This Must Be Love
21 The Truth Always Comes Out.
Notas iniciais
— Ali, querida, pegue a caçarola dentro do armário. — Pediu minha mãe, apontando para a porta do meio. Havia se passado apenas meia hora e ela estava terminando de preparar o almoço. Movi meu corpo para trás, esticando o braço e pegando a maldita caçarola de vidro. Eu ainda me encontrava tentando conter a raiva dentro de mim. O mundo, de repente, parecia mais negro e podre do que de costume. Coloquei os fones de ouvido e trouxe meu livro para mais perto do meu rosto, tentando ignorar tudo ao meu redor. Jason estava apoiado no balcão, lendo seu horóscopo estúpido. Por mais que eu tentasse me desligar, eu continuava movendo meus olhos por toda cozinha. E então, quando eu não estava mais esperando, ela apareceu na cozinha, movendo-se descuidada e solta. Seus passos eram articulados e traiçoeiros, eu sentia. Levantei meus olhos rapidamente para ela e nesse meio segundo, eu percebi que ela havia estado no meu quarto.
— Isso é meu! — Gritei, apontando para o colete mais fofo que eu possuía. Minha mãe parou o que estava fazendo e olhou minha irmã gêmea por sobre o ombro. — Você esteve no meu quarto? — Exigi, sentindo meu coração pulsando forte. Jason rosnou algumas palavras e se afastou de mim. Era tão óbvia sua preferência.
— Você não usa esse colete há anos, Ali. — Minha mãe tentou argumentar, enquanto lavava as mãos. Ela virou o rosto novamente, já sabendo o que eu dizer. — Tudo bem, então. Court e eu vamos fazer compras amanhã. — Declarou com um sorriso no rosto. Meu queixo caiu, chocado. Ela nunca fez isso quando era comigo.
— Mas ela não pode sair. Alguém pode... Vê-la! — Seus lábios deram margem a um meio sorriso triunfante. Por mais que minha vontade fosse gritar tudo o que estava intalado na minha garganta, dizer o quanto eu odiava ser parte dessa família, eu tinha a obrigação de me manter calma. Eu não podia deixá-la perceber qualquer ansiedade ou desespero da minha parte. Minha mãe balançou a cabeça, calmamente. Ela abriu a boca para dizer algo, mas logo a fechou. Courtney — eu já não pensava mais nela como Alison — se aproximou suavemente, caminhando até a geladeira e parando à minha frente. O cheiro de baunilha, então, preencheu meus pulmões. Ergui meus olhos para ela, tendo a impressão de que estava de frente para um espelho. Éramos gêmeas idênticas, mas havia diferenças para todo bom observador reparar. Seus olhos azuis eram mais puxados para o cinza e eram mais estreitos do que os meus e seu cabelo de um loiro mais escuro. Nossas vozes também eram diferentes; a minha era mais rouca e a de Courtney mais aguda. Sua postura era mais ereta e correta do que a minha.
— Longe daquela luz forte do hospital sua pele parece ter um brilho saudável, Court. — Sorri falsamente, assim que ela ergueu seus olhos para mim. Analisei seu cabelo, que estava com o mesmo comprimento que o meu, por alguns instantes enquanto ela tentava descobrir o que eu estava fazendo.
— Obrigada, Ali. — Ela disse, apertando as mãos em seu peito e dando grande ênfase no Ali. Segurei minha respiração e fui soltando aos poucos, sustentando seu olhar comovido. Ela foi a primeira a desviar os olhos e focar em outra coisa. Recoloquei meus fones e puxei meu livro, passando a ignorá-la completamente.
— Por que os Hastings estão se separando? — Minha irmã perguntou, passeando atrás de mim. Pensei ter escutado errado.
— O quê? — Deixei escapar, boquiaberta, me endireitando na cadeira. Puxei os fones e abaixei o livro, encarando minha mãe inquisitivamente. Seu olhar sustentou o meu por alguns segundos.
— Quem disse que eles estão se separando, Courtney? — Minha mãe exigiu, direcionando seu olhar para trás de mim. Ela esparramou batata palha sobre o frango refogado, meticulosamente, com as mãos trêmulas.
