This Must Be Love

20 You Gotta Go There To Come Back.


Notas iniciais
Hi, everyone! :D
Trouxe Alison para vocês e outro capítulo enorme também. Esse, definitivamente, é o meu favorito até agora! Sem mais delongas, espero que gostem. (:

Na quinta-feira pela manhã, enquanto a cor do céu mudava sua tonalidade de azul lentamente, eu fechava minha jaqueta de corrida verde Puma e ajustava o volume da música no meu iPhone, enquanto esperava Hanna aparecer para fazermos caminhada. Depois que fomos ao Shopping King James ontem, combinamos de ir a Pedreira Homem Flutuante antes de irmos para escola. Eu estava mantendo meus olhos atentos em Hanna, por ela se achar numa zona de problemas. Um bipe baixo e abafado chamou minha atenção, pensei que fosse meu celular, mas não era. Quase no mesmo instante, houve um farfalhar na direção do quintal dos Hastings, fazendo com que eu me virasse imediatamente para olhar a origem do barulho. Um esquilo-cinzento com o ventre branco e calda felpuda saiu dentre os arbustos, carregando uma castanha. Balancei a cabeça vagamente, logo iniciando uma série de alongamentos apoiada no grande bordo do jardim da frente. Em seguida, desisti de esperar por Hanna e comecei a correr pela calçada enquanto ouvia Placebo no meu iPhone novinho em folha. Depois que comprei outro iPhone, eu podia contar nos dedos as pessoas para quem eu tinha dado meu novo número e isso resultou no que eu esperava: não receber mais ligações nem mensagens anônimas e sinistras. Mas eu estava recebendo algumas mensagens de Emily. Como a que acabara de chegar.

O que acha de assistirmos um filme amanhã? Por favor, diga que sim.

Eu parei em frente ao arbusto da casa de Mona Wanderwaal, colocando as mãos nos joelhos para tomar ar. Emily estava tentando fortemente ter minha atenção depois que passei a dar um gelo nela. Era no mínimo divertido sentir seu desespero, mas ao mesmo tempo triste. Eu não gostava de tratá-la com indiferença, porque sempre me sentia mal depois, mas eu sempre arrumava um jeito de me livrar do sentimento de culpa. Alison DiLaurentis não sente culpa. Houve outro ruído e me virei com a súbita sensação de que estava sendo vigiada, mas não havia ninguém. A rua estava completamente vazia e silenciosa. Coloquei o iPhone de volta no bolso e aumentei o volume da música, decidindo não responder Emily.

Depois de quase sete músicas, virei na solitária e isolada rua de Hanna no topo de Monte Kale, que ficava fora de Rosewood. Ele era fortemente arborizado e não tinha a coisa de suburbanos todo-mundo-sabe-da-vida-de-todo-mundo, como era no meu bairro ou nos outros bairros de Rosewood. Aproximei-me da porta da frente da casa de Hanna e toquei a campainha. A abertura da melodia Fifth Beethoven tocou, porém tudo estava quieto. Mas eu sabia que Hanna estava em casa. Virei para trás e olhei para o enorme quintal da frente de Hanna, elegantemente bem cuidado. A porta fez um barulho, fazendo com que eu voltasse minha atenção para frente. Hanna abriu a porta e seu cabelo louro claro estava despenteado, seus olhos vermelhos e havia migalhas laranja brilhante de Doritos em sua blusa. Olhei para trás dela, avistando embalagens na mesa de café, depois olhei fixamente para as migalhas e por um instante me perguntei por que ela estava ingerindo tantas calorias. Então me ocorreu, ela estava fazendo de novo.

Ei. — Hanna disse rigidamente, me deixando entrar e tocando as teclas do alarme, o qual estava apitado. Sempre que a mãe de Hanna não estava em casa, ela mandava Hanna manter o alarme ligado o tempo todo.

Qual é o problema? — Perguntei, sentando-me de frente para o balcão.

Nada. — Ela respondeu sem me olhar nos olhos. Hanna ainda estava de pijamas moletom e não parecia que estava com ânimo para ir até a pedreira.

Você falou com Aria? — Tornei, encarando-a incisiva.

Não. — Sua cabeça virou bruscamente para o outro lado, parecendo emburrada. — Eu não tenho nada para falar com essa traidora. — Sua postura mudou e a Hanna cabisbaixa e indefesa havia desaparecido momentaneamente, mas, de repente, uma expressão de desespero tomou seu rosto. Como se a realidade tivesse colidido contra ela.

Você obviamente não está bem. — Afirmei, levantando-me da cadeira e me aproximando calmamente. — Você sabe que pode contar comigo, não sabe? — Ela assentiu, passando a mão no rosto. — Então me conte o que há de errado. — Pedi docemente.

