This Must Be Love
23 All Things Have Got To Come To An End.
Notas iniciais
Desde que Samara me questionou sobre quem eu escolheria, entre Ali e ela, as coisas tornaram-se complicadas e, aparentemente, cada vez mais sem volta. As semanas passavam como dias e mesmo que seu jeito não tenha mudado em nada, tudo o que eu tentava fazer era evitar pronunciar o nome de Ali quando estava com ela. Era o mínimo que eu podia fazer em respeito e consideração a ela. Nosso relacionamento continuava prosseguindo numa tranquilidade quase natural, mas com um pequeno peso aparente conforme as restrições davam as caras. Não se podia chamar de inusitado quando os motivos de desavenças e discórdia apareciam dos lugares mais esperados, promovendo discussões sem sentido entre nós duas. Um forte ponto que me deixava permanecer segura era que Samara nunca me deixava dormir ou ir embora sem resolver e melhorar as coisas entre nós. Mas alguma coisa deve ter mudado...
— Você entende o que está acontecendo, não é? — Perguntei a Samara, sentada em sua cama enquanto a observava arrumar suas coisas. — Você está me deixando e isso não está nada certo. — Seus olhos pousaram em mim e pude sentir toda a tristeza que neles continham. Eu não conseguia olhá-la nos olhos porque eu sabia que, no momento em que eu o fizesse, tudo o que eu sentia viriam à tona através dos meus olhos num choro cruel e silencioso.
— Eu não estou deixando você, Em. Eu seria tola se fizesse isso. Eu realmente acho que precisamos de uma pausa no nosso relacionamento nesse grande momento conturbado. — Samara se aproximou de mim lentamente, sentando-se ao meu lado e tomando minha mão na dela, apertando com gentileza e um cuidado especial. Sentei no seu colo e a beijei intensamente, fechando os olhos com força e tentando me esquecer das inúmeras agulhas perfurando cada centímetro do meu peito, dos espinhos felpudos fincando cada vez mais fundo.
— Você sabe quem seria minha escolha, certo? — Quis saber, contendo o desespero em meu tom de voz e a fitando nos olhos sem hesitar. Mesmo eu não a tendo respondido antes, eu sentia a necessidade de deixá-la saber. Independente de qual fosse sua decisão.
— Eu não acho que você deva me responder isso agora. — Disse ela com os olhos baixos. Sua mão tremia e seu pulso estava terrivelmente acelerado.
— Não compartilhamos da mesma opinião. Talvez isso afete sua decisão. — Discordei, tocando seu rosto suavemente. Sua pele quente e delicada fazia meus dedos formigarem, lançando palpitações ao rubro coração.
— Não torne isso mais difícil do que já está sendo. Nós duas sabemos quem está sofrendo mais. — Murmurou com a voz rouca. Eu não conseguia medir a angústia e a dor que me apunhalava a cada segundo apenas para me lembrar de que Samara estava prestes a me deixar oficialmente. Era doloroso o suficiente ter consciência de que não estávamos mais namorando, mas saber que ela se distanciaria de mim era duplamente devastador.
— Eu não preciso pensar. Você é minha escolha! — Admiti tentando soar o mais calma possível e não deixar o desespero tomar conta. — É com você que eu quero e preciso estar, Sammy. — Sussurrei com a voz embargada, porém firme. Um riso cruel e abafado ecoou dos seus lábios, fazendo-a me fitar logo em seguida com a imensidão azul dos seus olhos preenchidos por melancolia. Percebi, porém, que ela não riu do que eu disse, mas sim da forma como eu a chamei. Um sentimento de posse e ao mesmo tempo de perda me preencheu por alguns instantes, me fazendo querer mais do que qualquer coisa poder mantê-la nos braços para sempre e não deixá-la partir.
— Eu prometo voltar e espero sinceramente que você ainda esteja disponível para mim. — Sorriu trêmula, tentando disfarçar a tristeza com que sua voz inevitavelmente soava. Alguma coisa dentro de mim se acendeu com uma chama em desenvolvimento que logo reconheci como sendo de mágoa e raiva. Samara estava acabando comigo da mesma forma que Ali havia feito. Então eu decidi que, para o meu bem, eu não precisava de outra Alison na minha vida. Uma só já me causou dano suficiente para uma vida inteira de decepções.
