This Must Be Love

5 Raindrops Keep Falling On My Head.


Notas iniciais
Esse capítulo ficou deveras diferente, mas, no final, acabou fazendo um pouco de sentido. Mas isso eu explico em Notas Finais. Boa leitura. :)

Fim de tarde e começo de noite com neblina. A garoa estava fininha e incessante, vinda de um céu sem estrelas e sem lua, escuro como o breu. O ar frio e cortante corta silenciosamente toda calmaria. Um barquinho na correnteza, mas nem as ondas com toda sua fúria e inconstância colidem de propósito, então, qual é o ponto? Eu venho pensando nesse dia. Resolvi andar. A garoa batia contra mim, persistente, as gotas frias da chuva travessa tornando-se quentes com o choque do contato com minha pele fervendo. Chovia e eu ia indo por dentro da chuva. Sem guarda-chuva, sem nada. Mas, bem assim, eu ia indo pelo meio da chuva. Eu pensava naquela voz, naquele gemido sexy, nos olhos calorosos. Mas ainda chovia e meus olhos ardiam do frio contra minha retina e das lágrimas que ameaçavam escorrer e embaçavam a vista. E fui, naquela garoa que se transformou em chuva. Eu andava por sobre as ruas molhadas e desviava das poças que já haviam se formado em alguns pontos da rua. Eu sei que poderia ter pegado o carro, mas precisava andar, mesmo com a chuva contra meu peito sensível, eu ia e continuava andando, chegando cada vez mais perto. Fui pensando no que ela estaria pensando, se ela havia se arrependido por antes, se ela também estava agradável me esperando quente e pronta. Arames farpados na minha garganta e tochas sobre minha cabeça. Tentei equilibrar a cabeça sobre os ombros. De repente, começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça e as ideias misturadas, talvez eu tivesse febre. Talvez eu devesse parar. O que acontecerá amanhã? Amanhã...

Sinto saudades de casa. É tudo o que consigo pensar. Amanhã fará uma semana que estou na Alemanha. Aqui é maravilhoso, e os alemães são tão acolhedores e prestativos. Não sou fluente na língua, mas já conheço algumas palavras. Minha mãe achou que seria interessante se eu viesse para cá para passar um tempo com meu pai. Ele serve ao Exército e, ano passado, ele foi mandado para comandar um batalhão em Berlim. Desde então, ele vem se revezado em estar no Canadá, onde ele serve oficialmente, estar em Berlim, e estar em casa nos seus dias de licença, que são mais para o fim do ano. Mesmo eu estando em período de aula, ele disse que não haveria problema se eu perdesse apenas algumas semanas, já que eu tenho notas exemplares e tenho uma frequência quase perfeita na escola. Minha mãe disse que eu precisava pensar um pouco e sair de Rosewood por um tempo. Não sei o que a moveu a fazer isso, mas, com certeza, deveria ser por causa da natação. Tenho tido alguns relapsos de saúde, apesar de eu ter diminuído a carga dos treinos, ainda me sinto fatigada. E, de certo modo, essas pequenas “férias” estão me fazendo bem. Eu não estava nada bem naquela semana e minha mãe havia reparado e, de algum jeito que não sei como, ela pensou que eu estava sentindo falta do meu pai e que isso estava me perturbando, então decidiu que eu deveria visitá-lo.

Por que tão de repente? – Perguntei depois de ela ter contado sobre a viagem de última hora. Eu cheguei do treino não fazia nem uma hora, já havia tomado banho e estava deitada no sofá assistindo à TV, que estava no volume um. Passei as últimas quatro aulas tentando não pensar naquelas dolorosas e simples palavras que Ali dissera antes de me deixar plantada que nem uma idiota na sala. E, no final das contas, –A estava certa. Mas, mesmo assim, não conseguia sentir raiva, mágoa ou qualquer coisa do tipo. E meu amor não diminuía em nada.

Eu pensei que você iria gostar de ficar um tempo com seu pai, Emily. – Pausou, dando um longo suspiro. – Ele sente sua falta. – Concluiu cansada. Eu também sinto falta dele, não como ela sente, mas eu realmente sinto a falta de um pai presente na minha vida. Eu sei que eu tinha que ter orgulho do meu pai por ele servir ao país. E eu tenho. Juro! Mas é que, às vezes, eu queria que ele tivesse um emprego um pouco mais comum, como gerente de banco, advogado, arquiteto, engenheiro ou até mesmo um professor, porque, pelo menos tendo qualquer uma dessas profissões, ele não precisaria passar tanto tempo longe de casa e não estaria correndo risco de vida. Era um pensamento mesquinho, eu sei.