É Kate, Ali. — Ela sussurrou, erguendo seus olhos para os meus com um toque de pânico e horror. — Ela quer me derrubar, eu sei. Ela quer se tornar a princesa de Rosewood. Ela quer me arruinar e vai tentar tirar você de mim. Kate tem inveja de você ser minha melhor amiga, ela arrancou meu pai de mim e vai tentar me tirar você também. — Seus olhos se encheram de lágrimas e senti meu coração se partindo por perceber que Hanna tinha um problema muito maior do que eu imaginava. Meu olhar foi direcionado à cesta de lixo no canto da mesa.

Você precisa de um tratamento, Han. — Ela balançou a cabeça vigorosamente.

Eu estou bem, Ali. Eu não tenho um problema. — Cruzei os braços sobre o peito, esperando que ela me dissesse a verdade. Ela se sentou na cadeira, ainda de frente para mim. — Eu não fiz mais aquilo, eu juro. — Seu olhar era penoso e suplicante. Eu sabia que era mentira, Hanna comia compulsivamente sempre que estava para baixo e vomitava tudo depois. Era desse jeito que ela mantinha seu peso atual. No sétimo ano, eu havia me oferecido para ir com Hanna a Annapolis conhecer a nova namorada de seu pai e a filha dela, prometendo que superaríamos Kate e a faríamos se sentir fraca e estúpida. Mas, quando chegamos lá, algo estranho aconteceu. Kate parecia meio... Legal, muito parecida comigo, na verdade. Talvez Hanna tivesse que lidar com aquilo. Mas, em vez disso, ela comeu compulsivamente. Eu nunca a tinha visto comer daquela forma, e, ainda sim, Hanna pareceu ficar surpresa quando seu pai a chamou de porquinha na frente de todo mundo, inclusive de Kate que estava tão perto dos dois. Quando eu segui Hanna até o banheiro e abri a porta, ela estava debruçado sobre o vaso sanitário com uma escova de dente verde na mão.

Você é muito melhor que ela, Han. Muito mais bonita, e magra também. — Toquei a mão dela suavemente. Um olhar de choque passou pelas suas características, seguido por gratidão. Talvez, apenas talvez, eu gostasse mais da nova versão de Hanna. Eu a fiz a minha imagem e ela me aperfeiçoou. E no final de tudo, ela será uma bela Abelha Rainha.

Você não contou a ninguém sobre Annapolis, não é? — Senti um sorriso misterioso moldando meus lábios. Esperei alguns segundos, observando o pânico tomar conta do rosto de Hanna. E então, eu apertei sua mão com força.

Claro que não, sua boba. Meus lábios estão selados, eu prometo. — Hanna havia implorado para que eu não contasse para ninguém e, até agora, eu não tinha contado.

Depois que saí da casa de Hanna, fui em direção à trilha da Pedreira Homem Flutuante enquanto me distraía com a música melancólica de Lana Del Rey e, assim que comecei a me aproximar do campo cheio de flores, avistei o penhasco rochoso. A água transbordava nos lados e jorrava em uma ravina bem embaixo. Havia algumas pessoas em diferentes graus de nudez. Tirei meu celular do bolso e abaixei não muito o volume da música. Fazia um bom tempo que eu não vinha aqui e a última vez havia sido com Spencer, que costumava praticar mergulho. Segui a trilha que daria numa cachoeira e, conforme eu ia acelerando meus passos, o barulho inconfundível da água caindo com pressão severa sobre o riacho ficava mais nítido e até mesmo o cheiro das flores ficava mais forte. Duas mulheres riam enquanto corriam na mesma direção que eu. Hanna e eu costumávamos correr aqui no oitavo ano, quando ela decidiu começar sua mudança, por ser um bom lugar para praticar esportes e exercícios físicos. Há alguns metros de distância da cachoeira, percebi que aquela parte estava bastante movimentado. Antes que eu pensasse em prosseguir, avistei de longe Ian Thomas com uma garrafa de bebida alcoólica em sua mão e resolvi continuar onde eu estava. O penhasco rochoso seria bem melhor de ficar, pois estava quieto e vazio. Havia apenas o barulho da água e dos pássaros empoleirados nas árvores.

DayLaurentis! — Uma voz soou abruptamente atrás de mim, fazendo com que eu virasse mais que depressa por conta do susto. Talvez eu estivesse me precipitado quando disse que o lugar estava vazio.

Mas que diabos? — Gritei irritada, arrancando os fones de ouvido das orelhas com raiva assim que me virei, vendo Faye Penton me observando com um olhar inquisitivo. Ela explodiu numa gargalhada irritante, mas logo se recompôs. — O que você está fazendo aqui?

