Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
4 O Homem Perfeito
Notas iniciais
Alice saiu apressada do quarto e foi se arrumar para sua aula particular de física, enquanto conversava distraidamente com a samambaia que sempre carregava fielmente como única companhia.
– Já está quase na hora... – suspirou desatenta, sentindo o próprio olhar viajar ao longe de sua realidade – Coloque um brilho nesses galhos e esbanje clorofila, está bem, Sam?! O Aldinho deve chegar a qualquer minuto – disse, extremamente empolgada com suas palavras, olhando para sua samambaia e sorrindo mais abertamente – Bom, preciso me arrumar, quem sabe hoje ele não me pede em casamento? Estou sentindo, é o nosso dia, garota!
Alice escolheu minuciosamente a roupa que usaria, deixou o cabelo solto cair pelos seus ombros desnudos e até mesmo chegou a fazer uma maquiagem básica, própria para a luz intensa do dia apenas com o intuito de destacar um pouco melhor os traços de seu rosto. Quando terminou de se arrumar olhou-se no espelho e ficou encarando sua imagem, em dúvida. O vestido azul claro parecia fazer parte de seu corpo pela forma suave com que o cobria e o destacava. Nem muito curto e nem muito longo, de um tecido simples e intencionalmente desbotado, mas ainda assim lhe caía muito bem.
– E então, o que você acha? Tenho chances? – perguntou, na dúvida.
Como era de se esperar, não houve resposta. Alice, sentindo-se inexplicavelmente deprimida, deixou-se sentar na cama ao lado de sua planta de estimação, lançando um olhar pesaroso em direção às folhas verdes e cheias de vida, tão brilhantes como se fossem cobertas por uma película de óleo.
– É claro que eu não tenho chance, ele é o único exemplar de homem perfeito que existe e você sabe bem disso, não tente me ludibriar com seu otimismo completamente fora da realidade! — resmungou, deixando que qualquer esperança se esvaísse.
A hippie ainda tinha alguns minutos antes do professor chegar, então segurou novamente sua samambaia e foi até o quarto de seu hóspede para averiguar como ele estava e se certificar se aquela febre persistente já havia dado algum sinal de que amenizaria. Era estranho ter uma companhia... Ter alguém com quem conversar além de sua fiel samambaia, e ainda mais estranho era receber respostas para quebrar os intermináveis monólogos que travava consigo mesma em seus dias solitários.
Caminhou desanimada até o quarto em que estava o seu misterioso hóspede, chutando o nada a cada passo de forma infantil. Ao entrar, Alice reparou no olhar levemente pasmo do Palhaço, que pareceu estudá-la com certa lascívia.
– Tem certeza de que você se arrumou pra uma aula particular? – seu tom denotava surpresa, beirando o desdém e liberando deboche. Era impressionante como aquele homem esbanjava ironia até mesmo nos seus comentários mais banais.
– Por quê? Você acha que está ruim? – perguntou ao homem das cicatrizes, dirigindo-se em seguida para sua planta, sem esperar pela resposta do homem – Viu só, Sam, eu disse que estava ridícula, e você nem para me avisar... Traíra! Plantinha venenosa... – xingou, mas ainda parecendo estranhamente afeiçoada à planta.
– Por que se arrumar tanto para uma aula? Quer ganhar que tipo de pontos com seu professor? – Coringa interrompeu as loucuras de Alice, chamando novamente a sua atenção, levemente curioso pela postura ansiosa de sua anfitriã. Qualquer coisa que pudesse descobrir ao seu respeito o levaria a uma situação de vantagem mais para frente, e isso era tudo o que estava ao seu alcance naquele momento todo desfavorável a si; decifrar cada excentricidade daquela incomum mulher que tanto o intrigava em vários aspectos.
– Bom... – ela pendeu os olhos para cima, como se procurasse pelas palavras certas para responder-lhe –, é que o meu professor é o tipo de homem que não se encontra em qualquer lugar, e eu ainda tenho esperança de me casar com ele! Esse homem me ama, eu tenho certeza, só que ninguém o avisou disso ainda, mas um dia... – disse, olhando para o nada e dando um longo suspiro sonhador – Um dia eu crio coragem pra me declarar.
– Se ele recusar seu pedido de casamento, eu me sacrifico! – debochou, arqueando uma única sobrancelha e sorrindo pretensiosamente.
Alice despertou de seu devaneio momentâneo e fitou decepcionada o homem ferido deitado na simplória cama.
