Time After Time
2 Nothing’s gonna change my love for you
Notas iniciais
Mike Wheeler aprendeu a viver com o silêncio.
Não o silêncio confortável das madrugadas em que a cidade dormia, nem aquele que acompanhava a escrita quando as palavras finalmente começavam a fluir. Era outro tipo. Um silêncio persistente que ocupava espaço demais, que se sentava ao seu lado mesmo quando a casa estava cheia.
A máquina de escrever à sua frente permanecia intacta havia quase uma hora. O papel branco parecia desafiá-lo, como se soubesse que ele já havia escrito aquela história antes – só que com outros nomes, outros cenários, e sempre o mesmo final inacabado.
Ele passou a mão pelo rosto, cansado, e se levantou da cadeira. O apartamento estava quieto demais para um sábado à noite. Lucas e Max haviam insistido para que ele saísse, comemorassem alguma coisa que ele já não lembrava exatamente o quê. Ele recusou, como fazia na maioria das vezes, com a desculpa pronta de que precisava escrever.
A verdade era mais simples e mais cruel, no entanto, ele não sabia mais como viver histórias que não fossem as dele no papel.
Mike caminhou até a estante e pegou um exemplar do próprio livro. A capa já estava um pouco gasta, sinal de que ele realmente o carregava consigo, talvez como uma âncora, talvez como um lembrete de que sobreviver não era o mesmo que seguir em frente.
A história falava sobre um grupo de crianças em uma cidade pequena, sobre monstros, perdas e sacrifícios. Falava sobre uma garota que salvou o mundo e desapareceu antes de aprender a viver nele.
Qualquer um que lesse aquilo chamaria de ficção.
Mike chamava de memória.
E as vezes quando o silêncio ficava pesado demais, as lembranças vinham sem pedir licença:
Eles estavam sentados no chão do quarto da El dentro da cabana, encostados na cama, dividindo o silêncio. A janela aberta deixava entrar o barulho distante do vento cortando pelas árvores e dos animais noturnos.
El girava o anel no dedo, distraída, como sempre fazia sempre que pensava demais. Mike sabia que ela estava muito tensa com tudo o que havia acontecido, o Dr. Breener, o Vecna, a Max em coma, o modo como ela havia perdido a luta.
Ele a observou por alguns segundos antes de falar:
- Você tá bem?
Ela demorou a responder, depois deu de ombros.
-Acho que sim!
Ele não insistiu. Apenas se aproximou um pouco mais, até os ombros se tocarem.
-Então tá tudo certo – disse Mike baixinho.
Eleven virou o rosto pra ele, parecendo confusa.
-Como assim?
Ele apenas sorriu e passou um dos braços pelos ombros dela. –Porque você me falaria se não estivesse, sabe que sempre pode me falar qualquer coisa.
El não disse nada. Só apoiou a cabeça no ombro dele, os dedos ainda presos ao anel, e ficou ali.
E isso, pra eles, sempre foi o suficiente.
...
Mike abriu os olhos, fechou o livro com cuidado e encostou a testa nele por um segundo, respirando fundo, como fazia sempre que o peito apertava demais. Quatro anos haviam se passado, e ainda assim, algumas noites ele acordava com a certeza absoluta de que, se estendesse a mão no escuro, ela estaria ali.
O problema é que não estava, El nunca estava.
Toda a noite ele a procurava inconscientemente, como fez durante os 353 dias em que ficaram separados na infância, mas agora era diferente, muito mais tempo havia se passado e ela não voltou pra ele como da outra vez.
As vezes Mike pensava se o fato de ainda acreditar que ela estava viva, que havia conseguido fugir, era só uma maneira que o seu cérebro havia encontrado de tentar seguir em frente, mas então ele logo abandonava essa teoria e se concentrava na única coisa em que o seu coração podia acreditar, Eleven estava viva, em algum lugar, escondida, ela precisava estar, porque mesmo que ele nunca mais a visse, esse era o único jeito de continuar seguindo em frente, porque se acreditasse que ela realmente havia morrido...bem, então já não teria motivos pra viver também.
Recorrentemente ele se lembrava da conversa que havia tido com o Hopper antes da sua formatura e de como aquilo o havia ajudado a seguir com a vida da melhor maneira que podia, porque a verdade era que El estava certa, ele a entendia, a entendia melhor que ninguém, entendia os motivos que a haviam levado a fazer aquilo.
Mas entender e aceitar eram duas coisas completamente diferentes.
A verdade era que Mike desejava poder voltar no tempo, praquele momento exato da última conversa, porque se ele tivesse mais uma única chance, ele não tentaria convencê-la a não fazer aquilo, simplesmente teria implorado pra que ela o levasse junto, pra outra vida ou pra morte, ele só queria estar junto dela.
Porque a realidade é que já estava um pouco morto mesmo, o que os amigos e os pais não entendiam é que no dia em que Eleven havia partido, uma parte de Mike havia morrido também, a parte sonhadora, a que acreditava em finais felizes, a que acreditava que o bem que você fazia seria de alguma forma recompensado, a que sonhava e fazia planos para o futuro.
