This Must Be Love
8 You're Gonna Need Someone On Your Side.
Notas iniciais
Acontece que ela nunca disse o que eu queria ouvir. O que eu precisava saber. Não. Ela nunca disse. Foram tantas frases contraditórias, dizeres ocultos e atitudes superestimadas. Situações que me levaram ao tumulto de sentimentos, à inconstância de expectativas e às mais doloridas esperanças. Eu busquei tudo o que eu sentia por ela dentro de mim. Tomei o cuidado de separar, minuciosamente, cada sentimento bom que sempre tive em relação a ela e os guardei dentro do meu peito, criando um bloqueio para que nada de ruim a seu respeito me invadisse. No começo, era um sentimento ralo, pequeno, sem grande porte. Mas ele foi crescendo, foi criando vida própria. E percebi que eu tinha que me livrar de certas bagagens, certos pesos desnecessários, para todos os sentimentos se encaixarem perfeitamente. Chegou um momento em que tive de expulsar tudo o que não envolvesse Ali na equação. Abri as portas, escancarei as janelas, arranquei os telhados e deixei meu amor crescer livremente. E foi crescendo, evoluindo, tomando forma, ocupando todo meu ser. E dá certa melancolia me lembrar de algumas fases, pensar em tudo o que foi dito e tudo o que não foi dito. Mas é importante olhar para dentro de nós mesmos e fazer uma análise crua do que fomos e do que queremos. E, de alguma maneira louca e irremediável, ela sempre será tudo o que eu quero para mim.
Na quarta-feira pela manhã, acordei disposta a correr. Mesmo depois de uma noite horrível e exaurida, eu precisava me movimentar, colocar a cabeça no lugar e dissipar toda tensão que eu estava sentindo desde a noite passada. Dentro de algumas horas será a grande competição de natação em Rosewood Day, para qual eu treinei dia e noite para honrar o meu título de capitã da equipe. Uma das coisas que eu mais gostava de fazer na minha vida era nadar. Sempre foi algo divertido e despreocupado de se praticar. Era na água que eu descarregava toda minha insegurança, timidez, raiva e todo tipo de sentimento negativo que habitava dentro de mim. Mas não tenho mais tanta certeza se ainda me sinto desse jeito. Depois que eu voltei da corrida, tomei um café rápido e um banho um tanto quanto demorado. A ideia era fazer com que a água, mais uma vez, lavasse a alma, fazendo com que todo o desânimo que eu sentia escorresse pelo ralo junto com a decepção. Ali me entristeceu seriamente, mas por que será que não consigo levar a mágoa por tanto tempo? Eu estava inerte em meus pensamentos quando me dei conta do quanto eu estava atrasada. Peguei minhas coisas às pressas e saí pela porta principal. Meu carro, por sorte, não estava na garagem, e sim estacionado em frente à minha casa. Destravei as portas e adentrei no carro, logo dando a partida. O universo parecia estar conspirando ao meu favor; não havia transito e os faróis estavam todos verdes, facilitando muito a minha vida. Quando cheguei à escola, a maior parte dos alunos já estavam sentados nas arquibancadas, outros estavam desfilando pelo corredor. Avistei Aria, Spencer e Hanna sentadas em uma das primeiras arquibancadas, elas me notaram e acenaram freneticamente em minha direção. Hanna gritou um “ganhe por nós”. Spencer e Aria a olharam, ao que parecia, repreendendo-a pela sutileza. Sorri agradecida e sussurrei um “onde está Ali?” entre dentes. Elas levantaram as mãos como num gesto de que não sabiam. Fui ao vestiário trocar de roupa, não demorei muito e já estava no meu posto, pronta para a largada. Quando escutei o apito, pulei na água com veemência. Deixei todas as dores de lado e me dediquei a apenas me sair bem, não importando se eu ganharia ou não, eu estava focada somente em me sair bem.
***
– Você estava em sintonia com a água. Foi maravilhoso! – Samara me abordou quando eu estava saindo do vestiário, me abraçando gentilmente. Sua pele possuía uma fragrância gostosa, porém suave. Parecia ser um perfume importado. Eu não a vi em nenhuma das arquibancadas quando passei os olhos por cada uma delas. Deveria ser por não ser essa loira que eu estava procurando. Não tinha botado fé que ela vinha, mas, mesmo assim, tentei dar o meu melhor para o caso de ela estar me assistindo e fiquei feliz ao constatar que ela havia cumprido com o que dissera.
