This Must Be Love
17 The Past Is a Memory, The Future's a Mystery.
Notas iniciais
Reparei nas reviews que muitos estão preferindo Samily; isso torna as coisas difíceis. Anyway... Leiam o capítulo. :)
Alguns sinos tocavam ao longe dentro do meu cérebro, fazendo com que eu me perdesse dentre os ruídos agoniantes. A mistura ensandecida de música barulhenta com vozes conhecidas e animadas perturbava a difícil linha de raciocínio. Era, por hora, uma confusão de ambientes e momentos. As luzes estroboscópicas ainda me atingiam e pareciam me puxar para o chão com força e persistência. A escuridão e o cansaço me abraçavam aos poucos, fazendo com que eu relaxasse e fechasse os olhos lentamente. Minhas pálpebras estavam pesadas, mas eu ainda não podia me render ao sono. As palavras que invadiam meus ouvidos não faziam muito sentido; eu podia escutá-las claramente, mas a forma com que eu as recebia caracterizava a minha lentidão em processá-las.
— Coloque isso. — Pediu gentilmente a voz rouca e sedutora que eu conhecia tão bem e que fazia meu coração bater mais rápido do que quando eu nadava cinquenta metros livres. Minha cabeça girava e minha capacidade de assimilação e movimentos muito bruscos e articulados encontravam-se falhos e debilitados. Eu era incapaz de me mexer, apenas fitava a imagem à minha frente. Ali tentava a todo custo me enfiar dentro de uma camisa comprida e confortável. Suas tentativas fracassadas me faziam rir desajeitadamente. — Em, colabore. Preciso que você vista isso. — O tom que geralmente era impregnado de sarcasmo e maldade, no momento, não existia. Sua voz cautelosa e afável me fazia pensar se aquilo era um sonho ou uma miragem no deserto. Seu rosto em formato de coração me fez perder toda a concentração que eu miseravelmente consegui manter até segundos atrás.
— Você parece alguém que eu costumava conhecer. — Sussurrei entre dentes, como se fosse um grande segredo. Ali puxou meus braços para cima, colocando-os dentro das mangas da camisa com um suspiro exausto e vitorioso. O quarto estava escuro e apenas um pedaço da lua que entrava pela janela o iluminava. Eu estava sentada na beirada da cama, com Ali em pé à minha frente. Ela usava sua camiseta preta de botões e shorts curtos. O cheiro de sabonete de baunilha irradiava de sua pele clara e delicada e, agora, da minha também. Ela me fitou atenta com a escova de cabelo na mão, logo a passando entre meus cabelos com cuidado. Uma avalanche de lembranças me abordou sem cortesia. — Alguém cruel que eu costumava ser completa e perdidamente apaixonada, mas que me punia por tal ato ou, talvez, falha. — Murmurei, sentindo a garganta seca e dolorida. Minha cabeça parecia dar voltas pelo quarto, não conseguia fixar meu olhar em só um lugar. Seus olhos fitaram os meus cheios de condescendência e ressentimento.
— Você diz que eu não tenho coração, mas eu estou arrancando ele aos pedaços para te provar que tenho um. — Seus lábios estavam ligeiramente trêmulos e a expressão de sinceridade no seu rosto não se desfez. Sorri, fazendo um enorme esforço para entender as palavras. Assim que assimilei o que ela acabara de dizer, fiz outro esforço pra guardá-las na memória. Peguei sua mão, afagando com sutileza, e sorri.
— Eu vejo duas Ali. — Sibilei com a cabeça tombada para trás, fitando-a. A imagem à minha frente começou a embaçar e Ali triplicou. — Eu só preciso saber qual é a real. — Abaixei a cabeça, tentando manter meus olhos abertos, arduamente. Ela suspirou, sentando-se ao meu lado. Fitei-a com um sorriso fraco e debochado. Minhas palavras pareciam ter surtido outro efeito nela. Como se aquilo tivesse soado com triplo sentido. Seus lábios estremeceram por breves segundos. Parecia que algo se escondia sob o exterior calmo de Ali, algo que ela não queria admitir. Eu não era capaz de assimilar seu grau de decepção e inquietação.
