Time After Time
1 Purple Rain
Notas iniciais
“-Não assim, não com mais violência, não com mais dor. Sua mãe foi tirada de você. Sua infância foi tirada de você. Você foi atacada, manipulada e abusada por pessoas horríveis. A vida tem sido tão injusta com você, tão cruel, mas você nunca deixou isso te derrubar. E eu preciso que você lute garota. Eu só preciso que você lute uma última vez. Lute pelos dias felizes do outro lado disso, lute por... lute por um mundo além de Hawkins. Lute pra dar a sua filha o que você não teve”.
Eleven acordou ofegante e voltou a deitar a cabeça no travesseiro com força.
Ela ainda sonhava com isso, quatro anos haviam se passado desde aquele dia e ela ainda sonhava com as palavras do pai dela. Alguns dias aquelas declarações eram um acalento pro seu coração, mas em outros eram uma facada no peito porque doía.
Simplesmente doía.
Doía saber que quatro anos depois nada havia mudado, ela ainda era sozinha, ainda protegia seu coração, não tinha uma filha nos braços pra proteger como ele tanto havia desejado pra ela, não tinha nada, ela havia se tornado um nada, uma sombra no mundo, vagando em silêncio, com muito medo de ser reconhecida.
Aprendera a se isolar, a se proteger, mas principalmente, aprendera a lidar com o mundo como ele era, sem a magia e dimensões paralelas, ela havia percebido que o “mundo real” era igualmente difícil, muito pior do que a amostra que ela havia recebido quando passou por aquele ano em Lenora, ela percebeu como as pessoas do dia a dia também podiam ser assustadoras e cruéis, não somente os homens maus de farda a que ela estava acostumada, mas os atendentes das lojas, os motoristas em meio ao trânsito, os homens bêbados do lado de fora de um bar e as pessoas que se travestiam de boas intenções, mas no fundo queriam se aproveitar do mínimo que ela pudesse ter.
A verdade é que não era mais inocente pro mundo, finalmente sabia como ele funcionava em cada aspecto, havia precisado aprender para sobreviver sozinha, às vezes ainda errava, mas gostava de pensar que hoje sabia melhor. Não era mais a garota assustada e confusa de antes, achando que o pior dos seus problemas seriam os militares malvados ou os monstros do mundo invertido, na verdade, aquela lição havia sido colocada na sua cabeça pouco tempo depois da sua fuga de Hawkins:
Flashback — 1987
Eleven estava em Ohio a poucas horas, havia pegado carona com uma mulher gentil e seu filho pequeno em Indianápolis, que passou o caminhou todo dizendo como o mundo era perigoso pras mulheres, que ela era muito jovem pra estar sozinha.
Ela estava preocupada de verdade, e por isso El mentiu, dizendo que estava indo encontrar o seu namorado na casa dos pais dele, que os pais não aprovavam o namoro, mas que ela tinha certeza de que assim que ambas as famílias conversassem tudo ficaria esclarecido.
Rose, a mulher, pareceu mais tranquila com aquela declaração, mas mesmo assim, ainda a fez parar no primeiro telefone público que encontrou e lhe entregou uma moeda, pedindo pra que ligasse pra sua família pra contar o que estava fazendo e ela fez o que havia sido pedido, ficou por quase trinta minutos falando com o vazio do outro lado do telefone, enquanto observava a mulher a olhar com pena no rosto, porque a verdade era que tudo era uma encenação, mas ela estava chorando, chorando de verdade.
Pelo futuro que foi arrancado dela!
Era a primeira vez que chorava em muito tempo, que se permitia pensar em tudo o que perdera, em tudo o que havia deixado pra trás, em como aquela mulher era a primeira pessoa verdadeiramente gentil que havia encontrado pelo caminho, porque estava na estrada a semanas e havia aprendido da maneira mais difícil que nem todos eram bons como aquele motorista que anos atrás a havia levado para ver sua mãe.
Ela teve que matar o primeiro caminhoneiro que lhe ofereceu carona nos arredores de Hawkins. Eleven estava fugindo há dias, exausta de tanto andar entre as árvores, com muito medo de ser encontrada pelos militares, mas quando viu aquele caminhão enorme em sua direção não pensou em nada além do fato de que precisava se afastar ainda mais da cidade o mais rápido possível.
Foi uma escolha terrível!
Em poucas horas de viagem o homem, Larry, havia tentado agarrá-la em meio a uma parada na estrada que segundo ele seria só para “tirar água do joelho” e ela precisou se proteger, precisou revidar, o que terminou com ele morto e ela movendo o caminhão para simular um acidente.
