This Must Be Love
9 The Desperate Kingdom Of Love.
Notas iniciais
Apesar de eu ter uma agenda lotada, consigo arrumar tempo para fazer coisas surpreendes. As pessoas acham que me conhecem, mas é aí que elas se enganam. Ninguém realmente sabe nada sobre mim, nem mesmo os meus pais. E quanto tempo é preciso para a verdade vir à tona? Quanto estrago é necessário ser feito para que coisas boas venham a se tornar, de fato, boas? Não se deixe enganar, a verdade nem sempre é formidável; quase sempre ela é crua. E a realidade? Alguém se atreve a realmente vivê-la? Na maioria das vezes, ela é constituída por muros e cercas e possui sua própria essência de mentiras e ilusões óticas. Sabe aquela linda e maravilhosa casa vitoriana? Com o jardim bem cuidado, as flores regadas e bem aperfeiçoadas, as frutas aprazíveis e suculentas? Isso tudo é por fora, porque, por dentro, elas estão podres. As flores são espinhosas e venenosas. O jardim é uma selva, com todos os tipos de cobras e águias possíveis. É assim que acontece atrás das fachadas de Rosewood, onde as piscinas brilham nos quintais e o ar cheira a Chanel número cinco: nada é realmente o que parece. Talvez, um dia, aprendamos a enfrentar a realidade da maneira sórdida e escassa que ela costuma ser, mas, até lá, acredite em mim, você sempre estará melhor com uma mentira muito boa.
O tempo é algo tão irrelevante. Dependendo da situação, é notável que as semanas passem como dias, meses como semanas e anos como meses. Num dia você está no colo da sua mãe, implorando internamente para que ela te deixe andar com suas próprias pernas. No outro, você já não quer mais saber de andar sozinha. Você precisa de alguém para te acompanhar, seja para ir à manicure ou até mesmo ao mercado. E é aí que entram as Melhores Amigas Para Sempre! Quando você é popular e fabulosa, as pessoas fazem qualquer coisa só para carregar seus livros ou jogar seu lixo fora. Mas é claro que isso não é para qualquer um; ser popular e fabulosa é algo tipo como um dom. Se você é um perdedor, a probabilidade de você continuar sendo um perdedor para o resto da sua vida é de noventa e nove por cento. A coisa que eu mais gosto em Rosewood é o fato de eu ser a garota mais popular e invejada da cidade. Mas, cuidado, tudo tem o seu preço. A popularidade te traz diversos benefícios, assim como malefícios. E quer saber qual é o meu malefício? –A. As insinuações que são feitas a respeito de saber dos meus segredos mais íntimos e recônditos são constantes e incessantes, mas ainda não compreendi qual é o propósito disso tudo, já que são apenas avisos dizendo que sabe de tudo. Mas, se assim for, por que ainda não usou o que sabe contra mim? Se essa pessoa que tanto me odeia sabe de coisas que ninguém sabe a respeito de mim e das garotas, por que só fica nas ameaças e provocações? Isso prova que esse –A não sabe de coisa nenhuma, e que é apenas um perdedor imbecil que quer chamar minha atenção a qualquer custo.
– Onde está Aria? – Questionou Spencer, olhando ao redor. Estávamos sentadas na mesinha que ficava em frente à Rosewood Day. Era a pausa para a recreação. Hanna deu de ombros, não se importando em responder que não sabia e Emily não estava prestando atenção em nada que se passava ao seu redor por estar inerte em seu celular. Por um segundo, me perguntei o que estava ocorrendo com Em. Fazia tempos que não conversávamos adequadamente, duas semanas e meia, para ser mais exata. E eu não sou a única que Emily vem evitando, por assim se dizer, mas as outras garotas também, exceto por Hanna, que conversa com Em o tempo todo. A ligação que as duas haviam criado uma com a outra me incomodava algumas vezes. Perguntei a Emily se ela havia recebido alguma outra mensagem de –A e ela respondeu afirmativamente, me mostrando o que estava escrito na mensagem. Se os meus olhos pudessem ver. Seria isso apenas uma metáfora insignificante ou aquilo era literal? –A estava vigiando Em ou outro alguém o estava fazendo e apenas repassando o que via? Aquilo estava confuso.
