This Must Be Love
19 Closing My Eyes, Holding My Breath.
Notas iniciais
Voltei com um capítulo tão grande quanto esse hiatus. Espero que me desculpem por ficar dois meses sem postar, não sei o que me deu, mas enfim. Espero que curtam o capítulo!
Um PS: Adoro brincar com coincidências ou não tão coincidências assim... :)
Sempre me perguntei se havia algo de especial em cada uma de nós: Spencer, Aria, Hanna e eu. Spencer era a garota certinha, que se sentava nas carteiras da frente da classe e erguia a mão para responder a todas as perguntas. Aria era a maluquinha que inventava coreografias em vez de jogar futebol como o restante da turma. Hanna podia até ser boba e espalhafatosa, mas estudava a Vogue e a Teen Vogue e, de vez em quando, dava alguns conselhos sobre moda, vindos sabe Deus de onde, mas que ninguém mais sabia. E eu era a nadadora tímida e bem classificada no ranking estadual, que tinha toda uma vida escondida sob a superfície e que era incapaz de falar mal de alguém. Mas, no fundo, eu sabia que tínhamos algo de especial. Claro, vivemos em Rosewood, Pensilvânia, um subúrbio a mais ou menos vinte minutos da Filadélfia, e tudo era especial em Rosewood. O cheiro das flores era mais doce, a água tinha um gosto melhor, as casas eram maiores. As pessoas costumavam brincar dizendo que os esquilos passavam a noite limpando tudo e capinando os dentes-de-leão que nasciam por entre as pedras do calçamento para que Rosewood parecesse perfeita para os moradores. Num lugar onde tudo parecia tão impecável, era difícil manter-se à altura. Mas, de alguma forma, Ali conseguia. Com seu cabelo longo, seu rosto em formato de coração e seus enormes olhos azuis, ela era a garota mais linda da região. Depois que Ali nos uniu e nos fez amigas, era como se tivéssemos passe livre para fazer todas as coisas que jamais ousamos antes. Isso me faz acreditar que nós tínhamos mesmo algo a mais em nossas vidas. Ali nos escolhera, nos tirara do anonimato e nos fizera as garotas de Rosewood. Isso era ser especial.
— No que você está pensando? — Samara perguntou com um sorriso doce nos lábios, entonando seu irresistível sotaque australiano e me arrancando de algumas reflexões. Eu adorava seu sotaque mais do que qualquer outro sotaque do mundo e não consegui conter um sorriso diante desse fato. Estávamos na sua cama, deitadas por quase trinta minutos. O quarto de Samara cheirava à flores e era ridiculamente muito bem organizado. Assim que cheguei ontem à noite, não resisti ao ímpeto de bisbilhotar seu guarda roupa, que era organizado por peça e classificado por cores. Seus muitos pares de sapatos seguiam a mesma regra, sendo alinhados por ordem decrescente. E quase toda a decoração do apartamento seguia a linha preta e branca: cômoda, criados-mudos, painel fotográfico, sofás e até mesmo roupas de cama. Apenas a cozinha se sobressaia dos inúmeros tons acinzentados.
— Em comida. — Disse com nossos olhos conectados. Ela riu e baixou os olhos, com um riso meio estralado.
— Você nunca tira isso? — Samara entrelaçou nossas mãos e, com a ponta dos seus dedos, tocava de leve a pulseira que Ali me dera no início do verão do sexto ano. Algumas lembranças vieram como enxurradas. Ela havia dado para todas nós para simbolizar nossa união e prometermos que nunca contaríamos à uma alma viva sobre a Coisa Com Jenna. Ali amarrara a pulseira no pulso de cada uma de nós e pedira que repetíssemos depois dela:
— Eu prometo não contar nada até o dia da minha morte. — Sentamos em círculo, Spencer, depois Hanna, Aria e eu, dizendo exatamente essas palavras. Ali havia colocado a pulseira dela por último. — Até o dia da minha morte. — Sussurrou ela depois de fazer o nó, suas mãos espalmadas sobre o coração. Apesar de ter sido uma situação pavorosa, achávamos que tínhamos sorte de termos umas às outras. E temos, mas a noite em que cegamos Jenna Marshall é uma lembrança que eu gostaria de não mais possuir. Arrisco dizer que foi a pior noite da minha vida.
— Nunca tiramos. — Disse finalmente, fitando seus olhos acinzentados e dissipando algumas imagens que insistiam em voltar à minha mente, mesmo depois de anos. Samara me observava atenta, como se estivesse me estudando e procurando por algo escondido. Seus dedos brincavam de minuto em minuto com meus cabelos, me deixando sonolenta e acomodada. Encostei minha cabeça sobre seu tórax, deixando meus dedos deslizarem sobre sua barriga nua. — Quero dizer, eu nunca tiro. Hanna já tirou a dela, Aria e Spencer também.
— Por que elas tiraram? — Sua voz estava cautelosa e calma, fato esse que sempre me impedia de ficar nervosa.
— Hanna tirou porque, segundo ela mesma, não combina com suas roupas e sapatos. Spencer porque foi uma forma sutil de dizer à Ali que não precisava dela. E Aria... Bem, Aria foi por mágoa. — Suspirei, pensando em todas as coisas que aconteceram depois que Ali nos escolheu para sermos suas amigas. Tudo era diferente, e um diferente bom. Mas, de repente, tudo mudou.
— Que tipo de mágoa?
— Os pais de Aria se separaram recentemente. — Comecei, mudando o tom de voz e me ajeitando na cama, ficando de um modo que eu pudesse olhá-la. — Eu não deveria estar falando sobre isso, mas é Rosewood, você vai acabar sabendo de qualquer jeito. O pai de Aria teve um caso com uma aluna e Ali e Aria flagraram os dois tendo um momento quando estávamos no sétimo ano. Aria, na época, ficou arrasada, mas não nos contou nada a respeito. Ali frequentemente fazia piadas e jogava indiretas sobre isso na nossa frente. Aria ficava incomodada e aborrecida, mas nunca entendíamos o porquê da mudança de humor, até alguns meses atrás. — Samara absorveu toda a informação fornecida por alguns instantes antes de dizer alguma coisa. Ela me fitou incerta.
