Three Lives

4 Red Angel


Notas iniciais
Peço mil desculpas pelo sumiço, tive alguns problemas aqui e desanimei pra escrever e postar. Porém, com as férias mais que merecidas finalmente chegado, busquei ânimo lá no fundo e resolvi voltar. Espero que curtam, isso é, se alguém ainda estiver lendo isso. Ps: Essa é a parte do Arthur

Eu gostaria de ser como os jovens descolados

Pois todos eles parecem se encaixar

–

Ele os vê conversando com um grande sorriso

Mas eles não fazem ideia

É, eles estão vivendo a vida boa

Não percebem aquilo pelo que ele está passando

Eles dirigem carros rápidos

Mas não sabem onde vão

Na pista rápida, vivendo a vida sem conhecimento

–

E ele diz

Eu gostaria de ser como os jovens descolados

Pois todos eles parecem se encaixar

(Cool Kids – Echosmith)


Estávamos nós, inocentemente a observar decolagem do avião, esquecendo de ficar de olho na pequena criadora de problemas que é minha irmã, quando a mesma despareceu, como uma ninja. Apenas um mísero segundo bastou pra que perdêssemos ela de vista, desencadeando toda uma série de aborrecimentos contínuos. Violet não sabe, mas enquanto ela faz estas merdas, nós (os otários da família dela) roemo-nos de preocupação, aflição e um toque leve de descontrole que ela não faz a menor ideia.

E foi aos berros da tia Flame que saímos desesperadamente á procura da diabinha. Acredito que eu tenha sido o único naquela confusão que usou a racionalidade pra se dirigir calmamente até um segurança e informar o desaparecimento de uma criança.

– Ela é um pouco mais baixa que eu, pálida feito um fantasma, tem o cabelo comprido e escorrido, bem escuro... – Descrevi-a calmamente para aquele armário enorme – E bem gótica... Tipo, muito dark mesmo. Trevosa da cabeça aos pés.

– Sim, eu vi sua irmã – Ele respondeu não muito contente – Quando disse que era proibido correr aqui, ela se esquivou e mandou eu me foder.

– Ahn, era a Violet mesmo – Balbuciei, um tanto constrangido – Peço desculpas pelo comportamento deplorável dela. O senhor poderia me dizer pra onde ela foi?

– Saiu correndo aeroporto afora – Ele recolocou seus óculos escuros e voltou a olhar pro nada, como seguranças fazem – Já mandamos os guardas atrás dela, eles vasculharão toda a extensão, não se preocupe. Ela não pode ter ido muito longe.

– Com aquelas pernas finas, eu não duvido – Comentei comigo mesmo.

– É só? – Ele cruzou os braços

– S-só – Gaguejei, mas saiu. Não sei porque a presença dele me intimidava tanto.

– Aliás, o que não te intimida? – Meus pensamentos me alfinetaram – Você tem medo até da própria sombra, mariquinha.

Ignorei-os, eles estavam sempre tentando me colocar pra baixo. Se eu for dar ouvidos á essas vozes herdadas de meu pai, eu viraria um depressivo fazedor de merda como minha querida (emo) irmã. Ainda bem que eu tenho meus games, livros e séries... Eles são o melhor antidepressivo que alguém poderia ter.

Um tanto decepcionado com a eficácia da segurança do aeroporto, retornei até o centro de caos e estresse que era minha família. Eles discutiam sobre de quem era a culpa, quem deveria ter educado ela, sempre tentando achar um único culpado, mas sem perceber que, quando o assunto é Violet, todos nós falhamos.

Sim, ela passa a perna em todos e sempre acaba se safando. Pelo menos, era isso que acontecia com nosso pai, mas algo me diz que agora com a tia Marcy no controle as coisas serão bem diferentes.

Digo isso porque a vampira sempre criticou a maneira como Marshall aliviava pro lado da filha, deixando-a acreditar que pode fazer qualquer coisa sem sofrer consequências. Olha, sinceramente, eu concordo com ela. Meu pai pode saber fazer muitas coisas, como cantar, tocar e se meter em problemas... Mas educar crianças, ele sempre se saiu terrível e comicamente mal.

Seria cômico se não fosse trágico. Olha no que a monstrinha se tornou. Tenho quase certeza de que isso se deu ao fato de que ele vê seu espelho nela, pois são completamente iguais... Isso o assusta, e a responsabilidade que ele nunca teve pesa em suas costas. O resultado vocês já conhecem: ele sem saber o que fazer e ela, sem limites.

Me sentei do lado de Mel, que era a única por ali que mantinha a calma sob qualquer circunstância.

– Você não tá preocupada com a louca da sua prima? – Indaguei, mesmo já sabendo a resposta.