– Ali? – Chamou Spence, me trazendo de volta para a realidade. Fitei-a por um segundo, me recompondo rapidamente.
– Sim?
– Você faz alguma ideia de onde Aria possa estar? – Indagou, parecendo impaciente. – Ela está com meu livro de economia e eu preciso dele, tipo, agora! – Choramingou, pegando seu celular do bolso. Eu ri com toda a situação. Spencer parecia uma desesperada.
– Procure na sala de inglês avançado. – Dei a dica. Ela me fitou, tentando processar o que eu havia acabado de dizer. – Ela deve estar confraternizando com o Sr. Fitz. – Deixei escapar um riso cruel com esse meu comentário maldoso. Hanna me encarou, parecendo estar terrivelmente confusa. Dei de ombros, ignorando a lerdeza com que seu cérebro trabalhava.
– Lá vou eu novamente... – Spencer disse, levantando-se e caminhando para longe de nós. Hanna estava inerte em sua revista Vogue e Emily não estava mais mexendo em seu celular, mas olhava fixamente para as árvores a sua frente. Coloquei minha mão sobre a sua suavemente. Ela automaticamente me fitou, seus olhos caindo para minha mão sobre a sua e voltando seu olhar para mim segundos mais tarde. Sorri docemente para ela, que, em contrapartida, não esboçou expressão alguma. Estreitei meus olhos, estudando-a.
– Qual é o problema com você? – Questionei num tom calmo e suave. Ela me fitou, parecendo calcular a medida de suas palavras.
– O que te faz pensar que há algum problema comigo? – Emily desviou seus olhos dos meus, fingindo se interessar pelo que Hanna estava lendo. Eu estava em dúvida se era apenas uma interpretação precipitada e incabível ou se, de fato, Emily estava me desprezando. Respirei fundo, tentando não perder minha paciência com tamanha petulância. Minha mão ainda repousava gentilmente sobre a sua e, num gesto de carinho, alisei-a com o polegar. Sua expressão se suavizou com o ato.
– As pessoas sofrem algumas mudanças, certo? – Encarei-a incisiva. Ela não se manifestou, apenas esperou meu acréscimo. – Tenho a impressão de que, finalmente, você esteja passando por algumas delas. – Expliquei com seriedade. Eu não havia ficado chocada com a não-mudança de Emily durante os longos anos que eu a conheço. Mas, mesmo que algumas mudanças venham a ela, Emily sempre será a menina doce e gentil. Aquela que tem o coração bobo e condescendente e isso será algo que nunca mudará, pois faz parte de sua essência de menina benevolente. Tirei minha mão com certa rapidez de cima da sua e ela me fitou desapontada. Eu não sabia o que estava havendo com ela e minha paciência é limitada até mesmo com Emily. Ela estava com um aspecto diferente e aquilo estava me irritando.
– Emily, eu posso falar com você? – Chamou uma voz masculina atrás dela. Olhei por cima de seu ombro, constatando que se tratava de Ben, seu namorado imbecil.
– Fala. – Disse num tom monótono. Ele se aproximou, ficando próximo de nós duas. Hanna, que estava presa em seu mundo paralelo, levantou os olhos, encarando-o de maneira nada amistosa.
– A sós. – Murmurou ele sem cordialidade. Hanna abaixou sua revista, jogando-a sobre a mesa de forma abrupta.
– Ah! – Um falso lamento escapou de seus lábios. – Receio que isso não será possível. – Disse ela, fingindo desaponto.
– Fique fora disso, Barbie Sean. – Sorriu com desdém para Hanna. Aquilo estava confuso. O que houve entre os três? Olhei para Emily para tentar entender o que estava acontecendo, mas seu olhar estava vazio.