— Eu escutei a vizinha da frente comentando que o Sr. Hastings foi embora. — Ela explicou, soando inocente e suave. Mas eu sabia que sua serenidade exterior não era a mesma interiormente. Ela estava calma e compreensiva demais para quem acabou de voltar de um sanatório depois de anos. Esse comportamento não condizia com sua personalidade agressiva. Afastei do balcão e fui para perto da janela, espreitando o quintal dos Hastings. O Tucson de Melissa estava estacionando de qualquer jeito, como sempre, no meio fio. Isso não era possível. Se os pais de Spencer estivessem mesmo se separando, então ela me contaria, certo?
— São apenas fofocas, querida. Agora suba, vá se trocar para podermos almoçar. — Seu tom de voz vacilou entre doçura e tormenta. Peguei meu casaco do balcão e saí pela porta da cozinha, sentindo o vento soprando forte em minha direção. Observei enquanto algumas folhas secas caíam lentamente no chão, parecendo fazer um "C" desleixado. Minha mãe apareceu na varanda e gritou meu nome, pedindo para que eu voltasse para casa porque o almoço já estava pronto. Como se eu tivesse apetite depois dessa surpresa desagradável que é ter minha irmã de volta. Coloquei meu casaco e caminhei pela grama seca do quintal dos Hastings, ignorando sua voz irritante, até chegar à porta principal. Apertei a campainha e dei uma olhadela no celeiro, me perguntando se Melissa estaria lá dentro. Houve um forte e longo clarão no céu, puxando minha atenção do celeiro. Parecia que uma forte ventania estava por vir e isso fez com que meu estômago se revirasse. Até a natureza parecia incomodada com a presença da sósia. Apertei a campainha novamente, colocando minhas mãos no bolso na tentativa de esquentá-las. Houve um barulho do lado de dentro, algo se quebrando, e então o barulho das chaves na porta. Assim que me viu, Melissa mudou sua expressão cansada e sonolenta para uma mais rígida e impassível.
— Spencer está? — Perguntei com fria polidez. — Eu quero falar com ela. — Disse um pouco impaciente. Melissa não respondeu de imediato, apenas ficou me encarando como se eu fosse culpada de alguma coisa.
— O que você quer falar com ela? — Ela quis saber, dando um passo para frente e cruzando os braços sobre o peito.
— Nada que seja do seu interesse, Senhorita Curiosa. — Sorri atrevida, inflando o peito. A voz estridente de Spencer ecoou de dentro da casa e ela logo apareceu na porta, lançando um olhar altivo à Melissa, que pareceu hesitar por um segundo. Algo grande parecia estar acontecendo com as irmãs Hastings. Assim que Melissa virou as costas, Spencer se voltou para mim com o mesmo olhar frio e arrogante.
— Veio me contar alguma coisa, Alison? — Exigiu prepotente, caminhando até a janela e olhando em direção a minha casa. Meu coração acelerou abruptamente. Ela sabia sobre a gêmea? Spencer a tinha visto chegar? E se ela tivesse descoberto tudo? Ela era a mais inteligente de todas. Spencer estava brincando comigo, porque ela podia. Talvez ela soubesse exatamente o que eu temia e queria arrumar uma maneira de me desmascarar. De repente, senti todo meu mundo girar de ponta cabeça. Spencer parecia estar tentando me intimidar. Eu venho aqui tentar ser legal e é assim que sou recebida? Eu não posso tentar ser simpática e solidária? Fúria brotou dentro de mim. Se ela queria que eu fosse uma vadia, então eu seria.
— Como está sua mãe, Spence? — Perguntei, me surpreendendo com o tom que minha voz soou. Tentei arduamente controlar minha respiração e não demonstrar nervosismo. — Depressão é uma coisa muito séria. — Alertei, procurando Melissa ao redor.
— O que você sabe sobre minha mãe? — Spencer exigiu, voltando seu olhar para mim. Ela cruzou seus braços, esperando que eu abaixasse a guarda.