Eu adoraria. Sinto falta dele também. – Disse, finalmente. – E eu acho mesmo que preciso passar um tempo fora de Rosewood. – Olhei para a grande coleção de vinil que meu pai colecionava – mesmo não estando em casa, a coleção permanecia intacta e bem conservada – de bandas de rock. Tinha mais de cem discos da época em que ele era jovem e obcecado por The Beatles, Oasis, Niall Yang, Bob Dylan, Chuck Berry, Eric Clapton e afins. Essa é a nossa trilha sonora de natal. Porque, assim como eu, meu pai odiava e achava aquela musiquinha natalina chata e cansativa.

Você está certa. Acho que você precisa se distanciar um pouco. – Concordou ela, me fazendo voltar a atenção. – Precisa conhecer novas pessoas, novos lugares e culturas diferentes. E tenho quase certeza de que não está se alimentando direito. – Acrescentou, me inspecionando atenta. Não estava tendo muito tempo para comer e também não sentia fome. Mas não iria dizer isso a ela, porque senão era capaz de ela ficar neurótica e achar que eu estou com problemas alimentares. Bem o tipo da minha mãe.

Eu estou comendo, mãe. – Menti. E assim se deu por encerrada a conversa. Minha mãe e eu não somos tão próximas como Ashley e Hanna. Eu acho digna a relação de mãe e filha que elas têm – e confesso que tenho um pouco de inveja também.

Eu e meu pai estávamos em Hamburgo, a segunda maior cidade na Alemanha, não queria ter que ficar em Berlim perto de onde ele estava supervisionando seu temporário batalhão rebelde, como ele mesmo apelidou. A forma como eles agiam e falavam não me agradava. Meu pai dizia que era porque eles ainda eram novos e sem noção e que, depois que tiverem sido treinados de acordo, seriam mais fáceis de lidar. Mas não me convenci. Visitei um lugar incrível que meu pai havia me levado para conhecer, que foi Freiburg, uma cidade curiosa e repleta de passagens e lagos reclusos, algumas vezes chamado de “capital” da Floresta Negra. Mas, depois, ele ficou ocupado demais e não deu mais para me acompanhar no passeio turístico, tive que me virar sozinha. Mas, de certo modo, foi bom, porque pude aproveitar mais e não me preocupei em falar ou fazer certos tipos de coisas que, aos olhos dele, seriam inadequados ou inoportunos. Consegui que ele saísse comigo três vezes antes de ele voltar para o seu Batalhão Rebelde.

Era uma quinta-feira à noite, o céu estava escuro e, bem no topo, havia uma lua cheia, com estrelas ao redor lhe fazendo companhia. Numa noite de inverno, o frio fazia-se presente e, pela primeira vez desde que cheguei, não quis sair para conhecer e me aventurar pelas ruas da grande Alemanha. Em vez disso, estava com Hanna no Skype. Ela fora a única para quem contei que ia viajar, assim que minha mãe me disse. Ela ficou extremamente animada com a ideia, muito mais do que eu. Pedi para que ela não comentasse com ninguém sobre a viagem, a não ser que alguém perguntasse, uma vez que eu já estivesse na Alemanha. Pedi também que ela não contasse nem para as garotas, em especial para Ali. Ela ficou confusa e me questionou o porquê, eu disse apenas que não queria que ninguém soubesse por enquanto, somente ela. Isso foi o suficiente para ela não perguntar mais nada por se sentir exageradamente lisonjeada e feliz por eu ter contado o segredo a ela.

Tem muitos gatos aí? – Perguntou ela depois do enorme relatório que havia acabado de fazer sobre cada lugar e pessoa que conheci. Contei sobre um cara alemão que me pediu em namoro depois de 15 minutos de conversa que tive com ele. Hanna gargalhou e perguntou se ele era bonito, respondi afirmativamente. A maioria das pessoas que conheci aqui é relativamente bem aperfeiçoada. Contei sobre alguns turistas enlouquecidos, brincalhões e engraçados que conheci na terceira noite de estadia aqui.

Sim. – Ri. – Apesar de eles serem extremamente brancos, tem cada alemão bonito. – Disse arrastando as palavras. Ela riu. Não que eu realmente me interessasse por algum deles, mas tinham alguns que era praticamente impossível não olhar ou reparar na beleza genuína que possuíam. Mas o que anda chamando verdadeiramente a minha atenção são as alemãs, que parecem réplicas exatas da Barbie.