– Ei, abaixe sua crista! – Ordenei com empáfia, levantando-me com tanta rapidez que me deu uma leve tontura por breves segundos. Ele se voltou para mim parecendo surpreso. Mesmo que eu não estivesse compreendendo o que se passava a minha volta, não podia deixar que esse imbecil falasse desse jeito com uma das minhas abelhas. Eu sou a única que pode usar esse tom com elas. Percebi um sorriso contente se formando nos lábios de Hanna com minha defensoria a seu favor. Ben voltou a encarar Emily novamente. Seu olhar possuía uma mistura de frieza e deboche.
– Eu sei por que você terminou comigo. – Anunciou ele, retoricamente. Parei surpresa. Desde quando Em terminou com Ben? Seria esse o motivo de ela estar tão distante e gélida? Emily sempre teve o dom de furar algumas barreiras que eu impunha para que ninguém soubesse o que eu estava sentindo, e comigo é quase a mesma coisa. Emily é uma boa mentirosa, mas eu sei quando ela precisa de mim. De um jeito cafona e piegas, ela me chama, silenciosamente. Eu sinto. Meu estômago se contorceu em contentamento. Sim, eu fiquei feliz em saber que Em não estava mais com Ben. Agora seria mais fácil. Não que Ben fosse um problema, eu poderia tê-lo tirado do meu caminho há muito tempo, mas ainda não era o momento. Olhei-o por um segundo, não escondendo minha felicidade com a notícia urgente. Seu olhar possuía um brilho decadente. Emily o fitou por um momento, analisando-o sem hesitar. Ben estava blefando, ele não sabia o porquê do término, mas ele estava jogando.
– Sério, Ben? – Entonou o tom de voz, fingindo surpresa. Ele assentiu, com um sorriso ambíguo. Ela o encarou, parecendo não dar a mínima se ele sabia ou não. – Olha só a minha cara de preocupada. – Retrucou ela, sua feição álgida era puro desdém para com ele. Um sorriso orgulhoso brotou em meus lábios.
– Eu sei do seu segredo.
– Se você sabe, então não é mais segredo. – Ben a fitou frustrado, parecendo perplexo com tamanha ousadia. Hanna pareceu satisfeita.
– Você sabe que eu posso contar para todo mundo, não sabe? – Ameaçou ele, chegando mais perto dela. Emily permaneceu imóvel, fitando-o nada afetada.
– Então faça isso. – Sorri desafiando-o. Hanna me encarou com uma incógnita transparente em sua feição. – Poupe Emily do trabalho. É para isso que os escravos servem, certo? Mas, cuidado, Ben. Você sabe o que acontece com pessoas que sabem e falam demais, não é mesmo? – Lancei um sorriso ameaçador e doentio para ele. Eu não estava blefando e não estava para brincadeiras. Se Ben ousar entrar no meu caminho, não hesitarei em simplesmente dizimá-lo da face da terra. Tenho certeza de que ninguém sentirá falta de sua existência insignificante. Ele pareceu entender o recado e recuou, parecendo aturdido. Pude ver Emily relaxando os ombros, ela não disse nada, apenas levantou-se e caminhou para dentro da escola. Hanna me perguntou do que Ben sabia, e eu apenas disse que não era nada para se preocupar.
Quando deu três e quinze, o sinal tocou anunciando o final das aulas. Estávamos Aria e eu saindo da aula da Sra. Montgomery quando encontramos Spencer e Hanna conversando próximas ao armário que ficava rente à porta da sala de aula. Notei que Emily não estava com elas. Hanna tagarelava algo sobre um grupo que Sean, seu namorado, fazia parte. Ela parecia estar indignada, mas não dei muita importância em prestar atenção. Eu ainda acredito fielmente na hipótese de ele ser gay.
– Onde está Emily? – Questionei impaciente. Hanna parou com seu monólogo e me encarou por alguns instantes. Senti-me estranhamente desconfortável com seu olhar que parecia me atravessar, como se ela soubesse de algum segredo meu. Aquele era o olhar que eu costumava lançar para todas as pessoas.