– Mas isso não poderia dar certo, você ia roubar minha maquiagem! – replicou com algum indício de diversão ao fundo daqueles brilhantes olhos, ignorando a vontade de rir ao notar a irritação mais uma vez se fazer presente no semblante daquele curioso homem – Aliás, você nunca chegou a me explicar por que estava vestido daquele jeito... Minha única teoria é que você trabalhava como Ronald McDonald’s, aí foi atacado por uma gangue de vegetarianos comunistas que odeiam fast food, mas ainda estou trabalhando nessa tese, sei que ela tem seus furos – arriscou verbalizar o palpite com certo humor, porém isentou a si mesma de ouvir a resposta...
...Naquele exato instante, Alice ouviu o ronco baixo e potente do carro de seu professor aproximando-se da entrada, o som ampliado pelo extenso silêncio que reinava lá fora. Assim que reconheceu o característico ruído que sempre atribuía à chegada do professor, apressou-se em sair para recebê-lo, sem nem ao menos esperar pela reação do Palhaço.
– Depois a gente se fala, Libélula Saltitante! – Alice saiu do quarto com pressa, enquanto resmungava para si mesma instruções baixas, sem sequer aguardar um tempo mínimo em busca da resposta de Coringa – Acho que depois da aula vou criar coragem e pedir a mão dele em casamento, afinal, sou um homem ou um rato...? No caso nenhum dos dois, mas vai fundo, Alice, você consegue! – sua voz acabou se perdendo assim que a hippie fechou a porta em um estalo rápido e apressado.
Coringa ainda esforçou-se em apurar os ouvidos, mas foi incapaz de escutar a continuação do estranho monólogo solitário de Alice, e muito menos a conversa vindoura com o tal professor.
Cada fibra muscular de seu corpo se enrijeceu, imaginando se o homem recém-chegado o descobriria ali ou, ainda pior, que ele se tratasse na verdade de uma armadilha para capturá-lo.
Permitiu-se alguns segundos em silêncio na inútil tentativa de espionar o que quer que se seguisse entre os dois, entretanto nada pôde ouvir além da própria respiração. A curiosidade e receio do Palhaço mostraram-se muito maiores do que a dor que ainda o acompanhava com mais fidelidade do que qualquer capanga que já possuiu, assim ele decidiu arriscar levantar-se para ver quem era esse professor tão primoroso e, principalmente, o que ele teria de tão especial para Alice. Se é que ela lhe contara a verdade e não pretendia subjugá-lo com alguma autoridade.
Caso se tratasse apenas de uma visita inocente, ainda poderia usar o homem como uma forma de atingir Alice quando seus caminhos finalmente se separassem, dado o afeto que ela parecia nutrir pelo tal professor.
E Coringa era um verdadeiro mestre naquele quesito!
Primeiro, com muito empenho, ele conseguiu sentar-se na cama – fazendo um esforço espantoso ao apoiar o peso de seu corpo em suas duas mãos – e apesar de sentir dolorosas fisgadas, continuou tentando se levantar, até que, ofegante, ficou de pé pela primeira vez em dias, e pareceu-lhe que vomitaria.
Ignorou a desagradável sensação e pôs-se a caminhar devagar, apoiando-se com cuidado até a porta, e com imensa dificuldade conseguiu chegar até a maçaneta, girando-a o mais silenciosamente possível para que nenhum dos dois fosse capaz de perceber sua escondida presença.
Coringa ainda não tinha visto nada além do quarto em que estava, mas não se interessou em observar o restante da casa, queria apenas vislumbrar o professor e definir que tipo de relação ele tinha com Alice, e se tal encontro poderia causar problemas para si e seu suposto anonimato. Seus olhos encontraram-no rapidamente, e o Palhaço demorou a acreditar na cena que vislumbrou. Alice estava sentada, apoiando os antebraços numa mesa barata de uma madeira escurecida e tão rústica quanto o resto do casebre, acompanhada de um homem que devia beirar os oitenta anos de idade. O professor estava sentado bem na sua frente verbalizando instruções que Coringa não conseguiu ouvir dado o timbre baixo do homem, e a hippie sequer ameaçava piscar, como se não tivesse a menor intenção de perder qualquer segundo daquela aula.
Parecia, de fato, uma relação entre professor e aluna, em certo nível tranquilizando o psicopata acerca do perigo imediato.