— Eu sei que ela praticamente abandonou o trabalho e não sai de casa há uma semana. — Despejei com um tom calmo e sereno. Eu estava blefando, eu não tinha certeza se sabia disso, mas parecia fazer algum sentido. — Como será a mulher por quem seu pai abandonou sua mãe, Spence? Loura, alta e socialite? — O rosto de Spencer se iluminou. Raiva transbordava dos seus olhos. Aquilo deveria me deixar satisfeita, triunfante, mas de repente me dei conta de que eu estava sendo alvo do meu próprio veneno. Aquilo não estava afetando apenas Spencer, mas também a mim. Eu odiava ter que apelar para esse tipo coisa, mas eu não tinha como evitar. Eu precisava mostrar quem estava no comando.
— Saia. — Ela apontou para a porta, com o rosto fumegando. Permaneci onde estava encarando-a com firmeza. — Você não é mais bem vinda à minha casa. — Um sentimento de tristeza me apunhalou inesperadamente. Por muito tempo eu me perguntei por que brigávamos tanto e por que eu sentia a necessidade de competir com ela em tudo. E então a resposta veio em forma de traição.
— Como quiser. — Forcei um sorriso orgulhoso e saí pela porta, sem me dar o trabalho de pestanejar.
O vento parecia aumentar gradualmente, fazendo alguns moinhos próximos ao carvalho do quintal dos Hastings. Lancei meus olhos para a minha casa, verificando se Courtney estava à vista. Eu esperava que ela permanecesse em casa e que fosse embora o mais rápido possível. Dei as costas para a enorme casa vitoriana ao lado da dos Hastings e entrei na floresta, tentando me distanciar o mais longe possível de toda essa bagunça. Eu precisava me manter calma e imperturbável. Sua volta não me faria perder o controle novamente, eu estava no comando. Eu sou Alison DiLaurentis e com esse nome eu morreria.
Quanto mais eu me embrenhava na floresta, mais eu percebia o tempo mudando bruscamente. Não poderia passar das três horas da tarde e o céu já estava cinzento. As árvores balançavam vagamente conforme o vento avançava na direção oposta. Houve um ruído estridente não muito distante de onde eu estava. Avancei alguns passos para frente, movendo-me com firmeza, embora meu estômago estivesse se revirando. Após mais alguns passos adiante, escutei algo sólido bater contra o solo térreo. Então me aproximei o suficiente para avistar uma figura pálida com cabelos pretos e longos, lábios cor de cereja e os famosos óculos Gucci escondendo seus suaves olhos verdes. Ela avançava devagar em minha direção, firmando sua bengala no chão para poder se guiar. Senti um nó gigante se formar em minha garganta. Dei mais alguns passos na direção oposta em que ela vinha, suavemente.
— Quem está aí? — Ela parou, fincando sua bengala no chão terreno. Sua expressão possuía um fino traço de medo e angústia. Avancei mais alguns passos, parando há poucos metros de distância.
— Sou eu, Jenna. — Sussurrei, cobrindo minha cabeça com o capuz do meu casaco, deixando apenas meus cabelos louros para fora. — Alison. — Concluí com suavidade. Ela deu alguns passos para trás, recuando. Sua expressão estava pensativa, como se estivesse me analisando de alguma forma que fosse possível para ela. Jenna deu mais um passo para trás e pisou em falso, se desequilibrando e caindo diretamente no chão frio. Em menos de dois segundos eu já estava diante dela, pegando seu braço e a levantando.
— É você mesmo. — Uma expressão de alívio percorreu por toda sua face, fazendo-a corar instantaneamente. A queda foi um teste.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei, fitando-a atentamente. — Aqui é muito perigoso para você.
— Não se preocupe comigo, se preocupe com você. — Alertou calidamente, tateando a terra a procura de algo. Olhei para seu rosto por um segundo e depois para sua mão, era uma presilha que ela procurava. — Tome cuidado, Ali. — Ela limpou sua roupa e ajeitou seus óculos escuros, olhando ao redor.
— Com quem? — Perguntei confusa, tomando uma rajada de vento no rosto.
— Ela veio me visitar ontem à noite. — Sua voz era calma, porém ligeiramente alarmada. Senti meus olhos salpicarem por causa do forte vento batendo contra meu rosto. Não disse nada por um segundo, então ela continuou: — Sua irmã sabe o que você fez, mas aparentemente não sabe da minha participação.