Eu pratico mergulho aqui, você sabe. — Ela cantou, alegremente. Olhei para suas roupas por um instante. Ela usava shorts jeans escuro e uma blusa verde folha que caíam nos ombros e ressaltavam seus olhos. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo, assim como o meu. Depois de alguns segundos analisando-a, dei de ombros e me virei novamente. Ian flertava com alguma garota estúpida e sem cérebro e aparentava estar bêbado. — Quem você está bisbilhotando? — Perguntou ela, se aproximando de mim energicamente.

Ninguém. — Resmunguei, cruzando os braços sobre o peito. Eu não estava bisbilhotando, apenas me certificando do quão promíscuo Ian conseguia ser e que eu não estava perdendo nada, apesar de algumas pessoas acharem que eu tenho algo com ele. — Só estou me decidindo se pulo ou não. — Olhei para baixo, tentando medir a altura do precipício mentalmente. Ela me analisou por alguns instantes e depois seguiu meu olhar. Meu coração batia violentamente contra o peito e o barulho da água fazia com que eu me sentisse zonza e nauseada. Ri internamente. Como se eu fosse realmente pular.

Deixa eu te ajudar a decidir. — Disse ela rindo, se aproximando ainda mais. Antes que eu pudesse olhá-la e questionar o que ela queria dizer com aquilo, fui surpreendida com um empurrão. Num segundo, eu estava flutuando no ar e, no outro, eu estava debaixo da água gelada, sentindo minhas narinas e minha boca sendo invadidas por um punhado dela. Eu não conseguia nadar e cada vez que eu tentava meu corpo afundava.

O que você fez? Ela não sabe nadar! — Ouvi a voz aguda de Hanna gritar em desespero. Afinal, ela havia finalmente chegado?

Alison sabe nadar. — Faye rebateu. — Ela já vai aparecer. — Foi preciso apenas alguns segundos para que eu sentisse minha consciência se apagando. Alison sabe nadar. Essas palavras se repetiam diversas vezes na minha cabeça e, de repente, eu já não estava mais na Pedreira Homem Flutuante.

Alison, o que diabos você está fazendo? Ela não sabe nadar! — Agora era a voz de Jason que estava alterada, mas eu ainda estava debaixo da água, e essa era quente. Eu quase podia sentir o sol sobre minha pele imersa. Meus pulmões se enchiam mais e mais de água e eu só sabia me debater. A agonia tomou conta do meu corpo, eu sabia que precisava respirar, mas não havia como sob a água. Meus movimentos de repente cessaram e meu corpo repousou sobre o piso azulejado da piscina da minha casa em Stamford, Connecticut.

É claro que ela sabe. — A voz que deveria ser a minha soou, rindo grosseiramente. — Ela é uma piranha. — Braços rodearam minha cintura e eu não estava mais debaixo da água, mas ainda sim, meus olhos continuavam fechados e minha respiração ausente.

Mamãe e papai vão saber disso! — Gritou Jason com a voz embargada, enquanto jogava todo seu peso sobre suas duas mãos apoiadas no meu peito. E isso se repetiu várias vezes, até eu sentir seus lábios nos meus e o ar quente preenchendo minha garganta, seguido pelos meus pulmões. Então uma tosse violenta fez com que eu finalmente abrisse meus olhos, expulsando quase toda a água do meu pulmão, passando pela minha garganta e saindo pela minha boca.

Pensei que piranhas soubessem nadar. — A voz semelhante a minha zombou novamente, fingindo desapontamento. Abri meus olhos uma segunda vez e não era mais Jason que estava curvado diante de mim. Era Faye. Eu precisei de alguns segundos para entender o que estava acontecendo.

Eu vou matar você. — Murmurei, tossindo uma última vez e sentindo meu peito arder. Olhei para os lados, com a visão turva, mas não vi Hanna... E nem Jason.

Você me assustou, DayLaurentis. — Ela suspirou aliviada, baixando sua cabeça. E só agora eu havia me dado conta da forma que ela me chamou. Minha cabeça estava pesada e parecia querer explodir. Meus olhos pousaram em Faye por longos segundos. Ela não deveria saber desse sobrenome, pois ninguém em Rosewood sabia. Day-DiLaurentis tinha ficado em Connecticut há muito tempo, assim como todas as lembranças que havíamos feito lá.