– Ela já foi para casa. – Respondeu Spencer, juntando as mãos castamente. – A treinadora Fulton cancelou o treino de hoje por causa de um desentendimento que Em teve com uma das meninas da equipe. – Explicou ao ver minha feição de confusão. Por um momento, fiquei preocupada. Emily não era uma garota briguenta e nem encrenqueira. Pelo contrário, ela odiava brigas e fazia de tudo para permanecer o mais longe possível de uma.
– Tenho certeza de que não fora Em que começou a briga. – Aria garantiu, parecendo ler meus pensamentos. Hanna assentiu solenemente.
– Quem é a vadia? – Direcionei a pergunta à Hanna, porque se alguém continha essa informação, esse alguém era Hanna. Mas ela levantou os ombros num gesto de quem não sabia.
– Eu não tive aula com ela hoje, só Spencer. – Olhei para Spencer, questionando-a silenciosamente.
– Não sei, Em não me disse. – Ela fez um biquinho, deixando transparecer sua melancolia. – Eu estava pensando em darmos uma passada na casa dela. O que acha? – Elas me fitaram esperando pela minha aprovação. Eu queria ir à casa de Em vê-la, mas sozinha. As garotas indo também apenas atrapalhariam meus planos. Eu precisava de um momento a sós com Emily. Eu não podia agir da forma que eu ajo com ela na frente das outras garotas. Ela é a única que pode ver o meu lado mais suave. Eu não dei a resposta de imediato e isso causou certo estranhamento da parte de Spencer e Aria. Hanna me olhava desconfiada e com um sorrisinho de quem podia ver minhas intenções claramente, mas ignorei, afinal, Hanna é apenas uma cópia nada perfeita e fabulosa de mim.
– Bem, eu não posso. Tenho um compromisso agora. – Menti. Aria e Spencer assentiram, tristes.
– Então, nos vemos amanhã? – Hanna indagou, dessa vez sem a feição ameaçadora, apenas um olhar gentil e suave. Forcei um sorriso, assentindo. Fiquei observando enquanto Aria entrava no carro de Spencer e Hanna entrava no seu, logo ambas ligando o motor e dando a partida. Entrei no meu carro e segui para minha casa. Eu não tinha nenhum compromisso hoje, menti porque não estou com paciência para ficar em grupo hoje.
Uma vez em casa, tomei banho e fiquei pronta para ir à casa de Emily. As meninas com certeza não iriam ficar tanto tempo lá, já que eu não estava. Depois que terminei de me arrumar, escutei um barulho vindo do corredor e fui verificar o que era. Jason estava limpando seu quarto, tirando tudo o que não prestava e colocando no meio do corredor para depois ir para o lixo. Depois que peguei Jason e Emily se beijando no quarto dele, parecia que ele havia mudado. Não completamente, mas seus olhos azuis, da mesma cor dos meus, estavam mais serenos e suaves, sem contar que fazia uma semana que eu não o via bêbado ou drogado. Encostei-me no batente da porta do meu quarto, cruzando os braços sob o peito. Avistei-o saindo de seu quarto com mais uma caixa em mãos e pondo-a no corredor fazendo companhia às outras. Sua camisa polo rosa que eu adorava e sua bermuda jeans estavam levemente amassadas, mas em perfeito estado. Por ele estar fazendo uma limpeza em seu quarto, deveria estar todo sujo e suado, mas não, estava limpo e cheirando à sabonete de bebê. Jason sempre foi muito vaidoso, até para limpar alguma coisa ele está bem vestido e cheiroso. Eu estava prestes a provocá-lo quando ele me surpreendeu.
– Ei, Ali. – Cumprimentou-me amistoso, dando-me um beijo casto no rosto. Arregalei os olhos, chocada com o ato. Há anos que Jason não fazia isso. – Eu estive pensando se você não quer sair comigo amanhã. – Começou ligeiramente sem jeito. Tudo bem, aquilo estava começando a ficar estranho. Ele se abaixou para revirar uma das caixas, continuando. – Sabe, para tomarmos um sorvete.