— Meus pais foram buscá-la hoje pela manhã. Ela não pode ter visitado você ontem à noite. — Disse eu, tentando soar tranquila e despreocupada. Mas no fundo eu queria gritar.
— Ela se apresentou como Courtney. Em momento algum ela tentou me convencer de que era a verdadeira Alison. — Suas palavras me atingiram como espinhos felpudos. Respirei pausadamente, tentando não deixar as memórias me invadirem como uma forte e violenta avalanche. — Como ela sabe sobre o nosso segredo? — Suas palavras firmes, porém urgentes, me trouxeram todas as lembranças da noite em que ela ficou cega. Lembro-me claramente de quando ela veio até mim, pedindo minha ajuda para tirar seu meio-irmão, Toby Cavanaugh, da cidade. Jenna havia insistido que precisava dele longe de Rosewood e quando eu a questionei o porquê, ela respondeu vagamente:
— Tenho problemas com ele. — A princípio, imaginei que Jenna estivesse fazendo com Toby o mesmo que minha irmã fez comigo e recusei a ajudá-la, mas então ela me convenceu que Toby precisava mesmo ir. — Ele me obriga a fazer coisas que eu não quero. — Ela argumentara com uma voz chorosa. Aquilo fora o bastante para me fazer mudar de ideia. A garota que deveria ser e agir como minha irmã me obrigava a fazer coisas que eu também não queria.
— Que tipo de coisa? — Eu não queria questioná-la sobre isso, mas minha curiosidade oscilava constantemente. Assisti enquanto seu rosto anuviava e tomava uma expressão penosa.
— Apenas me ajude, Ali. Eu posso garantir que você entende o que estou passando. Não é o mesmo que você passou, mas você entenderia. — Tornara ela, pegando na minha mão. E então, quando a noite chegou e já estava tudo pronto para executar o plano traçado por nós duas, fui até o pé da casa da árvore de Toby e peguei os fogos de artifício que ele escondia de seus pais. Se Toby fosse pego com aquilo de novo, ele seria cruelmente castigado. Assim que escalei a escada de madeira da sua casa na árvore e abri a janela para soltar os fogos, eu me assustei com o que vi e realmente entendi o motivo dela querê-lo longe. Toby estava... Abusando de Jenna. E com o susto, veio o desespero, fazendo com que eu jogasse os fogos de artifício para onde eles estavam. Um sentimento horrível passou pelo meu estômago, seguindo direto para minha garganta. Era uma mistura de nojo e horror, e então segui meu primeiro instinto que foi correr. Depois do que foram alguns zumbidos e estalos no meu ouvido, houve a explosão e um forte clarão dentro da casa na árvore.
— Jenna, você não pode deixar minha irmã saber que você sabe sobre a troca. — Disse num estalo de realidade súbita.
— Eu sei, ela é perigosa. — Assentiu instantaneamente. Um cheiro de cigarro subiu até meu nariz, fazendo com que eu olhasse atenta ao redor.
— Apenas não deixe que ela te manipule. E acredite quando eu digo que minha irmã é a rainha da manipulação. — Jenna respirou fundo e mordeu os lábios, pensativa.
— E se ela quiser a vida dela de volta? Você já parou para pensar nisso? — Meu coração pulou duas batidas, e o som dos grilos fez com que minha mente se esvaziasse e o pânico se instalasse dentro de mim. Eu lutei tanto para conseguir ter uma vida normal, longe daquela clínica psiquiátrica e, graças a Emily, Hanna, Spencer e Aria, eu consegui completar meu plano. Elas me ajudaram a ter minha liberdade e eu retribuí tirando-as do anonimato. Mostrei a Rosewood que elas eram alguém.
— Eu não vou voltar para aquele lugar, não posso deixar ela me mandar embora de novo. Aquele é o lugar dela. Eles não mandaram a gêmea errada, eu sou a sã. — Disse com convicção, baixando os olhos momentaneamente e recuando alguns passos. Um silêncio ensurdecedor se instalou entre nós, e então um barulho de galho se quebrando fez meu coração pulsar ruidosamente.