— Isso é muito sério. — Murmurou pensativa. — É bem compreensível que ela tenha ficado magoada. Meus pais se separaram também, quando eu tinha quinze anos. — Sua voz saiu calma e sem mágoa. Samara sempre se esquivava de assuntos delicados que envolvia qualquer detalhe que fosse da sua família. Mas agora não parecia que ela fosse se esquivar de qualquer pergunta que eu fizesse.
— Por quê? Se é que me permite perguntar. — Ela riu, cruzando as mãos sobre seu colo.
— O encanto se perdeu. — Disse ela.
— Por que você não me conta mais sobre sua família? — Quis saber, me inclinando em sua direção. — É mais do que justo. Você conhece minhas amigas e elas são a minha família.E você conheceu e jantou com minha mãe. — Disse com firmeza e seriedade.
— Muito justo. — Assentiu solene. — Eu vou deixar você informada sobre minha família. Mas não agora. — Samara olhou para o relógio digital no criado mudo ao lado da cama, voltando-se para mim logo em seguida. — Você não está atrasada? — Seu sorriso doce e sugestivo me fez deixar o assunto de lado e respeitar sua posição. Observei-a atentamente por alguns segundos enquanto ela se inclinava em minha direção, seus lábios frios tocaram os meus demoradamente. Senti um frio na barriga e meu coração pareceu congelar por segundos com o contato dos nossos lábios. Puxei seu rosto para mais perto do meu, beijando-a com intensidade e subindo em cima dela. Separei nossos lábios e passei a sugar seu pescoço com força enquanto arranhava sua nuca. Nossos corpos estavam quentes, principalmente o meu que havia acabado de tomar banho e estava enrolando para me arrumar. Samara deslizou seus dedos sob minha camiseta preta, arranhando minha barriga de leve enquanto nossos lábios voltavam a se encaixar perfeitamente. Um gemido abafado escapou dos meus lábios, e eu podia sentir sua excitação aumentando conforme nossas carícias se intensificavam.
— Eu senti sua falta. Ainda tenho trinta minutos, podemos parar de falar e fazer amor mais uma vez. — Disse com vertigem. Seus olhos estavam no tom mais puro de azul e fitavam meus lábios com doçura e lascívia. Depois que minha mãe voltou da visita que ela havia feito ao meu pai, há três semanas, não pude ficar muito com Samara. Ela estava sempre arrumando alguma coisa para que pudéssemos fazer juntas, dizendo que precisávamos nos reconectar novamente, assim como ela fez com meu pai, e que ajudaria na nossa relação, o que de fato estava acontecendo. Eu conseguia me sentir mais íntima do que nunca fui com ela. Desde o baile de máscaras, quase três meses atrás, Samara e eu havíamos feito sexo apenas duas vezes, isso pelo menos até ontem.
— Não. Você precisa se trocar e eu preciso tomar banho. — Ela se afastou, levantando-se e indo para o banheiro depressa, como se estivesse fugindo de mim. Enfiei meu rosto no travesseiro e bufei com raiva. Permaneci assim por alguns segundos e logo me sentei na cama corretamente, me dando conta do que aquilo poderia significar.
— Você está me expulsando? — Gritei para que ela escutasse do banheiro. Samara apareceu na porta do banheiro, rindo.
— Não estou. — Afirmou ela. — Acho que me esqueci de dizer que Hanna ligou pedindo para que você a buscasse. Não entendi ao certo o que aconteceu, mas receio que já era para você estar indo buscá-la. — Avisou, voltando para o banheiro assim que terminou de falar. Demorei alguns segundos para processar o que foi dito. E, mais alguns segundos, eu escutei o barulho do chuveiro e a água caindo com força. A ideia de tomar banho de novo junto com Samara não me era de todo mal, mas Hanna tinha que estragar. Levantei da cama e peguei minha calça jeans e minha jaqueta de couro vermelha, vestindo-as enquanto ia para o banheiro.
— Mas eu estou sem carro. Você me buscou ontem. — Lembrei-a, pegando meus brincos que estavam na enorme pia de mármore.
— Eu vou para Filadélfia, você pode pegar o meu. — Ela disse com a voz quase inaudível por causa do barulho da água.
— Qual deles? — Brinquei, analisando minha imagem no espelho enquanto passava a escova entre meus cabelos. Ela não respondeu, deveria ser porque eu não disse alto o suficiente para que ela ouvisse. Suspirei, sentindo meu estômago reclamar de fome. — Samara, se você não demorar, podemos tomar café. Eu estou morrendo de fome. — Dessa vez disse alto o bastante para que ela pudesse escutar. Olhei para ela pela primeira vez desde que entrei no banheiro. Seus cabelos estavam cobertos por uma espuma branca, conhecida como shampoo. A visão do seu corpo molhado fazia com que eu sentisse meu coração acelerado e meu ventre pulsando. Mesmo que tenhamos feito sexo quase a noite inteira, eu ainda estava acesa. — Você me escutou? — Perguntei, mudando o rumo dos meus pensamentos.
— Não posso falar agora, está entrando shampoo na minha boca. — Disse ela, com os olhos fechados. Deixei um gemido baixo de cansaço escapar da minha boca enquanto eu saia do banheiro para terminar de me arrumar. Só agora me ocorreu o quão morto meu corpo está por conta da noite passada. Peguei meu celular que estava em cima da cômoda e liguei para Hanna enquanto colocava minhas botas rasas. Ela atendeu no segundo toque.
— Onde diabos você está? — Ela foi logo dizendo. Achei ofensivo e não hesitei em baixar sua bola.
— Primeiro, por que você está gritando comigo? Segundo, estou ótima, muito gentil da sua parte perguntar. E terceiro, eu não sou sua motorista e nem sua taxista particular. — Pude ouvi-la bufar do outro lado da linha e quando ela voltou a falar seu tom era outro:
— Foi mal. — Murmurou ela. — Eu preciso de uma carona, Em. — Disse ela com melancolia. Por um segundo pensei que ela fosse chorar.
