Three Lives
5 Falling In Love
Notas iniciais
Era isso que eu encarava: Uma anjinha ruiva com uma faixa amarrada na cabeça e um longo vestido colorido, descalça. Tão maluca, amável e boa.
– Boa nos dois sentidos – Minha própria voz ecoou dentro da minha cabeça. Não eram consciências maldosas, era meu eu mesmo. Ri e virei pro lado, tentando parar de olhar pevertidamente.
Uma parte de mim me julgava e a outra dizia pra eu parar de ser tão certinho, embora isso seja mesmo desrespeitoso. Ok, vou parar com isso.
– Você é mesmo vidrado nesses heróis, hein – Ela disse, tocando em um deles. Eu não queria que eles manchassem, nem amassassem, mas não podia dar um berro de “tira a mão daí” como tô acostumado a fazer com a Violet.
Se bem que, aquela capetinha da alma escura é maldosa, e estraga minhas coisas por prazer. Devo ter pegado trauma.
– Tem como não amar? – Respondi, prontamente – Pra vocês podem parecer besteira, mas são eles que me salvam do tédio, me animam quando estou mal e ainda me passam lições de vida. Eu me divirto e esqueço do mundo.
– É pra isso que serve uma namorada – Ela jogou na cara. Sei que não foi intenção dela ser má, nem soar rude, mas aquilo doeu um pouquinho no resto de orgulho que eu tinha. Ela nem percebeu – Qual deles você gosta mais?
– Não me faz pergunta difícil – Cocei a nuca, pensando – São tantos... – Pigarreei – Acho que no momento, o que eu mais me identifico é com o Batman.
Ela se virou pra mim, me olhando como se estivesse prendendo o riso.
– Ei, não ri! – Abri um sorriso – Não é que eu me sinta um Batman, é que, você sabe... Ele é inteligente, não precisa usar a força pra combater ninguém, a estratégia basta. Além de que ele é reservado, calado... Gosto desse ar misterioso nele. E ele tem toda uma história, que é triste se você for reparar.
– Entendo – Ela disse com cara de quem não prestou muita atenção – Já sei, vamos jogar!
– Olha Mel, eu entendo que você esteja tentando fazer eu me sentir melhor, e isso é muito gentil da sua parte, mas... – Me inclinei pra trás, encarando o teto – Não precisa fazer isso por mim. É sério.
– É um prazer fazer você se sentir bem, mas eu não to aqui pra isso, eu realmente quero jogar – Ela afirmou, pegando o controle do chão – Qual é? Tá com medo de perder pra uma garota inexperiente?
Eu disse pra mim mesmo que não ia cair no joguinho dela. Não estava a fim de jogar, por mais que ela me desafiasse. Dei de ombros, ignorando total.
– Noob – Ela riu.
Me levantei no mesmo segundo, com expressão séria, e pedi para que ela repetisse se tivesse coragem. Ela arqueou a sobrancelha e repetiu, com toda a audácia. Como ela ousa me chamar de Noob? Eu, que passei a vida toda dentro desse quarto, evoluindo minhas técnicas e táticas de game, faça chuva ou faça sol? Não, ela não podia tirar minha honra assim.
Peguei o controle de player 1 no chão e liguei a TV. Ela sorriu, vitoriosa.
– Não por muito tempo – Pensei – Prepare sua alma, que agora eu vou botar pra foder.
É isso mesmo. FO-DER. Ela vai ver quem é o noob.
Começamos com um clássico, Mortal Kombat. Ela escolheu a Kitana, pelo simples fato ser “bonitinha”. Oh my glob, please... Eu escolhi o Sub Zero, porque além de ser o personagem mais foda, na minha opinião, a jogabilidade que tenho com ele é incomparável a qualquer outro, parece até que foi feito pra mim. Ahh, Sub Zero senpai...
Te juro que não deu nem vinte segundos de partida pra eu finaliza-la com um fatality. Ela quis revanche, escolheu o Baraka e apanhou mais uma vez. Não se dando por vencida, ela ainda insistiu por mais.
– Enquanto eu não te vencer, eu não saio daqui – Dizia ela, sem tirar os olhos da tela.
– Pra isso, você vai ter que ficar uns quinze anos praticando – Provoquei, embora seja verdade.
– Brutality! – Disse o narrador do jogo, com sua voz dramática, anunciando mais uma vitória minha.