– O que diabos há com você? – Questionei incrédula, minha voz soando mais alta do que eu pretendia. Ele me fitou rindo.
– Eu apenas quero passar um tempo com você. Faz tempo que não fazemos isso. – Pausou, levantando-se e encarando a flanela que continha em sua mão. – Desde que...
– Não! – Cortei-o abruptamente. – Não vá por aí. Não traga à tona uma coisa que eu já fiz questão de apagar. Aquilo nunca existiu, nunca aconteceu. Não pense em tocar nesse assunto, nunca mais. – Exasperei, ainda com os braços cruzados. Seus lábios estavam entreabertos, como se ele quisesse dizer alguma coisa, mas as palavras pareciam não querer sair. – Fui clara, Jason?
– Desculpe. – Pediu, encarando a flanela novamente e limpando suas mãos. – Eu só quero consertar algumas coisas.– Disse, desaparecendo dentro do seu quarto, mas logo voltando com outra caixa em mãos, mas dessa vez maior, e jogando-a no chão.
– Quem é você e o que você fez com meu irmão? – Indaguei retoricamente quando ele estava prestes a entrar no quarto novamente. Ele riu e depois se virou para mim.
– Chega um ponto na nossa vida que temos que amadurecer, sabe? Deixar algumas coisas estúpidas de lado e assumir responsabilidades. – Jason me encarava com seriedade. Nunca o vi tão sóbrio e delicado. Alguma coisa tinha ali, ele nunca seria amistoso comigo. Fitei-o desconfiada e ele acrescentou: – As pessoas crescem, Ali. Elas evoluem.
– Tanto faz. – Dei de ombros, fingindo não me importar. Jason deixou um riso baixo escapar. Ele deveria saber que aquela atitude significou muito para mim.
– Te pego amanhã depois das aulas. – Eu assenti, correndo a mão pelo meu cabelo louro brilhante. Jason desapareceu no quarto novamente e eu continuei ali, parada. Uma das caixas que estavam no chão me chamou a atenção, verifiquei se Jason estava vindo e, quando constatei que não, me inclinei tentando ver o que tinha na caixa. Havia várias fitas aparentemente usadas dentro dela. Abaixei-me para olhar direito e, na lateral da caixa, estava escrito alguma coisa que não consegui ler de imediato. Virei-a para conseguir ler com mais clareza: Jenna Marshall e Toby Cavanaugh. Deixei um grunhido baixo escapar da minha boca. Provavelmente Jason iria jogar essas fitas fora, mas tinha muitas caixas no corredor e com certeza ele não iria reparar se sumisse uma. Verifiquei o que tinha nas outras caixas e não tinha nada alarmante. Peguei a caixa de Jenna e Toby e a escondi rapidamente em um dos meus esconderijos secretos do meu quarto. Quando saí do meu quarto, Jason ainda estava dentro do dele mexendo em suas pilhas de CDs. Desci as escadas e me encaminhei para a porta principal, saindo e caminhando para onde meu carro estava. Assim que entrei e fechei a porta, joguei minha bolsa no banco do passageiro e, antes que eu pudesse ligar o carro e dar a partida, resolvi tirar meu celular de dentro da bolsa e mandar uma mensagem para Em perguntando se as meninas ainda estavam lá. Em menos de um minuto a resposta chegou com um simples não. Joguei o celular no banco e liguei o carro dando a partida. O tempo parecia que ia sofrer uma reviravolta. A noite havia acabado de assumir seu posto no céu resplandecente que estava quase sem estrelas e suas nuvens negras pareciam estar carregadas. As ruas estavam limpas, sem carro algum nas pistas, o que facilitou bastante a minha rapidez em chegar à casa de Em. A porta principal de sua casa estava destrancada, o que eu achei estranho, já que a porta não fica destrancada nem quando sua mãe está em casa. Entrei sem fazer barulho e Emily estava na cozinha arrumando o armário de costas para mim. Não pude conter um sorriso com a cena. Emily estava ansiosa; ela sempre teve essa compulsão de organizar as coisas quando estava nervosa ou impaciente. Eu conheço minha garota tão bem. Espere, eu acabei de dizer “minha garota”? Isso está ficando perigoso. Desloquei-me de onde estava e fui para perto de Emily; cobri seus olhos com minhas mãos. Pude sentir seu sorriso, mesmo não podendo vê-lo. Ela não parou para pensar em quem poderia ser.