Faye havia me levado para casa e se mostrou ligeiramente ressentida, mas não prestei muita atenção nas suas desculpas. Minha cabeça estava cheia, pesada. Ela havia me perguntado inúmeras vezes desde quando eu desaprendi a nadar. Mas a verdade é que eu nunca soube. Emily já dedicou horas do seu tempo de treino tentando me ensinar, mas eu não me saía muito bem. Não foi como patinar no gelo, tão fácil e divertido. Ela precisou apenas de alguns minutos para conseguir me instruir a ponto de eu pegar completamente o jeito. Havia sido a primeira vez que eu fiquei sozinha com ela depois que descobri seu amor por mim.

Você está brava comigo? — Emily havia me perguntado, sem fazer ideia de que eu sabia. Em quase todas as páginas do seu caderno havia um coração com a letra “A” dentro. E apenas no final do caderno eu fui descobrir que era A de Alison.

Por que eu estaria? — Lancei um olhar desafiador para ela. Talvez, lá no fundo, eu gostaria que ela dissesse. Eu sei que você viu o que eu escrevi sobre você no meu caderno. Só para esclarecer as coisas. Mas ela não disse. Durante semanas aquele coração ficou rondando minha mente. Eu amo Ali, ele dizia.

Não demorou muito para que eu estivesse no conforto e na intranquilidade da minha casa. Levou menos de uma hora até que eu tomasse banho e me estabelecesse na cozinha, onde eu poderia me alimentar enquanto lia meu livro.

Eu fiz seu prato favorito. — O cheiro de ovos e bacon logo inundou o ar e fez com que meu estômago se revirasse. Milagrosamente minha mãe estava em casa e estava cozinhando. Ela despejou um punhado de ovos no meu prato e não exagerou tanto com o bacon. Olhei para o prato sem entusiasmo e o afastei para longe de mim. Ela estava errada, eu odiava bacon. Peguei um pedaço de Donnuts e levei até a boca, mastigando lentamente enquanto lia A Letra Escarlate, que Faye havia sugerido na aula passada. Senti minha pele queimar com o olhar da minha mãe em cima de mim, mas não ousei olhar, apenas ignorá-la. — Você está bem? — Ela perguntou, despejando leite em meu copo. Eu poderia dizer tudo o que aconteceu, mas apesar de ela ser a causa de quase todos os meus problemas, ela não os escutaria.

Sim. — Tomei um gole de leite, ainda com os olhos na página que estava lendo. Havia algo em Hester Prynne que fazia com que todo meu interior fervesse de raiva, causando uma grande turbulência no meu emocional. O fato de ela ter dormido com outra pessoa e engravidado a transformou em uma adúltera, que por consequência de seu ato, fora obrigada pela sociedade a sempre carregar uma letra A vermelha no seu peito para sempre. Talvez ela merecesse todo o sofrimento e humilhação que lhe foram impostos, mas talvez a sua grande presença de espírito e inegável convicção fizessem com que eu torcesse por ela. Apesar de eu ainda não ver benefício ou lógica na traição.

Eu comprei outra miniatura da Torre Eiffel para você. — Desviei os olhos do livro por uma fração de segundo, tentando descobrir o que ela estava pretendendo. Engrolei uma concordância qualquer, na esperança que ela me deixasse em paz. Houve alguns longos e gloriosos segundos, antes que ela começasse novamente. — O que houve com a que o seu pai lhe deu? — Minha mãe soou novamente, insistente. Joguei o livro sobre a mesa e a encarei, irritada. Ela definitivamente havia escolhido um dia ruim para querer conversar.

Eu já disse, dei para Emily! — Pensei que ela se satisfaria com a resposta, mas seus olhos continuaram em mim.

Você tem alguém para conversar, querida? Sobre... Coisas? — Minha mãe perguntou. Respirei fundo, sustentando seu olhar por longos segundos.

Hoje não é um bom dia, mãe. — Avisei, afastando a cadeira e me levantando.

Talvez devêssemos conversar sobre... Ele. — Tornou ela, trazendo à tona um assunto que não é tocado há anos.

Eu realmente não estou a fim. — Disse devagar, tentando não deixar sua insistência tocar meu emocional. Eu estava tão cansada e cheia que qualquer coisa me afetaria. Alguns passos pesados ecoaram na sala de estar e logo Jason apareceu na cozinha, enchendo o ar com seu perfume Le Male, da Gaultier, em seu suéter azul marinho e jeans largos e escuros. Ele não me direcionou um único olhar, era como se eu não existisse. Estávamos nesse pé há uma semana e, mesmo assim, ele parecia meio... Feliz. Um sorriso malicioso surgiu nos meus lábios e não resisti ao ímpeto de provocá-lo.

Você vai a um encontro? — Perguntei, apoiando os cotovelos sobre o balcão. Ele me fitou por um momento, como se por um segundo não estivesse me reconhecendo.

Talvez. — Disse ele curtamente, pegando uma maçã.