– Eu me saí bem. – Sorri, sentindo meu rosto enrubescer.
– O bastante para ganhar! – Corrigiu, fazendo uma careta de “não seja modesta”. Ela me fitou fixamente, seus olhos possuíam um lindo tom de azul-claro, sereno e calmo. Por uma fração de segundos, me vi mergulhando com o mesmo fervor que pulei na água quando o apito soou no seu olhar doce e gentil. Senti um calor percorrer todo meu corpo ao notar o quão expressivo seus olhos eram. Seu sorriso possuía uma mistura aprazível de doçura e malícia, deixando-a mais atraente.
– Eu acho que tive uma motivação em particular. – Deixei escapar, implorando mentalmente para que eu não tivesse dito isso realmente em voz alta. Aquilo foi um pensamento e era para continuar sendo um. Estudei-a atenta, averiguando sua reação; vi um sorriso doce pairar sobre seus lábios, em contentamento. Senti um círculo vermelho formando-se em cada lado do meu rosto, reação essa que não passou despercebido por ela.
– Bem, se eu fui essa motivação em particular, devo eu te recompensar, certo? – Me fitou sugestiva, com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso desconcertado nos lábios. Soltei um riso nervoso, não sabendo o que exatamente responder. Suas intenções não estavam muito bem claras, estavam? Samara estava, tipo, flertando comigo? Para valer?
– O que a senhorita sugere? – Quis saber lançando um sorriso de diversão em sua direção. Ela me fitou atenta, parecendo estar pensando, e depois sua expressão se iluminou, dando margem a um sorriso amplo.
– Eu acho que você irá gostar. – Disse ela por fim.
Sem mais delongas, encaminhei-me para minha casa e me arrumei de acordo com que ela havia me orientado: roupas confortáveis. Não fazia ideia para onde iríamos ou o que faríamos. Samara havia me dito que viria me pegar às duas e trinta. Não estava checando as horas, por isso, a campainha soou alta, me tirando um grunhido baixo causado pelo susto. Olhei no relógio e eram duas e trinta em ponto. Eu, honestamente, estava adorando toda essa pontualidade e esperava que continuasse assim. Detesto ficar esperando, odeio pessoas atrasadas; elas meio que perdem o charme. Ali sempre fora atrasada, diversas vezes quando eu ia pegá-la para irmos juntas à escola, sempre ficava a esperando por não menos do que dez minutos. Mas, mesmo eu sendo impaciente, nunca me exaltava com sua demora. Samara me lembrava um pouco de Ali, eram os mínimos detalhes como, por exemplo, os olhos que mudavam de tom a todo instante. Depois de alguns longos minutos, minha ânsia de saber para onde estávamos indo foi finalmente cessada. Samara havia me levado para um aquário na Filadélfia que, de acordo com seu relato, era um lugar especial por ser para onde ela costumava fugir quando era mais nova e vivia entre Rosewood e Filadélfia, onde ela viveu durante três anos juntamente dos seus pais quando ainda tinha doze anos. Ela não me forneceu muitos detalhes sobre sua família, mas, ao que me parecia, não era muito próxima deles. Vimos dois golfinhos namorando num canto mais afastado de dentro do aquário, uma lontra manhosa e fofinha que roçaria em nós se pudesse e cavalos marinhos se arrastando um atrás do outro, em fileira. Toda a coisa estava me saindo muito melhor do que eu esperava, e o brilho que meus olhos possuíam parecia fornecer gratidão e contentamento no sorriso de Samara toda vez que olhava para mim. Se antes eu precisava me concentrar para deixar algumas dores de lado, agora não parecia tão difícil assim, ela mantém uma parte de mim calma e sem esforço nenhum. É algo notoriamente natural e despreocupado. Estávamos caminhando quando Samara me pegou desprevenida ao anunciar:
– Quero que fique bem claro que isso não é um encontro! – Na verdade, com esse aviso ela havia deixado transparente. Eu não havia respondido nada por alguns segundos me perguntando se eu tinha entendido tudo errado. De repente, me senti estranha e desconfortável, como se alguém tivesse puxado meu tapete rápido demais. Parei para olhá-la e ela fez o mesmo.