— Isso significa que você tem o dobro de problemas. — Riu sarcástica, dissipando a inquietação que estava palpável há um minuto. — Mas você quer realidade? — Ela quis saber, não querendo exatamente uma resposta. Encarei seu rosto tranquilo e delicado com mais atenção, esperando pelo acréscimo. Ali puxou meu rosto para o dela, beijando minha boca com calma e gentileza. Seus lábios se movimentavam com firmeza contra os meus, mas sem língua, apenas o encaixe perfeito dos nossos lábios. Ela se afastou vagarosamente, com um brilho especial nos olhos e um sorriso no rosto. — Isso é real. — Destacou pausadamente. Seus olhos estavam pousados nos meus lábios, fitando-me nos olhos em seguida. Ali se afastou de mim, indo para debaixo dos edredons saltitante, parecendo com a mesma garota boba e inocente que vi no supermercado há oito anos e que tomou meu coração tão facilmente. Ela elevou o edredom para cima, revelando seu corpo bem delineado e vigoroso, convidando-me silenciosamente para que eu fizesse o mesmo. Eu não me mexi, apenas fiquei a observando enquanto ela esperava pacientemente.
— Se você for real, amanhã você me deixará saber, não é? — Eu sabia que não conseguiria manter isso em mente depois que eu me rendesse ao sono. Eu havia bebido demais e, apesar do nível de álcool no meu cérebro ter diminuído, eu ainda me sentia incapaz e diferente. A sensação de inibição e ousadia me aquecia e me causava um puro sentimento de leveza. Depois que eu fechasse meus olhos, as lembranças de toda a noite iriam se esvair do meu cérebro. Eu não queria assistir enquanto elas ruíam lenta e dolorosamente do meu consciente.
— Não precisarei. — Sorriu fraco, seu semblante murchou rapidamente. — Você se recordará se for isso o que você quer. Tendemos a esquecer as coisas que não estamos prontos para lidar. — Sua mão esquerda amaciava o colchão com gentileza, enquanto a direita apoiava sua cabeça. Pulei na cama ao seu lado, afastando o edredom quente e macio e me enfiando debaixo dele. Aconcheguei-me junto dela, sentindo seu corpo quente e convidativo colado no meu. Ela me abraçou por trás, puxando ainda mais meu corpo contra o dela. Era delicioso ter Ali tão próxima de mim. Repousei minha cabeça no travesseiro, sentindo a leveza e a tranquilidade me tomarem, embora meu cérebro estivesse um caos de zumbidos e barulhos desagradáveis. Conforme meu coração pulsava fracamente, meu cérebro respondia ao estímulo com pequenas alfinetadas. Meu tronco inteiro gritava de desconforto, mas, mesmo assim, não me impediu de adormecer. Ali tomou a minha mão e entrelaçou nossos dedos compromissada. Minhas pálpebras se fecharam tão rapidamente e a última coisa que senti foi seus lábios no meu pescoço.
O som de uma respiração calma e tranquila fazia com que todos os barulhos incoerentes da minha mente se fizessem insignificantes, trazendo-me a mais pura calmaria novamente. Eu quase podia sentir, inconscientemente, o peso de um braço em volta da minha cintura e um corpo quente e delicado aninhado ao meu. A sensação de proteção acalentava todos os meus sentidos ocultos e me trazia um sentimento distante e confuso. Eu podia escutar algo vibrando com insistência perto de mim, mas com meus pensamentos ainda distantes. Abri os olhos lentamente e constatei que meu celular estava piscando e vibrando sobre o criado mudo ao lado da cama. Minha cabeça latejava com violência e a claridade que atingiu minhas pupilas apenas fez a dor aumentar. Estiquei a mão e tateei o móvel à procura do meu celular que ainda vibrava com persistência. Ali pareceu se incomodar com o barulho que ele fazia e se afastou de mim, cobrindo seu rosto com a almofada. Senti um frio gélido bater contra as minhas costas quando ela se afastou bruscamente de mim. Apanhei meu celular com dificuldades, colocando-o na orelha sem ao menos olhar para tela para verificar de quem se tratava. Engrolei algumas palavras e a voz conhecida e calma me despertou.
— Eu te acordei, desculpe. — Foi preciso eu apenas escutar sua voz e meu coração acelerou rapidamente e uma alegria repentina me tomou. — Eu não imaginei que você estivesse dormindo. Queria te pedir perdão por ontem à noite, eu não sei o que aconteceu comigo. Eu simplesmente... Apaguei. — Samara parecia muito ressentida pela sua falha de ontem, mas não era como se ela pudesse simplesmente... Apagar. Nem eu. Sua respiração do outro lado da linha estava um pouco tensa e pesarosa.