Quem é a garota? É alguém que eu conheça? — Tentei novamente, me contorcendo de curiosidade. Talvez eu estivesse feliz por Jason, mesmo não podendo demonstrar. Fazia tanto tempo que eu não o via com alguma namorada. Ele olhou para o lado, com a testa enrugada e o semblante pensativo. Então eu me dei conta, eu não estava sendo eu mesma. Eu deveria fazer pouco caso, como se não importasse o que Jason fazia de sua vida. — Esqueça. Com certeza deve ser alguma garota estúpida e tão temperamental quanto você. De qualquer forma, eu não me importo.

Alison. — Repreendeu minha mãe, me olhando sobre os ombros. Por quase um minuto inteiro eu havia me esquecido que ela também estava na cozinha. Dei de ombros, pegando meu livro e dando as costas para ela. Conforme eu seguia para o meu quarto, pude escutar Jason reclamando sobre alguma coisa que não consegui compreender e quando eu já estava subindo o último degrau, houve o barulho estridente da porta batendo com força. E, com isso, um sentimento de impotência me carregou por longos segundos. Como se algo estivesse saindo do meu controle. Havia alguma coisa acontecendo, mas eu não conseguia decidir o quê. Mas talvez pudesse ser apenas o resultado de um mal estar.

Depois que me joguei na cama, passaram-se algumas horas e, quando me dei conta, já estava no mais profundo sono. Alguns flashes do que aconteceu hoje mais cedo apareciam em curtos intervalos de tempo, juntamente com alguns de quando eu tinha onze anos e ainda morava em Connecticut. Uma sensação de déjà-vu fez com que um arrepio disparasse rapidamente pelo meu corpo. E tudo aconteceu muito rápido. Em um momento eu estava sendo sufocada, no outro eu estava dentro da piscina, sentindo meu corpo afundar lentamente e então os gritos de Jason ecoaram na minha cabeça, dolorosamente. Não demorou muito para que eu sentisse seus braços ao meu redor, mas aquilo parecia não ser o suficiente.

Um barulho ao longe fez com que eu despertasse aos poucos e, com isso, um cheiro conhecido foi invadindo minhas narinas. J’Adore, da Dior. Conforme meus olhos abriam-se, percebi que meu quarto estava escuro, exceto por um único ponto de luz ao lado da minha cama.

Levante e brilhe, dorminhoca. — Uma voz zombeteira soou, calma e baixa. Abri meus olhos completamente, enxergando apenas pernas compridas sob calças jeans skinny escura e sapatos de salto alto. O cheiro estava ainda mais forte e inebriante, e o barulho que me puxou da minha realidade paralela parecia irritante e repetitivo. Levantei minha cabeça num movimento lento e preguiçoso, como se minha cabeça pudesse explodir com algum movimento inarticulado. Meus olhos salpicavam quando eu demorava mais de meio segundo para piscar. Assim que meus olhos encontraram a figura quase deitada do meu lado, com a cabeça apoiada na cabeceira da cama e o que parecia ser um livro grosso na mão, me dei conta de que se tratava de Faye. Uma canseira tomou conta do meu corpo, fazendo com que eu deixasse minha cabeça cair no travesseiro pesadamente.

O que você está fazendo aqui? Veio tentar me matar de novo? — Consegui dizer, ouvindo minha própria voz sair rouca e quase inaudível. Esse ato fez com que minha garganta ardesse, me dando a sensação de dor. Houve alguns segundos de silêncio, o que me possibilitou escutar minha respiração pesada e difícil.

Não, sua boba. Vim ver como você está, já que não foi para escola. — Disse ela suavemente. De repente me senti mais apta a perceber algumas súbitas mudanças de atitude. Meu comportamento havia se transformado completamente, embora eu tentasse impedir, e em todos os sentidos. Enquanto Faye parecia mais madura e sentimental, mas sem perder sua essência de garota malvada.

Passe amanhã, Faye. — Sussurrei bruscamente, me aconchegando nas cobertas e percebendo que seu cheiro havia ficado nelas. Ela se inclinou na minha direção, tirando alguns fios de cabelo do meu rosto.

Você não parece muito bem. — Ela murmurou calidamente.

É a culpa falando? — Tentei conter um riso. Apesar de tudo, estranhamente, eu não estava com raiva. Mas meu humor estava afetado e isso, para todo bom observador, era notório.

Afinal, o que você foi fazer na Pedreira Homem Flutuante? — Ela quis saber, puxando a coberta para ela. Respirei fundo e me sentei na cama, apoiando minhas costas na cabeceira da cama e ajeitei meu cabelo, calmamente. Não pensei numa resposta, porque talvez eu não tivesse uma. Olhei para seu rosto pela primeira vez e pela luz fraca do abajur pude ver que ela demonstrava uma serenidade natural. Baixei meus olhos rapidamente, encontrando o que ela tanto folheava.