Eu queria estar aí com você. – Fez biquinho. – Nós íamos nos divertir tanto! – Disse, segurando o rosto entre ambas as mãos. Hanna é a que eu mais converso e tenho afinidade. Gosto de todas em igual, mas ela é a que eu mais tenho contato.

Seria muito divertido. – Concordei, mordendo o lábio.

Você tinha que ver a reação das meninas quando contei que você estava na Alemanha.

Qual foi? – Perguntei curiosa. Não tinha parado para pensar em como fora a reação delas quando souberam que eu havia viajado.

Foi a melhor! – Gritou animada. – Aria quase pirou, dizendo que já esteve aí e adorou. E Spencer, bem, ela ficou confusa. Achou que você tinha fugido. – Esperei, pensando que ela iria contar como fora a reação de Ali, mas ela não mencionou nada a respeito.

Foi bem repentina a viagem. Eu mesma estranhei. – Disse, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Mas como estão as coisas aí? – Indaguei, esperando que ela me fornecesse qualquer detalhe sequer do que Ali andara fazendo. Não era uma espécie de obsessão. Não. Eu estou sentindo tanto a falta dela que chega a ser quase insuportável. Eu ainda não tinha falado com ela desde a última mensagem de –A.

Nada mudou, Em. – Ela garantiu. – Aria e Ali meio que voltaram às boas, mas ainda estão se estranhando quando podem.

Falando nela, o que ela disse sobre minha ausência? – Finalmente tomei coragem para perguntar. Hanna torceu o lábio para o lado.

Não disse nada. – Fez uma expressão de dúvida. – Ela apenas ouvia quando eu contava sobre as nossas conversas, mas não dizia nada. – Senti uma onda de dor inesperada com aquela afirmação. Não esperava que ela entrasse em prantos, mas esperava pelo menos que ela esboçasse alguma emoção ou alguma coisa do tipo, não essa total indiferença. Mas o que eu poderia esperar dela? Apenas isso, indiferença e mais nada. Às vezes, eu me pergunto até que ponto ela é aquilo que eu vejo ou se é apenas tudo uma ilusão ou tudo aquilo que eu queria acreditar ver nela. Preciso saber se Ali não é só uma projeção do que eu sinto. Até quando eu conseguiria ver nela todas essas coisas que me fascinam e que, no fundo, sempre no fundo, irá me fascinar?

Na sexta feira de manhã, assim que acordei e tomei banho, eu havia decidido que iria sair para alguma casa noturna de Frankfurt, onde eu fora com meu pai num museu há dois dias, chamado Hessenpark Open Air Museum. Eu preciso conhecer outras cidades, aproveitar e sugar o máximo que eu puder desse país incrível, porque talvez eu volte para casa semana que vem, que é quando meu pai volta para o Canadá. Fiquei conversando com Hanna até tarde pelo Skype, pelo menos para mim por conta do fuso horário, que tem uma generosa diferença de quatro horas. E, no meio da nossa conversa, Hanna decidiu ligar para Aria e Spencer e, quando ela mencionou ligar para Ali, eu a interrompi bruscamente dizendo que era melhor não. Ela me perguntou se nós havíamos entrado em contenda, respondi apenas que não e ela assim se satisfez, dando de ombros. E não era uma mentira, nós não estávamos brigadas, ressentidas e nem nada parecido, apenas... Não estávamos nos falando. Pelo menos nesse tempo que eu estou aqui ainda não conversamos; ela não me procurou e nem eu a procurei e assim estamos. Mas não é como se fôssemos completas desconhecidas ou inimigas. Certo?

Quando eram 9:15 da noite, aproveitei que meu pai já estava dormindo e saí para conhecer a noite dos alemães. Monza Club foi um bar que encontrei em uma das minhas caminhadas por Frankfurt. Embora eu quisesse conhecer uma boate ou discoteca, eu resolvi ficar por ali mesmo. Nunca fui uma típica garota baladeira, sei que não é do meu feitio, mas estar aqui me fez querer explorar lugares que nunca quis conhecer, como foi o caso de bares e boates. Não aquelas boates totalmente inapropriadas, nem aqueles bares caretas, mas uma coisa que realmente fizesse o meu estilo o mínimo que fosse. O que ajudou bastante também foi o sofisticado e grande bar não estar abarrotado de gente graças ao frio e à garoa fina. Havia apenas três homens, sentados a cinco cadeiras da minha. Usavam terno e gravata bagunçada, – eles vieram para cá direto do trabalho, ao que parece – e um casal de japoneses numa mesa que estava posicionada no centro do bar.

