This Must Be Love
6 I Can’t Stop This Thing We’ve Started.
Notas iniciais
Tudo é uma questão de linhas, e a única variável é como cruzá-las. Existe aquela linha que me separa da maioria das pessoas, aqueles que não são bons o suficiente para estarem perto de mim ou para fazerem parte do meu convívio. Por mais que as coisas mudem, e o fato de que precisamos crescer e amadurecer nos persiga, não é algo que eu realmente leve em conta. O que eu, honestamente, levo em conta é uma vida perfeita e inabalável. Mas isso, agora, não é algo que eu possa simplesmente moldar e expor ao mundo da forma que eu quero. Por fora, eu continuo sendo a mesma de antes: impecável, popular, rica e invejada por todos. Mas hoje vejo o quanto algumas coisas mudaram, e que nem todos me amam e me idolatram como sempre aconteceu. Existe alguém que me odeia e que quer me destruir a todo custo, chegando ao ponto de atingir todos que fazem parte da minha vida. Num jogo, tem aqueles que têm ou não o dom de jogar. Esse dom eu posso afirmar que eu tenho o domínio. Querem me derrubar, tirar a rainha do jogo, mas, claro, não permitirei tal vitória. De jeito nenhum. Meu reino ninguém invade. Eu poderia desistir, mas aí é que está: eu adoro o campo em que eu jogo!
Lembrei-me de quando eu era criança: as coisas eram mais simples. Minha maior tristeza foi cortar o cabelo da Barbie e descobrir que ele jamais iria crescer novamente. Meu maior problema era ter que subir em um banquinho para conseguir me enxergar no espelho para escovar os dentes. Minha maior preocupação era se eu ia ganhar o castelo da Barbie ou se eu ia comer meus cereais favoritos no café da manhã. Crescer? Totalmente superestimado! É sério, não se engane por aqueles lindos sapatos Luís Vuitton, bolsas escandalosamente luxuosas da Prada, óculos Gucci e acessórios e vestidos Dolce & Gabbana. Crescer significa começar a ter responsabilidades. E responsabilidade é uma droga. De verdade. Mas, hoje, a minha maior preocupação é –A. Toda vez que recebo uma mensagem, meu coração aperta. O fato de eu não demonstrar medo ou angústia não quer dizer que eu não esteja sentindo, porque eu estou. –A não parece estar blefando quando diz que sabe de tudo, mas a pergunta que não se cala dentro de mim é: como ela sabe tanto sobre mim?
– A que horas ela disse que o avião iria pousar? – Perguntou Aria, verificando o relógio em seu braço. Estávamos no aeroporto esperando por Emily, que estava voltando da sua repentina viagem para Alemanha. Quando Hanna nos contou que Emily viajara, não soube o que pensar e nem o que sentir. Para ser franca, inicialmente não senti nada. Era como se Em fosse aparecer, caminhando até nós depois de seu treino de natação, com seu sorriso doce e gentil nos lábios. Não era como se ela estivesse do outro lado do mundo e fosse voltar daqui a semanas. Mas senti meu coração apertado quando Hanna disse que Emily estava flertando com os alemães. Eu sei que Hanna só havia dito aquilo porque, assim como eu, ela tinha certa antipatia por Ben. Fui tomada por um sentimento de culpa. Não queria ter dito aquilo para Em. Não queria ter me portado daquela forma grosseira com que me portei com ela. Arrependi-me assim que fui para casa, mas não queria ter que pedir desculpas. Não iria, o orgulho não deixava. Pensei ter sido a culpada por Emily ter ido viajar assim, do nada. Porque, no final das contas, fugir é sempre convidativo e cheira à facilidade. Mas sei que ela não estava fugindo. Não. Ela não estava. Lembro-me com exatidão de quando estávamos na sétima série e Emily dizia que várias vezes ela se imaginou fugindo. Eu costumava dizer que iria com ela. Havaí e Alemanha eram dois dos meus lugares preferidos. Paris também. Eu dizia que poderíamos assumir novas identidades, mas Em sempre protestava, dizendo que isso parecia muito difícil de conseguir. E não importava o lugar que escolhêssemos, prometíamos passar muito, muito tempo uma com a outra, sem interrupções.
