Notas iniciais
uma cena é capaz de mudar muito na vida de uma semi-deusa.

O delicado nariz da filha de Deimos estava avermelhado, dilatava conforme os espasmos bruscos de seus ombros e dedos, os quais apertavam com força o caule espinhoso da rosa vermelha recém colhida no caminho. Aproximavam-se em passos lentos com o vento trazendo a triste melodia de morte, o céu nublado tornava o cenário ainda mais lúgubre, enquadrando as três figuras negras em uma cena mórbida. A mais alta caminhava a frente, seus olhos faiscavam de descrença, mesmo após identificar o corpo inerte não podia engolir facilmente sobre aquele fato. Era difícil aceitar a ausência de alguém tão importante, faziam anos que uma dor tão aguda não atingia em cheio o peito, não estava sentindo triste de anos, sim, de vidas. Um turbilhão de emoções apossava-se de alguém tão acostumado a fugir de sentir, tornava-a atordoada, tornava-a calada.

Repousou a mão sobre o peito do rapaz, seus olhos rasgados não mais brilhariam com o sorriso tão caloroso, porém, pareciam compor a perfeita imagem de quem estava tendo bons sonhos. Não sabia se agradeceria por isso. Ou se o culpava por tirar-lhe a vontade de lutar por alguma coisa. Também não sabia se isso era relevante. Talvez seja só uma maneira de se desculpar por ter desistido de procura-lo nesses últimos dias. Não sabia como poderia lidar com isso, o difícil era admitir que as pessoas não seriam eternas... Como agradecer por Declan estar finalmente vivendo sua verdadeira aventura...

Olhou para o céu, uma fina garoa começou a cair e Payne teve a impressão que em dia de velório nem os pássaros cantavam nas árvores, nem as folhas secas caíam no chão... Havia um silêncio absoluto lá fora. Uma escuridão no céu, as portas do céu parece abrir-se, para uma última olhada...Uma despedida afinal ! Enquanto aqui dentro, há um murmurar, um chorar... Um gritar! Sem saber o que fazer, sem saber o porquê da morte? Buscava respostas, encarando aquele rosto tão conhecido; seus olhos saudosos sondavam cada pedacinho em busca de um simples mover... Mas é tanto desespero. Há tanto silêncio absoluto no mórbido corpo frio que não pode refrear as grossas lágrimas.

Esvaziou os bolsos. Pôde se encontrar um relógio antigo, moedas, cigarros e uma pequena carta surrada... Eram palavras que de repente em vida, não pode entregar ou proferir... Vai saber se...? Lembranças que ficarão... Em nossas memórias não tinham preço, porém Payne podia sentir o peso que teria de carregar por não ter feito a diferença na vida de alguém tão importante. Só quem perdeu uma pessoa querida saberia dizer a dimensão da dor do inesperado, principalmente se isso já tinha sido repetido tantas vezes para a consciência tentar acostumar-se... Mas um dia poderia acostumar-se a perda?! A Morte?! Seria capaz de entender os domínios de Tânato? De abraçar seus ideais com o peito aliviado?!

Se tivesse tido a oportunidade o que teria dito para ele? O último encontro fora uma rendição, uma aceitação de sentimentos que agora estavam tão intensos que podia sentir-se afogar nas próprias lágrimas. Viu-se resfolegando e apertando as unhas contra a pele imaculada do rapaz, seus olhos ardiam e imploravam para serem fechados, porém tudo o que conseguia fazer era observar-se a si mesma parada diante do corpo de Declan. Um soluço sôfrego escapou dos lábios entreabertos, o seu próprio corpo estava encontrando dificuldades para manter-se vivo, pois podiam sentir a tristeza espalhando-se por suas células como um vírus mortífero.

A presença de Elizabeth funcionou como uma âncora para a realidade, encontrar os cabelos ruivos entrando em seu campo de visão deu-lhe a sensação de estar acordada, porém, não viva. Gentilmente a filha de Zeus tocou-lhe a mão, automaticamente afrouxou os dedos libertando a pele do rapaz de suas garras, transferiu o toque para a delicada mão da outra, apertando-a com força, sentindo os nós de seus dedos perderem totalmente a cor. Não ficou muito tempo perto da filha de Zeus, afastou-se para que a outra aproximasse do falecido filho de Ares, deslizou a ponta dos dedos pela pelagem escura do Lobo inconscientemente, recuando cegamente para trás.

O canto solitário de um Bem-te-vi cortou o silêncio arrepiando o corpo frágil da loira, seus olhos acompanharam o vôo alegre da ave, franzindo a testa, em meio ás lágrimas teimosas. Deixou a rosa vermelha cair na grama esverdeada, o vento afastou-a na direção dos demais túmulos atrás. Os dedos ansiosos acenderam o cigarro e os pulmões puxaram com força a fumaça tóxica do tabaco, o vento levou a expiração na mesma direção da rosa, atraindo o olhar da semi-deusa para aquela direção. Uma figura surgia ao longe para juntar-se ao momento fúnebre, vinha caminhando despreocupadamente, como se o peso da morte não significasse nada em seus largos ombros.

Acendeu os olhos vermelhos, Payne rosnou como um animal ferido, sentindo-se exatamente como um ao perder totalmente o contato com seu lado humano e deixando Pain preencher lhe completamente. Não via nada além de um alvo embaçado pelas lágrimas de dor. Não existia nada além do desejo desenfreado de vingar-se por estar sentindo aquela perda.

Notas finais
Como ela irá terminar?