Mesmo sentado, o docente aparentava ser alto, e apesar da idade visivelmente avançada, seu corpo parecia o de um atleta aposentado, não o de um professor. O cabelo era quase completamente branco, exceto por alguns fios aleatórios que variavam entre diversas tonalidades de preto e cinza. Era dono de olhos extremamente azulados, porém um azul escuro quase capaz de confundir sobre sua cor.
Os lábios do professor se moviam com destreza, e talvez eles não percebessem, mas os dois estavam levemente inclinados sobre a mesa, ambos exalando exatamente a mesma empolgação pela presença um do outro naquela aula particular.
Coringa fechou a porta devagar, e com a mesma dificuldade, caminhou até a cama, deitando-se novamente, pasmo. E como repudiava aquela sensação de ser constantemente surpreendido por alguém, mesmo se tratando de pormenores insignificantes, como a quebra de expectativa que experimentou ao se deparar com a diferença gritante de idade entre o professor e a aluna.
Com certeza aquele homem devia ter tido muitos atrativos quando jovem, mas agora Coringa não entendia o fascínio que Alice sentia por ele. Mais uma vez ela o espantou com seu jeito estranho e nada convencional, e essa sensação o incomodava absurdamente... Não lhe agradava nem um pouco perceber que alguém – por mais insignificante que fosse – pudesse surpreendê-lo daquela forma constante, sempre no sentido de expor a Coringa o quanto seus paradigmas estavam equivocados...
...Um efeito que ele constantemente tentava levar à sociedade em geral, agora tendo ele por vítima. Simplesmente fazendo-o se sentir completamente fora do controle da situação.
– Mas deixe estar! Logo descubro o necessário para derrubá-la daquela pose em que se sustenta! – sussurrou, tão baixo que era quase como se um pensamento silencioso tivesse escapado acidentalmente através de seus lábios – Pelo menos parece ser bem ingênua, ainda posso tirar muito proveito enquanto precisar ficar aqui... – até mesmo seus murmúrios sorveram uma pontada de sua angústia, fazendo-o arfar.
Coringa agora estava pagando um alto preço pelo breve esforço. O ferimento começou a latejar mais intensamente do que nunca, e as fisgadas aumentaram absurdamente, fazendo com que nenhuma posição fosse capaz de amenizar a dor cortante, como se gumes afiados deslizassem por aquela porção lesada de seu corpo.
O Palhaço começou a reviver mentalmente todos aqueles dias em que esteve hospedado no quarto da riponga, forçando-se a pensar que logo que ele estivesse recuperado da lesão, teria que matá-la o quanto antes. Mesmo que ela não demonstrasse ter noção nenhuma de quem ele era, era arriscado demais mantê-la viva por muito mais tempo. Ainda que esse tempo acabasse exigindo uma ação precoce à sua plena cura.
“E como eu sou um homem de coração casto, nem vou me ater a torturá-la antes... talvez só por um breve tempo, até que a diversão termine...”
Coringa deliciou-se ao imaginar a reação de Alice quando descobrisse quem ele realmente era, e mais ainda ao visualizar cada pequeno indício de surpresa pela traição marcando seu belo e intenso rosto. Seria uma experiência totalmente nova... Suas vítimas jamais haviam demonstrado qualquer tipo de desapontamento para com o psicopata antes que ele as matasse. Tudo o que via através dos olhos daqueles que acabavam cruzando o seu caminho era raiva e, acima de tudo, medo, na sua forma mais desalentadora e desesperada. Nenhuma exceção fugira a essa regra, pelo menos até agora, e isso sim seria deveras delicioso...
Mais prazeroso do que a própria sensação inebriante de interromper uma vida por suas próprias mãos, disso estava certo.
Em meio àquele amontoado de pensamentos, Coringa adormeceu, tão rápido que nem sequer se deu conta do momento exato em que suas pálpebras se fecharam teimosamente. Mas a dor havia piorado muito depois de sua pequena caminhada até a porta, por isso seu sono estava extremamente leve e propenso ao despertar.
Ele acordou com a mesma rapidez com que adormeceu, ao som de um desconhecido conjunto de notas musicais, sobressaltando-se.
Aquela melancólica música, que agora ele atribuiu procedência ao piano, o deixou estranhamente envolvido. O som era tão intrincado, as notas soavam com tantas disparidades entre si, ainda que distantes, que era como se Coringa de repente se identificasse com a melodia triste que preenchia seus ouvidos, e que iam muito além da sua mera audição. Pareceu simplesmente impossível resistir àquela cadência sonora, e imediatamente Coringa levantou-se mais uma vez da cama e saiu do quarto, ignorando completamente os protestos de dor potencializados por mais aquela imprudência. Talvez estivesse mais fraco do que julgou ao se deixar levar por esse tipo de estupidez melancólica que jamais se atribuiria àquele homem, notável por suas tamanhas crueldades...