– Esse jogo é impossível – Ela jogou o controle na cama – Você tá de hack, só pode.
– Já tá usando gíria de gamer? – Indaguei, contendo a risada – Tudo bem, só mais uma. Se você vencer, te dou um prêmio.
– Tu é um viciado, não tem como eu te vencer – Ela se deu por vencida
– Prometo aliviar – Peguei o controle e entreguei pra mesma.
Hesitante no começo, aceitou o desafio. Fiquei com a consciência pesada depois ver a carinha de frustrada que ela fez ao perder quatorze lutas seguidas (Sim, eu contei). Era de dar pena, então resolvi que deixaria ela ganhar dessa vez.
– Heroic Brutality! – A voz do narrador ecoou no quarto, e quando olhei pra ela, havia um sorriso enorme em seu rosto.
– Eu disse que você conseguiria – Coloquei o controle na mesinha de volta e estendi a mão – Parabéns, foi um bom jogo... pra uma noob.
Ela não apertou minha mão, mas sim me deu um rápido beijo na bochecha. Acho que minha cara está completamente corada, já que está queimando.
– Quer dizer que você ganha e eu recebo o prêmio? – Brinquei
– Bobão – Ela riu e me levemente me empurrou pra trás, com o pé, fazendo com que eu me deitasse – Você me deixou ganhar, que eu sei.
Ela também se deitou, só que na direção contrária. Ficamos nós dois, como dois idiotas olhando pro teto e conversando sobre qualquer besteira, quando tio Finn chegou na porta.
– Eu estou escutando uns gritinhos estridentes vindo daqui de cima – Ele cerrou os cílios – Algum problema aí?
– Sua filha, ela sempre faz isso quando eu dou um fatality nela – Ri, sendo cutucado por ela com o cotovelo.
– Um o que? – Ele questionou. Sua cara era de quem tinha entendido tudo muito errado – Você tá dando “fatality” na minha filha?
– Calma tio, é Mortal Kombat – Justifiquei, com um pouco de medo. Ele continuava com cara de quem não tinha entendido – Um jogo.
– Ah, claro... O jogo – Ele revirou os olhos, como se já soubesse – Não me olhe com essa cara... Eu sei, ok?
– O-ok, sabe – Concordei, temeroso.
– Você só se liga em jogo, não é guri? – Ele deu meio sorriso, que tentou esconder – Nem sei porque eu me preocupo tanto. Você é um bom menino.
– O que o senhor quer dizer com isso? – Questionei, tendo a leve impressão de que ele tá me chamando 1 – de gay; 2 – de virgem; 3 – de incapaz ou 4 – de todos juntos. Não que eu veja problema em ser nada disso, mas... É sério isso, tio?
– Nada – Ele deu de ombros – Só estou dizendo que você não é uma ameaça.
– Pai... – Mel bateu a mão na testa.
– Eu devo levar isso como elogio ou o que? – Franzi o cenho.
– Você é um geniozinho, vai saber – Ele fechou a porta.
– Seu pai é maluco da cabeça – Comentei, assim que ele se foi
– Sobre pais malucos, você não pode falar muita coisa – Ela rebateu – Filho de Marshall Lee.
– Hurr, filha de Finn Mertens – Imitei a voz dela – Numa competição de maluquice entre os dois, daria empate.
– Não mesmo – Ela gargalhou – O Sr. Vampiro é o campeão de maluquice dessa casa.
– Todo mundo é maluco aqui – Suspirei, com a barriga doendo de dar risada. Me sentei pra recuperar o fôlego.
Ela se sentou junto, tão ofegante quando eu, quando inconscientemente, meu olhar se perdeu dentro do dela. Devo ter ficado hipnotizado por alguns segundos, mas ela também não desviara, nem por um instante. Meu coração acelerou assim que percebi nossa proximidade, e senti sua respiração contra a minha. Tudo era silêncio.
Foi aí que escutei o barulho da maçaneta no andar de baixo e aquele “toc toc toc” irritante da bota de salto da Violet.
– Que foi? – Escutei a voz dela quebrar o silencio no primeiro andar – Perderam o cú na minha cara?
Foi aí que eu tive certeza: a ovelha negra da família estava de volta. E como sempre, estragando a minha felicidade. É por isso que eu te amo, irmãzinha.