— Tudo bem, mas o que houve com seu carro? — Perguntei, terminando de colocar minhas botas. Hanna não respondeu de imediato, houve alguns segundos e ela desembuchou.
— Meu pai quer que eu me aproxime de Kate, sabe, que sejamos como irmãs, e me pediu que eu desse carona pra ela até a escola. Isso significa ida e volta, e eu juro que não posso aguentar isso, Emily! — Ela desabafou com voz chorosa. Torci os lábios, sentindo muito por Hanna. Kate é uma cobra e Hanna, por mais que esteja difícil de lidar, não merece isso.
— Seu pai não a idolatra? Por que ele não dá um carro a ela? — Quis saber, indo ver se Samara já havia terminado.
— Porque Isabel é uma iludida que acha a filha muito nova para dirigir. Ela teme os perigos que todos esses jovens bêbados e drogados no volante podem trazer para filhinha dela. Como se Kate fosse santa. — Bufou inconformada. Mesmo não podendo vê-la, eu sabia que Hanna estava triste e zangada com a maneira tão diferente que seu pai tratava Kate e ela. Hanna sabia que o Sr. Marin preferia Kate a ela. — Mas enfim, eu disse ao meu pai que meu carro está com problemas e que você ia me buscar. Estou te esperando, não demora. Tchau! — Ela desligou e escutei o barulho do chuveiro cessar. Eu estava parada no batente da porta do banheiro e me esqueci de entrar. Samara secava seus cabelos com uma toalha roxa enquanto uma toalha branca envolvia seu corpo delineado.
— Vou buscar a Hanna. — Disse, pegando minha bolsa e ajeitando meu cabelo novamente. Samara veio em minha direção e me beijou devagar, colocando as chaves do seu carro na minha mão. — Você tem uma concessionária? — Zombei, me referindo aos três carros na garagem especial que havia numa parte reservada do condomínio. Ela negou com a cabeça, colocando suas roupas. Eu apenas olhava para baixo. Não gostava de vê-la sem roupa quando eu não podia tocá-la.
— Meu pai tem. E esse aí eu ganhei semana passada, mas ainda não fiz o teste drive. — Ela disse, referindo-se ao carro que ela irá me emprestar. Olhei no relógio e senti o peso dos ponteiros caindo sobre mim.
— Podemos conversar por mensagens? Percebi que eu preciso ir agora. — Ela assentiu e sorriu me dando um beijo rápido de despedida.
Não demorou tanto quanto eu esperava para chegar até a casa de Hanna. E, assim que estacionei o MaseratiKubang de Samara em frente à casa de Hanna, mandei uma mensagem avisando que já estava aqui. Levou alguns minutos até que Hanna saísse de sua casa, em cima dos seus costumeiros saltos altos. A janela do banco do passageiro estava aberta e, conforme ela ia se aproximando do carro, seus olhos me encaravam confusos, como se ela estivesse dizendo em sua mente que esse não era meu carro. O que não era uma mentira. Assim que Hanna entrou, eu já estava preparada para escutar seus desabafos, suas perguntas, fofocas sobre as garotas da escola e tudo o mais que se podia esperar de Hanna Marin.
— Esse não é o seu carro. — Disse ela exatamente como eu havia previsto. Eu assenti, dando marcha e saindo da frente de sua casa.
— É de Samara. — Hanna seguiu exatamente seu ritual de sempre: ligou o rádio, colocando um CD de uma das minhas bandas favoritas, The Fray, e checou sua maquiagem, dando um leve retoque no seu brilho labial. Como eu também havia previsto, ela passou o caminho todo falando mal de todas as garotas da escola, menos dela mesma, e colocando todos seus sentimentos sobre Sr. Marin e Kate sem poupar ofensas à segunda.
Depois que nós chegamos à Rosewood Day, foi cada uma para o seu caminho: Hanna para sua aula de Economia que fazia junto com Spencer e eu andava depressa para minha primeira aula de Inglês Avançado que teria juntamente com Aria, que estava de frente para seu armário verde de metal quando eu estava me aproximando da sala. Parei bem ao seu lado, xeretando o que ela estava fazendo. Havia um pôster de um filósofo francês ocupando toda a visão de dentro do seu armário e algumas fotos espalhadas de cineastas franceses e artistas contemporâneos, os quais possuíam uma grande influência sobre Aria. Puxei um caderno de rascunho que estava quase caindo para fora do armário e na capa podia-se ler: Movimento de Rejeição ao Naturalismo, e no subtítulo: A Arte Não Imita a Vida.
— O que é isso? — Perguntei um pouco alto demais, folheando as folhas preenchidas por uma letra de mão redonda e legível. Aria fechou seu livro e me lançou um olhar indigno e reprovador, como se fosse minha obrigação saber.
— É uma introdução sobre os primeiros expressionistas do teatro contemporâneo, George Kaiser e Ernst Toller. — Explicou em vão, tomando o caderno da minha mão quando torci o nariz.
— Eu esperava isso de Hanna, não de você! — Resmungou, guardando suas coisas no armário e movendo-se para frente. Na verdade, ela não esperava. As duas não se falavam há um mês, mas não mencionei o caso.
— Não me culpe. — Murmurei, seguindo-a para sala de aula. — Eu nunca serei capaz de entender esse tipo de arte. Você é nossa artista e quase nunca te entendo. — Admiti distraída. Ela parou e me encarou por alguns segundos com as sobrancelhas enrugadas. Dei de ombros e continuei andando até chegar à sala que teríamos as nossas duas primeiras aulas. — É algum trabalho? — Perguntei curiosa. Ela hesitou por um momento.
— Não. — Negou, guardando o caderno na sua bolsa. — Vou dar ao Sean. Ele também gosta de filosofia e dos mesmos filósofos que eu. E pensar que eu o tachava como um Típico Garoto de Rosewood. Ele é tão inteligente e sensível. — Aria contou animada, mas logo se conteve quando percebeu meu silêncio. Agora eu me lembrava de onde eu tirei essa frase. — Você também me julga. — Concluiu ela, suspirando tristemente. Após o baile de máscaras, Hanna começou a dizer para todo mundo que ela havia terminado com Sean, mas que eles continuavam amigos, o que não era de forma alguma verdade, pois foi Sean quem terminou e Hanna estava louca para voltar, mas não queria admitir. E, algumas semanas depois do término oficial, Aria começou a sair com Sean e agora estão namorando, o que certamente causou a fúria de Hanna. Ela disse coisas horríveis para a Aria, mas foi obrigada por Ali a se redimir.