— Eu tenho que ir antes que Toby venha me procurar. — Jenna declarou ligeiramente alarmada, quebrando o silêncio. Depois de longos segundos, uma voz não muito longe gritou meu nome, sendo a desculpa perfeita para Jenna se afastar, caminhando sabiamente entre as árvores. Deixei um longo e doloroso suspiro escapar, me virando calmamente para trás.
— Alison! Onde você está? — Essa era... Spencer? Não fazia muito tempo que eu havia deixado sua casa. Teria o remorso a contorcido por dentro? Eu ri externamente, esperando que ela viesse até mim. Não demorou muito e a figura esguia e pálida de Spencer se revelou surgindo dentre as árvores.
— E volta o cão arrependido... — Cantarolei, rindo grosseiramente enquanto rodopiava no meu próprio eixo. Spencer estava parada, com os braços cruzados sobre o peito. Eu podia sentir a mágoa e a raiva se formando no seu âmago, assim como a minha. — Ainda não sei se estou pronta para aceitar suas desculpas, Spence. Você poderia ter ferido meus sentimentos seriamente. — Dissimulei com uma voz ressentida, me virando para ela logo em seguida com um sorriso sarcástico preenchendo meus lábios. Vi minha vontade de aborrecê-la duplicar de tamanho.
— Eu não vim atrás de você para me desculpar. — Ela disse friamente. — Eu vim aqui ouvir a verdade. — Meu coração novamente disparou alarmado.
— E quem lhe garante que possuo alguma verdade? — Perguntei, forçando um sorriso e analisando sua expressão com cautela. Spencer parecia saber sobre a gêmea? Ela parecia meio... Atormentada.
— Bem, se há alguém que sabe das coisas aqui nessa cidade, essa pessoa é você. — Um sorriso presunçoso logo se formou nos meus lábios, me deixando levar pelo ego.
— Isso é verdade. — Sorri maliciosa. — Mas vamos lá, no que a Dra. Alison pode te ajudar? — Pisquei com seriedade, cruzando as mãos sobre a coxa. Spencer colocou a mão na boca, tentando decidir se contava ou não.
— Eu contei a minha mãe. — Ela murmurou, relaxando seus ombros e encarando o chão, parecendo vencida. Pisquei confusa, levando um segundo para processar o que ela dissera. — Eu destruí o casamento dos meus pais, Ali. — Spencer se derramou, erguendo os olhos para mim. Lágrimas brotaram nos seus olhos, transbordando pelo seu rosto pálido e abatido.
— A verdade nem sempre é para ser dita, Spence. Não há sofrimento e nem destruição quando se está com uma mentira convincente. — Disse calmamente, me aproximando dela e tocando seu ombro. Um nó horrível se formou em minha garganta, me impedindo de respirar estavelmente.
— A verdade sempre aparece. Os segredos não ficam escondidos por muito tempo em Rosewood. — Ela discordou, parecendo irritada. Sua voz já estava começando a ficar rouca e embargada. — Apenas me diga, está bem? Eu só preciso saber. O meu pai... — Ela começou, contendo os soluços e olhando para os lados na esperança de encontrar as palavras certas. Seu corpo inteiro tremia, tanto pelo frio quanto pelo momento angustiante. Houve alguns segundos até que ela voltasse seus olhos para mim. — É seu pai também? — Spencer finalmente despejou, fazendo com que um rubor subisse pelo seu pescoço. Sua face agora estava indescritível e sua respiração pesada. Os grilos, espalhados pela floresta, pareciam ter se calado para ouvir nossa conversa.
— É bem chocante, não? — Chutei uma pedra para longe, tentando manter minha mente equilibrada. Eu não pensava em Peter Hastings como meu pai biológico, porque nunca tive nenhum contato relevante com ele. Por mais que às vezes eu sentisse ódio do meu pai por obedecer às ordens da minha mãe como um cachorrinho muito bem treinado, para mim ele sempre seria meu pai verdadeiro, mesmo que a genética ou um exame qualquer de DNA dissesse o contrário.
— Há quanto tempo você sabe disso? — Ela quis saber, passando a mão pelo rosto. Sua voz já estava mais calma e seu rosto menos vermelho. Afinal, todo o estrago já estava feito. O que chorar adiantaria?