— No momento em que você for, eu não estarei mais disponível para você, porque, a partir desse momento em diante, você estará fora da minha vida de vez. — Afastei meu rosto do seu e saí de seu colo, colocando minha bota rapidamente e caminhando até a porta de seu quarto. Eu sabia exatamente o que eu queria, mas alguma coisa parecia me impedir de conseguir, o que aumentava ainda mais minha frustração.
— Você está sendo dura comigo, Em. — Murmurou com toda a tristeza transparecendo em sua voz, antes que eu pudesse tocar na maçaneta. Agora eu sentia como se ela estivesse totalmente desarmada e de frente para uma realidade diferente da que ela imaginava estar lidando. Talvez eu estivesse realmente sendo dura e cruel, não deixando escolha para ela, mas eu precisava deixar claro o que eu sabia que iria acontecer se ela fosse. Eu não a esperaria e muito menos a aceitaria de volta.
— Eu só estou sendo objetiva. Você já terminou comigo, não precisa se afastar dessa forma. — Disse com firmeza. — Por isso, pense muito bem no que você está prestes a fazer, porque uma vez que você cruzar a fronteira, não haverá mais volta. Eu já fiz minha escolha, agora é sua vez de fazer a sua. — Concluí calmamente, dando as costas e saindo de sua presença. Samara me chamou algumas vezes, mas eu não respondi e nem voltei. Eu só queria ir para bem longe, longe de seu prédio e longe dela. Porque no fundo eu sabia que ela iria para bem mais longe de mim.
E assim os dias passaram vazios e sombrios, tendo uma parte minha congelada por saber que Samara havia aberto uma porta que dava para um caminho totalmente sem volta e terrivelmente doloroso. E mesmo eu tendo sido o mais clara possível quanto às consequências de sua partida, eu não podia evitar esperá-la todos os dias enquanto lia algum romance estúpido de Nicholas Sparks que, ao invés de me animar, apenas me chutava cada vez mais para o fundo do poço. Mas talvez Nicholas Sparks estivesse certo: por mais que eu sentisse falta de Samara e que, por vezes, minha dor fosse esmagadora, era por causa dela que eu não temia o futuro.
— Talvez devêssemos assistir a algum filme que esteja passando no cinema. — Hanna sugeriu deitada de bruços aos meus pés, enquanto folheava sua revista Vogue muito focada para realmente saber do que estava falando. Nem mesmo eu estava prestando atenção nas inúmeras coisas que ela havia sugerido para fazermos, porque eu sabia que ela só estava aqui matando tempo enquanto esperava para encontrar sua mãe. Enquanto isso, Ali permanecia calada desde que chegou, observando e analisando com atenção todos os presentes que ela mesma havia me dado. E eu continuava da mesma forma de quando elas chegaram: deitada na cama enquanto lia Querido John.
— Filme parece ótimo. — Ali finalmente se manifestou, soando distante e ainda entretida com o que estava fazendo. Eu não conseguia prestar atenção no que estava lendo, meu cérebro não aceitava e nem guardava o que meus olhos tanto focavam.
— Vamos encontrar diversão até Samara voltar... Quando ela volta, aliás? — Perguntou Hanna curiosa, desviando a atenção de sua revista e me encarando por alguns segundos. Nunca mais, pensei em dizer, mas o que saiu de minha boca foi basicamente ao contrário:
— Espero que logo. — Elas ainda não sabiam da crise que Samara e eu estávamos passando e que agora ela me largou de vez. E eu também não estava pronta para contar, porque não estava pronta para falar sobre. Só de pensar em todas as perguntas que surgiriam...