Onde você achou isso? — Perguntei um pouco alto demais. Ela seguiu meu olhar e pegou o Livro do Ano, erguendo para o alto para que eu não tomasse dela. Um sorriso travesso surgiu nos seus lábios rosados.

Esse, no quarto de Jason. — Ela disse, apontando para o que estava em sua mão. Havia outro do seu lado da cama, perto da sua perna, que ela se esticou para poder pegar. — E esse, logo ali. — Apontou para a estante no canto do meu quarto, que logo ao lado havia uma miniatura da Torre Eiffel muito bem posta. Minha mãe deveria ter colocado quando eu estava dormindo. Fazia pouco mais de um ano que eu dera a minha antiga Torre Eiffel para Emily e minha mãe nunca cogitou em me comprar outra. Isso sim tinha cheiro de culpa. — Jason continua um tesão? — Faye perguntou, virando o rosto para mim e me fitando com lascívia contida. Lutei contra a vontade de revirar os olhos. Eu, logicamente, não via Jason como as outras garotas e odiava quando elas se referiam a ele de maneira grotesca.

Você...

Esqueça. — Ela balançou a mão, me interrompendo. — Não faz diferença, de qualquer forma. — Isso certamente era uma verdade, mas não quis pensar nisso. Faye começou a folhear o Livro do Ano de Jason, de quando ambos estavam no ensino médio. Eu me inclinei para ver também, pois nunca tinha visto aquele e eu estava genuinamente curiosa. Passaram as fotos de alguns amigos perdedores de Jason até chegar a uma foto de Faye entre Darren Wilden e Ian Thomas na peça de Mamma Mia em que fomos, anos atrás, junto com toda Rosewood Day. Depois veio a foto de Melissa Hastings e Jason, sentados um do lado do outro, já do lado de fora do teatro. Faye olhou a foto carrancuda e virou a página com desprezo. Não era nenhuma surpresa que elas se odiavam, pelo menos para mim. — O que Ian vê nessa sem sal? — Ela gemeu com desdém. Faye havia comentado em todas as fotos que passaram, e apenas de Melissa ela falou mal.

Também não sei. — Murmurei, me afastando. Levantei da cama e fui em direção à janela, observando a movimentação na casa dos Hastings, que parecia quieta e vazia. Olhei para janela do quarto de Spencer e estava tudo apagado. Melissa estava na Filadélfia, Sra. Hastings estava em casa e o Sr. Hastings... Eu não o via há algumas semanas. Havia alguma coisa de estranho acontecendo com a família Hastings que ainda me estava oculto. Querendo ou não, eu sempre descobria as coisas. Um vento fraco tocou meu corpo de leve, me arrepiando inteira. E eu estava apenas de regata e shorts.

O que você tanto bisbilhota? — Faye sussurrou atrás de mim. Virei o rosto para ela rapidamente, levando um susto. Qual era o problema dela, afinal?

Deixa eu me afastar de você. — Disse eu, recuando. — Vai que você pense que eu sei voar e tenta me jogar pela janela. — Ela cruzou os braços sobre o peito, me fitando com diversão e ligeira amargura nos traços. Voltei para debaixo das cobertas, sentindo o ar quente contra minhas pernas. Faye ainda continuava de pé, olhando fixamente pela janela. Um olhar confuso e inquieto passou pela sua feição, mas ela logo se recompôs e se jogou na cama, deitando de bruços.

Você não vai adivinhar quem eu vi hoje! — Disse ela, animada. Pisquei, tentando controlar a vontade de bocejar. — Samara. — Ela ergueu seu ombro direito até sua face com graciosidade.

E? — Arqueei as sobrancelhas não vendo grande coisa nisso.

Deus! Ela estava tão quente... Sexy! — Sussurrou, arrastando as palavras. Sua voz, se a ouvisse bem, soava meio... Sonhadora. Fiz biquinho, me deitando de frente para ela.

Acho difícil. — Provoquei, bocejando e me ajeitando na posição certa para dormir. Ela me lançou um olhar desafiador, como se estivesse me incentivando a soltar o veneno. E então, não resisti: — Ela é tão sem sal quanto Melissa. — Ela arregalou os olhos e escancarou a boca com horror.

Você está doente, não sabe o que fala. — Me absolveu, tocando meu rosto em brasa com seus dedos gélidos. — Melhor você voltar a dormir. — Ela se levantou e pegou sua bolsa, caminhando até a porta. Eu tive a impressão de que ela balbuciou alguma coisa, mas não sei dizer o quê.