— Eu não julgo você. — Usei de sinceridade para fazê-la se sentir melhor. — Hanna vai superar, não se preocupe. Pode levar um tempo, mas ela vai. — Ela sorriu e tocou meu ombro num gesto de agradecimento e carinho. Seu celular tocou e ela deu atenção a ele enquanto murmurava alguma coisa com ela mesma. Perguntei o que havia de errado e ela logo respondeu enquanto encontrávamos lugares para nos sentarmos:
— Minha mãe quer que eu vá à uma exposição de arte nesse final de semana com ela. — Sibilou enquanto digitava apreensiva. — Preciso de uma desculpa plausível para não ir.
— Qual é o problema com sua mãe? — Me inclinei em sua direção, dando uma olhada na tela do seu celular, mas logo me repreendendo por estar xeretando. Aria me lançou seu celular com a mensagem que sua mãe havia lhe enviado e a que ela havia respondido. Seu olhar era penoso, mas ao mesmo tempo firme.
— Não tenho problema com minha mãe. — Respondeu incerta.
— Qual é, Aria. Você está evitando sua mãe há semanas! — Provoquei, devolvendo seu celular depois de passar os olhos rapidamente pelas mensagens. Sua face enrubesceu instantaneamente e seu semblante tomou um ar culposo. Lancei um olhar desconfiado para ela e logo explodi na minha observação: — É aquele namorado dela, aquele tal de Xavier? — Ela assentiu, desviando o olhar rapidamente para frente. Segui seu olhar e havia uma mulher de frente para a lousa, ela escrevia alguma coisa que não pude prestar atenção no momento. Seus cabelos negros e brilhantes caiam perfeitamente pelas costas, enquanto suas roupas acentuavam suas curvas. Ela usava uma calça jeans escura, colada, sua jaqueta de couro preta e seu salto alto a deixavam com um ar provocante. Ela segurava um papel com a insígnia de Rosewood no topo. Senti meu celular vibrando no meu bolso e desviei minha atenção imediatamente, tirando-o do bolso e desbloqueando a tela. Duas novas mensagens, dizia na tela. Cliquei em ler e a primeira mensagem que se expandiu em formato de balão foi de Samara, dizendo que todos seus pensamentos estavam voltados a mim.
— Desculpa, mas você não pode usar o celular na escola. — Cobri o celular com a mão e olhei para cima. Ela estava de costas para a classe enquanto escrevia na lousa. Afundei meu celular de volta no bolso sem terminar de ler a mensagem. Havia somente alguns comentários baixos e lisonjeiros sobre a nova professora e alguns meninos lhe davam olhares apreciativos conforme iam encontrando um lugar para sentar. Ela parou de escrever e se virou para nos encarar, com um sorriso gentil e discreto. Meus olhos se arregalaram e correram para o que estava escrito na lousa. Sra. Penton.
— Eu sei, eu sou a tal substituta. — Disse ela, virando-se novamente para escrever “professora de Inglês” abaixo de seu nome. Alguns assobios foram dados, aclamando a muito bem aperfeiçoada professora substituta. Eu não conseguia pensar em muita coisa, apenas me questionava se aquilo era mesmo real. E então ela se virou, estudando com ligeira confusão o papel em sua mão direita enquanto na esquerda rodopiava um giz branco. — Mas eu recebi esse comunicado da coordenação que diz alguma coisa sobre não permitir o uso de telefones celulares na escola. — Sua voz era rouca e suas palavras saíam arrastadas e vagarosas. Era notável seu sotaque britânico. Noel Kahn e Mason Byers lhe direcionavam pomposos elogios em cochichos um com o outro. Peguei meu celular do bolso novamente e digitei uma mensagem rapidamente para Aria, que estava olhando para o lado de fora, distraída.
Olhe bem para ela.
Cliquei em enviar e o celular de Aria vibrou em cima da mesa, fazendo com que ela se assustasse. Ela o pegou, leu a mensagem e fez o que eu falei. Aria analisou Faye por alguns instantes e, depois, voltou para o celular, logo começando a digitar. A resposta havia chegado e abri a mensagem rapidamente.
É Faye Penton, nova professora substituta. O que tem ela?
Li a mensagem com vertigem e digitei uma resposta mais que depressa e um pouco irritada.
Eu sei que é Faye Penton... Ela é ex-namorada de Samara! Ela estar de volta à cidade é algum tipo de castigo ou carma?
Enviei a mensagem sem pensar duas vezes. Eu poderia estar fazendo um papel estúpido, mas o que eu poderia fazer? Samara havia me garantido que ela não estava mais na cidade. Aria leu a mensagem e arregalou os olhos, encarando Faye surpresa e depois a mim. Seus dedos corriam pelo teclado do seu celular e pude vê-la deixar escapar um riso. Senti um tremor na minha mão.
A ex da sua namorada vai te dar aula? Seria cômico se não fosse trágico! Espere até contar isso à Hanna.
Cerrei os dentes. Faye era objeto de admiração de Hanna quando estávamos no sexto ano. Seu verdadeiro ícone de moda e graciosidade depois de Ali, claro. Hanna fazia questão de guardar todos os detalhes da graciosidade e do incontestável carisma de Ali para, mais tarde, aperfeiçoá-los e torná-los seus juntamente com algumas notáveis características de Faye. Em contrapartida, Spencer a julgava um ser odioso, tudo isso por sua pequena injustiça sobre a capitania da Liga Juvenil de Hóquei, que fora dada com grande ênfase de mérito à Ali quando estávamos no sexto ano. Ali passou quase o verão inteiro provocando Spencer por sua conquista, o que tornou as coisas entre ambas conflitantes. Eu não possuía muitas lembranças sobre essa época e nem poderia me lembrar de Faye, já que foram poucas as vezes em que pude vê-la desfilando nos corredores de Rosewood Day e ela aparentava ser bem mais jovem do que agora. Nunca a reconheceria se não fosse por Hanna.