— Tempo suficiente para explodir a mente de qualquer um, querida. — Respondi suavemente. A lembrança da minha mãe e do pai de Spencer se beijando na margem da floresta veio à tona, me trazendo melancolia. Aquilo era tão errado e desleal. Minha mãe com certeza merecia uma letra "A" escarlate grudada em seu peito para que ela sempre se lembrasse de que era uma adúltera sem valor.
— Então isso nos torna... Irmãs. — Ela sussurrou, tentando colocar algum sentido em suas palavras. O clima entre nós parecia tão estreito e pesado, que me limitei em apenas assentir com a cabeça. Pensei em várias formas que Spencer poderia ter contado sobre a traição do Sr. Hastings e em como sua mãe poderia ter reagido. E então a cena tomou forma na minha cabeça.
— Você e... Jessica? — Sua voz teria soado traída e firme. O Sr. Hastings teria ficado sem reação? Teria ele negado que teve um caso com minha mãe, sua vizinha, e que, por sua vez, deu a luz a gêmeas? As hipóteses eram infinitas. Peter Hastings era uma das três pessoas em Rosewood que sabia sobre minha irmã. Ele não ousaria contar a Spencer, ouraria? Meu estômago revirou com a hipótese, mas, no segundo seguinte, um sentimento de alívio tomou conta do meu peito; a família de Spencer se encontrava tão destruída e despedaçada quanto a minha. Melissa, com aquela pose altiva e de família com sobrenome poderoso, estaria desolada por saber do pequeno-grande-tropeço de seu pai? Mas talvez Melissa já soubesse. Sua reação quando me viu hoje mais cedo foi... Suspeita. Mesmo Melissa sendo minha irmã, eu nutria uma profunda antipatia por ela. Talvez seja pelo terrível fato de ela, dentre toda Rosewood, ser a única que nunca se curvou diante de mim.
— A verdade é mais estranha que a ficção, no final das contas. — Pensei alto, logo voltando para minha realidade. Spencer pareceu acordar dos seus devaneios e se virou sem dizer nada. — Spence...
— Não. — Ela me impediu, jogando a mão para trás. — Eu preciso tentar consertar o que quebrei.
— Você não pode consertar algo que foi despedaçado em um milhão de pedacinhos, Spencer! — Minha voz soou fria e sórdida. Mas minha intenção não era ser malvada ou magoá-la, e sim fazer com que ela aceitasse as consequências de sua insensatez. — Vamos encarar os fatos, você foi tola e simplesmente explodiu essa informação na cara da sua mãe. Como você acha que vai conseguir consertar isso?
— Então eu vou ter que aprender a lidar com toda a culpa em cima de mim. — Spencer respondeu com a dor evidenciando em seu tom de voz. Observei enquanto ela desaparecia em meio às árvores, seus passos ecoando firmes e solitários. Eu sabia exatamente como ela estava se sentindo: Spencer estava sozinha, não havia ninguém para alicerçá-la nesse momento. Foi como eu me senti quando descobri que eu chamava o homem errado de pai. Talvez tenha sido por isso que eu não contei a ela antes; algumas pessoas simplesmente não suportam o peso da verdade.
Eram algumas horas mais tarde e eu me encontrava de frente a uma segunda casa e apertando uma segunda campainha. Aparentemente, eu estava fazendo de tudo para não ficar em casa com Courtney 2.0. Ver meus pais fazerem todas as suas vontades e se gabarem por ela ter sido uma paciente modelo da Preserve estava me deixando mais paranoica e angustiada do que nunca. Como se tivessem sofrido uma lavagem cerebral ou algo parecido. Eu estava tentando reprimir todos os meus sentimentos que envolviam Courtney, principalmente por eu não conhecer suas intenções. Ela parecia mais blindada do que nunca.