– Oh! – Assenti notoriamente afetada. – Obrigada, por deixar claro. – Voltei a caminhar pelo grande saguão do aquário, deixando-a para trás. Ela riu castamente, parecendo se divertir com a situação. Por três segundos, me senti estúpida por ter confundido algumas coisas.
– Bem, mas amanhã será. – Parei, mas não olhei para trás. De repente, senti sua mão macia e suave pegar a minha com delicadeza, entrelaçando-as. Meu coração palpitou e minhas pernas ficaram fracas. Seu toque me causava uma sensação de segurança e conforto. Tudo o que eu precisava sentir.
Chegamos em casa ao cair da noite, fazia um tempo agradável; o céu estava repleto de estrelas e a lua cheia já estava no seu ápice. Típica noite de verão. Meu celular, que estava dentro da bolsa, apitou me avisando que eu tinha uma nova mensagem. Senti um nó se formar em minha garganta. Tirei o celular da bolsa, destravando a tela: 1 nova mensagem pairava sobre ela. Cliquei em ler, mesmo não querendo saber o que continha na mensagem.
Ai, se meus olhos pudessem ver. –A.
Forcei os olhos para constatar se era aquilo mesmo que estava escrito. Li a mensagem novamente, tentando entender o contexto da frase, mas em vão. Deixei meu celular no modo silencioso, jogando-o dentro da bolsa e ignorando oficialmente –A. Já estava farta dessas mensagens sem pé nem cabeça. Saímos do carro, caminhando em direção à porta principal da minha casa, logo parando quando a alcançamos. Samara me analisou atenta, parecendo perceber minha irritação crescente.
– Algum problema?
– Nenhum. – Respondi de forma monótona.
– Escute, se foi alguma coisa que eu fiz... – Começou parecendo desconcertada e ligeiramente culpada.
– Não! — Apressei-me, pegando sua mão. — Não se preocupe. É só o calor modificando meu humor. — Garanti, elevando meus olhos para o céu. Percebi que sua mão continuava entre as minhas. Fitei-a incisiva, seus olhos estavam no tom mais claro de azul existente, parecendo mar calmo. Abri a porta e puxei-a para vir junto de mim. Sua mão estava quente e macia. Passamos pela porta dupla de vidro automática, indo em direção ao jardim. Apressei meus passos, trazendo Samara comigo. Sua expressão deveria estar com um grande ponto de interrogação. Quando chegamos perto da piscina, soltei sua mão e tirei meus tênis, pulando logo em seguida. A água estava numa temperatura agradável, e notei que minha irritação de minutos atrás já havia desaparecido.
— Vem! — Chamei Samara para entrar também. Ela possuía uma expressão de divertimento em seu semblante, mas deu um passo para trás e me fitou incerta sobre entrar na piscina.
— Eu não acho que seja uma boa ideia. — Ela recusou. Fui para a borda, saindo da piscina e indo para perto dela. Minhas roupas estavam encharcadas e pesadas, dificultando a locomoção.
— Não seja boba. — Insisti, pegando em sua mão. — A água está maravilhosa.
— Eu... Eu não sei nadar. — Falou, parecendo desconcertada. Fitei-a fixamente, lançando-a um olhar desconfiado. Tentei conter um riso, mas fracassei. — Não ria! — Choramingou graciosamente.
— Tudo bem. — Parei de rir, obediente. Soltei sua mão e tirei minha blusa e depois minha calça jeans escura, revelando o sutiã rosa claro que combinava com a calcinha. Ela desceu seus olhos lentamente pelo meu corpo, logo repreendendo-se internamente por isso. Eu ri, dando de ombros.
— Eu vou ficar te observando daqui. — Disse, ameaçando se afastar.
— De jeito nenhum. — Retruquei. — Você vai entrar comigo. — Avisei, puxando-a pela mão. Ela estava resistente, dizendo que aquilo não era uma boa ideia. Quando chegamos na borda, pulei na piscina sem soltar sua mão. Senti um pouco de água entrar em meus pulmões, mas não dei muita importância. Eu ainda segurava a mão de Samara e, quando voltei para superfície, puxei-a junto, ainda desacreditando que ela realmente não soubesse nadar. Quando o fiz, ela tossiu e tentou se equilibrar dentro da água. Ela me fitou ainda sem ar.
— Eu não estava brincando quando disse que não sabia nadar! — Falou, colocando a mão sobre o peito, ligeiramente zangada. Eu ri abertamente, achando-a uma graça brava. Sua blusa parecia ser de um tecido pesado e, agora que estava encharcada, deveria estar incomodando.