— Quem se importa, afinal? — Ali desdenhou, abrindo e fechando o último livro de Nicholas Sparks que eu havia terminado de ler. Eu não compreendia o motivo de Ali estar aqui, já que ela andava tão distante e indiferente com todas nós. Mas, mesmo assim, não ousei questioná-la. O celular de Hanna soou abafado em sua bolsa, pegando-o logo em seguida.
— Então o cinema vai ficar para depois. — Concluiu satisfeita por já estar resolvido, levantando-se e ajeitando seu cabelo. — Minha mãe quer que eu a encontre no The Brew agora. Vejo vocês depois. — Hanna informou, pegando suas coisas e despedindo-se de nós duas. Ali deitou do meu lado quase no mesmo instante que Hanna saiu pela porta, pegando a revista que ela havia deixado e folheando pacientemente.
— O que você acha da Itália? — Ela perguntou distraidamente enquanto ainda olhava para revista. Pensei a respeito por alguns instantes, mentalizando Roma da mesma forma que foi me apresentada.
— Ótima culinária. — Respondi sem elevação no tom de voz. Eu não estava animada para conversar e estava muito grata por Hanna ter ido embora, então se eu me mantivesse restrita, Ali seguisse o mesmo rumo de Hanna.
— Eu adoro massas! Oremos aos deuses que sempre abençoe quem as inventou e que nos proteja das calorias. — Sussurrou como se fosse uma séria, porém divertida oração.
— Amém. — Conti um riso fraco entalado na minha garganta.
— Bem, mas de qualquer forma, não podemos comer a mesma coisa todo dia. Enjoa! — Reclamou bufando e deixando a revista de lado, alterando totalmente o humor e o tom. Não respondi a isso e fiquei apenas fingindo que estava concentrada no que estava lendo. Mas eu não conseguia me concentrar quando eu sentia que Ali queria ou pretendia alguma coisa. E para confirmar minhas suspeitas de que ela queria algo, seu olhar estava constantemente grudado em mim.
— Ali, por que você está me encarando? — Finalmente perguntei, recebendo um suspiro cansado e monótono em troca.
— Estou só esperando você me contar o que está escondendo de mim. — Disse estranhamente calma, inclinando a cabeça com um olhar astuto. Meu estômago se contorceu, causando um desconforto desagradável e inquieto.
— Não faço ideia do que você está falando. — Virei a página do livro, sem ao menos saber o que estava escrito na anterior.
— Por favor, não insulte a minha perspicácia. Eu sinto cheiro de coisa errada quando vejo uma! — Disse pausadamente, com uma ligeira indignação por eu não corresponder às suas expectativas. — Não é à toa que eu sei os segredos de todos nessa cidade. — Se gabou com ligeiro desdém e altivez. Ali sentou bem mais próxima de mim e se acomodou, tirando o livro das minhas mãos com uma agilidade impressionante. Eu estava pronta para lançar um olhar furioso para ela, mas quando meu olhar cruzou o seu, eu não consegui transmitir a raiva que sentia para os olhos e muito menos mantê-la dentro de mim. Porque o que eu vi foi o oposto do que esperava encontrar, havia preocupação sincera e algo como um ponto de vista a ser provado.
— O que você quer de mim? — Suspirei vencida, desviando o olhar rapidamente para janela. Eu não podia manter um contato visual com ela. Ali era meu ponto fraco. Meu ponto fraco por ser a lembrança viva de que eu havia perdido a pessoa que eu mais amei depois dela. Ou talvez ela fosse meu ponto fraco por conseguir me manipular e me manter sempre onde ela quer a ponto de eu nem conseguir perceber. Essa era a forma que eu me achava: eu não conseguia manter uma opinião sobre Alison. Eu não conseguia me mover ou sequer respirar perto dela.
— Talvez você queira vir comigo. — Levantou depressa, aparentemente desistindo de tentar cavar minhas mágoas profundas. Deitei a cabeça no travesseiro e virei para o lado, não querendo sair de onde estava. Eu podia facilmente ficar em posição fetal pelo resto da tarde e o fim da noite, e, assim, o resto do mês. Eu sentia como se tudo o que eu quisesse — e precisasse — fosse chorar, chorar e chorar. Nem mesmo a presença de Ali me reconfortava, muito pelo contrário: deixava-me ainda mais vulnerável e exposta a velhas feridas nem tão superadas. Mas qual era pior, novas feridas que são horrivelmente dolorosas ou velhas feridas que deveriam ter sarado vidas atrás?