– Hmm... Samara? – Franzi o cenho, confusa. Quem diabos é Samara?
– Quem é Samara? – Exigi saber com o tom de voz grave, tirando minhas mãos de seus olhos mais que depressa. Emily se virou, me fitando por alguns segundos sem dizer nada. Seus lábios se abriram ameaçando deixar algumas palavras vazarem, mas, se ela as pronunciou, foi inaudível, pois não as escutei.
– Oh, é você. – Suas palavras soaram como um lamento, o que causou uma grande decepção em mim. – Desculpe, eu não sabia que você viria. – Começou, parecendo desconcertada. Eu podia sentir a frieza com que meus olhos a fitavam, o que pareceu abalá-la. – As meninas disseram que você tinha um compromisso, presumi que fosse com algum cara mais velho. – Suspirou tristonha. Relaxei meus ombros, estudando-a. Toda a frieza desapareceu em minha feição, causando certo contentamento nela. Emily tinha esse domínio sobre mim. Ela possuía o meu lado puro e calmo.
– Eu não tinha compromisso nenhum. – Comecei, aproximando-me dela. – Eu menti, porque queria um momento a sós com você. – Ela me fitou curiosa, tentando detectar se eu estava sendo sincera.
– Por quê?
– Porque acho que precisamos conversar. – Falei solenemente. Emily estreitou os olhos, me estudando. Aproximei-me ainda mais dela, ficando a apenas poucos centímetros de distância de seu corpo. Encostei Emily delicadamente no armário. Meus lábios foram parar próximos ao seu ouvido para que eu pudesse sussurrar: – Mas depois. Agora eu preciso de outra coisa. – Senti sua pele se arrepiar com o toque de nossos corpos. Seus cabelos possuíam um cheiro inebriante, o mesmo valia para sua pele macia e delicada. Desci com meus lábios para seu pescoço, sugando-o levemente. Emily deixou seu corpo relaxar e eu aproveitei para beijá-la na boca. O beijo começou lento e calmo, suas mãos foram parar na minha nuca, aprofundando o beijo. Emily tinha certa urgência com seus lábios nos meus, como se também tivesse sentido falta disso. Quando o ar tornou-se um problema, nos afastamos e não pude deixar de mordiscar seu lábio inferior com força, ouvindo um gemido de dor da sua parte. Meus lábios foram rapidamente para seu ouvido sussurrar um “desculpe” ofegante. Fazia apenas algumas semanas que eu quase não tive muito contato com ela, mas pareceram meses. Eu precisava dela, precisava tê-la, mas ainda não era hora. Que nome se dá para o que temos? Poderia chamá-lo apenas de contato físico, se fosse verdade, mas não é só isso. O que temos é algo mais íntimo, profundo e... Puro.
– Sabe o que eu acabei de descobrir? – Questionou, com seus lábios contra o meu pescoço. Balancei a cabeça, negando. Fitei-a, seus cabelos estavam cobrindo seu rosto, coloquei-os para trás numa atitude polida, beijando seus lábios suavemente
– Me diz o que você descobriu. – Pedi, roçando meus lábios nos seus, ato esse que a fez sugar meu lábio inferior com vontade.
– Que meu coração ainda quer você e, provavelmente, será assim pelo resto da minha vida.
– Em... – Tentei falar, mas ela colocou seu dedo indicador em meus lábios, impedindo-me.