Agora ele era um homem que não fazia planos, apenas vivia um dia de cada vez, cursava Literatura e escrevia os livros com sua história e a dos amigos, já havia escrito quatro ao todo, embora nunca houvesse mostrado a ninguém, porque ele sabia que nunca poderiam ser publicados, nem como uma ficção, os militares não permitiriam porque mesmo mudando os nomes, lugares e datas, ainda haviam coincidências demais...
Um menino declarado morto que voltou a vida, um homem também dado como morto que havia retornado e agora era chefe de polícia novamente, uma cidade que em um dia como todos os outros havia se partido em quatro.
Então por que ele escrevia essa história? Bom, ele escrevia porque não queria correr o risco de esquecer, não queria correr o risco da sua memória falhar e ele começar a não lembrar com precisão dos detalhes, mas principalmente entrava em pânico toda vez que pensava que podia começar a se esquecer dos seus momentos com ela, de quando se conheceram, de quando se beijaram pela primeira vez, de quando aprenderam a dançar juntos no baile da neve, da primeira briga, da primeira reconciliação, dos planos que faziam.
Tinha medo de se esquecer do sorriso da El, da maneira como ela dizia o seu nome e segurava seu rosto quando queria dizer algo, do som da sua voz, e por isso escrevia, nos mínimos detalhes pra que sempre pudesse se lembrar.
Porque a verdade é que já havia aceitado que passaria a vida sozinho, pelo menos no que dizia respeito a relacionamentos amorosos, parecia um tanto triste e ele sabia que todos desejavam que ele seguisse em frente, que encontrasse alguém que pudesse amar, mesmo que não da mesma maneira que amava Eleven.
Mas por que diabos ele faria isso?
Já havia conhecido o amor verdadeiro, encontrado sua alma gêmea, a pessoa que havia sido feita especialmente pra ele e que estava e sempre estaria entrelaçada na sua alma, então por que se contentaria com menos do que isso? Ele via o relacionamento dos pais, como eles não se amavam verdadeiramente, mas haviam aprendido a amar a própria família e a conviver bem e se conformaram com isso, porque era o que parecia certo, ele não queria isso pra si próprio.
Não queria carregar a apatia do pai ou a tristeza velada da mãe.
Então se contentava em saber que pelo menos havia tido a sorte de amar e ser amado incondicionalmente e sabia que esse sentimento seria o suficiente para o sustentar pelo resto da vida, durasse ela o quanto tivesse que durar.
Apagou as luzes do seu pequeno apartamento e rumou em direção ao quarto, a hora de dormir trazia sempre um sentimento ambíguo em seu peito, mas pela primeira vez em quatro anos estava empolgado de verdade pra alguma coisa, porque amanhã seria o dia.
Havia passado anos juntando dinheiro pra fazer essa viagem e a verdade é que estava juntando coragem também, mas amanhã seria o dia em que embarcaria rumo a Islândia, para conhecer as cachoeiras de Gullfoss, o lugar mais próximo do que ele havia sonhado para sua vida junto com a namorada.
Ele demorou a ter coragem pra ir, porque não sabia o que iria sentir de fato, não sabia se ver a paisagem finalmente lhe traria algum tipo de paz ou reabriria todas as suas feridas de vez, deixando-as expostas e sangrando novamente.
Tudo o que sabia era que iria descobrir no dia seguinte, mas independentemente do resultado Mike sentia que devia isso aos dois.
...
- Como assim não tem mais vagas? Eu fechei o pacote com vocês há quase quarenta e cinco dias! –Mike se segurava pra não gritar, porque ele não era assim, não agia por impulso e no fundo sabia que a pobre atendente da agência de viagens não tinha culpa. Ela era nova, nem estava trabalhando ali quando ele comprou a viagem.
- Eu sinto muito mesmo senhor Wheeler, mas o antigo atendente fez uma confusão danada, não só com a sua viagem, mas a de diversos clientes também, por isso ele foi demitido, mas não precisa se preocupar porque eu estou resolvendo tudo, o seu voo só sai daqui duas horas, então pode ficar tranquilo que até lá já vou ter encontrado uma solução pro problema, o senhor não vai ser prejudicado, eu prometo!
Mike se limitou a assentir e voltou a se sentar na pequena sala de espera, a agência de viagens ficava dentro do aeroporto e por sorte Mike havia decidido passar lá pra conferir se estava tudo certo com a sua viagem, caso contrário teria uma péssima surpresa quando chegasse no seu destino.
O que havia ficado combinado era que Mike se hospedaria em um hotel na cidadezinha de Selfoss, que ficava a praticamente 40 minutos das cachoeiras de Gullfoss, o que possibilitava a ele fazer o passeio de ida e volta todos os dias sem se preocupar, mas agora havia descoberto que sua reserva no hotel simplesmente não existia e o mesmo já estava lotado, assim como todos os outros hotéis da cidade, já que estavam no início de junho, começo da alta temporada de viagem.