— Alison. — A Sra. Fields abriu a porta e parecia genuinamente surpresa em me ver. Tentei me recompor instantaneamente e sorrir abertamente. — Entre, querida. Está congelando aí fora. — Ela abriu passagem para mim e fechou a porta assim que senti o ar quente me embalando. Antes de vir à casa dos Fields, eu fui para a minha tomar um banho quente e trocar de roupas. Agora eu estava com um casaco azul marinho Burberry, calça jeans skinny preta e botas de salto alto. Meus cabelos caíam perfeitamente sobre os ombros, ondulando nas pontas. Em suma, eu estava fabulosa.
— Boa noite, Sra. Fields. — Cumprimentei-a agradavelmente quando ela se virou, guiando-me para a sala de estar, onde ela aparentemente estava antes de eu chegar. E então, assim que cheguei a margem da sala e ao pé da escada, pude ver que quem lhe fazia companhia não era nem de longe uma das minhas pessoas favoritas. Samara, seja lá qual for o sobrenome dela, se levantou assim que me viu. Ela não parecia muito confortável. Observei-a enquanto pude e depois me virei para Sra. Fields, analisando-a também. Aquilo parecia anteceder uma conversa muito séria. O que Samara teria para conversar com a mãe de Emily em um momento a sós? Minha curiosidade estava virando ácido dentro de mim. Mas eu precisava focar no meu real objetivo. — Emily já está em casa? Eu preciso muito falar com ela. — Externei suavemente, ignorando a presença de Samara. A Sra. Fields assentiu, apontando para o andar de cima silenciosamente. Subi os degraus e caminhei até o quarto de Emily, que estava com a porta entreaberta. Em estava deitada de bruços na cama, folheando a Vogue e com fones de ouvidos. Por um segundo, eu fiquei perplexa por ela estar lendo uma revista sobre moda. Adentrei o quarto e caminhei até onde ela estava e me joguei ao seu lado, largando minha bolsa creme no chão. Emily arqueou seu corpo rapidamente, assustada e surpresa.
— Você me assustou! — Exclamou ela, colocando a mão no peito e suspirando. Segurei um riso agudo preso na minha garganta e apenas sorri, desculpando-me.
— Por que você está lendo a Vogue? — Perguntei curiosa, olhando para a revista. Ela abaixou os olhos, rindo nervosamente.
— Bem, Samara e eu vamos a algum evento de moda, então eu resolvi dar uma olhadinha nessas revistas. — Explicou timidamente, apontando para as revistas Seventeen, Teen Vogue e Nylon ao seu lado, além da própria Vogue na sua mão esquerda.
— Chato. — Murmurei monótona, arrastando as palavras. — Você definitivamente vai odiar. — Garanti a ela, puxando a Seventeen para mim.
— Talvez não. — Ela riu. — Pode ser divertido. — Seus olhos ergueram para mim e um brilho especial passou por eles. Era incrível sua habilidade de sorrir com os olhos. Inclinei minha cabeça em sua direção.
— Você quer diversão? — Sussurrei para ela. — Eu posso sugerir algo bem mais divertido do que evento de moda. — Sorri maliciosa, tentando não olhar para seus lábios rosados. Um rubor violento subiu pelo seu pescoço, deixando-a mais adorável. Meu coração começou a bater rápido demais, então me inclinei mais um pouco e toquei seus lábios com os meus. Uma sensação gostosa tomou meu estômago quando senti sua língua tocar a minha. Levei meus dedos ao seu rosto, descendo até seu pescoço suavemente. Quase pude sentir seu corpo se arrepiar com meu toque. A ideia de Samara estar no andar inferior conversando com a Sra. Fields e eu aqui em cima beijando Emily fazia uma corrente elétrica correr por todo meu corpo. Não me parecia muito provável que Em soubesse que Samara estava aqui.
— Seria essa sua sugestão de diversão? — Perguntou vertiginosamente, seus olhos brilhando.
— Talvez. — Disse calmamente, acariciando seu pulso. Ela riu e se afastou, prendendo os cabelos num rabo de cavalo bem feito. Emily foi para frente do espelho, certificando-se de que seu cabelo estava alinhado. — Tudo bem. Vamos ter muito tempo para nos divertir quando formos embora. — Ela virou instantaneamente, no meio de uma expressão engraçada que ela fazia para seu reflexo, estreitando seus olhos em minha direção.
— O quê? — Em deixou escapar. Levantei da cama e peguei minha bolsa, tirando uma caixa de madeira com tecido de dentro.