Se o objetivo da pirigótica era causar, ela conseguiu. Parabéns, demoniozinho, atingiu sua meta de provocar a discórdia. Eu via em seus olhos, ela gostava de ver o circo pegar fogo e depois se vitimizar. Ela pode ter todos os defeitos do mundo, mas pra atriz dramática e escritora de novela ela tem muito talento.
Seriamente, ela consegue criar uma treta nova com direito á choro e “eu odeio todos vocês” sempre que sente vontade. Um milhão de palmas pra essa garota.
Depois de interromper meu quase primeiro beijo com a pessoa mais adorável que eu conheço, ela começou com a gritaria lá em baixo. Nos afastamos, levantando rapidamente e correndo escadaria abaixo, pra assistir de camarote aquela treta deliciosa. Eis o que se seguiu:
– “Perdeu o cu na minha cara?” – Tio Finn, que provavelmente foi o único a não ficar chocado, cruzou os braços, repetindo – Ainda bem que você não é minha filha, menina. Mas a patada é boa, vou anotar.
– Se quiser te passo outras – Ela assentiu, irônica.
Tia Cake respirou fundo, procurando calma, tentando não explodir de raiva. Dava pra ver que ela estava claramente P da vida.
– Eu estou me segurando pra não dar os tapas que você merece – Ela cerrou o punho, trêmulo – Os tapas que seu pai nunca te deu e sua mãe sempre evitou.
– Então dá, vamos – Ela deu dois tapinhas rápidos no próprio rosto – Aproveita enquanto eles estão fora! Não é isso que todos vocês sempre quiseram? Me torturar?
Aí, tá vendo? Já começou o chororô. Vou dar uma coroa de rainha do drama, porque ela merece.
– Não basta me torturar mentalmente, tem que agredir meu físico também, né? – Ela aumentou o tom – É por isso que eu fujo dessa casa, por causa de vocês.
– Pelo amor de... – Minha sogra... opa, quero dizer, Tia Flame revirou os olhos – Ninguém nunca te torturou aqui! Pelo contrário, sempre te criamos com todo o amor do mundo, junto com seus irmãos – Ela adorava nos colocar como um trio de irmãos – E mesmo assim, você não vê a Mel nem o Arthur se drogando por aí, causando problema. Não tente nos culpar por um erro seu.
A Mel nem tanto né tia... Todo mundo tá ligado que ela curte uma marijuana de vez em quando.
– Ah, então me desculpe se eu não sou perfeita como o Arthur... Sinto muito se eu não fico em casa a porra do dia inteiro, trancada no quarto, confinada do mundo e cheia de regras, como ele. Essa vida não é pra mim... Aliás, isso não é vida – Essa disse olhando diretamente pra mim, depois voltou a olhar pra tia Flame – E você acha mesmo que sua filha, na pose de paz e amor não comete os erros dela? Iludida...
– Tudo bem mocinha, agora já chega – Disse tia Marcy, perdendo a paciência e pegando-a pelo braço, subindo as escadas.
– Me solta! Vocês não queriam discutir? Então vamos discutir! – Ela disse travando no caminho – Fazem isso porque sabem que eu estou certa, querem calar minha boca, tirar minha liberdade como se fossem donos da razão.
– Liberdade? – Tia Cake a segurou pelo outro braço – Isso é libertinagem. Você age desse jeito porque seus pais, que são praticamente duas crianças, nunca te impuseram regras. Esse é o motivo desse seu desejo mesquinho e egoísta por “liberdade”. Nunca pensa nos outros quando faz essas bobagens.
– Aliás, nunca pensa – Marcy completou – Só faz.
– Só sigo os conselhos da sua sobrinha perfeita – Ela rebateu, com ambos os braços atados, se virando pra Mel – Não você quem diz pra eu me jogar no cosmos e confiar no universo? É o que estou fazendo... Mas quando a merda acontece, sou apenas eu contra uma família inteira! Cadê sua voz agora?
– Talvez se você admitisse seu erro, isto não estaria acontecendo – Ela respondeu com toda a calma do mundo – Você sabe que eu te amo, todos nós, mas assim não tem como te defender.
– Claro, assim como você ama todos os seres humanos – Ela revirou os olhos – Hippies...
– Ela deve amar os animais também, pra dizer que te adora – Provoquei. A vampirinha me olhou com um olhar medonho de “você tá morto”. Desfiz o sorriso.