...Mas ele continuou caminhando, disposto a chegar ao destino em que se criava a magnética melodia.
Foi seguindo o som, porém se deteve no meio do caminho, encontrando algo que igualmente chamou sua atenção, e agora realmente parecia que o Palhaço estava delirando em sua enfermidade. Não era capaz de acreditar nos próprios olhos, que teimavam em lhe mostrar aquele enorme e pomposo diploma de Medicina de Harvard, pendurado na parede com o escandaloso nome de Alice.
– Não é possível... – recusou à própria visão, tocando na moldura como uma forma que lhe permitisse comprovar aquilo que via, duvidando de que tal combinação fosse verdadeira, e sem se dar conta de que o som do piano abruptamente cessara – Ela foi aceita em Harvard?! – fez uma careta ao perceber o quanto aquilo era improvável se tratando da estranha mulher que o abrigava.
– E com bolsa integral! – completou Alice, que o observava enraivecida apoiada ao batente da porta com os braços cruzados, mas sem soltar sua samambaia. Erguendo uma sobrancelha, perguntou: – Posso saber o que está fazendo fora da cama?
– Era você quem estava tocando o piano? – desviou-se da pergunta, ainda sentindo os seus dedos incrédulos sobre a elegante moldura do diploma, sentindo-se tão tolo quanto possível por cada amostra de fraqueza tanto de seu corpo quanto de sua mente (que nos últimos dias parecia irritantemente susceptível a questões que pouco lhe agradavam).
– Sim, mas não fuja do assunto, colega! Você devia estar em repouso absoluto. Quem pensa que é pra se esforçar assim enquanto está à beira da morte? – Exagerou propositalmente – Eu devia te acorrentar à cama, é isso? – Coringa fez menção de que ia responder, contudo Alice depositou bruscamente um dedo em riste acima de seus lábios, calando a voz do homem sem que ele sequer se manifestasse – Eu jamais vou poder confiar em você de novo, mas aproveitando que você veio até aqui, você gostou da música? – sua expressão mudou completamente diante daquela pergunta, perdendo a severidade de um segundo a outro e dando lugar a uma expectativa quase infantil.
– Na realidade, eu estava cogitando quebrar o piano e voltar a dormir – sorriu de forma maldosa.
– Eu posso te ajudar com isso! Que tal quebrá-lo na sua cabeça? Aí você vai dormir sem esforço algum! – replicou, experimentando novamente o mesmo estado de espírito irritado – Vamos, eu te ajudo a voltar para o quarto. Não que você mereça minha bondade...
Alice colocou um dos braços de Coringa em torno do seu ombro e passou o seu pela cintura do Palhaço, tomando cuidado para não pressionar o ferimento, que já sangrava de novo por causa do recente e nítido esforço.
– Você ainda não teve alta para passear! Prometa que não fará isso de novo – encarou-o séria, como se realmente estivesse... preocupada com ele.
– Tem minha palavra, Doutora – Coringa respondeu com dificuldade, sentindo como se o buraco em seu abdômen tivesse dobrado de tamanho e seus pulmões decrescido na mesma proporção.
– Espero que sim! – fungou, mal humorada, certamente notando o quão maléfico fora aquele passeio aparentemente inocente. Os olhos de seu paciente eram verdadeiros espelhos refletindo a aflição que o assolava. Se Alice não o amparasse naquele momento, estava certa de que ele não seria capaz de manter-se sobre os próprios pés.
Alice ajudou Coringa a se ajeitar na cama, inclinando-se brevemente sobre o seu corpo lívido para ajeitar o travesseiro sob sua cabeça ligeiramente bamba. O Palhaço aspirou profundamente o odor adocicado e, para o seu profundo desgosto, sentiu-se quase consolado com o perfume que exalou dos cachos da hippie, caindo sobre o rosto do psicopata enquanto ela ainda o ajeitava com cuidado sobre o colchão. Era realmente muito estranho sentir sua presença despreocupada diante do psicopata, sem os habituais tremores de quem se atrevia a chegar perto o suficiente para o menor contato que fosse, e os olhos que sempre transmitiam repúdio, tristeza, pavor... Mas não com aquela mulher. Ela examinou seu ferimento por alguns segundos, começando a limpá-lo novamente, roçando por vezes seus delicados dedos sobre a pele febril. E foi impossível não reparar na desenvoltura de seus movimentos rápidos e eficazes, até mesmo como uma forma de distraí-lo dos tremores...