— Paris, lembra? — Sugeri ligeiramente emocionada. Eu não via a hora de me formar para sumir dessa cidade para sempre. Só assim eu poderia me ver livre da minha família problemática, mas principalmente da minha irmã ciumenta e desesperada por atenção.
— Eu não consigo entender você. — Emily pensou alto, não levando a sério meus planos, que também a incluía. Dei de ombros e me aproximei dela.
— Eu preciso que você guarde isso para mim. — Entreguei a caixa em sua mão, arranhando seu pulso lascivamente. Não era uma caixa grande, mas também não era pequena. Cabia perfeitamente a parte mais importante do meu diário dentro. — Mas você não pode contar a ninguém, nem para as outras garotas. Elas ficariam com ciúmes por eu estar confiando isso a você. — Sussurrei, usando um pouco da manipulação. Eu havia dividido meu diário em quatro partes, pretendendo entregar para cada uma das meninas. Courtney poderia facilmente colocar suas mãos nele enquanto ainda estava inteiro, então tive que dividi-lo para dispersá-lo e tirá-lo de seu alcance.
— Espero não estar interrompendo vocês. — Uma voz irritante ao extremo soou, colocando metade do corpo para dentro do quarto. Emily se afastou com a caixa na mão e sorriu tranquilamente, indo ao seu encontro. Ela realmente parecia nutrir sentimentos por Samara.
— Já interrompeu, estraga prazeres. — Forcei um sorriso desagradável enquanto observava as duas. Em resposta, Samara apenas deu de ombros e beijou Emily suavemente nos lábios. Uma parte de mim ficou feliz por colocar um belo par de chifres na sua testa, mas outra ficou péssima e envergonhada por estar sendo tão sem valor quanto minha mãe. Emily olhou para mim e sorriu, como quem dizendo que iria manter meu diário num lugar seguro.
Assim que saí da casa dos Fields e caminhava até o carro calma e melancólica, peguei meu celular da bolsa e procurei na lista de contatos a pessoa certa para quem eu deveria ligar agora. Cliquei em "chamar" e coloquei meu iPhone no ouvido, escutando os toques.
— Você acabou de interromper meu drink. — A voz austera de Faye Penton soou do outro lado da linha. Eu não sabia dizer quando ela estava falando sério ou quando ela estava apenas usufruindo do seu humor britânico. Assim como às vezes eu também não conseguia entender o que ela dizia. Faye não usava gírias e suas palavras eram quase heterogêneas.
— Você se lembra de quando eu estava no sétimo ano e você me contou que seu pai trocou sua mãe por uma garota de dezoito anos? — Perguntei, tendo a memória novamente no meu consciente.
— E que ele engravidou a piranha? Claro! — Ela concordou enfaticamente.
— Bem, você não é a única que sofre com esse lance de família. Demorou um pouco, mas... Achei que você deveria saber. — Disse honestamente. Eu nunca havia me perguntado por que ela havia me contado aquilo, mas, pensando bem, talvez fosse por sermos parecidas. Temos as mesmas cicatrizes e, mesmo que eu não soubesse para onde estava indo, ajudava saber que eu não estava indo sozinha.
— Posso imaginar que sua vida de garota perfeita, além de ser uma droga, é uma farsa. — Afirmou secamente. As coisas com Faye eram assim, sem rodeios. Ela realmente não era uma garota de Rosewood, que nunca se apegava aos detalhes. Ela definitivamente era uma boa observadora. Parei em frente a porta do BMW de Jason que eu tinha pegado emprestado sem ele saber. — Eu estou terminando de me mudar e acho que você também precisa de um drink bem forte, portando vou mandar meu endereço por e-mail. — Ela concluiu depois do que foram alguns segundos. Destravei o carro e sentei no banco do motorista, jogando minha bolsa para o lado. Encostei minhas costas no banco e suspirei dolorosamente, sentindo a mesma impotência de ontem. As coisas estavam fugindo do meu controle, literalmente escapando entre meus dedos. Eu precisava de uma nova vida, uma história novinha em folha.
Notas finais
Até o próximo. xoxo :')
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