Após isso ela decidiu que teria que começar a ser mais inteligente, não podia continuar usando os poderes, assim seria rastreada facilmente e se a Dra. Kai ou qualquer outro envolvido naquele projeto maldito descobrisse que ela estava viva, todos os seus amigos, Hopper e Mike seriam colocados em perigo novamente.
Então ela andou!
E andou!
Por dias a fio!
Andou até cansar, até os pés criarem bolhas, até se sentir suja e exausta, e assim foi passando pelas cidades, andando, sempre andando, visitando abrigos de sem teto para fazer uma refeição rápida e tomar um banho, dormir um pouco nos raros lugares que ela sentia que eram relativamente seguros, roubando trocados de pessoas distraídas na rua e se sentindo terrível após cada vez, mas sabendo que precisava fazer isso se quisesse sobreviver.
Semanas depois conseguiu chegar a Indianápolis, uma viagem que deveria ter sido rápida, mas que demorou semanas graças a lentidão em que precisou ser feita, então, estava disposta a fazer o que Rose queria e ligar para os seus pais imaginários, contanto que pudesse garantir que continuaria confortável e descansada por mais algum tempo.
E isso durou por horas a fio até chegarem a Ohio, quando Rose a deixou perto de uma lanchonete onde o seu “namorado” iria encontra-la.
-Querida, lembre de tudo o que eu te falei, tudo bem? Sei que os amores jovens podem ser bem fortes, mas não pode mais fugir da sua família assim, precisa sentar e conversar, precisa se proteger. – Rose tinha um sorriso no rosto e lhe estendeu uma nota de cinquenta dólares – Pega esse dinheiro e entra logo na lanchonete, come alguma coisa gostosa e fica lá dentro esperando seu namorado, não sai de lá até ele chegar.
-Tudo bem, muito obrigada por tudo, obrigada por ter cuidado de mim. – El não podia dizer o quanto aquilo era importante, o quanto a gentileza dela havia ajudado a colocar um curativo nas feridas do seu coração, então precisava se limitar apenas a agradecer.
Após isso, Rose lhe deu um beijo no rosto, do mesmo jeito que Joice costumava fazer as vezes e seguiu o seu caminho.
Ela pôde comer uma refeição decente pela primeira vez em um bom tempo e após descansar pelo máximo de tempo possível, percebeu que deveria seguir em frente.
...
A vida dela foi assim por aproximadamente um ano e meio, indo de lugar pra lugar, se afastando cada vez mais de Hawkins e da única família que conhecera.
Ela aprendeu a se virar, aprendeu a pegar serviços de uma noite em bares e restaurantes que não eram muito rígidos com a sua identidade e em alguns lugares chegou a ficar por uma ou duas semanas, juntando dinheiro o suficiente para conseguir ir pro próximo ponto.
Os dias eram exaustivos e sem fim e ela ainda precisava treinar os poderes, porque precisava daquilo que sua irmã tinha, precisava iludir as pessoas, ao menos um pouco, porque sabia que sem documentos, não conseguiria continuar muito longe por muito mais tempo, mas também não sabia onde procurar um falsificador e mesmo que soubesse, não possuía dinheiro nenhum pra gastar com isso.
Então aprendeu a ludibriar a mente dos outros.
Não como a Kali conseguia, nem perto disso, mas o suficiente para fazer as pessoas verem um documento com o seu nome enquanto tudo o que ela tinha era um papel em branco nas mãos.
Ainda doía lembrar da irmã, Kali podia ter tido a chance de construir uma vida, mas ao longo dos anos, quanto mais El pensava nisso, mais percebia que ela havia perdido toda a esperança, toda a alegria e razão de viver, Kali havia desistido e por isso, não conseguiria formar uma nova vida.
Kali era o que era por causa do laboratório e Eleven era o que era apesar do laboratório, ela era o que a irmã poderia ter se tornado se tivesse encontrado ao longo do caminho uma família que realmente a acolhesse.
Porém, mesmo assim, mesmo sem esperanças, ela a ajudou a conseguir uma nova vida, mesmo estando totalmente machucada, forjou uma ilusão da sua morte na frente do Hopper e ficou ali, parada, estancando o sangramento o melhor que podia enquanto esperava um sinal para que pudesse usar seus poderes pela última vez, ajudando a irmã mais nova a forjar a própria morte e fugir em busca de liberdade.
Liberdade essa que ela nunca encontrou verdadeiramente, não totalmente pelo menos.
Quatro anos haviam se passado e ela ainda se sentia presa, presa a uma vida de solidão auto imposta, porque sabia do fundo da sua alma que se voltasse pra Hawkins colocaria todos em perigo novamente e isso era mais do que ela podia suportar.