A verdade é que eu só queria começar um assunto com ela. Ás vezes parece que a hippie tá no mundo da lua, sem escutar nada do que você diz (se bem que de vez em quando ela tá mesmo), mas ela pode ser uma ótima ouvinte, conselheira e principalmente calmante. Sério, essa menina transpira amor, e te cobre numa nuvem de calmaria.

No final de cada conversa, eu sempre acabo com o mesmo pensamento: “Ah gente, tá tudo bem... Pra que se preocupar?”. Se Mel fosse uma bebida, seria chá de camomila: doce e tranquilizadora.

– Apreensiva eu sempre fico – Ela respondeu depois de alguns segundos (Tem horas em que ela demora pra processar o que a gente diz) – Mas de que adianta se descabelar? No final, ela sempre acaba aparecendo – Daí ela fez aquela cara de maconhada de sempre: Arqueia os lábios, dando um semi sorriso e cerra os cílios, com os olhos quase fechados. Tão fofa... – Esse é o jeitinho dela, vocês não entendem... Ela é leonina, adora causar. É só manter a calma e respirar.

Lá vem ela com essa coisa de signo... Sempre diz que nossa vida tá escrita nas estrelas, afinal é de lá que a gente veio e pra lá que vamos voltar. Tão viajada quanto um beck de maconha.

– Como você consegue ser tão tranquila, menina? – Questionei, curioso.

– Acho que as pessoas se afligem demais, por qualquer coisa boba – Ela apontou pro aglomerado de gente que era nossa família – Coisas bobas que viram um monstro enorme, sendo que é muito mais simples manter a calma e deixar as coisas se resolverem no seu tempo, entende?

– Acho que sim – Cocei o queixo – Mas nem sempre ficar esperando o universo resolver tudo funciona.

– Confia no cosmos que tudo se ajeita – Ela colocou o indicador sobre meus lábios e olhou em meus olhos – Relaxa. Respira... Inspira...

Obedeci tudo o que a hiponga dizia, sem hesitar.

– Faça comigo – Ela pediu, cruzando as pernas como índio. Repeti o movimento – Feche os olhos e note o espaço ao seu redor, sempre respirando fundo... Agora sinta seu corpo, então, esqueça a barreira que há entre ele o resto do mundo. Imagine que não existem mais fronteiras, você e o universo são um só... Você é a poeira das estrelas, o ar que entra nos pulmões e o carbono que sai pelo seu nariz... Você é a própria consciência.

– Que viagem – Sussurrei, abrindo um sorriso.

– Lembre da grandeza no espaço sideral, que é feito de você. O que são seus problemas agora? – Indagou ela. Pensei por um segundo.

– Nada.

Como ela fez essa magia psicológica eu não faço ideia, só sei que me serviu muito bem. Eu podia sentir a melhora gritante da dor nas costas e do peso nos ombros. Abri os olhos, ela me encarava com seus grandes olhos azuis, que eram iguais os da minha mãe, que eram os mesmo do tio Finn, seu pai, e aquilo me acalmara mais ainda.

Estávamos ambos com um sorriso bobo no rosto, como se tivéssemos fumado feito um Bob Marley. Me encantava a capacidade dela de me deixar aéreo sem nenhum tipo de droga. Encarávamo-nos. Quando me dei conta de que estava meditando dentro de um aeroporto super lotado, comecei a rir. Ela riu junto, fazendo sinal de negação com a cabeça e se levantando, como se dissesse algo tipo “meu trabalho de terapeuta está feito”.

Me coloquei de pé junto com ela, e disse para tia Cake, que estava uma pilha de nervos, pra não se preocupar, já que eu tinha comunicado tudo aos seguranças e já estavam atrás dela.

– Você tá bem? – Ela indagou, incrédula – Tá com a fala tão mole, aérea... Ah, deve ser sono. Deita ali no banco da sala de espera, querido.

E após ser mais ignorado do que anúncio de youtube, obedeci como sempre e esperei a poeira baixar. Até que meia hora depois, meu padrinho, Chris teve a brilhante e atrasada ideia de avisar para os seguranças que uma criança sumiu. Como se eu não tivesse pensado nisso, o mérito acabou sendo dele e nós retornamos pra casa, á espera de um telefonema da polícia ou algo assim.

O ruim de ser adolescente é que os adultos esperam que você tenha responsabilidade de “gente grande”, mas não te escutam, como se fosse uma criança. Muitos deveres e poucos direitos... E ainda se perguntam por que essa é a fase mais complicada.

Chegando em casa corri para o paraíso seguro, de onde eu nunca deveria ter saído e senti tanta falta: meu quarto. Onde habitavam meus quadrinhos, livros, jogos, computador, internet... Como eu pude abandonar vocês?

