Three reasons to die happy
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Distrito 7 — POV's Santana
Acordo com uma puta dor de cabeça. Olho as horas no meu relógio (dã) e vejo que já se passam das duas. Hora de me levantar, pois a colheita começaria em alguns minutos (meia hora, para ser exata). Levanto-me com esforço. Se eu pudesse evitar a merda da colheita, eu o faria. Mas eu não posso. Sou obrigada a todos os anos ver duas pessoas infortunadas subirem no palco, chamadas por alguma aberração vinda da Capital, e obrigadas a lutarem até a morte. Já perdi minha irmã e meus únicos amigos nesse esquema – não restou ninguém que eu ame. Minha mãe morreu no parto da minha irmã, e meu pai enquanto trabalhava (uma árvore o esmagou). Então, passei a cuidar da minha irmãzinha, com ajuda dos meus amigos. Até que os Jogos os mataram. Você já pode imaginar que eu não tenho muita sorte.
Faço questão de vestir a roupa menos arrumada que eu tenho. Estou pouco me fodendo para eles. Tento comer alguma coisa, mas simplesmente não consigo. Estou estranhamente nervosa. Mas por quê? Não restou ninguém que eu ame – Penso, afinal. – Morrer não seria ruim, ao contrário, seria bem conveniente. Suspiro e olho para o relógio. Hora de ir.
Saio de casa sem me importar em trancar a porta e faço o habitual caminho para a colheita, que já faço há seis anos, mas ainda parece estranho; Principalmente sem minha irmã. Ao chegar, coletam meu sangue para o sorteio – não sinto nada depois de fazer isso tantas vezes – e me dirijo para a área de meninas com 18 anos.
– Bem vindos, bem vindos. – Loretta, a mulher que anuncia os participantes dos Jogos, e que me dá vontade de vomitar, guincha no microfone – Feliz Jogos Vorazes e que a sorte esteja sempre ao seu favor.
Ela fala a ladainha de sempre, passa o curta metragem chato de sempre e se dirige as cúpulas para anunciar os ‘felizardos’ do ano. Ela se atrapalha um pouco com o papel, se dirige ao microfone e abre um grande sorriso.
–E o tributo feminino que terá a honra de representar o distrito 7 na sexagésima segunda edição dos Jogos Vorazes é... – Ela faz suspense e fala. – Santana Lopez!
Pisco atônita. Tento sair do lugar, mas meu corpo não se move. Começo a tremer. Porque estou agindo assim? Eu quero ir para os Jogos. Não tem mais sentido viver. Loretta chama mais uma vez meu nome. Consigo acordar para o mundo e me dirigir relutante para o palco. Subo os degraus, trêmula, e me ponho ao lado da criatura exótica. Ela me olha e força um sorriso. Parece que não gostava de esperar.
–Muito bem. – Ela alargou o sorriso. Puta merda, essa mulher só sabia sorrir? – Agora vamos sortear o tributo masculino. Eu não estava realmente prestando atenção.
Olhei para o público, vários pares de olhos me encarando. Me lembro de que provavelmente estava com cara de coitadinha, então endureço a expressão e volto o olhar para o garoto recém-chegado que subia o palco. Era um garoto da turma exótica da cidade. Usava um penteado que chamavam de “moicano”, e roupas não características do distrito, coladas e coloridas. Pareceu um rosto familiar, mas não o dei realmente atenção. Apertamos as mãos e fomos anunciados a ‘plateia’, que aplaudiu sem animação. Depois disso, somos mandados para uma sala (não a mesma, cada um para uma) aonde iriamos nos despedir de entes queridos.
Eu sabia que iria esperar pra sempre, já que não conheço praticamente ninguém, e tentei argumentar isso, mas os pacificadores apenas me jogaram para dentro da droga da sala. Sentei no sofá e esperei. Alguns minutos depois, alguém entra na sala, me fazendo dar um pulo. Olho, incrédula, para a mulher que entrou. Ela se senta ao meu lado e não diz nada. Pigarreio e atraio seu olhar.
– Olá, Santana. – Ia perguntar como ela sabia meu nome, mas parecia estupido, já que eu fui sorteada.
–Hum... Oi. – Começo lentamente. – Quem... Exatamente é você?
–A senhora. – Ela me corrige abruptamente – Sinceramente, mocinha, além de esquecer-se de mim ainda perdeu seus modos?
De repente, um arrepio percorreu as minhas costas – na verdade, todo o meu corpo. E eu me lembro daquela mulher, de meus tempos de criança. Lembro-me daquele seu jeito duro de falar e do rosto que escondia qualquer emoção, exatamente como o meu. E percebo que não estou sozinha. Restou-me alguém.
– Vovó. – Falo, meu rosto se enchendo de lágrimas.
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