Eu devo ter cochilado por alguns minutos, porque não sei dizer o exato momento em que Faye partiu. Peguei meu celular para ver a hora e vi que nele havia várias mensagens e ligações perdidas. Precisei de alguns instantes para me lembrar de que dia é hoje. Eu não me lembro de algum dia ter dormido tanto. Meu corpo ainda estava quente e minha cabeça martelava sem parar. Tomei banho e voltei para cama. Nem se eu quisesse eu conseguiria sair. Durante duas horas, troquei mensagens com Hanna e Aria. Spencer não me respondia e Emily parecia estar ocupada. Há trinta minutos eu havia perguntado onde ela estava e sua resposta foi curta; Na locadora. Tentei não pensar no com quem ela estava, mas o pensamento foi mais veloz. Alguém bateu na porta timidamente, me tirando a atenção do celular. Deveria ser minha mãe, afinal, ela havia vindo aqui duas vezes perguntando se eu estava bem e se eu precisava de alguma coisa. Na terceira vez, há cinco minutos, ela avisou que estava saindo. Mas não ouvi barulho do carro saindo da garagem. Houve outra batida, dessa vez, um pouco mais firme e segura. Por um segundo me questionei o porquê dela não simplesmente abrir a porta, mas me lembrei de que eu tinha passado a chave.

Eu estou bem, não quero conversar e não preciso de nada. — Respondi todas as perguntas que viriam se eu abrisse a porta em alto e bom som, deitando a cabeça novamente no travesseiro. Mais uma batida e dessa vez eu levantei da cama com raiva, pensando em vários xingamentos cabíveis a minha mãe. Abri a porta abruptamente. Eu estava prestes a dizer tudo o que vinha a minha mente, mas quem eu vi parada, graciosamente, do lado de fora não era minha mãe.

Sua mãe estava de saída quando cheguei e me disse que eu podia subir. — Emily estava parada no batente da porta, com a cabeça inclinada timidamente e um sorriso de partir o coração. Sua bolsa creme pendia no seu ombro esquerdo e seus cabelos sedosos brilhavam intensamente, caídos sobre os ombros, deixando-a encantadora. Ela usava uma jaqueta de couro vermelho, jeans colado e botas pretas.

Ela já foi? — Perguntei, colocando a cabeça para fora e olhando para os lados. Emily acenou, positivamente. — Graças a Deus!

O que houve? — Ela quis saber, entrando no quarto assim que dei passagem para ela. Dei de ombros e deitei na cama novamente, pegando meu celular.

Ela só escolheu um péssimo dia para querer conversar. — Murmurei, passando a mão pelo meu cabelo. Eu não estava em um dos meus melhores dias.

Hanna me disse que você não estava passando bem. — Começou ela, sentando na cama cautelosamente. — Pensei que pudesse te fazer companhia, se você quiser. — Concluiu receosa. Uma sombra de dúvida pairou sobre ela, como se estivesse se perguntando se eu a queria aqui.

Estou feliz que você esteja aqui, Em. — Sorri docemente, tocando a mão dela. Eu sempre gostei de quando Emily aparecia de surpresa, eu automaticamente ficava mais suave com sua presença. E eu não precisava fingir perfeição para ela. Eu podia tirar a máscara de garota perfeita e ser apenas... Eu.

Então eu também estou. — Ela baixou os olhos e sorriu, acariciando a palma da minha mão com a ponta do seu indicador, fazendo cócegas. — Você parece um pouco abatida. Deve ser algum resfriado. — Emily puxou a coberta mais para cima, fazendo com que tocasse meu queixo. De fato, eu me sentia abatida e estava lutando contra a vontade de fechar meus olhos e dormir. Fechei os olhos por um segundo e senti seus lábios frios na minha testa, e então ela se afastou.

Aonde você vai? — Perguntei, antes que ela desaparecesse do meu campo de visão.

Eu volto logo. — Garantiu com firmeza. Olhei para a janela e vi que a lua já estava no seu ápice, me dando a ideia de que já se passavam das nove horas da noite.