Durante todo esse tempo ela acompanhou a vida dos amigos, sempre observando suas mentes, sempre comemorando as suas conquistas de longe como se fossem as suas.
Dustin estava cursando a faculdade de Engenharia Aeroespacial e agora estava em um programa de treinamento da Nasa, o que não era difícil de acreditar já que ele enquanto ainda era apenas um adolescente havia desvendado o caderno complexo de um cientista com anos de experiência.
Lucas, apesar de dizer que não queria mais voltar a pisar em um hospital, estava estudando medicina e ainda continuava loucamente apaixonado pela Max, com que dividia um apartamento agora e que estava estudando psicologia. Ainda era difícil acreditar que sua amiga que mais se parecia com uma força da natureza havia escolhido essa área, mas Eleven acreditava que muito dessa escolha estava relacionada a tudo o que ela havia passado após a morte do Billy.
Hopper e Joice agora moravam em Mountak e estavam casados há dois anos. Haviam tido uma cerimônia tão íntima e significativa que El chorou por dias, com a alegria e tristeza se misturando em seu coração, porque queria estar ali e de certa forma estava, mas queria estar ali de verdade, abraçando seu pai e sua família.
Will morava em Montauk com a mãe e vivia uma vida sem medo. As coisas lá era mais pacatas, era óbvio que o preconceito existia, mas ficava feliz em ver que ele agora possuía um namorado que era aceito por toda a família e por todo o grupo de amigos, uma pessoa maravilhosa que o apoiava e protegia. Os dois se conheceram na faculdade de Artes Visuais porque era óbvio, que Will o sábio seguiria por essa caminho, a arte estava intrínseca em seu corpo e depois de tudo o que ele também havia passado, ela se emocionava por ver que ele havia achado o seu lugar no mundo.
Ela sempre soube que ele era apaixonado pelo Mike, mas havia optado por guardar aquela informação pra si mesma, porque sabia o quanto a cabeça dele estava bagunçada, o quanto a mente lutava entre o amor que achava que sentia pelo amigo e a amizade construída por eles ao longo dos anos, além disso, ele amava Eleven, a via como uma irmã e seu coração doía por se sentir dessa forma em relação ao seu namorado, porque ele não queria magoá-la ou afastá-la.
A vida era um tanto quanto engraçada, não é mesmo? Todos haviam seguido suas vidas, Steve, Robin, Nancy e Jonathan (que agora estavam juntos novamente e dessa vez noivos, diga-se de passagem), todas haviam encontrado o seu caminho, mas ela ainda estava perdida no meio disso tudo, e sabia que Mike também.
Isso era o que a matava verdadeiramente!
Mike nunca seguiu em frente, não de verdade, ele se contentou em ser o narrador, em ser aquele que contava as histórias de todos, mas sem nunca viver a sua própria, aceitou o fato de que sua vida seria em frente a uma máquina de escrever fazendo com que suas palavras fizessem as pessoas viajarem para outros mundos, embora ele permanecesse sentado em sua cadeira, ainda sentindo falta dela, ainda esperando, mesmo sabendo que aquilo era praticamente impossível.
El sabia disso tudo porque via a vida dele ao longo dos anos pelos olhos dos amigos, ela acessava a mente de todos, mas nunca a dele, por mais que quisesse, por mais que seu coração implorasse, porque sabia que diferente dos outros, Mike conseguia sentir a presença dela e por isso ela sabia que se ousasse ao menos uma vez chegar tão perto da mente dele, ele saberia que ela estava viva.
Às vezes tinha vontade de mandar um sinal, qualquer coisa, pra que ele ao menos soubesse que ela ainda estava por ali, mas tinha muito medo da própria reação, medo de que caso se permitisse soltar as rédeas ao menos um pouco, meteria os pés pelas mãos e sairia em disparada atrás dele, colocando tudo a perder.
Sabia que era o certo, mas ainda se perguntava, será que era mesmo? Porque diferente dos outros, Mike havia perdido muito da sua real essência, ela havia se perdido no mesmo lugar onde El estava.
Ela ainda se lembrava dos primeiros dois anos após sua partida, seu coração estava dilacerado e ver Mike no mesmo estado a deixava transtornada de uma maneira que às vezes ela pensava se não valeria a pena voltar e ficar com ele mesmo que isso fizesse com que suas vidas fossem extremamente curtas. Ele mal comia, chorava com frequência, dava escapadas noturnas para ficar perto de onde a havia visto pela última vez e sempre que caía de sono após horas de exaustão buscava ela em seus sonhos, tentava achar qualquer pista de que ela ainda estava por ali.