— Desculpe. — Pedi com sinceridade. Ela realmente não sabia nadar e eu me senti uma pessoa horrível por quase tê-la machucado. Aproximei-me dela, sentindo minha garganta secar de repente, acrescentando: — Eu vou ensinar você a nadar. Sou uma boa professora. — Sorri com delicadeza. Ela assentiu devagar, logo dando uma risadinha confortável. Samara tirou suas roupas molhadas e jogou-as para fora da piscina. Mostrei para ela como se faz o nado craw, que é o nado mais comum e simples. Sugeri a ela que, quando fosse mergulhar, virasse o pescoço para pegar ar e soltá-lo na água.
— Isso é mais difícil do que pensei. — Resmungou, desistindo e indo para a beirada da piscina. A distância que existia entre suas costas e a parede resumia-se em apenas alguns centímetros. A água batia na altura do seu busto e seu cabelo, que antes estava levemente ondulado nas pontas, agora estava completamente liso. — Sério, Emily! Eu agradeço que queira me ensinar, mas isso é muito para mim. — Suspirou desapontada. Seus dedos brincavam com as ondinhas que se formavam na água causadas pela brisa fresca da noite. Ela parecia distraída com sua nova brincadeira e não percebeu quando eu mergulhei, nadando em sua direção. Cheguei perto o suficiente para notar que seu corpo estava sendo iluminado pela lua, deixando–a com um aspecto diferente.
— Pensei ter visto em você certa persistência. — Pensei alto, olhando incisiva para seus dedos dançando sobre a superfície da água. Pude ver pela minha visão periférica seu olhar caindo sobre mim. Um sorriso doce pairou em seus lábios, fazendo-me de bom grado acrescentar: — Mas eu sou paciente e posso te ensinar quando você quiser. — Sorri, mostrando complacência.
— Vejo persistência em você. — Zombou, inclinando-se na minha direção. — Tenho que retribuir! — Anunciou ela solenemente.
— Eu concordo. — Sua feição pensativa e graciosa fez meu coração saltar. Senti um arrepio cruzar meus braços, um vento fresco soprou no rosto de Samara, fazendo alguns fios loiros voar. Seus lábios se moveram lentamente.
— O que sugere? — Questionou, ligeiramente ansiosa. O vento soprou com mais veemência dessa vez, fazendo seu cheiro ébrio invadir minhas narinas. Cheguei mais perto dela, ficando a apenas três passos de distância de seu corpo. Ela me fitou sugestiva, esperando uma resposta.
— Que tal isto? — Perguntei, inclinando-me em sua direção e beijando seus lábios com suavidade. Levei meu dedo indicador até sua face, afagando-a com delicadeza e logo me afastando. Abri os olhos e os seus ainda estavam fechados. Quando ela os abriu, notei que suas íris azuis estavam escuras. Era incrível a rapidez com que seus olhos alternavam a intensidade de azul.
— Isso parece... Razoável. — Fingiu descaso. Observei-a com atenção.
— Tudo bem. Se você não gostou... — Provoquei, dando as costas para ela. Ela pegou minha mão, afagando as costas com o dedo. Sorri para o ato, mas não me virei de volta para ela. — Vejo presunção em você. — Zombei, batendo a mão livre contra a água morna. Quando fiz menção em me afastar, ela segurou minha mão com mais força e se pôs no meu caminho. Samara me fitou com um sorriso meigo e amável. Como resistir?
— Mas eu não disse que não gostei. — Sussurrou de maneira doce, inclinando-se em minha direção. Nossos olhos se encontraram e senti uma carga elétrica percorrer cada célula existente do meu corpo. Ela se aproximou lentamente, mantendo nossos olhares fixos. Seus lábios tocaram os meus de leve, roçando-os preguiçosamente com o lábio inferior. Fechei os olhos em apreço e nossos corpos se tocaram. Ela pressionou seu corpo contra o meu, me colocando contra a parede numa atitude polida. Sua pele estava fria, enquanto seus lábios pareciam estar em chamas. Coloquei minha mão no seu rosto com delicadeza, trazendo-a para mais perto de mim. Minha língua tocou seu lábio vagarosamente pedindo passagem e logo nossas línguas se chocaram. Impus um ritmo lento, explorando toda extensão da sua boca. Não pude conter um sorriso quando ela mordiscou de leve meu lábio inferior. Seu cheiro fundiu-se a mim. Eu estava entorpecida com o odor que emanava de sua pele. Seu corpo estava encostado no meu, seu cotovelo apoiado sobre meu ombro e sua mão acariciava meu rosto, enquanto seu braço esquerdo encontrava-se enroscado em torno do meu pescoço. Sua língua invadiu minha boca com efervescência, impondo um ritmo mais urgente dessa vez. Não demorou muito e ela se afastou, tentando recuperar o fôlego.