— Tudo bem. — Disse por fim, tentando encontrar o ressentimento pelo bolo de ontem dentro de mim, mas não encontrei. Samara parecia tão sincera e confusa que não consegui ficar brava. Do outro lado da linha, pude senti-la hesitar e questionar se eu estava sendo sincera dizendo que estava tudo bem. — Não se preocupe... Eu nem me lembro de muita coisa sobre ontem à noite.
— Você bebeu? — Questionou com seriedade. Fiz que sim com a cabeça, me dando conta segundos depois que ela não podia ver.
— Um pouco. — Menti, apertando meus olhos com força. Odiava mentir para ela, mesmo sendo sobre uma coisa banal. — Eu senti sua falta. — Murmurei, sentindo o peso da verdade se encaixar perfeitamente com o momento. Eu quase podia senti-la sorrir do outro lado da linha telefônica. Um suspiro rouco e zangado soou atrás de mim.
— Emily! — Ali grunhiu, jogando o travesseiro para o lado. Senti minha pele queimar com seu olhar feroz sobre mim. Escutei Samara rir. Uma risada gostosa e confortável. Deus! Como eu amo sua risada meiga e rouca. Sorri com a constatação. Ali voltou a se deitar bruscamente na cama, agarrada no travesseiro gelado.
— Escute, você quer almoçar comigo? — Perguntou ela. Suspirei sentindo-me um pouco fatigada e dolorida. Concordei dizendo apenas um “Claro!” com verdadeira animação. — Passo aí para te pegar em quarenta minutos, tudo bem? — Olhei a tela do celular que, no canto de cima, marcava onze e quarenta e três. A sensação era de que ainda não passava das sete da manhã.
— Tudo bem. — Concordei, sentando-me na cama. — Eu estou na casa da Ali, mas já estou indo para casa. — Disse, ajeitando meu cabelo desgrenhado. Ouve uma pausa da parte dela. Ela deveria ter percebido agora que eu estava com Ali e que fora ela quem se irritou pela conversa. Olhei para Ali rapidamente, sentindo um nó se formar na minha garganta. Era incrível a forma com que Ali conseguia fazer meu coração saltar, mesmo com toda a confusão de sentimentos no momento. Ela sempre seria meu primeiro amor, não importando o que acontecesse, eu sempre me lembraria de Ali como alguém importante em minha vida. Algum tipo de amor impossível, talvez.
— Você bebeu e dormiu na casa dela? — Seu tom ligeiramente enciumado me fez sorrir. Samara não parecia ser o tipo de namorada ciumenta, mas Ali ultimamente estava ultrapassando certos limites, o que deve ter causado certa desconfiança dela. Ela suspirou com a resposta não dada meio óbvia e continuou: — Conversamos melhor depois, esteja pronta. Por favor. — Escutei um barulho de geladeira abrindo e fechando, mas Samara não parecia estar em movimento.
— Samara, onde você está? — Perguntei antes que ela pudesse desligar. Houve outra pausa.
— Em casa. — Disse com firmeza. — Estarei em sua casa em quarenta minutos. — Samara garantiu com a voz doce e tranquila. Eu não estava vendo, mas sabia que ela estava sorrindo. — Me espere.
Depois de eu ter tomado banho e me arrumado para ir para casa, Ali surgiu no quarto com uma bandeja com torradas, suco de laranja, queijo branco e mais de três tipos de geleia em mãos e nada amistosa. Seu mau humor era mais do que palpável. Ela também havia tomado banho e seus cabelos estavam úmidos e cheiravam à tutti-frutti com baunilha. Ela se sentou na cama com raiva e colocou a bandeja sobre a cama, pegando uma torrada e passando geleia cuidadosamente pelas laterais. Não havíamos trocado uma palavra sequer ainda. Ali parecia bastante aborrecida e eu não seria a pessoa que iria deixá-la ainda mais doente dos nervos, como ela mesma sempre diz.
— Você não deveria sair com aquela sem sal. — Ela resmungou, colocando a torrada cheia de geleia na boca. — Você deveria ficar aqui, comigo, assistindo Garotas Malvadas.
— Já assistimos a esse filme mais de quinhentas vezes. — Ri, deitando-me ao seu lado na cama, sendo alicerçada pelo meu cotovelo contra a cama. — E eu não gosto dele. Nunca gostei. — Peguei um pedaço da sua torrada e coloquei ainda mais geleia de morango por cima da de uva que Ali havia posto, colocando na boca. Ali me observava atenta.