– Quando foi a última vez que você conversou com Em pelo Skype? –Indagou Spencer, que estava muito próxima de mim, para me tirar de meus devaneios com facilidade. Depois que Aria havia perguntado sobre o horário que o voo de Emily pousaria, não consegui prestar atenção na resposta de Hanna, fiquei presa nas minhas lembranças e reflexões.
– Há quatro dias. – Disse ela. – Você acredita que ela virou uma baladeira? – Hanna colocou a mão no peito, fingindo espanto. Aria e Spencer riram. – Eu não estou brincando, estou falando muito sério! Emily virou uma baladeira. – Informou levemente indignada, pronunciando cada palavra pausadamente.
– Impossível. Emily é uma puritana! – Spencer balançou a cabeça em discordância. Eu estava quieta, apenas absorvendo todas as informações necessárias. Não queria falar, estava sem ânimo. Mas Hanna só poderia estar exagerando. O pai de Em, assim como a mãe, eram muito conservadores e rigorosos com ela. Não me parecia que Emily iria cair na gandaia num país no qual o pai dela estava presente e servindo ao Exército. Difícil.
– Tanto faz. – Hanna deu de ombros e sentou-se ao lado de Aria no banco do aeroporto, com os braços cruzados sobre o tórax. Não sei explicar exatamente o que estou sentindo. Estou nervosa e não sei o porquê, quero que Em chegue logo, mas, ao mesmo tempo, estou aflita e receosa. Não quero ter que lidar com sua raiva, ou, o mais provável, sua mágoa. Eu posso lidar com a fúria e ressentimento de qualquer um, menos de Emily.
– Cuidado, Hanna. Comida de aeroporto engorda. – Ri sarcástica, me referindo ao Cheetos sabor queijo que Hanna estava devorando como se sua vida dependesse daquilo. Ela me fitou visivelmente desconfortável e largou o Cheetos de lado; limpou a boca com um guardanapo e o jogou no lixo, que estava ao lado do banco. Hanna descontava todo seu nervosismo e ansiedade na comida. Mas agora ela tinha o dever de se controlar, afinal, ela não quer voltar a ser a Hanna-Gorducha novamente. Certo?
– Olha lá! – Apontou Aria para frente. – Em está vindo. – Meu coração deu três cambalhotas, parecendo que ia saltar para fora do meu peito, e minha garganta deu um nó. Não estava entendendo o porquê dessa reação. É apenas Emily, disse a mim mesma.
– Nossa, como ela está diferente. – Hanna comentou levemente espantada, inclinando sua cabeça para o lado. Nenhuma das garotas se moveu. Aria e Hanna continuaram sentadas e Spencer continuava ao meu lado em pé, agora com o corpo virado observando enquanto Em vinha em nossa direção. Eu não sabia a que Aria se referia, pois estava virada de costas para a direção em que Emily vinha. Virei-me bruscamente para olhar, arrependo-me logo que o fiz por não ter me preparado para o choque. Emily estava a poucos metros de distância de onde estávamos, e ela estava... Linda. Ela havia clareado as pontas de seus cabelos, que haviam crescido desde que eu a vi pela última vez, usava jeans escuro colado, jaqueta preta aberta, que mostrava sua camiseta nude por baixo, um lenço esverdeado enrolado graciosamente em volta de seu pescoço e botas rasas pretas. Emily não havia nos visto, pois estava entretida com seu celular enquanto andava com sua enorme mala vermelho-sangue ao seu lado. Sabia que ela estava sujeita a esbarrar em qualquer um que se pusesse em sua frente. Caminhei na direção em que ela vinha. Quando as garotas deram indícios de seguir meus passos, levantei a mão para que elas permanecessem onde estavam e prossegui, parando logo que nossa distância se resumisse a apenas alguns passos. Ela sorriu com o que quer que tenha recebido em seu iPhone. Como previsto e calculado, Emily esbarrou em cheio em mim. Seu celular escapou de sua mão e foi de encontro ao chão.