Me joguei na cama e liguei o celular rapidamente ao carregador, que estava em 1%. Foi por pouco, se eu demorasse mais dois segundos, ele descarregaria de vez. Só pra constar, esse foi o momento mais emocionante do meu dia. Pegando-o da mesinha, coloquei o notebook no colo e conectei-me a rede wi-fi, indo direto ver minhas notificações no fórum do League of Legends. Meu glob, eu precisava mais daquele jogo do que precisava de ar.

Após uma hora de partida, com uma vitória gg easy, fechei o computador e passei a encarar a parede cheia de pôsteres de super heróis na minha frente, refletindo sobre como eu sou babaca por perder tanto tempo da minha fazendo inutilidade e estudando feito um louco, enquanto minha irmã vive a vida dela no modo party hard e ainda recebe todo o reconhecimento.

Ah, que se dane. Abri o computador novamente e voltei pro vício. Como já havia contido a compulsão diária de LOL, loguei no Facebook, na esperança de algum amigo estar online, pra que eu não me sinta tão looser solitário. Aliás, a maioria dos meus amigos são virtuais... Ironicamente, acho que o principal motivo que nos une é a distância.

Acredito que ninguém me aguentaria por muito tempo pessoalmente. Exceto a família, que é meio obrigada á isso.

Me surpreendi ao bater no olho na lista do chat e ver que Violet, a criadora de problemas oficial dessa casa, estava ali online. A chamei, perguntando onde ela estava, e como esperado a senhorita me respondeu com toda a ignorância do mundo e saiu. Não insisti, mas uma ideia me veio na cabeça: Testar um sistema de rastreamento online no celular da pentelha.

Sim, eu sei que é errado instalar aplicativos ocultos no celular dos irmãos, mas com a Violet vocês tem que concordar que é necessário. E, como ela nunca foi sinônimo de esperteza, imaginei que ela deixaria a opção de GPS ligado (Ela sempre liga tudo, sem ter noção de quanta bateria essas coisas gastam). Alguns cliques e toques no teclado foram suficientes pra eu parear o aparelho dela com o gadget do computador e voilá! Achei o endereço da problemática.

Segundo o programa, ela estava num bar aqui perto de casa. Fica numa espécie de viela muito mal frequentada e com pouca fiscalização policial. Será que essa menina tem ideia de o quão perigoso esse lugar é?

Desbloqueei a tela e mandei uma mensagem pra tia Marcy:

“Tem uma headbanger naquele bar imundo do quarteirão aqui de trás. Acho que seria bom dar uma olhada”.

“Como você sabe que ela tá lá?” – Perguntou ela, ingênua.

“Tia... Eu sei de tudo”.

Ela visualizou e nada mais disse. Alguns segundos depois escutei a porta bater, pés descendo rapidamente as escadas e um barulho de motor de moto, rasgando a rua.

Sorri, me sentindo o gênio da informática e o irmão mais maléfico do mundo. Agora sim ela tem motivo pra me odiar e me bloquear de vez. Eu jurava que ela vivia offline no facebook porque já havia me bloqueado há tempos. Me senti um grande filho da mãe, mas ao mesmo tempo sabia que isso seria melhor pra ela... Mesmo que ela quisesse me matar depois disso.

– Ela não estava off porque te bloqueou idiota, ela fica off por que está ocupada demais curtindo a vida – Os pensamentos negativos novamente invadiram minha mente – Ao contrário de você, virjão.

– Menos, Arthur – Revirei os olhos, repreendendo a mim mesmo.

– Depois chora quando sobre bullying – Ele não parava – Vai morrer sozinho, como um gordo enorme e virgem aos quarenta anos, que só sabe jogar vídeo game.

– Isso não é ruim, não julgue essas pessoas – Eu continuava falando sozinho.

– Além de otário, ainda é louco... Falando sozinho – Eu podia ouvir até gargalhadas ao fundo – Na sua idade, seu pai comia duas por dia... Mas você só herdou a loucura dele. Moleque ridículo!

– Cala a boca! – Gritei, sentindo meus olhos esquentarem

– Uhhh, vai chorar? – Debochava uma outra voz, essa era feminina.

– Para com isso – Coloquei a cabeça entre os joelhos, comprimindo as mãos contra as mesmas.

– Otário, babaca... Otário, babaca... – Várias delas cantarolavam dentro de mim – Mariquinha!

Minhas bochechas coravam, enquanto eu prendia o choro e puxava os cabelos, numa tentativa falha e desesperada de fazer com que a negatividade se calasse. Foi então que eu escutei a voz de Mel, tão suave e doce, entre aquelas vozes nefastas e terríveis... algumas delas tinham até a minha identidade.