— Acho que vou permanecer onde estou. — Sussurrei com o pensamento há quilômetros de distância, tendo a convicta certeza de que minha voz soou vazia e melancólica.
— Você está assim há dias. — Observou com fragilidade. Ela possivelmente estava certa, ao menos em algum dos seus distorcidos pontos. Todos esses dias, desde que Samara me deixou, eu venho fortemente me controlando, segurando toda a dor dentro de mim e não permitindo que nada do que eu estivesse sentindo transbordasse pelos meus olhos. Mas talvez chorar fosse a solução, uma vez que amenizaria quando, na verdade, o que eu precisava era me purificar onde o ar se fazia mais fino e cortante. — Emily, não me obrigue a agir como uma vadia insensível. — Suas palavras surtiram um enorme efeito em mim. Tudo o que Ali tentava fazer era conversar comigo e saber o que havia de errado, enquanto eu apenas a ignorava sem a mínima noção se era ou não intencional. Eu já me encontrava num nível de mortificação muito elevado para me importar ou sequer detectar qualquer indício de caráter duvidoso vindo das minhas ações.
— Talvez você queira deitar aqui comigo. — Sugeri involuntariamente, sentindo a necessidade repentina de tê-la por perto. Mesmo que meus pensamentos estivessem em Samara quase o tempo inteiro.
— Não, eu preciso que você venha comigo. — Sua voz soava tão calma e serena que facilmente alcançava meu interior esburacado, penetrando-o sutilmente. Sentei na cama e a fitei suavemente, abaixando completamente a guarda e me rendendo à sua insistência, ao que parecia, repleta de boas intenções. Talvez se eu não soubesse que o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções...
— Aonde vamos?
— Você vai ver. — Sorriu encorajadora, estendendo a mão para mim. Mesmo que eu não soubesse para onde eu estava indo, ajudava saber que eu não estava sozinha e que, assim como a felicidade, nenhuma dor foi feita para durar muito tempo. Embora eu soubesse que isso não era totalmente uma verdade, pois algumas dores nunca se vão de vez, apenas se acomodam e adormecem. Quer uma prova de ela realmente continua ali? Cutuque a ferida e sentirá que a dor, mesmo que oculta, nunca deixou de existir.
Todo o mistério que Ali fez em volta de para onde ela estava me levando acabou dez minutos mais tarde, assim que ela estacionou o carro em frente à Pista de Patinação no Gelo de Rosewood. Apesar de ser uma sexta-feira à noite, fria e úmida, havia muitos rostos conhecidos entrando e saindo pelas portas duplas que davam acesso ao interior da pista de patinação. Algumas pessoas acenaram para Ali depois que saímos do carro, mas não era como se ela se importasse.
— Por que estamos aqui? — Perguntei assim que chegamos ao interior da pista de gelo, que estava escuro e frio. Várias bandeiras de equipes estavam agrupadas em diversos cantos estratégicos na pista de gelo, enquanto alguma música desconhecida dos anos oitenta tocava nos alto-falantes.
— Você adora esse lugar! — Respondeu como se fosse óbvio, tirando sua jaqueta e sorrindo com um brilho especial nos olhos. Na verdade, ela adorava esse lugar. Depois que eu a trouxe aqui pela primeira vez quando ainda estávamos no sexto ano e a ensinei como patinar, Ali e eu vínhamos quase todos os fins de semana. Isso, pelo menos, até a metade do sétimo ano, quando ela ainda não era tão cheia de segredos e mistérios.
— Você ainda sabe patinar? — Perguntei, arriscando um sorriso fraco enquanto caminhávamos até o balcão de aluguel. Eu tinha quase certeza de que a resposta era não, mas resolvi esperar para ver.