– Desculpe, eu não... – Foi tudo o que ela disse até levantar o rosto e olhar para mim. Assisti enquanto sua face abandonava a expressão de desastrada e dispersa, adotando rapidamente a de reconhecimento e inquisição. Sorri, tentando dissipar a secura na garganta e acalmar meu coração que parecia que estava num trampolim. Abaixei-me para pegar seu celular e devolvê-lo a ela, e, quando o fiz, a tela acendeu acidentalmente e pude ver que tinha uma mensagem aberta. Não me importei em ler, mas o mantive em minha mão. Quando a fitei, não soube distinguir o que ela estava pensando ou sentindo. Fui tomada novamente por culpa e receio.
– Ali! – Gritou de repente. Senti o impacto de seu corpo tênue contra o meu, seguido por seus braços em volta do meu pescoço. Não soube lidar com essa reação. Pensei que ela pudesse me ignorar ou me tratar diferente, já que feri seus sentimentos. Ou pior, que nem me olhasse nos olhos ou falasse comigo diretamente, assim como Aria. – Eu senti tanto sua falta!Você não faz ideia o quanto.– Sussurrou ela em meu ouvido. Foi aí que me dei conta da reciprocidade. Eu também senti falta dela. Senti tanto que meu coração, que minutos antes estava dolorido e parecia ter encolhido, agora era como se tivesse recobrado a força e crescido novamente. Eu sei que parece meio piegas, mas não posso evitar. Não é como se eu pudesse simplesmente... Dissipar ou monopolizar sentimentos indesejáveis. Em afastou seu corpo do meu parecendo sentir-se inoportuna com a demonstração de afeto. Eu não havia correspondido ao seu abraço, e, para ela, era como se eu sentisse o ímpeto de empurrá-la. – Desculpe. – Murmurou quase inaudível. Ri, voltando ao pensamento racional e puxei-a de volta, dessa vez para os meus braços.
– Essa é a segunda vez que você me pede desculpas, e em menos de cinco minutos. – Zombei. Seus cabelos estavam com um cheiro diferente do habitual, assim como sua pele. Não reconheci a fragrância; com toda certeza deveria ser algum shampoo ou perfume que ela comprara na Alemanha. Emily estava incrivelmente cheirosa. – Eu senti sua falta também. – Confessei. A ideia de estarmos num lugar público retardava o ímpeto que sentia de obedecer às minhas vontades e ceder às minhas necessidades de afeto. Não podia me permitir a fazer esse tipo de demonstração com plateia a nos assistir. Se eu mesma não estou me reconhecendo, quem mais iria?
– Disso eu duvido. – Rebateu, afastando-se. – Não é como se você estivesse apaixonada por mim, Alison. – Ela deixou escapar um riso de descrença com a lembrança que veio à tona. Pude ver uma ponta de tristeza e desapontamento em seu olhar, mas logo se detendo.
– Não vá por esse caminho, Em. – Aconselhei.
– Por quê?
– Não quero brigar. – Suspirei cansada. Ela assentiu, forçando um sorriso e, sem dizer mais nada, caminhou para onde às garotas estavam. – Não com você... – Murmurei apenas para mim, sabendo que ela já não se encontrava perto o suficiente para poder ouvir. Levei ambas as mãos até meu rosto, cobrindo-o. Senti um cansaço momentâneo, não sabia o porquê, mas me recompus de imediato. Voltei para onde as meninas estavam e todas elas conversavam aleatoriamente, interrompi-as bruscamente.
– Depois as bonitinhas fofocam. Quero ir embora daqui! – Olhei por sobre meu ombro, revirando os olhos assim que avistei duas garotas, que usavam roupas idênticas, comentando abertamente e tirando fotos dos traseiros dos garotos que passavam e julgavam ser bonitos.