Depois de um tempo ele começou a melhorar, se convenceu de que a Kali a havia ajudado a fugir e que agora ela vivia em um lugar com três cachoeiras, o que de fato chegava bem perto da realidade, mas Eleven se perguntava se ele contava essa história pra si mesmo apenas como uma forma de superar o luto ou se a ligação deles era tão tremenda que ele de fato conseguia sentir essas coisas e acreditava nelas.
Se alguém a perguntasse se Mike era feliz, ela diria que sim, ele ria com amigos, se divertia com a família, até saiu pra um encontro após muita insistência de todos (mas durou apenas uma hora e ele jamais viu a garota novamente), porém ela sabia como eram os sorrisos e olhares de pura felicidade dele e nada daquilo havia aparecido no seu rosto durante os últimos anos.
Parecia que ele havia se contentado com uma meia felicidade, disposto a seguir em frente e viver a vida da melhor maneira que conseguisse, mas nunca sendo capaz de ser plenamente feliz, se apaixonar novamente, criar uma família e viver novas aventuras.
Eleven entendia o pensamento!
Muitos poderiam pensar que o que ele sentia era uma reação exagerada, afinal, os dois se conheceram e se amaram por apenas quatro anos, um amor juvenil e nem sequer ficaram juntos durante todo esse período, mas El entendia o que ninguém mais entendia, porque ela se sentia da mesma forma.
O amor dos dois não era um amor infantil como outro qualquer, eles não tiveram balões, luzes e arco íris ou o frio na barriga do primeiro amor que era descrito nos filmes e livros, o amor deles foi forjado no sofrimento, no desespero, na luta e nas lágrimas, mas também nos momentos roubados, nas risadas trocadas em meio as tempestades e no amadurecimento.
Mike foi a primeira pessoa que não tentou transformá-la em algo diferente do que ela era. Ele não quis consertá-la, controlá-la ou salvá-la. Ele apenas ficou. E, para alguém que passou a vida inteira sendo usada, testada e observada, aquilo significou tudo.
Amar o Mike foi aprender que o silêncio também podia ser confortável. Que o medo não precisava ser enfrentado sozinha. Que existir não precisava doer o tempo todo.
Talvez por isso perdê-lo, mesmo sem ter perdido de fato foi tão devastador. Porque com ele, pela primeira vez, ela não era apenas uma arma, uma esperança ou sacrifício. Ela era uma garota amada.
Mas chorar não adiantava mais, ela sabia disso, ficar até tarde na cama também a impedia de começar o dia e ela precisava trabalhar na pequena mercearia da cidade onde ninguém fazia muitas perguntas.
Morava na Islândia a quase 02 anos, em um lugar chamado Selfoss, com menos de dez mil habitantes, fazia um frio danado com o qual ela nunca se acostumava, mas ficava próximo as cachoeiras de Gullfoss, o lugar no mundo todo que mais se parecia com o cenário que Mike havia sonhado pra vida dos dois e ela simplesmente não conseguia sair dali, era a forma que havia encontrado para estar mais perto dele.
Após se espreguiçar e limpar as lágrimas do rosto que ela nem havia percebido que estavam caindo, El se levantou e num hábito involuntário foi diretamente ligar a velha televisão.
O jornal mostrava que hoje era 09 de novembro, o aniversário de 02 anos da queda do muro de Berlim e isso, aliado as reformas do Gorbachev indicavam que talvez a Guerra Fria estivesse chegando ao fim, o que a alegrava e assustava na mesma medida.
Ela havia sido criada pra lutar na Guerra Fria, pra espionar e matar soldados russos e com o fim de tudo, El só conseguia pensar que se não houvesse mais guerra, talvez a sua utilidade para os militares acabasse.
Mas isso era a parte positiva da sua mente, que insistia em brigar com a negativa que dizia que talvez, agora seria o momento em que eles tentariam encontra-la para garantir que de fato ela estava morta e se não estivesse, enterrar ela de vez.
Depois de tudo o que havia vivido, sabia que o governo americano era especialista em esconder a própria sujeira, mas seu coração ainda insistia em ter esperança e acreditar que talvez ela pudesse voltar pra casa, começar de novo, ou ao menos contar a família que ainda estava ali, que ainda estava lutando, que de certa forma, havia conseguido vencer o mundo.
Enquanto carregava uma xícara de café nas mãos, El abriu a janela da sua pequena cabana e olhou o céu, enquanto apenas uma pergunta rondava sua mente:
-Eu realmente consegui vencer o mundo, mas será que ele vai me deixar voltar pra casa?
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