– Por que você não exerce a profissão de médica? – perguntou, gostando de algo que pudesse fazê-lo espairecer do atrito incômodo entre a ferida e o pano úmido.
– Eu estou exercendo nesse exato momento, não estou? – comentou gentilmente, sorrindo de leve ao encará-lo de soslaio.
– Não, num hospital, por exemplo. Com um diploma desses você consegue o emprego que quiser.
– Acho que não é pra mim... – suspirou – Eu entrei na faculdade pensando em ajudar as pessoas, mas percebi que tem muita competição idiota lá dentro, uma energia muito negativa. As pessoas só pensavam no dinheiro e em como consegui-lo sem precisar se esforçar muito, esquecendo-se do que essa profissão realmente significa.
– Que pena... Você – pigarreou, sentindo-se à beira do delírio – seria uma ótima médica. – forçou o elogio, sentindo comichões e arrepios internos apenas pela gentileza.
– Eu sou uma ótima médica – deu um sorriso metido de satisfação –, e serei ainda melhor, assim que passar naquele concurso e ir para a Amazônia! Lá existem pessoas que realmente precisam de mim. E eu sinto como se, talvez, eu acabe precisando mais delas do que o inverso.
– Mas você não ia pedir aquele professor em casamento? – Coringa foi incapaz de evitar a risada, mesmo sabendo que esta resultaria em mais uma dolorosa pontada que parecia penetrar fundo o seu ferimento.
Alice sentiu-se rubra, desviando o rosto.
– Prefiro não falar sobre isso...
Coringa começou a rir ainda mais, tendo mais uma vez a mulher como uma fonte jocosa de diversão.
– Devo supor que pediu mesmo? – perguntou, incrédulo.
– Não... Eu não tenho a menor chance, só fiquei olhando ele ir embora com cara de idiota! – bufou.
– Você merece alguém no mínimo cinquenta anos mais jovem!
– Ora, a idade não quer dizer nada, e... Ei, espera aí! – Alice olhou para Coringa com a testa fortemente franzida, e sua voz subiu uma oitava quando voltou a falar – Como você sabe que ele é bem mais velho do que eu?
– Intuição?! – rendeu-se pelo tom de troça, achando impossível não se divertir com aquela situação – Talvez eu tenha espiado atrás da porta — deu um sorriso travesso.
Alice o encarou por um momento que julgou incalculável e por fim fechou os olhos, respirando fundo e pausadamente várias vezes. Quando novamente os abriu e direcionou os orbes a ele, havia genuína preocupação, o tipo de sentimento totalmente estranho a si.
– Quantas vezes mais você saiu dessa cama?
– Não mais do que isso, juro! – levantou os braços em sinal de rendição.
– Tudo bem, Libélula Saltitante! – sorriu, ainda parecendo serena demais para quem antes estava tão mal humorada pela rejeição do professor – Eu entendo que você queira levantar dessa cama, você está claramente entediado, mas controle esses instintos primitivos só por algum tempo, até você melhorar! Depois eu juro que te mostro a casa inteirinha!
Alice parou por um momento, do modo mais contemplativo possível, e continuou, como se argumentasse contra si mesma:
– Claro que a casa não será mais a mesma, a energia sempre se transforma, porque nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia...
– Você já pensou em procurar alguma ajuda psicológica? – Coringa perguntou, chegando à conclusão de que perto daquela mulher, ele era completamente normal.
– Não sou eu que saio de casa com maquiagem borrada e cabelo verde! – retrucou de pronto, mostrando a língua. O Palhaço novamente esboçou um gesto de rendição, erguendo as mãos, e o silêncio se instalou entre eles enquanto a mulher ainda cuidava de si.
Após alguns minutos em que a hippie gastou para tratar do ferimento, ela se sentou perto dele, do lado oposto da cama, e ficou observando atentamente o seu rosto por um momento que pareceu interminável ao Psicopata. Ele parecia tão frágil naquela palidez típica de quem está doente... Alice estava começando a se sentir muito próxima daquele estranho, e pela primeira vez pensou que sentiria sua falta quando ele decidisse que já estava bom o bastante para partir. Ela mesma cortou o silêncio, tentando espantar o pensamento inconveniente que a avisava do quanto já estava afeiçoada por aquela companhia que, estranhamente, não sabia sequer o nome.