– Falando nisso, como vocês sabiam que eu chegaria hoje? – Indagou Emily, olhando de Hanna para Aria e de Aria para Spencer.
– Sua mãe me contou. – Sorriu Hanna. – Já que você estava ocupada demais se jogando na balada. – Fez careta, fingindo estar brava.
– Eu não estava na balada, Hanna, e eu fui naquele bar uma única vez. – Defendeu-se Emily. Típico de Emily Fields. Ri. Senti algo vibrando em minha mão. Era o celular dela. Eu havia me esquecido de entregá-lo. Olhei para tela que, novamente, acendeu acidentalmente. A mensagem que havia feito Emily sorrir e, logo em seguida, esbarrar em mim estava aberta. Dessa vez não consegui dissipar a curiosidade. Trista. Esse é o nome que consta na tela da mensagem aberta. Olhei para Em rapidamente, certifiquei que ela estava entretida com as garotas e voltei para a mensagem, que dizia:
Se eu pudesse escolher, você seria uma maçã; além de ser gostosa, faz bem a saúde.
Li e reli essa mensagem várias vezes, mas não consegui assimilar o contexto. Maçã? O que diabos significava aquilo? Era dessa cretinice que Emily havia achado graça? Não é possível. Fucei a caixa de mensagens enviadas para ver se ela havia respondido essa cantada ridícula, mas nada. Ela não deve ter tido tempo de responder. Fui tomada por um sentimento desconhecido. Meu estômago se contorceu e havia um enorme bolo em minha garganta. Senti um ligeiro aperto no peito, algo que nunca havia sentido em minha vida... Até agora. Deveria ser o ambiente que me causava incômodo e impaciência. Eu ansiava ir embora o mais depressa possível.
– Toma! – Entreguei o celular para Em, visivelmente impaciente. Ela me fitou com um olhar de divertimento. Achei uma graça, mas não mudei meu tom severo, muito menos desfiz a cara emburrada. Eu estava com raiva dela. Comecei a caminhar para fora do aeroporto. Aquele recinto estava me deixando doente dos nervos.
– Você leu? – Emily indagou, vindo logo atrás de mim em passos suaves.
– Li o quê? – Fingi não saber do que ela estava falando.
– A mensagem. – Disse.
– Que mensagem? – Perguntei cínica, levando minha mão para dentro da bolsa, que estava em meu braço, para retirar meu iPhone de dentro da mesma. – Você me mandou alguma? – Destravei a tela, fingindo estar conferindo se havia alguma mensagem nova. Não tinha, e eu sabia disso, assim como sabia ao que ela se referia.
– Não... Deixa para lá. – Suspirou aliviada. Ela não queria que eu visse. Isso ficou bem claro. Mas, por quê?
– Tanto faz. – Dei de ombros, voltando a caminhar para o estacionamento do aeroporto. Hanna, Aria e Spencer estavam cochichando algo que não consegui distinguir direito o que era. Mas não me incomodei em querer saber. Emily voltou para o celular, mas não ficou encarando-o por muito tempo e, quando chegamos ao estacionamento, logo o guardou dentro de sua bolsa Prada que estava em seu braço.
– Vocês não vieram juntas? – Ela perguntou, estranhando o carro de Spencer ao lado do meu.
– Não, viemos apenas nós três. – Respondeu Spencer, referindo-se à Aria e Hanna. – Ali chegou depois.
– É isso mesmo, agora vão cuidar da vida medíocre de vocês. Eu levo Emily para casa. – Ordenei com empáfia. Aria revirou os olhos e entrou no carro, sentando-se no banco de trás. Ri da sua petulância. Coloquei a mala de Em no porta-malas e entrei no carro, esperando enquanto ela se despedia de Hanna. Era estranha a ligação que Em havia criado com ela. Senti algo diferente e desagradável em minhas entranhas. – Tchau, Hanna! – Gritei impaciente, colocando a cabeça para fora da janela. Ela correu para o carro de Spencer rindo, sentando-se no banco do passageiro e acenando quando Spencer arrancou com o carro. Emily ria enquanto acomodava-se ao meu lado no banco do passageiro. Liguei o carro e dei a partida.
