuoso passado.

– Seu pai por acaso era criador de lhamas? – arriscou o palpite, com uma expressão um tanto concentrada e complacente.

Ele apenas a fitou, nitidamente boquiaberto pela sua esquisitice cada vez maior e mais preocupante.

Como...? – perguntou incrédulo, inapto a evitar a boca que entreabria-se de modo pasmo – Como uma criação de lhamas pode ter relação com uma cicatriz desse tipo?

– Bom, muitos acidentes acontecem com os criadores de lhamas, você não sabia? — inquiriu como se fosse o comentário mais óbvio e natural do mundo.

Ele ainda a contemplou sugestivamente, mais uma vez experimentando a sensação que lhe tirava todas as reações, e irritou-se ainda mais por tal vulnerabilidade.

– Não tem medo que a nave mãe venha te buscar? – finalmente reencontrou a própria voz, fazendo o possível para incidir rudeza e asco naquela mera pergunta, que trazia dúbios significados pelo seu tom.

Alice sustentou seu olhar fixo no Palhaço e, com a maior seriedade de que dispunha, sussurrou uma resposta firme, como se temesse que ela chegasse aos ouvidos errados:

– Acha que eu me escondo nesse fim de mundo por quê? Pelo ar puro? – Negou solenemente com a cabeça, desconcertando novamente seu hóspede – Nada disso. Não pretendo deixar que me peguem de novo!

E um breve silêncio instalou-se no cômodo, Coringa vertendo confusão no próprio olhar, desejando mais do que tudo poder se livrar da inconveniente mulher. Ela mantinha o contato visual, parecendo a mais despreocupada das criaturas quando voltou a falar.

– Bom, eu vim passar uns remédios que eu mesma preparei no seu ferimento, mas já vou avisando, isso pode doer um pouco! Ou muito... – preveniu.

E dizendo isso, Alice deu um puxão rápido no curativo que envolvia a ferida, sem prévio aviso, repuxando a pele do homem com um único movimento brusco e arrancando um grito agonizante e surpreso de Coringa. O gesto o fez tremer, e de um momento a outro o seu sangue pareceu fugir de seu corpo, deixando-o pálido de uma forma doentia.

Coringa ainda estava fraco e debilitado demais, e essa situação de inferioridade o enfurecia de tal modo, com tamanha intensidade, que apenas aquele pensamento o carregava ao mais profundo de seus infernos. Nunca antes precisou camuflar nenhum dos instintos psicóticos que o movia, e agora simplesmente não sabia quanto tempo seria capaz de manter aquele circo armado, por mais que dependesse dele e tivesse plena consciência disso. Não havia como negar, ele precisava daquela mulher, ou acabaria sucumbindo ao próprio azar.

– Quanta delicadeza – disse sem fôlego, sentindo o ferimento latejar fortemente, a pele ganhando um aspecto vermelho vivo. Um pouco de sangue manchou sua pele ao escorrer por ela assim que o curativo foi retirado sem qualquer demonstração de delicadeza... Os tremores se tornaram mais intensos, assim como o frio da febre que o fazia suar em controvérsia.

– Muito obrigada, querido, todos dizem isso! – falou, orgulhosa de si mesma e das capacidades que acreditava possuir, sem se dar conta do sarcasmo no tom de voz do homem – Minhas mãos são mesmo bem leves para cuidar desses machucados mais graves – disse, removendo com um pouco mais de zelo o líquido vermelho que ainda escorria pela barriga de seu paciente.

– Claro... – a ironia foi evidente em seu tom de voz abatido.

Alice passou um pano úmido no ferimento, limpando agora o sangue seco impregnado ali, e começou a aplicar uma pasta esverdeada que provocou forte ardência, mas não pegou Coringa de surpresa dessa vez, que pôde controlar seus patéticos gemidos. Alice o olhou satisfeita.

– Você está se recuperando bem rápido! Já está bem melhor... – elogiou, abrindo um sorriso tão verdadeiro para o hóspede que imediatamente fechou sua expressão. Aquela não era uma situação rotineira em seus dias mas, ao que parecia, teria de se adaptar a ela ao menos por enquanto.

Coringa preencheu seus pulmões com todo o ar que conseguiu aspirar, forçando-se a ser cortês com a sua arrebatadora anfitriã, em prol de seus próprios interesses. Não era seu forte e muito menos lhe soava agradável, todavia estava decidido a conquistar a confiança de Alice a qualquer custo.

– Aparentemente devo isso a você... – comentou, ignorando a pontada de ódio que aquela situação adversa lhe propiciava – Você parece ter muita experiência nessas questões, sempre aparece alguém baleado na porta da sua casa? — deu um meio sorriso zombeteiro.