— Alguém aqui foi escolhido para esconder uma das partes da bandeira? — Faye estava sentada na beirada da mesa, mostrando uma firme e serena seriedade. Eu deveria me acostumar a chamá-la de Sra. Penton para o caso de me dirigir direta ou indiretamente a ela. Seus olhos pousaram rapidamente em mim e foram direcionados para Aria, que negava com a cabeça em resposta à pergunta feita que eu mal fora capaz de escutar. — Algum aluno do ensino médio já foi escolhido? — Ela quis saber, erguendo-se da mesa e indo até sua bolsa cor de ameixa com o slogan da Prada. Ela estava se referindo à preparação da Cápsula do Tempo, que era uma tradição na escola desde 1899, ano em que o Colégio Rosewood Day havia sido fundado. Somente os alunos a partir do sexto ano podiam participar e fazer parte do jogo era um rito de passagem tão importante quanto uma garota comprar seu primeiro sutiã da Victoria’s Secret. Todos os anos, os organizadores cortavam pedaços de uma bandeira de Rosewood Day e selecionavam estudantes mais velhos para escondê-los em locais próximos ao terreno da escola. Enigmas que, quando resolvidos, continham pistas da localização de cada um dos pedaços da bandeira e eram fixados no hall de entrada da escola. Quem encontrasse um pedaço da bandeira era homenageado em uma reunião com toda a escola e podia decorá-lo do jeito que quisesse. Todas as partes da bandeira eram reunidas, costuradas novamente e enterradas em uma cápsula do tempo atrás do campo de futebol. Não é preciso dizer que encontrar uma peça da bandeira da Cápsula do Tempo era uma coisa muito importante.
— Alison DiLaurentis. — Respondeu Noel Kahn com um sorriso lascivo. Ela sorriu com imenso júbilo pela informação fornecida, como se fosse motivo mais que suficiente para orgulho. E, realmente, ser escolhido para esconder um pedaço da bandeira era uma honra tão grande quanto achar um. E Ali ser a escolhida não era de se espantar.
— Notável! — Disse ela, exprimindo sua satisfação com grande ênfase.
O restante de sua última aula se passou demoradamente, e durante todo o tempo fiz de tudo para não precisar me dirigir a ela de modo algum, não por ter algo contra ela, mas por ser infinitamente desconfortável pensar que ela já teve Samara da mesma forma que agora eu tenho. Aria, quanto a isso, parecia não se importar e agia normalmente, ela estava alheia às minhas incansáveis lamúrias e estava terrivelmente concentrada em todas as observações e explicações sobre a fase do pessimismo literário. E, quase no final da aula, tive que pedir seu auxílio.
— Pode me ajudar aqui? — Ela se inclinou sobre minha mesa, espiando a última questão das atividades passadas. Seus olhos estreitaram e ela logo começou a ditar:
— Porque, segundo Simone de Beauvoir, o escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso. — Terminou virando-se abruptamente para frente e escrevendo seu nome na folhinha. Escrevi exatamente o que ela dissera.
— Você colocou essa mesma resposta? — Sussurrei para ela. Aria parecia concentrada e balançou a cabeça, negando.
— Não com essas palavras. — Virou-se para mim, sorrindo.
Assim que o sinal bateu, arrumei minhas coisas e entreguei minha folha com as atividades respondidas, e Aria fez o mesmo. Fui até minha carteira, onde eu havia deixado meu caderno, para poder me retirar da sala e me encaminhar para minhas outras duas aulas antes do intervalo.
— Sra. Penton? — Aria chamou, receosa. Ela parou de escrever em seu diário, dando atenção para Aria. — A senhora se importa...? — Apontou para a mesa e seu caderno em cima da mesa. — Se eu ficar mais alguns minutinhos aqui?
— Fique à vontade. — Disse ela, voltando-se para seu diário. Aria sentou-se novamente na sua carteira e abriu seu caderno, pegando uma folha e preenchendo-a com rapidez. Havia somente três alunos em cada canto da sala terminando de fazer as atividades. Dei um suspiro sofrido, tentada a deixar Aria sozinha. O sentimento de desconforto apenas aumentava conforme os segundos iam passando. Talvez eu pudesse entender a situação de Hanna, mas não queria de forma alguma tomar um partido. Meu celular, que estava em cima da mesa, vibrou sobre meu caderno e eu o peguei rapidamente. Não pude conter um sorriso quando vi que a mensagem era de Samara.
— Samara? — Perguntou Aria um pouco alto demais, me lançando um sorrisinho ambíguo. — Vocês vão almoçar juntas? — Tornou, piscando para mim. Eu não respondi, apenas fiquei a encarando e perguntando silenciosamente o que ela estava fazendo. Ela arregalou os olhos, como se estivesse dizendo que sabia o que estava fazendo. Ela definitivamente estava fazendo isso da maneira errada.
— Não. — Respondi, movendo a boca lentamente e entrando na dela. — Ela está na Filadélfia. — Por breves segundos, senti minha pele queimando e notei pelo canto dos olhos que a Sra. Penton nos observava com um misto de raiva e curiosidade, mas logo retomou sua atenção para o que estava fazendo.
— Vocês são amigas de Alison DiLaurentis? — Ela quis saber, ainda com os olhos cravados em seu diário, escrevendo com afinco. Aria virou-se para ela e respondeu positivamente. Ela, porém, ergueu os olhos e nos fitou com falsa harmonia. Faye pareceu nos estudar com extrema cautela e seriedade, e seus olhos demoraram-se mais em mim. Ela me analisou por longos segundos, tomando o cuidado de esconder sua repentina antipatia. Depois do que pareceram infinitos segundos, ela sorriu misteriosamente. — Você é a artista, certo? — Dirigiu-se à Aria com ociosidade. Aria, porém, pareceu honrada com o termo usado e sorriu abertamente, esquecendo-se do que estava tentando fazer e se entregando à vaidade.