– Onde você estava? – Questionou distraída, colocando o cinto de segurança.
– Quando?
– Hoje. – Disse. – Spence contou que você chegou depois. Por quê? – Me fitou. Parei no farol vermelho e verifiquei se minha maquiagem estava intacta.
– Eu tive treino de hóquei até tarde hoje, Delegada. – Zombei, trocando a marcha. Emily sempre fora muito protetora e zelosa comigo e a apelidamos de delegada. As meninas diziam que ela era como se fosse meu Pitbull pessoal, pronta para me defender a qualquer momento. No começo, eu achava que era apenas um cuidado especial, mas, no ano seguinte, soube o real motivo de tanto zelo e preocupação.
– Certo. – Assentiu pensativa. – Achei que... – Balançou a cabeça, como se tentasse dissipar a ideia que lhe acabara de ocorrer.
– O quê?
– Não sei. Eu só... – Pausou, parecendo procurar as palavras certas. – Senti muito sua falta. – Concluiu num murmúrio. Não disse nada, não sabia o que dizer. O que eu poderia dizer? Que senti falta dela também, e que, estranhamente, ainda sinto? Não sabia como formular uma frase sobre o que estava sentindo. Eu sei apenas que preciso estar com Emily. A presença dela me faz um bem danado; de alguma forma, que não sei como, me revigora. Fiz a curva que dava para a rua dela e, como por ímpeto, peguei sua mão, entrelaçando nossos dedos. Pude ver pela minha visão periférica seu olhar de surpresa e confusão. Mas logo sua expressão tomou uma forma amena e um sorriso doce surgiu nos seus lábios. Senti falta daquele sorriso, dentre outras coisas.
Uma vez em casa, Emily colocou suas coisas em seu quarto e, sem se preocupar em organizar nada, jogou-se de costas na cama arrancando o lenço esverdeado de seu pescoço. Parei no batente da porta e, vendo-a assim, não parecia que estava apenas fatigada, e sim exausta. A Sra. Fields, mãe de Em, não estava em casa. Ela havia deixado um bilhete avisando que ficaria a tarde toda fora e que voltaria ao cair da noite. Emily deixou um “Ótimo” desapontado escapar dos lábios. Ela não era tão próxima de sua mãe, mas era notório para mim que ela sentia com essa distância que fora criada entre elas. Deve ser duro para ela, que é uma menina tão doce e afetuosa. Sorri com esse pensamento. Eu vinha reparando em cada detalhe de sua personalidade e fisionomia, e confesso que me encanto com cada descoberta. Em sentou-se na beirada da cama, tirando sua jaqueta com certa urgência.
– Aqui está calor. – Choramingou, jogando-a na cama. – Preciso de um banho. – Concluiu pensativa, levantando-se de repente. Ri. Ela me olhou, estreitando os olhos.
– Qual é a graça?
– Senti sua falta. Essas três semanas me pareceram três anos. – Digo finalmente, olhando-a incisiva. Ela me fitou desconfiada, esperando que eu dissesse que era brincadeira ou risse; estudou-me para ver se captava qualquer vestígio de deboche nas minhas palavras ou no meu olhar. Mas logo se convenceu de que não havia deboche, e sim sinceridade. – Bem, acredite ou não, é a mais pura verdade. – Dei de ombros, saindo do batente da porta e atravessando o quarto, deitando no mesmo local em que ela estava há poucos minutos.
– Eu acredito. – Disse ela, tirando sua camiseta nude e jogando-a no chão, revelando seu sutiã rendado branco que realçava sua pele morena. Minha cabeça rodou e senti o ímpeto de tocá-la naquele instante. Notei que Em estava mais magra.
– Você não está comendo. – Disse, tentando dilapidar meus pensamentos impróprios. Seu rosto empalideceu, mas logo recobrou sua cor normal.