— Eu estou com frio. — Murmurou com seus lábios pressionando os meus gentilmente. Deixei um riso escapar de minha garganta.
— Então temos que entrar. — Digo, inclinando a cabeça para o lado. Saímos da piscina e entramos em casa pingando. Minha pele estava visivelmente arrepiada por conta do vento que soprava lá fora. Quando chegamos à cozinha, Samara me fitou com atenção.
— Eu ainda não sei a sua idade. — Finquei meus olhos em sua feição calma e serena por alguns segundos, pensativa. Eu realmente não havia dito a minha idade para ela. Perguntei-me como isso era possível, afinal, sempre é mencionado esses tipos de detalhes numa conversa, certo? Dei de ombros e soltei um riso abafado.
— Depois. — Falei com um ar de mistério, conduzindo-a para o andar de cima. Quando chegamos ao meu quarto, peguei toalhas secas no armário e entreguei a ela. Samara possuía uma expressão divertida no rosto, parecendo uma menina travessa, mas sendo possível notar a doçura nos seus olhos azul-turquesa. Avisei que ela poderia pegar qualquer roupa no meu armário que a deixasse confortável e que fosse de seu agrado. Ela assentiu agradecida e entrou no banheiro para tomar banho, enquanto eu fui para o da minha mãe. Não demorei muito, pois estava com fome e, assim que terminei, coloquei uma camiseta com os dizeres: BARBIE IS A BITCH que ganhei de Aria no ano passado, e um short minúsculo. No oitavo ano, declaramos o dia quinze de dezembro como o dia oficial das Camisetas Divertidas. Gostávamos de pijamas fofos e, ao mesmo tempo, engraçados para dormir. Até Ben, meu ex-namorado, fazia parte dessa brincadeira, mas apenas entre nós dois. Assim que me vesti, fui para cozinha inspecionar a geladeira e os armários em busca de comida fácil. Antes de ir viajar, minha mãe havia feito uma compra monstro, a maior parte eu não sabia preparar. Mas, para minha sorte, ela havia comprado comida congelada; lasanha é uma das minhas comidas favoritas depois de frango, além de ser fácil e rápido de preparar. Na embalagem, era recomendado deixar a lasanha assando num tempo estimado de sete minutos. Segui todos os passos da embalagem e deixei a lasanha seguir seu processo no forno de micro-ondas. Fazia um bom tempo que eu não cozinhava, e pensei que tivesse perdido a pouca prática que eu tinha. Eu estava comprometida com o que eu estava fazendo, tanto que não havia percebido Samara escorada no batente da entrada da cozinha com os braços cruzados graciosamente, me observado com a mesma feição doce e divertida de minutos atrás, seus olhos num azul-furtivo. Ela vestia uma camiseta do Bob Esponja que eu adorava e shorts jeans apertado. Meus olhos caíram sobre seu corpo delgado e delicado automaticamente, fazendo uma onda de calor subir por cada centímetro do meu ser.
— Fã de Bob Esponja? — Questionou rindo, fingindo não perceber minha falta de sutileza ao apreciá-la. Balancei a cabeça levemente, voltando ao preparo do suco.
— Não. — Ri desconcertada. — Ganhei de uma das minhas melhores amigas. — Expliquei, adoçando o suco novamente.
— Sua amiga tem bom gosto. — Assentiu, enquanto me observava. — Eu era apaixonada por Bob Esponja quando era criança.
— Jura? — Sorri imaginando quão fofa Samara deveria ser quando criança. — Hanna é obcecada por Bob Esponja desde o sexto ano! — Revirei os olhos em desgosto. Ela riu. — Sério, não sei de quem ela gosta mais: Justin Bieber ou Bob Esponja.