– Libélula, por que você não quis avisar ninguém que está aqui? Sua família deve estar preocupada!
Coringa hesitou por um momento, mas enfim respondeu, valendo-se de meias palavras.
– Há muito tempo eu não tenho mais família.
– Mas não tem ninguém que se interessaria em saber onde você está?
Coringa riu, realmente enxergando a ironia na pergunta da hippie, uma ironia que apenas ele entendeu.
– Muitas pessoas gostariam de saber onde eu estou, acredite, mas nenhuma delas faria uma visita muito amigável...
– O que aconteceu com a sua família?
Coringa fitou-a por algum tempo, analisando mentalmente a situação, e calculando o peso que suas palavras poderiam ter. Por fim, deu de ombros e resolveu responder, da forma mais concisa que conseguiu, depois de anos sem sequer recordar-se desse assunto. Era ridículo como aquela mulher inspirava confiança a ele... Era como se a ignorância dela ao seu respeito fosse o combustível necessário para mover a confiança que o fez falar.
– Meu progenitor se mantinha mais bêbado do que sóbrio, e minha mãe constantemente tornava-se uma vítima dessa situação. Ele sempre chegava em casa e a agredia ao menor sinal de descontentamento, até que um dia ela não mais suportou e se matou, e desde então ninguém nunca mais o viu. – contou num tom marcado pela indiferença, parecendo pouco se importar com seu próprio passado que, de tão distante, a ele não parecia mais seu.
Alice segurou a mão de Coringa e ele se sobressaltou. Há quanto tempo alguém não demonstrava qualquer indício de ternura por ele? Provavelmente nunca ninguém tivesse lhe mostrado algum tipo de compaixão, e sabia que bastaria Alice conhecer de fato quem ele era, para esse sentimento sumir de vez de seus olhos. Enquanto ela acariciava sua mão, disse baixinho:
– Sinto muito pelos seus pais.
– Não tem necessidade, já faz muito tempo, e eu sei que estou melhor sem eles... – concluiu, afastando a sua mão do toque terno da hippie, incapaz de suportar qualquer demonstração de afeto. Poderia levar sua farsa a muitos lugares, mas não àquele.
Alice deitou-se ao seu lado na cama, encarando o teto sem grandes expectativas.
– Pois é, eu também não fui uma filha muito amada... Até os meus cinco anos de idade eu fui criada por uma prima de sexto grau da vizinha da minha mãe porque nenhum parente me quis, e pelo o que eu sei, a minha mãe fugiu com um polonês assim que eu nasci...
– E o seu pai?
– Era um peruano que vivia na Bolívia, e muitas coisas trazia de lá, mas nunca me falaram muito a respeito dele.
Os dois permaneceram deitados sem dizer nada, cada um deles entretidos em seus próprios pensamentos. Até que Alice perguntou, virando o rosto na direção de Coringa:
– Você tem pra onde ir?
– Já está querendo me expulsar? – ele arqueou as sobrancelhas, usando um tom falsamente ofendido e bem humorado.
– Você pode ficar aqui o tempo que quiser! Há muito tempo eu não tinha uma companhia que me respondesse – aspirou com força uma dose exagerada de ar, soltando-o lentamente – Bom, acho melhor encerrar o horário de visitas. Você ainda tem muito o que descansar, principalmente depois de hoje!
Alice levantou agilmente da cama e afastou-se dele, carregando sua samambaia entre as mãos e, pela primeira vez, Coringa experimentou uma breve sensação de vazio em seu peito inóspito, e como detestou a si mesmo ao detectar esse confuso anseio! E ainda mais profundamente odiou a hippie por provocar tais sensações de fraqueza nele, por torná-lo inferior como o mais imbecil de suas vítimas. Observou calado Alice se afastar, notando uma confusa ira nutrir-se dentro de si e demonstrando indiferença enquanto ela se deslocava.
Apenas acompanhou-a com o olhar à medida que ela se aproximava da porta. A hippie lhe lançou um último sorriso afetuoso antes de esconder a sua imagem atrás da maçaneta fechada, um sorriso que Coringa não correspondeu.
Quando ficou sozinho, ainda manteve-se olhando para a porta por longos minutos, preso em seus próprios pensamentos controversos.
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