– Não diga isso para minha mãe. – Pediu. Fitei-a inquisitiva, esperando o acréscimo. – Ela anda me inspecionando e isso iria aguçar ainda mais sua suspeita de que tenho problemas alimentares. – Riu, como se a ideia fosse insanamente ridícula.
– Diga a ela que você não é Hanna. – Cruzei a perna no joelho e dei uma piscadela maldosa para ela. Emily me fitou atônita. Deveria estar se perguntando se tinha ouvido errado.
– O quê? Hanna? – Piscou confusa. Soltei um riso, balançando a cabeça suavemente em descrença. Levantei-me da cama e caminhei até ela, parando a poucos centímetros de seu rosto.
– Quer ajuda para se despir? – Sussurrei com malícia. Seus lábios novamente convidativos ao extremo.
– Não, obrigada. – Recusou. – Posso fazer isso sozinha. – Riu, enrubescendo. Deixei um beijo doce e suave nos seus lábios, me afastando rapidamente.
– Vai tomar banho. Vou estar na sala. – Falei sorrindo, caminhando para a porta. Não esperei por uma resposta e saí de seu quarto. Quando cheguei à escada, pude ouvir o barulho do chuveiro e a água caindo. Não pude conter a imagem da água quente caindo sobre a pele macia e convidativa de Emily. Resisti ao ímpeto de voltar ao quarto e desci as escadas às pressas. Peguei minha bolsa e as chaves que eu havia deixado ao lado do bilhete que a Sra. Fields havia escrito para Em e saí.
Depois de sete minutos, cheguei ao lugar desejado e estacionei em frente ao restaurante favorito de Emily; comida caseira sempre foi sua preferida. Desliguei o motor e, antes de sair do carro, verifiquei se meu cabelo não estava desalinhado ou fora do lugar. Quando olhei pelo retrovisor novamente, vi outro carro estacionando atrás do meu. Estreitei os olhos para ver melhor. Aquele carro não me era estranho, mas, mesmo assim, dei de ombros e saí do carro. Se eu não me recordo é porque não é ninguém de importante, pensei. Entrei no estabelecimento e pedi frango frito, a comida favorita de Emily. Não demorou mais de dois minutos e meu pedido já estava pronto, não fiquei impressionada com a agilidade. Quando eu estava prestes a abrir a porta de vidro dupla, alguém o fez primeiro e pude ver que esse alguém era Paige. Olhei-a de cima abaixo com desdém e não pude deixar de notar a fúria aparente em seus olhos.
– Saia da minha frente, pele de porco! – Exigi com empáfia. Ela não se moveu e eu a inspecionei. – Você deve estar querendo saber se Emily está de volta. Certo? – Questionei retoricamente. Paige sempre teve uma obsessão doentia por Em desde a oitava série, e isso não mudou desde então. Ela tentou se esquivar de mim, mas eu a impedi.
– Sai da minha frente. – Fechou os olhos, parecendo controlar a raiva. Deixei um riso cruel escapar da minha garganta.
– Emily sabe da sua paixão “super secreta” por ela? Aposto que não. – Sua expressão tomou uma forma que não soube distinguir, mas, mesmo assim, não abaixei a guarda. – Qual é! – Sibilei, jogando a cabeça para trás. – Não se iluda. Emily nunca irá se interessar por você. Ela nem sabe que você existe. – Avisei com desdém. Ela me fitou com amargura, parecendo que poderia avançar sobre mim a qualquer momento.
– Você não sabe do que está falando. – Negou com a cabeça aturdida. Ri de sua tolice. Como ela pode dizer isso? Eu sou Alison DiLaurentis. Eu conheço cada segredo dessa cidade. Nada passa despercebido por mim.
– Continue achando isso. – Assenti irônica. – Agora eu preciso ir, porque a obsessão de certo alguém está me esperando. – Sussurrei entre dentes. Lancei um sorriso vitorioso em sua direção e passei por ela, tomando o cuidado para não tocá-la. Pele de porco era contagiosa e não queria me contaminar. – Faça um favor a si mesmo e fique longe. – Disse por sobre o ombro, deixando o recinto logo em seguida.