Agora não sabia o que a atendente pretendia fazer, mas sabia que de um jeito ou de outro entraria naquele voo e iria pra lá, nem que tivesse que dormir em uma barraca no meio do nada, havia precisado de anos pra ter coragem o suficiente de ir até ali e agora não voltaria atrás de jeito nenhum, não depois de ter mentido pra todo mundo.
Mike não queria fazer isso, mas estava cansado dos olhares de pena velados sempre que citava qualquer coisa relacionada a Eleven e por isso, disse que iria pra um Programa Acadêmico de Verão indicado pelo seu professor de Teoria Literária, o que era uma meia verdade, porque o programa realmente existia, ele só não estaria lá.
Sabia que os amigos amavam El e também sentiam sua falta, sabia que eles nunca a haviam esquecido, mas eram coisas diferentes, eles não a amavam como ele, então seguiram suas vidas, namorando, estudando, sonhando em formar família, viajar, seguir suas carreiras, mas sempre carregando ela no coração.
A verdade é que Eleven era uma coadjuvante na vida deles, alguém que eles amavam muito, mas que cada vez mais ficava no passado enquanto eles viviam a vida adulta, mas pra Mike ela era e sempre seria parte do presente, alguém o acompanhando enquanto crescia e descobria mais do mundo e de si mesmo, por isso mantinha uma foto dos dois juntos na cabeceira da sua cama e outra dela ao lado da sua máquina de escrever.
Foi tirado dos seus pensamentos com a chegada apressada da atendente.
- Senhor Wheeler...eu consegui uma alternativa.
Ela parecia um pouco ansiosa demais e isso deixou Mike tenso.
- Qual alternativa?
-Não é um hotel exatamente. É uma propriedade um pouco mais afastada de Selfoss, cerca de quinze minutos de carro. São apenas três cabanas no terreno.
-Três? – Ele franziu a testa. – Elas ficam...isoladas?
-Relativamente, mas é um lugar tranquilo, bem avaliado. Duas das cabanas são ocupadas por moradores fixos.
-Moradores? – Mike hesitou. – Isso pode ser um problema? Quer dizer, tudo o que eu não preciso é de confusão com gente que eu não conheço em outro país.
-De forma alguma, são pessoas tranquilas, a dona me garantiu. Em uma das cabanas mora um casal, bem reservado, e na outra uma jovem que trabalha na região. É um lugar bem calmo senhor Wheeler, o senhor não vai ter nenhum tipo de transtorno.
Incomodava Mike um pouco que ela ficasse chamando ele de senhor, porque ela aparentava ser mais velha que ele, mas achou que seria indelicado falar algo assim em voz alta, então apenas sorriu e concordou.
- Desde que eu tenha um lugar pra ficar está ótimo.
A atendente, Debby (só agora ele havia notado o nome dela no crachá) pareceu bastante aliviada.
-Então eu posso confirmar?
Mike apenas assentiu e ela saiu rapidamente, provavelmente para terminar de resolver tudo.
-Um casal e uma garota, tudo bem, acho que vai ser tranquilo, provavelmente nem vou topar com nenhum deles.
Voltou a sentar pra esperar Debby terminar de resolver qualquer pendência e passou a mão na sua bolsa, sentindo o peso do seu livro lá dentro, ele realmente o levava pra todo canto, era o primeiro de uma série de cinco livros, cada um contando uma parte da história que havia vivido com os amigos.
Quatro já estavam escritos, mas o quinto, ele simplesmente não conseguia escrever, porque por mais que soubesse o porquê de estar escrevendo cada um desses volumes, não sabia o que colocar no final, não parecia certo colocar o seu sonho idealista de que El estava bem, mas o matava simplesmente pensar em escrever que ela havia morrido, então ele ficava adiando e adiando, esperando por algo que não sabia o que era.
Mike estava distraído, observando o vai e vem apressado das pessoas pelo saguão do aeroporto, quando ouviu o nome.
-Jane!!!
Não foi alto, não foi urgente. Foi apenas uma mãe chamando a filha em meio à multidão. Ainda assim, seu corpo reagiu antes que pudesse pensar. Ele ergueu a cabeça, o coração acelerando por um segundo ridículo.
Sabia que não era ela.
Sempre sabia.
Viu uma menina pequena surgir entre as pessoas, puxando uma mala colorida maior do que ela mesma, e correr até os braços da mãe, rindo.
Mike desviou olhar.
Jane.
Ele nunca havia conseguido chamá-la de Jane. Pra ele, ela sempre foi a El. Algo que não cabia no mundo, mas cabia perfeitamente nele.
Com isso ainda em mente durante todo o tempo, ele acabou por fazer tudo no automático, ouviu as orientações de Debby, pegou os documentos da mão dela, passou pelo portão de embarque e quando realmente caiu em si percebeu que já estava sentado na não tão confortável poltrona do avião
...
Mike não sabia, mas enquanto o avião ganhava altitude, ele estava voando direto para o único lugar no mundo onde o seu final ainda poderia ser escrito!
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