— Poderíamos assistir “A Casa do Lago”, ou “Doce Novembro”, ou então os dois. — Sugeriu, afastando meus cabelos para trás de forma polida. Surpreendi-me com sua perspicácia. — Eu sei que esses são seus filmes favoritos. Aposto que Samara não sabe. — Sussurrou desdenhosa, voltando sua atenção para a bandeja à sua frente. Sufoquei um riso com a falta de segurança aparente em sua voz.
— Você esqueceu de “Te Amarei Para Sempre”, Ali. — Acrescentei distraída, pegando uma colher e enfiando dentro do pote de geleia de morango com cuidado. Ela me fitou, assistindo enquanto eu colocava a colher cheia de geleia na boca.
— Ah! Você ainda gosta desse filme? — Perguntou com a voz impregnada de sarcasmo. Encarei seus olhos escuros por um minuto inteiro, sem desviar para canto nenhum. — Pensei que Samara havia feito você mudar de ideia em relação a isso. Sabe, ela mudou tanta coisa em você. — Observou com cinismo. — Erro meu. — A Ali suave e desprovida de deboche e ironia havia desaparecido. Eu ri com o rumo com que ela levou as coisas, olhando para minhas mãos por breves segundos. Assim que desviei o olhar, notei por reflexo que minha aliança não estava no meu dedo. Voltei com meus olhos rapidamente para minhas mãos, confirmando o que minha visão periférica alertou. Fitei Ali, que estava passando geleia de morango na torrada novamente, minuciosamente. Ela parecia empenhada e detalhista quanto a isso.
— Ali, cadê minha aliança? — Perguntei, endireitando-me e revirando a cama. Ela não tirou seus olhos da torrada nem por um segundo, seus dedos passando pelas laterais e tirando o excesso de geleia.
— A aliança é de quem? — Quis saber, num tom calmo e imperturbável. Observei suas ações com ligeira impaciência e curiosidade.
— Minha. — Ela me fitou como se fosse óbvio, descartando a torrada e colocando o dedo com geleia na boca sem desviar seus olhos de mim.
— Então é você quem deveria saber. — Deu de ombros, arqueando suas sobrancelhas claras e bem feitas. — Se fosse importante e significante, você não perderia.
— Eu não perdi. Você pegou. — Acusei-a, elevando o tom de voz. Ela me encarou severa, como se estivesse me mandando abaixar o tom. — Ali... — Choraminguei, respirando fundo.
— Eu não peguei. — Afirmou com suavidade. Ela pegou um guardanapo e limpou seus dedos com uma tranquilidade irritante. Era óbvio que Ali havia pegado.
— Me devolve. Por favor. — Pedi docemente, aproximando-me dela com cautela. Ela deu um longo gole no seu suco de laranja e depois se virou para mim.
— Não. — Disse simples, com um olhar amoroso. — Você só pode usar o que eu te der. E eu quero que você fique aqui comigo. Talvez amanhã eu te devolva, ainda estou em dúvida quanto a isso. — Enquanto divagava, ela fitava suas unhas pintadas de azul-escuro, da cor dos seus olhos. Nunca subestimei o poder de Ali em piorar a situação. Suspirei cansada e decepcionada.
— Tudo bem. — Ela me fitou com esperança camuflada. Levantei-me da cama e caminhei para a porta sem hesitar.
— Aonde você vai? — Ela quis saber, irritada. Parei no batente da porta, virando-me para ela.
— Passar o dia com a minha namorada. — Enfatizei bem o namorada, para que ela percebesse que seu jogo de domínio não funcionaria comigo. Eu sempre propunha a ela programas bobos como esse: ficar em casa e assistir a algum filme, mas ela sempre me dispensava quando aparecia algo melhor. Ali se levantou da cama rapidamente, quase pude sentir sua vertigem.
— Emily, se você for... — Começou ela, serrando os punhos e me fitando com fúria. — Eu não quero que você volte. — Suas palavras saíram amargas e pesadas. Era como se ela estivesse me jogando contra a parede.
— E agora? — Perguntei, sem querer uma resposta. — Quem está afastando quem? — Ali parecia estar na defensiva. Seus olhos estavam mais expressivos do que de costume e sua boca tremia de inquietação.
— Ela vale mesmo todo esse sacrifício? — Ela quis saber, desviando o rumo da situação, ou talvez não. Essa era uma pergunta peculiar, desviei meus olhos dos dela e encarei a janela por alguns longos instantes. As cortinas do quarto de Spencer estavam cobrindo toda a visão do cômodo. Ela provavelmente deveria estar dormindo. Lá fora, eu podia escutar claramente os pequenos poodles dos Linton latirem estridentes no jardim da família, e os gêmeos McCartney gritarem um com o outro, irritantemente. Ela se sentou na cama novamente e deixou sua cabeça cair sobre suas mãos. Percebendo que eu não iria responder, ela prosseguiu: — Eu estou dando o melhor que eu posso. Estou oferecendo o meu lado bom para você. Não é o suficiente?