Quando voltei, Em estava deitada no sofá dormindo tranquilamente. A televisão estava ligada num canal de filmes e estava passando um de meus romances favoritos, “Doce Novembro”. Agachei-me perante a beirada do sofá e retirei o controle que estava em sua mão esquerda e seu celular que estava apoiado sobre seu peito, colocando-os juntos sobre a mesinha de centro. Em parecia estar num sono sossegado, porém pesado. Suas roupas leves e confortáveis confirmavam minha teoria de que ela permaneceria em casa o resto da tarde. Fiz bem em comprar comida. Rendi-me ao ímpeto e deitei-me sobre ela, equilibrando meu peso para não acordá-la de forma abrupta, e beijei seus lábios de forma amena. Senti tanta falta dela, precisava sentir sua pele novamente. Corri meus lábios para seu pescoço, sugando-o levemente; subi até seu ouvido sussurrando:
– Ei, acorda. – Voltei com meus lábios para seu pescoço, sugando-o com força, dessa vez. Minhas mãos correram por sua cintura.
– O que você está fazendo? – Engrolou, abrindo os olhos.
– Estou acordando você. – Disse, mordendo seu lábio inferior.
– Achei que você tinha ido embora. – Segurou meu rosto com ambas as mãos, fazendo-me olhá-la nos olhos. Neguei com a cabeça. Levantei-me, saindo de cima dela.
– Vem, trouxe comida para você. – Informei, pegando em sua mão para levantá-la. Mas ela parecia não querer se mover. Desisti. Caminhei para a cozinha, onde eu havia deixado a comida e peguei-a, levando para sala. – Come. – Sentei-me ao seu lado.
– Não estou com fome. – Afastou a comida para longe.
– Não perguntei se você está ou não com fome. Estou mandando você comer! – Ordenei severa. Ela me fitou contrariada e puxou a comida para perto de si. Forcei um sorriso orgulhoso.
– Como eu vou nadar amanhã com esse tanto de gordura que acabei de ingerir? – Questionou-me depois de ter comido uma boa parte do frango que eu havia trazido. Dei de ombros.
– O que tem de importante amanhã? – Perguntei num tom monótono.
– A capitania da equipe de natação. – Disse, colocando a caixa de frango quase vazia na mesinha de centro, acrescentando: – Antes de eu viajar, a treinadora disse que queria me tornar a capitã da equipe. – Ela me olhou inquisitiva. – Eu não te contei?
– Não. – Balancei a cabeça com os olhos fechados. – Mas você merece. Você é o membro mais valioso da equipe. – Dei de ombros, analisando minha unha bem feita.
– Foi exatamente isso que ela disse! – Exclamou animada. Olhei-a ligeiramente assustada. De repente senti o impacto de seu corpo contra o meu, seguido por seus braços enlaçando meu pescoço. Sua respiração quente batendo contra a minha pele exposta. Ela me fitou incisiva e seus lábios tocaram os meus de leve, logo ela levou uma de suas mãos à minha nuca, aprofundando o beijo. Sua boca tinha um delicioso gosto genuíno de graviola, seu suco natural favorito. Sua língua invadia minha boca, enquanto meus braços entornavam sua cintura delgada. – Fico tão feliz que vocês pensem isso. – Disse com a sinceridade transbordando em um sorriso singelo. – E, apesar de tudo, eu ainda amo você, Alison. – Falou séria, com um brilho diferente em seus olhos. Perguntei-me do que ela se referia com esse “apesar de tudo”. Mas não a questionei, e uma parte de mim sabia que ela quis dizer que, apesar de eu ser desse jeito, impossível e controladora, ela me amava. E, para mim, apenas isso bastava.
Notas finais
Devo avisar que, no próximo capítulo, que já está sendo escrito, Emison vai sofrer com uma turbulência que tem Nome e Sobrenome. Mas isso vocês irão entender melhor no próximo capítulo. Converso melhor com vocês nas reviews. XOXO ;**
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