– Chega mocinha, você está de castigo – Disse Marcy, encerrando a discussão ao arrastá-la escadaria acima, entrar no meu quarto e bater a porta.
Eu podia escutar berros de ambas as vampiras lá dentro do meu quarto, discutindo, enquanto na sala predominava o silêncio. Era um olhando pra cara do outro, sem saber muito o que fazer. Flame, que era uma pilha de nervos, bruscamente abriu a porta e saiu. Jake lançou um olhar para o irmão mais novo, que logo entendeu o recado e foi atrás da mesma. É de praxe: Finn só entende as coisas quando elas são explicitamente escancaradas (Como foi ao descobrir que Rosalie era sua mãe).
Sempre que me contam essa história eu me recuso a acreditar como ele podia ser tão tapado. O que ele tem de antipático, tem de lerdo. Melhor tio ever.
Cake levou as mãos á testa, entrelaçando os dedos nas madeixas de seus cabelos, puxando-os pra trás. Respirava fundo e suspirava, com os olhos fechados, caminhando em direção á varanda, na tentativa de puxar um ar. Era isso que ela fazia quando estava nervosa, porque acreditava que a oxigenação no cérebro ativava suas células temporais, fazendo com que pensasse melhor. Adoro essas teorias malucas de cientista dela.
O barulho dentro do cômodo se cessou, quando Marcy abriu a porta, desceu as escadas e saiu pela porta, assim como Flame e Finn tinham feito minutos antes. O clima era tenso e pesado na sala, então resolvi, equivocadamente, me enfurnar no meu quarto, vulgo paraíso, e só sair de lá quando a poeira tiver abaixado.
O problema (entre tantos) de ter a Violet como irmã, é que eu tenho que dividir o meu quarto com ela. Sim, o meu quarto, não nosso. Aquela endemoniada nunca para em casa e faz séculos que ela não sabe o que é dormir naquela cama. Ela chega lá, abre o guarda roupas, se troca e vai pra rua de novo, portanto o quarto é meu.
E mesmo que o cômodo seja minha propriedade, ela se achou no direito de trancá-lo e dizer para que eu deixasse em paz, mas é claro que eu não ia fazer isso. Mesmo que minhas falanges dos dedos estivessem vermelhas e doendo de tanto bater na porta, eu não iria cessar até que ela fosse aberta.
E como eu sei que minha irmã herdou o pavio-curto da parte loira da família (Cof cof FinnFionnaCakeBeemo cof cof), tinha certeza que ela não iria aguentar a encheção de saco por muito tempo.
– O que você quer, desgraça? – Ela finalmente abriu a porta, com o rosto vermelho de chorar e a maquiagem preta borrada.
– Entrar no meu quarto? – Disse num tom de indagação, como se fosse óbvio.
– Porque você não morre? – Ela deu as costas, deixando aberto.
Entrei e fechei-a em seguida, me sentando na minha cama. Encostei as costas na parede do meu lado do quarto, e ela fez o mesmo, do lado oposto. Ficamos nos encarando por um tempo.
– Que é? – Ela arqueou a sobrancelha
– Sei lá – Imitei seu movimento – Acho que perdi o cu na sua cara.
– Não me provoca, garoto irritante – Ela socou o travesseiro – Me irrita mais uma vez, que você para no hospital e eu na delegacia... Eu sei que você tá metido nisso.
– Nisso o quê? – Perguntei, como se não soubesse do que ela estava falando.
– Eu te odeio ainda mais quando você se faz de sonso – Ela apetou a mão – Como a tia Marcy me achou no bar? Ela nem sabia que ele existia, muito menos que eu frequentava ali. Ela nunca imaginaria que era lá que eu estava, a não ser que alguém tenha dito.
– Tu acha que tudo é culpa minha – Comentei, olhando pra cima – Eu não fico te seguindo pra saber onde você vai, tenho mais o que fazer.
– Pode até não me seguir, mas eu vejo a culpa nos seus olhos, e sua fala de sonso não me engana – Ela insistia e eu suava frio – Quando mente, olha pra cima, morde o lábio e não sabe o que fazer com as mãos.
Não havia mais o que dizer, ela sabia que estava certa, eu não sabia mentir. Então, o que posso fazer? Assumir e ser cruelmente assassinado pela minha irmã, ou morrer como mentiroso? De qualquer maneira, eu estava morto.
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