Assim que Ali pegou os pares de patins de gelo brancos, nos sentamos no banco e, enquanto ela me contava sobre como a primeira vez que ela havia patinado tinha sido desastrosa, empurrei o calcanhar dentro do tênis e puxei os cordões apertados, observando-a fazer o mesmo. A forma como ela conversava comigo e se comportava quando estávamos apenas nós duas, sem a presença das outras garotas, era algo a se pensar. Ali sempre me tratou diferente, apesar das vezes em que ela se tornava uma completa estranha em alguns determinados momentos. Ainda assim, eu não podia deixar de me sentir feliz quando compartilhávamos momentos como esses, em que ela se mostrava mais naturalmente real e menos cruamente projetada.
— O que foi? — Perguntou, percebendo que eu estava olhando para ela.
— Nada. — Ri, desviando os olhos para a pista recém-brilhante enquanto luzes de discoteca iluminavam o gelo. — Eu só acho que estamos perdendo a diversão. — Levantei rapidamente, sentindo uma onda de vertigem me cegar por breves segundos.
— Não se esqueça de que quem faz a diversão somos nós mesmos. — Disse Ali com um tom de quem sabia das coisas. De uma forma estranha, ela me ensinou muitas coisas durante todos esses anos e, claro, essa era uma dessas coisas. Era como se Ali sempre soubesse de tudo e o tempo todo. E eu não ficaria surpresa se ela soubesse que Samara havia terminado comigo. Mas que diferença isso faria? Se ela sabia ou não, o importante era que ela não estava me bombardeando de perguntas ou me jogando suas típicas indiretas e me trazendo todas as memórias possíveis, me deixando ainda mais deprimida do que eu já estava.
— Você deveria escrever um livro. — Sugeri com um riso abafado, tentando me livrar de todos esses sentimentos melancólicos e focar nesse momento agradável. Ali deu de ombros, levantando-se do banco apressada.
— Pessoas como eu não escrevem livros, Em. Fazemos parte deles. — Seus tornozelos balançaram logo que ela pisou no gelo. Estendi meu braço e ela agarrou a manga da minha jaqueta college, numa tentativa de se equilibrar.
— Não se preocupe, eu peguei você. — Sorri suavemente, mantendo-a em pé sem dificuldades. Com uma mão segurei seu cotovelo enquanto a outra segurava sua cintura. — Você tem razão. Muitos gostam de pessoas com grandes enigmas como você. — Movi meu corpo para trás, nos levando à parede e a instruindo como manter-se de pé sem se desequilibrar e, consequentemente, cair. Aos poucos ela foi pegando o jeito e timidamente imitava todos os meus movimentos, parecendo mais confiante e relaxada depois de ter dado diversas voltas ao redor da pista. Era como se ela estivesse realmente se divertindo, e isso me fez ficar feliz também por um bom e longo momento. E então, Ali me puxou para o banco novamente, sentando-se cansada e com a respiração pesada. Eu não estava nem de longe cansada e poderia continuar patinando por mais de uma hora seguida se fosse o caso. Mas mesmo assim me sentei ao seu lado e esperei até que ela recuperasse sua estabilidade.
— Qual título você daria para uma história sobre mim? — Perguntou depois de uma longa pausa, fitando as diversas linhas que ela mesma fazia no gelo.
— Crime e Castigo. — Respondi, soando mais como uma sugestão e uma brincadeira do que como uma resposta séria e concreta. Ela virou seu rosto bruscamente para mim, me encarando como se eu tivesse dito algo terrível e ofensivo. Porém, em questão de segundos, seu olhar me pareceu afetado e assustado. Como se houvesse alguma coisa mexendo com seu interior, até então calmo e sereno. — É brincadeira, Ali. — Toquei sua mão suavemente, repousando-a no meu colo. — Foi o único livro sério que me veio à mente. Porque eu não acho que “Um Amor Para Recordar” combine realmente com você. Ou qualquer outro livro de Nicholas Sparks.