– Deixe-me apenas dizer. – Pediu. – Eu amo você. Amo tanto que chega a doer, sabe? Porque eu sei que não é recíproco. Eu sei que amanhã você nem lembrará que isso aconteceu, porque estará ocupada demais flertando com Ian Thomas ou agarrando os garotos da fraternidade. – Ela parou para tomar ar. Afastei-me dela, fitando-a atentamente. Emily deixara transparecer toda sua mágoa, dor e sinceridade em suas palavras e feição. Ian Thomas? Eu nunca flertei com Ian Thomas. Ele sempre foi charmoso e impecável, mas nunca me chamou a atenção a ponto de flertar com ele. Ele era um dos amigos nojentos de Jason que ficava filmando as pessoas fazendo coisas que não deveriam quando ainda estava no ensino médio. Emily tomou fôlego para prosseguir. – Eu amo você, Alison. Deus! Como eu amo. – Suspirou olhando para cima, frustrada. – Isso nunca irá mudar, não importa o quanto eu tente ou o quanto eu lute. O que eu sinto é mais forte do que a minha força física. – Suas próximas palavras não irão me agradar. O caminho que ela tomou foi decisivo. É oficial. – Queria te excluir da minha vida, mas não tenho coragem. Por alguma razão eu te amo e me odeio por isto, porque você não me ama nem um pouco.Esse amor me resume a nada. Meu coração está carregado de esperanças e ilusões de que você possa, um dia, vir a me amar da mesma forma que eu te amo. E sabe desde quando essas ilusões e esperanças vêm se alimentando no meu coração? – Indagou, seus olhos já estavam lacrimejando. Tinha um bolo gigante entalado na minha garganta. Meus olhos ardiam e, se eu ousasse piscar, as lágrimas que eu estivera aprisionando se libertariam com força total. Nunca ninguém me disse coisas como essas em toda minha vida. Nunca ninguém me amou tanto quanto Emily. Não me movi nem respondi, então ela prosseguiu. – Desde quando tínhamos treze anos. Eu sempre desejei internamente que você percebesse que fomos feitas uma para outra, sabe, como almas gêmeas. – Pausou, rindo de si mesma como se, por muitos anos, tivesse sido ridícula e só agora percebera isso. – Mas eu evoluí e, nessa evolução, eu tive que aceitar que isso não vai acontecer. E eu aceito, porque a vida passa e o que foi bonito fica para sempre, mesmo que o tempo tente apagar. – Sua feição melancólica tomou seriedade e decisão. Olhei-a com atenção e percebi que ela não estava chorando, mas seus olhos estavam brilhantes. Deveriam estar dilatados pelo peso de suas próprias palavras. Senti seus braços envolverem meu pescoço. Tinha terminado então. Mesmo que ela não tivesse dito com todas as letras, acabou. É possível sentir quando termina, e eu senti. Terminou algo que nem havia começado e que nem sólido e real era, por assim dizer. Mas isso não impediu de uma lágrima silenciosa escorrer pelo meu rosto. Eu gostaria de poder reconfortá-la, dizer que tudo ficaria bem porque ela estava comigo, mas eu não conseguia. As palavras não saíam, elas ficaram entaladas na garganta. Tudo o que eu sentia era tristeza, culpa e revolta. Sentimentos esses que nunca foram tão massacrantes na minha vida. Nunca, nem em cem anos, eu seria capaz de esquecer suas próximas palavras. Eu amo você.
Notas finais
Esse capítulo seria a descoberta da relação Samily tanto pelo ponto de vista das meninas quanto pelo de Alison, mas o ponto de vista das meninas seria a Alison ou Em narrando. Mas aconteceu de eu mudar de ideia ao longo do processo da escrita por motivos de não ser a hora certa. Enfim, peço desculpas. E vou tentar não demorar para postar os capítulos, mas eu sempre demoro, porque eles são longos. Chega de monólogo por hoje, conversem comigo nas reviews e me digam o que acharam desse capítulo. A opinião de vocês conta MUITO para mim. xx ♥ ;**
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