Quando ela chamou meu nome, todas as outras se calaram e eu respirei aliviado. Levantei a cabeça, ela estava na porta, me encarando com um olhar piedoso e um tanto assustado. Olhei pro chão e entendi o motivo. Eu não tinha coragem de voltar a olhar nos olhos dela, apenas encarava vários fios loiros e esbranquiçados, espalhados pelo chão de madeira escura.

Eu havia arrancado os cabelos com minhas próprias mãos, enquanto grunhia, submerso na própria insanidade.

– O que eu fiz? – Eu estava tão assustado quanto ela. Meus olhos formavam água involuntariamente, e eu me odiava por isso. Detestava chorar, me sentia mais fraco que já sou. Ainda mais na frente dos outros, principalmente dela.

– Arthur... – Ela se aproximou, colocando seus pés, sempre descalços, no meu quarto.

– Não – Me virei pra ela bruscamente, que se assustou – Desculpa, eu... eu não estou bom da cabeça, eu... Não entra aqui, por favor. Eu preciso ficar sozinho.

– Ficar sozinho, morrer sozinho... Não é uma opção, é seu destino – Uma das vozes voltara pra me atormentar.

– Cala essa maldita boca! – Gritei. Aquilo me dava nos nervos.

– E-eu só queria ajudar – Ela deu um passo atrás, voltando ao corredor e saindo do quarto.

– Não era com você, perdão – Me levantei rapidamente, mas travei no caminho – O que eu to fazendo?

– Não dê ouvidos á eles – Ela tocou na maçaneta, fazendo menção de entrar – Seu pai uma vez escutou essas vozes maldosas, e acabou na beira do píer, prestes a pular.

– Ele não queria morrer, esse ato é horrível. Ele só queria estar morto – O defendi, como se soubesse exatamente o que ele sentiu – Ele sabia que era o único jeito de calar. É um tormento, você não entende.

– É um mal de família, Arthur – Escutei um suspiro – Sinto muito que os genes do tio Marshall tenham afetado você e a Violet... Ele se sente culpado por isso.

– Não, não é culpa dele – O justifiquei novamente – Ele não escolheu essa tendência em se auto deprimir, ninguém escolhe – Olhei pra baixo, voltando a encarar os riscos amarelos no chão – Ao menos ele teve a sorte de conhecer a mamãe. Ela o salvou, literalmente.

– Sim, a história deles é louca – Ela estava sorrindo, eu sabia sem nem olhar pra ela – Normalmente, é o príncipe que salva a princesa.

– No caso, a princesa salvou o plebeu – Dei um meio sorriso – Era mais fácil pra ele, já que não estava sozinho.

– O que quer dizer com isso? – Ela se aproximou vagarosamente – Você não está sozinho.

– Ora Mel, por favor – Subi o olhar, observando a mesma – Olha bem pra mim, é do Arthur, o menino que só fica em casa e nunca teve uma namorada na vida. É dele que você está falando.

– Eu sei de quem eu estou falando – Ela parou na minha frente – E você não está sozinho, porque eu estou aqui. E vou continuar com você, sempre que precisar...

Tentei sorrir, mas não consegui, mesmo que por dentro eu estivesse um pouco mais feliz.

– ... Porque além de primo, você é meu amigo – Ela terminou sua frase.

Alguma coisa dentro de mim morreu de vez. Amigo, claro... É sempre assim, porque não estou surpreso?

– Ahhh não acredito – A voz feminina ria como uma hiena – Amigo? Além de psicótico, virgem e sem ninguém... Ainda entra na friendzone.

Resolvi ignorar dessa vez, quando vi a ruiva se aproximando mais do que deveria de mim. Eu não sabia como agir, nunca havia chegado nesse nível do jogo. Fechei os olhos, com o pensamento “o que tiver que acontecer, vai acontecer”. Como ela mesma sempre diz, confiei no cosmos... Joguei pro universo.

Senti os braços dela envolverem meu corpo, na altura da costela. Levei alguns segundos pra processar que aquilo era um abraço. Meio sem jeito, acolhi ela nos meus braços também, aquilo durou quase que uma eternidade, mas eu estava gostando.

Quem diria, contato humano não é tão ruim.

Então ela o desfez e se afastou alguns mínimos centímetros que faziam toda a diferença. Me joguei na cama, ela se sentou na cabeceira, encostando as costas na parede. O silêncio era constrangedor pra mim, mas não pra ela, que estava entretida observando meus pôsteres. Ela conseguia se distrair com qualquer coisa, num estalar de dedos e eu não conseguia parar de acha-la a coisa mais adorável e empática do mundo.

Notas finais
É isso :) Se você chegou até o final, peço encarecidamente: Deixe um review! Sei lá, só pra saber se alguém ainda tá aqui. Qualquer coisa eu excluo a fic e a gente finge que ela nunca existiu. Flws o/