— Ainda falta. — Murmurei pensativa. Ela se esquece do essencial. Notável.
— O que falta para você, Emily? — Ela levantou o rosto, parecendo vencida e entregue. Ali me fitava com seriedade e com um olhar penetrante.
— Falta amor. — Disse simples. — Não da minha parte, porque eu não fiz outra coisa a não ser te amar todos esses anos. — Destaquei sem ressentimentos no meu tom de voz. Era uma espécie de verdade recôndita.
— Os detalhes mais bobos têm a rara competência de se tornar tudo aquilo que você gostaria de ouvir. — Suas palavras soaram como melodia sincronizada. A sutileza e suavidade com que ela havia pronunciado cada palavra a fez parecer mais do que sincera e verdadeira.
— Por que você não pode ser um pouquinho mais objetiva? — Eu não conseguia entender aonde ela queria chegar. Suas reais intenções me pareciam evasivas. Ela me encarou por um minuto inteiro, com o rosto suave e as pálpebras pesadas, demorando segundos a mais quando se fechavam. Ela se levantou, foi até sua penteadeira e revirou uma caixa delicada que eu havia dado para ela no sétimo ano. Ali a usava para guardar seus brincos. Ela tirou algo que eu não pude ver o que era e veio até mim.
— "Vai ver as rosas. Assim compreenderás que a tua é única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo." — Sussurrou, tomando minhas mãos e colocando minha aliança na palma. Eu não conseguia tirar os meus olhos dos dela. Esse friozinho que fazia do meu estômago um redemoinho de sensações aparentemente sem fim era causado pelos seus profundos olhos azuis. A sinceridade que eu sempre ansiava fazia-se presente no momento. Ali sofria notáveis oscilações de humor. Era incrível a rapidez com que ela se colocava no ataque, mas rapidamente voltava para a defesa. Sua doçura às vezes se perdia na sua amarga hostilidade, mas eu sempre me neguei a enxergar o seu lado ruim.
— Essa é uma das diversas razões pela qual eu amo você. — Sorri, trazendo suas mãos para junto do meu peito. Ela me encarava incisiva, esperando pelo acréscimo. Sua feição tão calma e regada de suavidade me motivou a continuar: — Você cita trechos de livros que eu nunca vi você lendo.
— Você ficaria surpresa. — Riu baixo, tirando uma mecha de cabelo que caiu sobre meu olho. Sorri pensativa. — Mas, se me ama, por que você está tendo um caso com aquela vadia? — Perguntou ela, com a voz suave e distraída. Ela não me fitava no rosto, seus olhos estavam atentos aos seus movimentos conforme brincava com as pontas clareadas do meu cabelo. Senti um incômodo rondar meu peito. Eu não gostava de quando Ali se referia à Samara dessa forma desrespeitosa, mas eu nunca fui clara o suficiente quanto a isso. Tomei fôlego para dizer as palavras da forma mais peneirada e objetiva possível.
— Eu não estou tendo um caso com Samara, Ali. — Comecei, afastando suas mãos de mim. Ela levantou seus olhos automaticamente para os meus. — Eu estou tendo com você. E, por mais que você não queira ou não aprove, eu estou me relacionando com Samara. E sabe o que é o mais insano de tudo? — Quis saber, rindo amargamente. — É que você só está com medo de perder quem sempre fez tudo por você. Sabe? A pessoa que te via como algo puro e sensacional? — Ela riu num alento, não parecendo afetada. Ela deveria estar tentando se decidir se gritava ou apenas deixava para lá, fingindo que aquilo não era uma grande coisa. E deveria não ser mesmo, afinal, Ali tem um grupo de namorados que a adoram e a veneram. Eu sou para ela um brinquedo diferente que, depois que se entedia, guardava de volta na caixa pequena e abarrotada. O que me faz questionar sobre meus procedimentos: era certo o que eu estava fazendo com Samara? Certamente que não. Mas eu ainda me lembrava de tudo, embora a ideia fosse esquecer.
Notas finais
Quero reviews de vocês dividindo suas alegrias desse capítulo comigo ou suas melancolias. Waiting...
Até o próximo. :') xx
Fale com o autor