De onde você veio, Turista Bonita? – Questionou o barman, sem malícia em seu tom de voz, somente lisonja e delicadeza.

E.U.A. – Sorri envergonhada. Ele fez um gesto positivo com a cabeça, sorrindo.

Outro Martini? – Perguntou, apontando para o copo sobre a mesa. Apesar de eu não ser acostumada a tomar bebidas com teor alcoólico, resolvi experimentar por sugestão dele. Assenti sorrindo. Olhei ao redor enquanto ele deslizava o copo até mim. Ele limpou o balcão na minha frente, jogou o pano sobre o ombro e se afastou para atender outra pessoa. Uma vez que eu estava sozinha, não pude deixar de sentir lâminas perfurando cada centímetro do meu peito ao pensar em Ali e na imensa saudade que estou dela. Eu tenho uma mínima noção de que não é recíproco e que, nesse momento, ela deve estar agarrando algum cara estúpido, ou talvez ela deva estar em alguma festa – rindo e se divertido horrores –, proporcionada por alguma amiga mais velha que ela tem no hóquei, enquanto eu estou aqui, pensando nela. Dei um longo e amargo gole na bebida, sentindo-a descer rasgando pela garganta, ao concluir esse pensamento.

Posso estar enganada, mas tenho a impressão de que é a sua primeira vez aqui. – Disse uma voz feminina atrás de mim. Virei-me. Uma garota alta e com pingos visíveis de chuva em seu cabelo louro bem claro, usando um vestido azul-marinho, um casaco e salto alto preto se colocou no banco livre ao meu lado.

Ah, sim. – Respondi.

Você não é daqui, certo? – Ela me avaliou.

Não mesmo. Eu sou americana.

Eu sabia. – Deu um meio sorriso. – Eu também sou, aliás. – Disse, passando a mão em seus cabelos e jogando-os para trás. Havia alguma coisa doce e sincera em seu rosto, com seus olhos azul-índigo e sua boca pequena e bonita.

Eu sabia. – Ri.

Bem, se você fosse uma cor, que cor você seria?

O quê? – Pisquei pasma.

Ah, vamos lá. – Ela me cutucou. – Eu... Eu seria um vermelho. Mas não um vermelho de raiva. Um vermelho profundo, bonito, escuro. Um vermelho sexy.

Nunca pensei nisso. Hm, quem sabe um amarelo? – Ela sacudiu a cabeça com violência.

Você jamais seria um amarelo. Aquela cor sem vida e sem graça. Você seria alguma cor muito mais sexy que aquilo. – Respirei fundo e bem, bem devagar. Aquela garota estava passando uma cantada em mim?

Hmmm... Eu acho que preciso saber seu nome antes de começar a conversar sobre cor sexy. – Ela estendeu a mão.

Eu sou Trista.

Emily. – Enquanto apertávamos as mãos, Trista pressionou seu dedão contra a palma da minha mão. Ela não tirou seus olhos do meu rosto nem por um segundo. O barman veio até nós e Trista pediu uma dose tripla de Tequila enquanto eu pedi a mesma que eu estava bebendo.

Por que está bebendo? – Indagou. – Você não me parece forte para bebidas. – Comentou enquanto o genuíno alemão enchia meu copo novamente.

Nostalgia... Talvez. – Resmunguei, tomando tudo num gole só, mas dessa vez não senti a ardência na garganta, somente uma onda de excitação quando ela tocou minha mão e sussurrou pra eu ir devagar, sedutora.

Da sua mãe? Do seu pai? Do namorado? – Tentou adivinhar.

Um pouco. Estou com meu pai aqui, então, não. E não tenho namorado. – Respondi, citando seus chutes em ordem. Embora eu tenha um namorado, não é como se eu realmente o tivesse. Eu queria Ali como minha namorada. Mas a probabilidade de isso acontecer é mínima. Portanto...

Isso é bom. – Me fitou com um sorriso lascivo. Sorri de volta e ficamos assim por um longo tempo. Havia algo no rosto em formato de coração de Trista e em seus olhos azuis penetrantes que fazia eu me sentir... Segura.

Notas finais
Para quem já leu os livros, digam-me o que acharam de eu ter introduzido a Trista. Para quem não sabe, ou não leu os livros, Trista é uma personagem que aparece no quarto livro, Unbelievable (Inacreditáveis), e que mexeu com a nossa Emily por ter uma certa semelhança com Ali: rosto em formato de coração, olhos azuis. Mas enfim, pretendo usá-la em um determinado capítulo.

Espero reviews. Até o próximo. XOXO. ;**