– Não, você foi o primeiro... – respondeu, voltando a encarar os olhos amendoados do homem – Mas não se preocupe, eu sempre cuidei dos cachorros que se machucam por aqui. A única diferença é que você não balança o rabo e nem lambe sua ferida quando eu termino. O que, na verdade, acho que você deveria tentar, existem propriedades bem cicatrizantes na saliva... – Parou, como se refletisse – Quer que eu dê uma cusparada aí pra você?

– Não vai ser preciso... – respondeu simplesmente, forçando-se a se habituar àquela criatura que fugia completamente da normalidade. Ela apenas deu de ombros, dando continuidade ao que fazia.

Coringa ficou observando Alice cuidar de seu machucado e pela primeira vez conseguiu prestar atenção nela desde que estava hospedado lá. Ela era realmente muito bela, mas nem de longe se tratava de uma beleza estereotipada por revistas ou qualquer forma de mídia convencionalizada por meros padrões... Na verdade, ela parecia ser dona de uma altivez própria, que se potencializava apenas por aquele sorriso sempre radiante que emoldurava seu rosto de traços intensos. Seus longos cabelos variavam entre tonalidades diferentes de castanho, formando pequenos cachos desordenados e brilhantes na ponta. O rosto tinha um contorno delicado, porém ele intuiu que sabiam ser duros também. Seu corpo era pequeno, as curvas escondidas sob a roupa larga, no geral emanando uma fragilidade curiosa, principalmente pela aura de pura ingenuidade acerca da própria situação em que havia se colocado com o psicopata.

Mas o que realmente chamou a atenção do Palhaço foram os olhos bem expressivos, com um tipo de brilho dúbio, que dava a impressão de que seriam os olhos mais gentis e também os mais cruéis quando necessário. Alice parecia a personificação da contradição, e essa mistura de impressões era realmente interessante...

...Afinal, todas as suas costumeiras vítimas eram sempre tão previsíveis!

Ela começou a intrigá-lo... Coringa sempre soube interpretar muito bem as pessoas, mas Alice era totalmente inesperada e errática, o Palhaço conseguia realmente perceber todas as contradições inimagináveis somente encarando seu olhar firme e ao mesmo tempo divertido.

– Por que você mora tão longe de tudo? – perguntou, sinceramente curioso, e disposto a conseguir decifrá-la.

– Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher. Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, para ver o sol nascer!

Depois de uma breve pausa em que a hippie ficou absorta nas próprias recordações, ela continuou, dando mais praticidade à voz e esquecendo o tom sonhador que acabara de usar:

– Além do mais, eu tive que fugir da máfia japonesa – contou com indiferença, como se mencionasse algum detalhe extremamente trivial de sua vida.

– Claro que sim, como eu não imaginei... – ele revirou os olhos, ciente de que a mulher tentava fazê-lo de tolo com mais aquele bizarro comentário.

– Pois é, pareciam ser bem simpáticos com aqueles olhinhos fininhos, até eu oferecer um produto orgânico que aumenta o “banzaizinho”, se é que você me entende... – fez uma pausa repleta de significado, dando nostalgia aos seus traços – Mas eles ficaram realmente umas feras quando eu tentei lhes vender um kit de inverno!

– E o que seria isso? – Perguntou, sem nenhum interesse real.

– Um conjunto de pinças e lupas pra quando eles quisessem urinar durante o inverno! – explicou – Sabe, parecia bem útil quando eu decidi comercializar, mas não deu muito certo e eu tive que abandonar o negócio... Parece que a propaganda do produto era meio depreciativa! Os orientais são realmente muito orgulhosos! – balançou a cabeça algumas vezes, como se tentasse espantar a lembrança claramente falsa. – De qualquer forma, eu tenho que admitir que foi um produto pouco inteligente. Dá menos trabalho sentar no vaso pra urinar, e foi aí que eu desisti do empreendimento... – Deu um sorriso contido ao homem, como se pedisse desculpas pela mentira.

O Palhaço encarou Alice por um momento descrente, embasbacado por tantas interações completamente desprovidas de sentido. Começava a se perguntar se realmente tinha sido sorte escapar do tiro com vida, se o preço era conviver com aquela mulher, ainda que somente pelo tempo de sua recuperação.

– Se alguém passasse por uma situação desse tipo, certamente seria você... – bufou com descrença, sabendo que na verdade a mulher apenas fugia de sua pergunta a respeito das razões de se isolar ali, usando do peculiar humor para se desviar do assunto. – Bastava dizer que não queria falar sobre... – Constatou, porém em seu íntimo divertindo-se com toda a excentricidade daquela história inventada.

Alice riu, agradada.

– Vivemos numa cidade em que um maluco se veste de morcego pra combater o crime enquanto comete outros crimes. Se ele pode se permitir essas extravagâncias, eu tenho direito às minhas histórias de pescadora – piscou, encerrando aquele assunto.

– O que foi isso? Uma pontada de crítica direcionada ao grande Cavaleiro das Trevas? – fez a pergunta retórica com um meio sorriso, instigado pelo rumo da conversa.

