This is about Payne
2 No templo...
Notas iniciais
Quantas vezes mais seria preciso sentir esta sensação vazia para acostumar-se a ela? Quantas vidas seriam ceifadas ao longo de sua própria? Quantos dias ou anos seriam necessários reconstruir completamente os pedaços que as pessoas foram levando em cada partida? Podia ouvir-se gritar em sua consciência enquanto seu corpo encurvava-se para o ataque, absolutamente surda para qualquer coisa externa. Os olhos brilhando avermelhados eram anormais não apenas para o Mortal, mas, também, para as duas semideusas em frente a ele. Quantas vezes mais teria de escolher um novo caminho para seguir? A mágica de Hécate poderia repetir-se inúmeras vezes na vida de algum protegido? Aquilo seria obra da Deusa para puni-las de alguma forma? Como pode um dia confiar em um Deus? A morte de Declan era a prova de que os filhos não passavam de Armas ou criaturas inconvenientes, Ares não se importava com a morte do filho ou teria feito algo a respeito e, assim como Deimos, preferira ver o filho debater-se contra as amarras da vida.
Sentia-se furiosa, cada membro de seu corpo encontrava-se rígido pronto para mover-se habilmente na direção daquele homem pomposo de terno e as unhas pareciam latejar ao ver aquele sorriso de canto esboçado na direção de Elizabeth. Queria cortar-lhe o canto dos lábios com as próprias mãos... Não apenas queria como iria fazer, o deixaria apavorado e consumido pelos seus demônios internos, assim estes seriam sua única companhia para suportar a dor que iria infligir a ele. Banharia-se no sangue daquele homem, não haveria pudor algum de estar fazendo algo completamente profano, apenas o prazer de ter se vingado.
"A dor alheia nunca é o meio para a própria felicidade. Pode durar pouco, mas nunca será uma felicidade plena. A vingança não é o certo e acho que você entende isso bem demais, me orgulho de você por isso."
Fechou os olhos, inalou o perfume amadeirado de Declan misturado com o Suor pós treino, a ilusão de estar novamente na presença de Declan a fez recuar; o corpo tornou-se novamente ereto e as mãos foram relaxadas, assim como os ombros seguidos pelas pernas e pés. Declan podia ser um bobão, na maioria das vezes é claro, mas sabia dizer as coisas certas para os momentos certos e agora repetia isso em sua memória. Ele deveria sentir-se orgulhoso pela filha de Deimos não estar avançando na jugular do Cafetão filho da puta em sua frente, mas porque ela não podia compartilhar do mesmo sentimento que o irmão?
Abriu a boca para falar uma, duas, três vezes... Porém nenhuma palavra parecia ser suficiente, sentia-se completamente cheia e, ao mesmo tempo, vazia. Imediatamente seus mecanismos de auto-proteção começaram a trabalhar para reestrutura-la, primeiro abriu os olhos para fitar o homem, agora exibiam o pálido esverdeado natural e depois prendeu os cabelos longos em um coque no topo da cabeça, sentindo os dedos tremendo pelo autocontrole em ponto máximo. Olhou para o Lobo e depois para a filha de Zeus, todos ali estavam tensos, então por que ela estava sentindo-se em uma calma repentina tão grande?
Um sorriso estranhamente dócil espalhou-se pelos lábios arroxeados, o brilho dos olhos acompanhou-os tornando-se hipnotizantes. Ela deu um suspiro e fitou o homem, encarou-o aguardando sua reação, o vendo recuar sentiu-se tremendamente satisfeita, apesar de controlada o seu lado semidivino era um animal afinal de contas e o primeiro indicio para uma caçada era o recuar da presa.
– Irei te deixar despedir-se do meu irmão, mas espero que saiba esconder-se bem...- em cada palavra aproximou-se um passo a mais dele até colar ambos os corpos de maneira provocativa, mas não com apelo sexual, apenas em desafio. Encostou os lábios gelados na orelha bronzeada do rapaz, deixando que os lábios ressecados e sem vida roçassem incômodos ali. – Porque eu vou te caçar até no inferno e quando te achar... – gargalhou sem realmente ter humor nenhum e afastou-se, deixando a Aura envolver o homem com seu manto de Pavor. — Vai realmente abraçar o Capeta.
Deu as costas para todos, caminhou sem realmente desligar sua Aura, levou o cigarro até os lábios e o tragou, mesmo que este já tivesse sido consumido pelo nada enquanto a situação desenroscava-se. Payne afastou-se para que o homem pudesse prestar suas condolências, não que acreditasse nas palavras dele, se é que haviam alguma, apenas em respeito ao filho de Ares inerte. Não poderia promover uma carnificina ali e, também, não queria manchar a imagem de superação que ele tinha dela... Precisaria encontrar uma nova maneira de matar aquele indivíduo, um novo motivo... Diferente de vingança.
Olhou para o Lobo e depois para Liz, nenhum deles a fitava de uma maneira já vista antes, sentia-se quase um Alienígena; franziu as sobrancelhas e enrugou o nariz antes de dar de ombros.
– A dor alheia nunca é o meio para a própria felicidade... – falou para ambos, voltando a tragar o cigarro, sentindo uma fina lágrima escorrer pelo rosto.
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