— Esse me parece um bom título, sabe? Crime e Castigo. A história é fascinante. — Confessou com um tom elevado, beirando a ansiedade. Esse era outro lado de Ali que quase ninguém conhecia. Ela não deixava ninguém saber sobre seu gosto por leitura — ou por ciência —, pois tinha medo de acharem que ela era nerd. E eu ainda me lembrava de quando ainda estávamos no sexto ano e ela havia me confessado que queria se tornar médica e salvar vidas, mas que isso aconteceria fora de Rosewood. No entanto, receio que algo relacionado a isso tenha mudado bruscamente nela. — Por falar nisso, você precisa parar de ler Nicholas Sparks, Em. Sério.
— O que há de errado com Nicholas Sparks? — Ri fraco, fitando Ali atentamente e encostei-me ao banco confortavelmente. Ela não me respondeu, apenas me lançou um olhar óbvio e, então, as luzes de toda a pista de patinação se esmaeceram e uma música lenta começou a tocar, tomando sua atenção por alguns instantes. A voz de um locutor soou no alto-falante, anunciando que somente os casais patinarão. Ali levantou rapidamente, mas sem se desequilibrar dessa vez e me puxou bruscamente para a pista novamente.
— Vamos! Essa é nossa deixa, Em. — Disse ela enquanto me arrastava pela pista de gelo. Não soube identificar nenhuma de suas expressões faciais, pois não conseguia enxergá-las com clareza, já que seu rosto só estava sendo iluminado pela luz cintilante que a bola de discoteca enviava para toda a pista de patinação. Ali envolveu meu pescoço e mal pude conter as batidas aceleradas do meu coração, uma vez que já estávamos dançando no ritmo imposto pela música.
— Como seria sua história, Ali? — Sussurrei no seu ouvido, envolvendo ainda mais sua cintura e colando nossos corpos. Senti sua risada abafada contra meu pescoço, me enviando arrepios por todo meu corpo. Por um minuto inteiro eu me senti bem.
— A história mais importante é a que estamos fazendo hoje. — Respondeu suavemente. Com isso, eu não pude dizer mais nada. Por se tratar de uma pessoa ambígua, havia muitas formas de se interpretar o que Ali dizia e eu não possuía nenhuma delas no momento. Seus dedos deslizaram pelo meu pescoço, pairando na minha clavícula e voltando à minha nuca novamente. Ali parou seus movimentos na pista de dança e, antes que eu pudesse perguntar se ela estava cansada ou se ela queria parar, ela me surpreendeu com um beijo inesperado, pressionando nossos lábios com gentileza e necessidade. Havia saudade na forma como ela movimentava seu lábio inferior contra o meu superior, roçando nossas línguas suavemente e impondo um ritmo lento e erótico. Não estávamos em um bom lugar para aquilo e o momento me parecia inadequado. Porém, eu não conseguia parar de beijá-la e isso me fez perceber que Ali quase me fazia esquecer Samara.
— Isso foi... Ousado. — Sussurrei vertiginosamente assim que ela se afastou de mim. Seus olhos estavam num tom de azul mais escuro e brilhante, algo bem fora do habitual, e por alguns instantes seu olhar se perdeu para além do meu ombro e um músculo sob os olhos de Ali tremeu, fazendo seu corpo inteiro enrijecer. — O que foi? — Olhei para trás, tentando entender o que a perturbou tanto nesse meio minuto pós-beijo. Procurei por toda a pista, mas não achei nada a não ser uma garota loira sentada numa postura ereta no mesmo banco onde estávamos, mas antes que as luzes áureas do globo de discoteca atingissem seu rosto para que eu pudesse vê-la, ela virou o rosto bruscamente para frente, colocando o capuz do seu casaco vermelho e deixando apenas os cachos loiros às vistas. Um objeto, que identifiquei como sendo um celular, estava entre suas mãos e sua atenção voltada para o que quer que ela estivesse digitando.
— Não é nada! — Puxou meu rosto para o dela rapidamente. Seus dedos estavam trêmulos e gélidos, o que me impulsionou a colocar minha mão quente por cima da dela e um sorriso surgiu nos seus lábios quase instantaneamente.