– O homem me dá arrepios, ele me faz lembrar o Jigsaw com aquela voz ridícula e ameaçadora... – estremeceu levemente ao falar naquilo. – Sem contar a hipocrisia de tudo, né... Vivemos num sistema injusto, extremamente corrompido, que diariamente fabrica pessoas miseráveis e sem condições de se manter com um mínimo de dignidade, basta olhar ao seu redor pra ver o quanto as pessoas sofrem e são exploradas. E ao invés de lutar contra esse sistema, o Batman opta por lutar contra os vulneráveis. Ao menos era assim quando eu ainda morava no lado urbano de Gotham.

– Visão interessante... – inclinou a cabeça, cada vez mais estimulado com o rumo da estranha conversa – Acho que você é a primeira pessoa que eu conheço que não aprova os métodos do virtuoso Justiceiro Mascarado — usou o apelido com ironia. Pros habitantes de Gotham em geral, ele é uma espécie de deus.

– Nunca vou entender o que leva um homem adulto a andar por aí fantasiado fazendo o que bem entende... Será que ele não teve pais pra explicar o que é socialmente aceito depois de certa idade? – Questionou filosoficamente, acariciando algumas folhas de sua fiel samambaia – Eu não sei você, mas detesto gente esquisita, sabe, tenho uma tolerância muito limitada pra qualquer coisa que fuja da normalidade...

Coringa arqueou uma única sobrancelha, percebendo a enorme hipocrisia daquele discurso, mas não se opôs diretamente.

– Dá pra perceber que você exala normalidade mesmo... – anunciou, sarcástico.

– Não é? Muito obrigada! – Alice sorriu novamente em sua direção antes de dedicar a atenção ao novo curativo de seu ferimento agora limpo e novamente tratado. Não pôde deixar de notar as várias cicatrizes espalhadas pelo corpo de seu hóspede e imaginar suas possíveis origens e histórias.

Ao terminar, deu uns tapinhas bruscos na região da faixa onde estava a lesão, mal notando o quando a pressão exercida naquele gesto o empalideceu ainda mais.

– Prontinho, Libélula Saltitante!

Coringa estremeceu com a dor, mas Alice nem percebeu. Ela foi para mais perto dele e pousou a mão em seu rosto para sentir a temperatura, e o Palhaço surpreendeu-se com o toque daquela pele fria e macia que imediatamente roubou um pouco do calor excessivo de sua pele. Um toque despreocupado e despretensioso, sem tremores de medo ou hesitação de ojeriza. Apenas um rápido toque, que fez algo dentro de si agitar-se em alerta, como se esperasse pelo golpe.

Hnm... você ainda está com febre! – o desânimo tingiu sua voz ao proferir aquela desagradável constatação, arrancando-lhe um suspiro curto.

Alice pegou um pano úmido e passou na testa levemente suada de Coringa, refrescando e amenizando a alta temperatura de sua pele, porém, enquanto mantinha suas mãos ocupadas naquele intuito, seus olhos fixavam o brilho acastanhado e quase esverdeado de Coringa, como se neles ela conseguisse ler uma parte do homem e, mais estranhamente, interessar-se pelo que via.

– Vou ter que deixar você um pouco sozinho agora. – avisou, ainda munida daquela mesma expressão que prendia o Palhaço no mais desgastante desentendimento – Eu preciso me preparar para minha aula particular, daqui a pouco meu professor chega... – foi possível notar uma excitação diferente em suas palavras, e um brilho extra dentro das bolas negras de seus olhos.

– Você faz aulas particulares? – um novo tremor o fez encolher-se, e todas as suas articulações travadas pareceram protestar, assim como o buraco ainda aberto em seu ventre. Gemeu baixo, odiando o quanto deveria parecer deplorável naquele estado.

– Toda semana. Eu estou estudando pra passar num concurso para trabalhar na Amazônia, e por incrível que pareça é bem concorrido...

– Você realmente ambiciona se isolar das pessoas! – nem de longe aquilo foi uma pergunta, mas ainda assim a hippie respondeu.

– É, talvez eu queira... – uma sombra percorreu seus olhos – Preciso ir agora, Libélula Saltitante. Em algumas horas eu volto.

O hóspede não respondeu, parecia estranhamente contorcido em sua própria tentativa de se manter desperto. Seu rosto doente estava mais pálido do que nunca, e seus olhos pareciam revoltados, talvez indignados pela sua situação enferma. Alice parou um instante na porta, observando com pesar as marcas de dor na feição de seu paciente, mas logo em seguida saiu do aposento sem dizer palavra, sabendo que era natural que a dor ainda persistisse.

Notas finais
Sei que essa fase doente da Libélula Saltitante pode estar cansativa, mas tenham paciência, em breve o nosso psicopata mais lindo voltará a ser o que sempre foi: um grande filho da puta! ;D