— Como você sabe?
— Eu me lembro de você. — Respondeu, fechando seu diário e o guardando em sua pasta. — Na verdade, é difícil não lembrar; você tinha mechas rosa no cabelo e vivia com um caderno de desenho em mãos, desenhando todo mundo. Lembro-me de ter visto você desenhando sua amiga quando a cápsula do tempo foi anunciada. — Aria tinha o queixo ligeiramente caído, parecendo impressionada com sua incrível memória e também um pouco envergonhada por saber que alguém a viu desenhando Ali, no sexto ano, quando ainda nem nos conhecíamos. Eu não estava entendendo onde ela queria chegar com toda essa volta ao passado e falta de profissionalismo, quando parecia que ela nem se importava com mechas, desenhos e cápsula do tempo. Ela logo se virou para mim, analisando-me com fria polidez. — Agora, de vocêeu não me lembro. — Disse ela, forçando um sorriso. Era como se ela estivesse me testando ou procurando por algo.
— Que engraçado. — Provoquei, soando mais malvada do que provavelmente gostaria de ter soado. — Eu também não me lembro de você. Mas, de qualquer forma, me chamo Emily Fields.
— Que bom logo no meu primeiro dia saber quem é você. — Seu sorriso vacilou por alguns segundos. Aquilo certamente teve mais de quinze significados. Aria finalmente terminou de escrever em seu caderno, arrancando a folha e guardando seu material. Se antes eu me sentia incomodada sem ao menos ela saber quem eu sou, agora o desconforto era infinito. Aria entregou a folha toda preenchida para nossa infeliz professora substituta, que aceitou perguntando do que se tratava. Aria começou a explicar e, quando chegou na parte que ela passou a mencionar todas as fases literárias, eu parei de escutar. Meus pensamentos se perderam em Samara. Ter sua ex-namorada por perto tornavam as coisas diferentes. Eu não sabia ao certo definir o que eu estava sentindo. Poderia ser apenas paranoia, ou só insegurança pura. Samara poderia me trocar facilmente por ela. É mais do que certo que meus piores dias estão próximos de se tornarem reais.
As duas aulas passaram bem mais devagar do que o esperado por mim. E, como toda boa sexta-feira, as duas aulas antes do intervalo eram da Sra. Montgomery. Passei uma aula e meia trocando mensagens com Samara e o resto do período fingi prestar atenção no que ela explicava, balançando a cabeça e forçando um sorriso quando ela direcionava seus olhos a mim. Assim que cheguei ao refeitório, vi Aria e Spencer sentadas uma do lado da outra a algumas mesas distantes das demais. Aproximei-me rapidamente, sentindo a falta de Ali. Sentei-me de frente para Aria e passei os olhos por todo o refeitório à procura de Hanna, mas em vão. Digitei uma mensagem para Samara rapidamente em resposta à sua pergunta e enviei, voltando minha atenção para as duas garotas a minha frente.
— Vocês viram Hanna? — Perguntei, fitando-as diretamente. Aria parecia desconfortável e envergonhada, enquanto Spencer tinha um sorriso ambíguo nos lábios. — Por que você está vermelha? — Quis saber assim que percebi seu rosto tomar uma coloração mais acentuada de vermelho brilhante. Ela ergueu os olhos, me fitando incerta, mas preferiu continuar calada. — Por que ela está vermelha? — Direcionei a pergunta para Spencer, percebendo que Aria não falaria.
— Aria não confia em nós. — Disse Spencer, tomando um gole da sua água. Fitei Aria por um segundo tentando compreender o que estava acontecendo, mas antes que eu pudesse formular alguma outra pergunta, Ali e Hanna apareceram de repente, sentando-se uma em cada lado da mesa: Hanna ao meu lado e Ali à minha frente. Aria se encolheu ao lado de Spencer e enfiou a cabeça no seu livro de filosofia, enquanto Hanna parecia ignorar a presença dela e conversar apenas com Spencer e direcionar algumas palavras a mim. Ali não admitia que houvesse brigas entre nós e exigia que qualquer contratempo que ocorresse se resolvesse imediatamente, mas com Hanna e Aria parecia ser diferente. Aria tentava conversar com Hanna, mas a mesma a desprezava.
— Adivinhem! — Ali sorriu, fitando cada uma de nós. Era a primeira vez que Ali se animava com alguma coisa desde o baile de máscaras. Spencer e Aria pareciam ansiosas para saberem do que se tratava, mas Ali tinha seus olhos fincados em mim. Olhei para os lados e depois para baixo, corando.
— Você voltou com Matt? — Aria perguntou num sussurro. Ali suspirou, revirando os olhos com desgosto.
— Deus! Não. — Riu, como se a hipótese fosse absurda. Ali rolou os olhos para a entrada do refeitório e observou Ian Thomas conversando com alguns alunos e gesticulando com animação. Matt, garoto com quem Ali namorou por duas semanas, tinha o mesmo cabelo cor de areia de Ian. Sempre que o nome de Matt e Ian vinham à tona, eu tentava fortemente engolir o sentimento que crescia dentro de mim. Eu tentava não pensar sobre isso para não ter que lidar com o ciúme e as pontadas horríveis que martelavam meu peito. Mas não conseguia de forma alguma evitar minha profunda antipatia para com Ian. Ele estava frequentemente paquerando Ali e Spencer não entendia a estreita relação deles, já que Ian ameaçou Ali na frente de todos no pátio da escola quando estávamos no sexto ano. E, pensando bem, a memória me parecia completa.
— Eu ouvi você dizendo que sabe onde está uma parte da bandeira da Cápsula do Tempo? — Ian perguntara a ela depois de trocarem algumas palavras amigáveis. As bochechas de Ali coraram.
— Por quê? Alguém está com inveja? — Ela lhe lançara um sorriso atrevido. Ian balançou a cabeça.