Esperei que Emily voltasse por quase vinte minutos, e percebi quão eficaz o seu “Eu volto logo” foi. Senti algo vibrando em algum lugar da cama, olhei para meu celular que estava apoiado no travesseiro e olhei a tela. Não havia mensagens, portanto não poderia ser ele. Tateei a cama inteira procurando e peguei o celular de alguém. Só havia duas pessoas a quem ele deveria pertencer. Antes que eu pudesse olhar para a tela, o celular começou a vibrar novamente, seguido por uma batida eletrônica e logo uma voz feminina preencheu meus ouvidos. I Need Your Love, da Ellie Goulding. Por um segundo inteiro, desejei que o celular pertencesse a Faye por causa da letra, mas quando olhei para o celular, a ganhadora era Emily e quem ligava era Samara. Cliquei em ignorar chamada e, por ímpeto, resolvi olhar as mensagens, rezando para que eu não me arrependesse. Havia mensagens de Hanna e algumas de Spencer, mas a maior parte era de Samara. A primeira mensagem que li foi o suficiente para que eu desistisse de continuar. Muito melosa. Decidi, porém, ir para as fotos. A primeira foto que olhei foi a minha, no campo de hóquei, depois veio uma de Samara dormindo, outras dela distraída e por último uma foto dela e Em se beijando.

Vadia. — Murmurei, enrugando o nariz com desdém. Joguei o celular para o outro lado da cama, assim que escutei os passos de Emily subindo as escadas, fechei os olhos. Houve alguns segundos e o cheiro de legumes chegou até minhas narinas, alertando meu estômago vazio. Não resisti ao cheiro e ergui metade do meu corpo para trás.

Eu fiz sopa para você. — Emily sussurrou, colocando a bandeja com o prato quente de sopa do outro lado livre da cama. Eu sentei na cama e respirei fundo, me sentindo grata mais uma vez por ela estar aqui. — Espero que isso faça você se sentir melhor. — Disse ela suavemente, olhando para a sopa e depois para mim. Eu sorri, mostrando gratidão.

Quero lhe contar um segredo. — Sussurrei para ela, depois de alimentada e limpa. Tratei de tomar banho assim que terminei de comer e trocar de roupa, colocando uma mais quente. Emily estava deitada de bruços e agora olhava para mim. Trouxe sua mão para debaixo da coberta. Ela pareceu querer recuar, mas eu não permiti.

Por favor, não faça isso. — Ela pediu quase inaudível, baixando os olhos.

Eu confio em você, Em. Você é a única com que eu posso ser sincera. — Seus olhos negros ergueram rapidamente, e um brilho diferente se apossou deles.

Da última vez que você disse que queria me contar um segredo e que confiava em mim...

Você me beijou. — Terminei por ela, com a memória vindo à tona. Eu havia contado a ela sobre o garoto mais velho que eu gostava, Nick, e depois de um longo momento de silêncio, no qual eu pude sentir toda sua decepção, ela se inclinou e me beijou.

Eu beijei você. — Ela repetiu, como se também estivesse pensando naquele dia. Ainda estávamos no sétimo ano e eu já sabia sobre sua paixão em desenvolvimento. — E depois você me torturou por isso. — Murmurou tristemente. Um sentimento amargo fluiu no meu estômago ao me recordar disso. Tentei me livrar do sentimento de culpa que oscilava no meu âmago, mas algo estava mudando. Talvez eu estivesse abandonando Alison DiLaurentis e voltando a ser eu.

No outro dia logo pela manhã, eu já me sentia bem melhor, mas ainda sim a cama me parecia muito mais atrativa do que a escola. Eu havia acordado cedo com a movimentação dos meus pais e de Jason e decidi levantar e tomar banho, caso eu mudasse de ideia e resolvesse ir à escola, o que não aconteceu. Voltei para cama e dormi por quase três horas e, quando acordei, já estava na hora do almoço. A mesma movimentação de mais cedo estava se repetindo, e minha mãe gritava alguma ordem a Jason, que deveria estar aqui em cima, em seu quarto. Levantei da cama e fui para frente do espelho, sentindo a necessidade de me arrumar. Mas apenas escovei meus cabelos e troquei de camiseta, colocando uma mais justa e delicada. Permaneci de shorts e desci as escadas calmamente. Assim que cheguei à sala de estar, meu pescoço se eriçou e meu coração saltou violentamente contra o peito. Algo parecia diferente. Passei os olhos por toda a sala e eles pararam numa mala florida, que costumava ser minha quando eu ainda era... Eu. De repente, eu soube o que estava acontecendo. Mas isso não deveria estar acontecido. Meu primeiro instinto foi correr até meu quarto e nunca mais sair, mas depois minha mãe enfiou a cabeça no batente da entrada da sala e sorriu, como ela havia feito durante toda a semana.

Ali. — Disse ela, suavemente. — Sua irmã está em casa.

Notas finais
E então? O que vocês acharam sobre a volta da gêmea, Faylison, Emison, Hanna e Ali e etc?
Me digam tudo, quero saber exatamente o que vocês pensam sobre esse capítulo, porque eu simplesmente amei e preciso saber se mais alguém está comigo. Enfim, até o próximo e obrigada por todos os comentários. Vocês são incríveis! ♥