— Sério? Justin Bieber? — Fez uma careta. — Quantos anos ela tem? — Deixou um riso em descrença ecoar pela casa.
— A minha idade. — Dei de ombros. Ela me analisou com atenção, parecendo pensativa. Sufoquei um riso. O micro-ondas apitou, avisando que a lasanha já estava no ponto. — Senta aqui. — Apontei com o dedo indicador para a cadeira sob o balcão onde eu estava preparando as coisas. — Eu estou cozinhando para você! — Anunciei empolgada e com um ligeiro orgulho no tom de voz. Ela obedeceu de bom grado, sentando-se de frente para mim.
— Emily, qual é sua idade? — Indagou retoricamente. Levantei os olhos fitando-a e vi seriedade em sua feição. — Eu me esqueci de perguntar quando nos encontramos pela primeira vez. — Pausou, brincando com a borda do pano de prato. — Agora provavelmente é um pouco tarde.
— Me diz a sua. — Pedi. — Dependendo da sua resposta, eu minto. — Brinquei. Ela me fitou, decidindo se cedia ou não.
— Tudo bem. — Desistiu num alento. — Eu tenho vinte e quatro. — Aquela resposta me pegou desprevenida, eu supunha que ela não tivesse mais de dezoito anos. O micro-ondas apitou novamente, lembrando-me que a lasanha ainda estava lá dentro. Retirei a travessa quente com a luva de dentro do forno e a coloquei sobre o balcão. Pude ver pela minha visão periférica que ela me observava atenta, esperando. — Sua vez. Dê a facada. — Zombou, tentando cortar a tensão que havia se formado.
— Somos compatíveis. — Garanti. Ela levantou, vindo até mim. Não me virei para ela, não quis encará-la. Eu estou gostando do que está acontecendo entre nós duas. É o que eu preciso nesse momento: algo sólido e natural. E com Samara é fácil, eu sinto que posso ser eu mesma com ela. Não preciso me esconder em falsa popularidade. Não preciso me reter perto dela como acontece quando estou com Ali. Não preciso fingir que não me importo por medo de estar sendo piegas. Com Samara é algo mais leve. Mas, com Ali, eu estou inteira e não preciso de band-aids, entretanto, preciso me acostumar a usá-los. Senti sua mão deslizar em minha cintura, pairando acima do meu quadril. Uma forte onda de excitação se alojou em meu ventre. Ela notou o efeito que seu toque teve sobre mim e se afastou, vindo parar ao meu lado.
— Dezessete? — Chutou, parecendo implorar para que seu chute estivesse errado e eu fosse mais velha. Neguei com a cabeça, tentando conter um riso tenso. — Emily. Por favor! — Choramingou. — Diz. Eu já disse o estrago já está feito. É um pouco tarde para eu pensar em não me envolver. — Suspirou afetada.
— Dezesseis. — Murmurei, me afastando para pegar os talheres na gaveta. Ela estava escorada sobre o balcão encarando o nada. Um biquinho meigo formou-se em seus lábios. — Mas o estrago já está feito, certo? — Provoquei, pegando os pratos.
— Talvez não. — Riu. Seus olhos estavam fixos no balcão enquanto seus dedos tocavam de leve os talheres.
— Eu creio que sim. — Discordei, aproximando-me dela. — Veja. — Apontei para minhas roupas que moldavam seu corpo perfeitamente e para a comida sobre o balcão. — Você está usando minhas roupas e eu cozinhei para você. — Disse num tom óbvio. — Sabe o que isso significa? — Ela balançou a cabeça negando, com um sorriso divertido nos lábios. — Que temos que nos casar! — Sussurrei me inclinando em sua direção, fingindo seriedade. Ela explodiu numa gargalhada gostosa, sua mão pousou gentilmente sobre a minha, fazendo uma corrente elétrica correr pelo meu corpo. Samara se endireitou e veio para perto de mim, colocando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. Eu podia sentir sua respiração quente e preguiçosa bater contra minha face de tão próximo que seu rosto estava do meu.
— Você é diferente. — Murmurou ela contra os meus lábios num meio sorriso. Seus braços entornaram minha cintura, pressionando meu corpo delicadamente contra o seu. Ela roçou seus lábios nos meus, logo beijando-me calmamente. Seus lábios eram doces como mel, porém ardentes como brasa. — Eu gosto do diferente.
Notas finais
Até o próximo. ♥ xx ;**
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