— Eu ficaria quieto se fosse você. Alguém poderia roubá-la. É parte do jogo, você sabe. — Ali sorriu, como se a ideia fosse incompreensível, mas uma ruga se formou em seus olhos. Ele estava certo, roubar a parte da bandeira de alguém era perfeitamente legal, constava no Livro de Regras Oficial da Cápsula do Tempo que o diretor Appleton guardava em uma gaveta trancada de sua mesa. Fora nesse momento que Spencer, Hanna, Aria e eu tivemos a fracassada ideia de roubar a parte da bandeira de Ali. Todas nós aparecemos no seu quintal na mesma tarde, mas ela nos surpreendera, saindo de sua casa e avisando que sabia que estávamos escondidas entre os arbustos do seu quintal.
— Eu não estou preocupada. — Ali quebrara o silêncio. — Ninguém ousaria roubá-la de mim. Assim que eu conseguir um pedaço da bandeira, ele vai ficar comigo o tempo todo. — Ela lançou para Ian uma piscadela sugestiva e, mexendo na saia, acrescentou: — A única forma de alguém tirá-la de mim é me matando antes. — Ian se inclinou na direção dela.
— Bem, se for necessário... — Um músculo sob os olhos de Ali tremeu e sua pele ficou pálida. O sorriso de Naomi Zeigler, que estava ao seu lado na companhia de Riley Wolfe, murchou. Ian deu um sorriso frio, que depois se transformou em um irresistível sorriso do tipo “Eu só estou brincando”.
— O que você acha, Em? — Precisei piscar algumas vezes para poder assimilar a voz de Spencer me chamando. Ergui meus olhos para frente e todas as garotas me olhavam, exceto Ali que digitava cuidadosamente em seu celular.
— Sobre o quê? — Perguntei confusamente. Hanna tinha um sorriso cínico nos lábios.
— Você parece cansada. — Disse ela, estreitando seus enormes olhos azuis para mim. Eu baixei os olhos e não respondi, fingindo não escutar. — O que você fez noite passada? — Tornou ela, largando sua revista sobre a mesa e alicerçando seu rosto sobre suas mãos, parecendo uma criança arteira e pidona.
— Desde quando você se importa? — Desviei da pergunta, soando um pouco rude. Ali já não estava mais digitando em seu celular e me fitava atenta, tentando não perder nada e entender tudo. Senti meu celular vibrando e levei a mão instantaneamente ao meu bolso, esquecendo-me de que eu havia o colocado na bolsa depois que respondi Samara.
— Eu descobri quem adulterou seu creme, Em. — Disse ela com o tom de voz alterado. Já fazia algum tempo que isso aconteceu e eu quase não me lembrava disso mais. Spencer se endireitou na cadeira e fitou Ali com seriedade.
— E quem foi? — Ali continuou olhando para mim e não respondeu até eu repetir a pergunta feita por Spencer. Seu ar de satisfação e triunfo voltou rapidamente.
— Não importa. — Ela murmurou. — Já cuidei dessa vadia sem pescoço. — Fiz um enorme esforço para poder entender o que ela acabara de dizer. Aria voltou a dar atenção ao seu livro, enquanto Hanna à sua TeenVogue. Quando Ali dizia que já havia resolvido algo, Hanna e Aria eram as primeiras a darem de ombros. Spencer encarava Ali desconfiada, com o olhar feroz de quem precisava de uma resposta. Eu permaneci imóvel e ansiosa, mas tranquila. O rosto de Ali virou bruscamente para o lado e, assim como eu, Spencer seguiu seu olhar. Paige McCullers caminhava com a cabeça baixa até a saída do refeitório, desaparecendo de vista. Antes que Spencer pudesse fazer qualquer perguntar ou tirar qualquer conclusão, Ali chamou nossa atenção, pedindo para que saíssemos do refeitório e fôssemos para a cafeteria de Rosewood Day, alegando que precisava de cafeína. Eu não ficaria tão surpresa se fosse Paige que tivesse adulterado meu creme. E, no fundo, eu sabia da verdade.
Havia cartazes anunciando a Cápsula do Tempo em todos os lugares da escola, e Ali observava cada um com orgulho e satisfação. Na cafeteria não era diferente, alguns dos alunos que tomavam seus vários tipos de café observavam e admiravam Ali com toda a força existente, principalmente Naomi Zeigler e Riley Wolfe, as ex-melhores amigas de Ali, mas seus olhares eram uma mistura confusa de inconformismo e nostalgia. Kate Randall, por incrível que pareça, não estava com elas e, no seu lugar, havia Mona Wanderwall. Elas passaram a encarar Hanna, que parecia ocupada demais lendo suas revistas. E Mona encarava Aria com repulsa e indignação. Assim que sentamos, Ali pareceu perceber o olhar azedo de Naomi e Riley e quase pude sentir seu corpo estremecer por meio segundo. Ela lançou um olhar intimidador na direção de Mona quando a percebeu encarando Aria incisivamente. Mona encolheu os ombros e deixou o local, arrastando Naomi e Riley junto. Eu ri, mas sei que não deveria, porque não era engraçado, era triste. Aria levantou-se da cadeira e foi buscar nossos cafés, voltando quase três minutos depois.
— Ai! — Guinchou Hanna, puxando a atenção de todas nós. — Emily, como você conseguiu isso? — Ela apontou para o meu pescoço com um misto de dor e curiosidade, me dando seu espelho para que eu pudesse olhar. Ali se inclinou em minha direção e observou com seriedade, enquanto Spencer e Aria olhavam com curiosidade. Havia alguns arranhões não tão nítidos e uma marca arroxeada no meu ponto de pulso. Meu coração acelerou rapidamente. Spencer, que estava ao meu lado, tocou o local com a ponta do dedo e senti um leve incômodo. Como eu não tinha reparado isso mais cedo?
— Se foi Paige McCullers que fez isso com você, eu juro que vou destruí-la. — Spencer despejou entre dentes. Hanna e Aria olharam aflitas e confusas para Ali, que absorvia e analisava o conteúdo da conversa em silêncio.