— Você a conhece?
— Conheço quem? — Perguntou ela, arqueando a sobrancelha como se não soubesse do que eu estava falando. Virei para trás novamente para lhe mostrar, mas o banco estava vazio. Enruguei a testa confusa, olhando para todos os lados a procura da garota com o casaco vermelho, mas ela havia sumido.
— Ela estava bem ali. Você não viu? — Sussurrei com ligeira frustração, olhando Ali atentamente, que apenas negou com a cabeça.
— Melhor irmos embora. Estou começando a ficar com frio. — Disse ela impaciente, passando as mãos pelos braços para esquentar. Assenti enfaticamente, concordando em silêncio.
Graças ao transito tranquilo de Rosewood, não demoramos muito para chegar à minha casa, que estava quieta e escura. Ali me acompanhou até o quarto calada e pensativa e permaneceu assim até eu sair do banho. Perguntei duas vezes se estava tudo bem, recebendo a mesma resposta de que estava tudo normal. Assim que me troquei e coloquei roupas limpas e quentes, fui para debaixo dos edredons e me encolhi toda, sentindo todo o frio desaparecer. Ali continuou sentada de frente para a janela sem se mover, olhando para rua atentamente e vez ou outra me olhando como se estivesse conferindo que eu ainda estava no mesmo lugar. Eu estava cansada demais para perguntar o que ela estava esperando, então, sem nem mesmo notar, fechei os olhos e apaguei num piscar de olhos. Eu não tinha certeza de quantas vezes olhei para Ali enquanto ela ainda estava sentada de frente para a janela, mas eu sabia que minha última lembrança antes de adormecer tinha sido quando ela estava em pé, tirando sua pulseira da Coisa Com Jenna do braço e, a partir daí, não me lembro de mais nada.
Quando eu acordei, não era sobre um travesseiro que minha cabeça estava apoiada, mas sim no colo de Ali, que reconheci pelo cheiro inconfundível de baunilha. Suas costas estavam apoiadas na cabeceira da cama e ela dormia profunda e desconfortavelmente com a cabeça apoiada sobre sua mão. Suas roupas já não eram as mesmas. Ela usava moletons escuros e meias com estampas de borboletas. Ali nunca dormia sem meias. Olhei para o relógio do seu celular que estava ao meu lado e já passavam das três horas da manhã. Um vento forte e cortante entrava pela janela que estava entreaberta. Levantei bem depressa para fechá-la.
— Emily... — A voz rouca e baixa de Ali me chamou, me fazendo rir. Eu sentia como se ela estivesse fazendo minha segurança. Ela ergueu os edredons, me intimando a voltar para cama em silêncio.
— Eu pensei que você fosse embora. — Voltei para cama, repousando minha cabeça no travesseiro. Ela me cobriu e continuou da mesma forma desconfortável de antes. Dei tapinhas de leve na cama, fazendo sinal para que ela deitasse comigo.
— Não quis deixar você sozinha. — Sussurrou sonolenta, acariciando meu cabelo suavemente. Demorou alguns longos instantes até que ela erguesse os edredons e se juntasse a mim. Seu corpo estava gelado, porém eu adorava me aconchegar nela.
— Quem é a delegada agora? — Ri, me lembrando das vezes em que ela me chamava de delegada por eu sempre defendê-la e ficar muito brava quando alguém bem mais velho que ela a paquerava descaradamente. Eu não achava certo e não conseguia conter o ciúme de ter outras pessoas a desejando da mesma forma que eu a desejava.
— Só estou retribuindo o favor. — Soltou um riso abafado contra minha nuca, me abraçando por trás e colocando sua mão sobre a minha. Pela primeira vez na semana eu fechei meus olhos e senti como se tudo estivesse certo. Eu precisava de uma boa noite de sono. E era como se eu realmente fosse ter.
Notas finais
Bem, a todas as Samily shippers, vamos ficar de luto juntas. Ainda estou sofrendo com o fim delas.
Enfim... Até o próximo! :D
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