— O que eu não estou sabendo? — Ali perguntou meticulosamente. Spencer estava prestes a abrir a boca, mas eu a impedi:
— Não é nada demais, eu só tive um desentendimento com uma garota da equipe de natação que quer que eu suma. — Omiti, ocultando o fato de aquela garota maluca ter tentando me afogar há quase dois meses. Não gostava de esconder as coisas de Ali, mas ela vinha me ignorando e eu não podia insistir num diálogo. — Ainda não sei qual é o problema dela. — Usei de sinceridade para afastar o assunto tão temido por mim.
— Qual é o nome dela? — Perguntou Aria.
— Paige McCullers. — Respondi com deboche. Hanna fitou Spencer e Ali confusa.
— Ela não jogava hóquei com vocês? — Ali suspirou e Spencer fez que sim com a cabeça, movendo seus olhos para o canto da cafeteria, onde parecia ter uma movimentação animada e amistosa.
— Ela não deveria chegar perto de você. O que ela te disse? —Ali me olhou desconfiada. Sua expressão possuía um fino traço de raiva e zelo. Eu não sabia se aquilo era apenas algo que eu mesma criei ou se aquela ponta de cuidado sempre estivera ali, mas, quando olhei novamente, sua face estava fria e impassível.
— Eu sei. — Concordei com ela, balançando a cabeça devagar e dissolvendo os pensamentos. — Alguma piada de mau gosto sobre eu ser gay. — Disse, tentando fazer com que eu parecesse calma e imperturbável. Meu coração saltava desregrado contra meu peito, enquanto meus olhos estavam fixos no meu café.
— Há quanto tempo foi isso? — Perguntou Ali severa e impaciente poucos segundos mais tarde.
— Quem te deu? — Aria perguntou, me fitando diretamente e me mostrando uma pulseira azul com a caixinha branca e delicada que estava na minha bolsa e que eu deveria ter tirado sem perceber. Ali olhou para a pulseira, que agora estava na mão de Hanna. Eu havia me esquecido completamente desse pequeno suborno.
— Paige.Ela está tentando me subornar para conseguir ser capitã da equipe de natação. — Disse eu, rindo nervosamente. Spencer cutucou o braço de Ali com o cotovelo e fez um gesto significativo para além da minha cabeça. Ali moveu seus olhos no mesmo instante e seu rosto mudou instantaneamente com o que quer que ela tenha visto.
— Acho que eu não fui muito clara. — Resmungou ela, arrancando a pulseira da mão de Hanna e pegando a caixinha branca junto. Ali saltou da cadeira num movimento articulado e marchou até o centro da cafeteria, onde estava a movimentação. Todas nós olhamos para trás, bem a tempo de ver Ali se aproximando de Paige e uma turma da equipe de natação, incluindo a treinadora Fulton que, assim que Ali se aproximou, os dispensou.
— O que ela está fazendo? — Sussurrei, cravando minhas unhas na palma da minha mão.
— Sendo Alison. — Spencer suspirou, parecendo aliviada. Ali chegou perto da treinadora Fulton e ficou de frente para Paige, jogando a pulseira e a caixa sobre ela. Percebi que Ali ainda tinha mais alguma coisa em sua mão, uma espécie de envelope. Paige tinha o corpo rígido como estátua. Seu rosto estava vermelho de raiva e seus olhos possuíam uma mistura de pavor e ira.
— Aqui estão seus presentinhos. — Ali disse alto o suficiente para que todos na cafeteria pudessem escutar. Um silêncio se instalou no local. Olhei rapidamente para Aria e Spencer, que assistiam à cena segurando a respiração e um pouco chocadas, enquanto Hanna mantinha seus olhos vidrados e atentos.
— Srta. DiLaurentis, o que significa isso? — Quis saber a treinadora Fulton com um tom repreensível. Ela se mostrou confusa quando Ali entregou o envelope diretamente para ela. A partir desse momento, todo o silêncio deu lugar ao mesmo barulho e conversação de antes. Os alunos pareciam não perceber o que estava acontecendo ou apenas não se importavam, e isso era uma coisa boa. Ali estava calma e solene, dizendo alguma coisa para a treinadora que eu não pude escutar.
— O que ela está dizendo? — Perguntei à Spencer que era boa em ler lábios. Ela não respondeu, apenas balançou os ombros vagamente. Spencer sabia o que estava acontecendo, mas não queria me contar. A treinadora Fulton terminou de ler a carta e olhou em minha direção, logo voltando seus olhos para Paige, dizendo algo que eu também não pude escutar e se retirando da presença das duas com a carta em mãos. Olhei para Spencer com a mesma pergunta silenciosa.
— Ela foi para o escritório dela esperar por Paige para uma conversa séria. — Respondeu ela, movendo seus olhos. Ali chegou muito perto de Paige, que parecia fumaçar de raiva.
— Você se lembra de quando eu disse para você ficar longe? — Ali questionou, intimidando-a. — Você devia ter escutado. — Paige permaneceu rígida, com seus punhos cerrados rente ao seu corpo. Ali deu meia volta e voltou para a mesa com um sorriso triunfante nos lábios, de quem tinha acabado de ganhar uma guerra. Ela fez um gesto como que tirando pó das mãos.
— Mais um problema resolvido por Ali D.
— Você foi demais! — Hanna parecia extasiada e fascinada. Ali sorriu para ela, como se estivesse dizendo “Eu sei, sou fabulosa”. Spencer tinha um sorriso contido e Aria parecia incomodada. Nem sempre ela aprovava seus métodos de resolver algo.
— O que você acabou de fazer? — Eu ainda estava incrédula, não entendendo o que havia acabado de acontecer. Ela não respondeu, estava ocupada demais olhando para a revista de Hanna em cima da mesa, aberta numa página de exercícios matinais. Demorou alguns segundos para que eu pudesse sentir o silêncio pairando ao nosso redor e me peguei tentando lembrar quantas vezes Ali havia agido desse jeito, tão protetora. Ela ergueu seus olhos, me fitando com candura.
— Apenas cumpri minha promessa. — Ali dissera uma vez que ninguém ousaria mexer com sua posse e quem o fizesse seria manchado para sempre. Agora eu só gostaria de saber quanto tempo seu para sempre duraria.
Notas finais
Me digam o que acharam sobre tudo, porque sinto-me insegura.
Até o próximo, que espero que não demore. :)
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