This Isn't The End.
8 The Death's Calling Our Name
Notas iniciais
"You know I was broke down, I had hit the ground
I was crying out, I couldn't make no sound
No one hears the silent tears collecting
You know I had lost hope
I was all alone.
(Você sabe que eu estava despedaçada, caí no chão
Eu estava gritando, não conseguia fazer nenhum barulho
Ninguém ouve as lágrimas silenciosas se acumulando
Você sabe que eu tinha perdido a esperança
Eu estava completamente sozinha.) "
Pela primeira vez pensei em Skye como alguém que realmente sentia uma dor parecida com a minha, mesmo ainda havendo uma sensação de que a coisa era muito mais profunda do que ele me contara. Eu podia ver em seu olhar que ele se sentia perdido e sozinho.
A princípio, quando ele se retirou da sala, não fazia ideia do que estava acontecendo, ele podia simplesmente ter aprontado alguma coisa. Mas aquilo me era familiar; eu conhecia todos aqueles pequenos detalhes que compunham a cena; em algum lugar da minha memória eu reconhecia aquele olhar do professor, reconhecia a hesitação da diretora, reconhecia o tom de condolência no olhar de ambos.
Eu reconhecia.
Passei o intervalo do mesmo modo de sempre, sozinha em uma mesa ao canto enquanto fingia ler outro livro, dessa vez, porém, não estava pensando em meu pai e em como estava fazendo falta, estava pensando em Skye, ele não tinha voltado.
Eu andava no corredor silencioso na tentativa de escapar das aulas e o vi: sentado e encolhido contra os armários, a cabeça enfiada entre os joelhos dobrados. Eu conseguia entender seus resmungos, as suas lágrimas. Liguei, então, as peças na minha mente; compreendi o que estava acontecendo. A compaixão pelo garoto de olhos claros me tomou naquele momento. Não tentei reprimi-la.
– Isso não é justo. Não é...
O ouvi dizer, entre alguns soluços, para si mesmo, a cabeça ainda entre os joelhos.
– Não é mesmo. A vida não é justa. – Concordei, sentando-me ao seu lado, iniciando, assim, uma conversa que mudaria meu modo de pensar sobre ele.
–-----//------
Eu chorava sobre o túmulo de alguém que nem mesmo cheguei a conhecer, e isso soava ridículo para mim.
Não sei exatamente como, mas Skye me convidara para ir no enterro de seu melhor amigo, Chris; ele parecia mais acabado que nunca, olheiras tiravam o foco dos seus olhos azuis, a aparência abatida tomava conta de seu semblante. Eu sentia remorso em lembrar que pensei que sua dor não passava de uma frescura, era muito mais que isso e podia vê-lo agora quando encarava os olhos claros e enigmáticos de Skye, agora avermelhados, devido ao choro.
Talvez eu não estivesse chorando por causa de Christopher, mas sim por causa de meu pai. Me repreendi por chorar mentalmente, mas sentia um aperto no peito e meus olhos marejarem sempre que pensava novamente na morte, pessoas morrem toda hora, hoje é um desconhecido qualquer, amanhã um parente e logo depois, você.
Assim que todos foram embora, Skye desabou, se recusando a ir embora naquele momento, lágrimas silenciosas caiam enquanto eu observava os túmulos ao meu redor, mesmo sendo um dia ensolarado e limpo, aquele lugar continuava triste e macabro; a morte espreitava nas sombras, lembrando a mim mesma de todas as coisas que não gostava de lembrar, lembrando de meu pai.
Sei que não era adequado chorar. Como "amiga" de Skye eu deveria estar ajudando-o a fazer exatamente o contrário, mas ali estava eu, vivenciando outra vez em minha mente cada momento que tive com papai, chorando por sua perda de novo, ficamos em silêncio por longos minutos, Skye com o olhar fixo no túmulo de Christopher, chorava como eu, mas parecia não notar.
– Skye, eu... — Tentei dizer, com minha voz soando demasiado fraca.
Ele nem sequer olhou, pareceu não ouvir, e se ouviu, não quis notar.
– Skye, olhe pra mim — Falei, tentando ser paciente. — Olhe!
Ele demorou alguns segundos para reagir, quando me encarou nos olhos, pareceu ainda pior; nunca estivera tão magro e pálido, seus cabelos estavam mais desgrenhados que o normal e seus olhos nunca estiveram tão cheios de tristeza e dor. Eu compreendia como ele se sentia, vê-lo assim, de alguma maneira, me fez querer ajudá-lo a se sentir melhor.
– Eu já passei por isso cara, de verdade. Não sei se acredita em mim, mas já senti essa dor e não desejo ela para ninguém. Eu sei que é difícil, mas você sabe que temos que esconder essa coisa em algum lugar aqui dentro. — Apontei para meu coração — Você sabe que eu estou aqui, não sabe? Que quero ajudá-lo de verdade?
– Eu... sei. – Afirmou, relutante, desviando o olhar para seus pés, e piscando rapidamente.
– Skye... Às vezes, só podemos oferecer ajuda, dizer que sentimos muito quando na verdade não sentimos, podemos ser educados e fingir alguma dor, fazemos isso o tempo todo, não? Mas acredite em mim, eu sinto, eu sei como é sentir a solidão, saber que não tem mais ninguém no mundo ou motivos para viver, eu sei, convivo com isso todos os dias e acredite quando digo que eu sinto muito.
– Willow...
– Sabe que pode me contar o que está se passando aí dentro, não sabe? — Toquei sua testa gentilmente, esperava que ele confiasse em mim naquele momento.
Ficamos alguns minutos em silêncio, Skye continuava a encarar seus pés e eu apenas esperei, talvez ele resolvesse se abrir, afinal?
– Eu tentei, Willow. Quando Suzana morreu... – Ele respirou fundo, ergueu o olhar e me olhos nos olhos. Ele falava, nas não parecia estar ali. – Eu entrei em depressão. Nada mais fazia sentido. Eu não queria mais estudar, pois não haveria motivo para me formar se ela não estivesse lá comigo. Meus pais se comportaram como se eu fosse um rato de laboratório, cuja fossa era motivo de estudo e contemplação. Eu estava pendurado no precipício, e foi Chris quem me estendeu a mão – Ele se virou para o túmulo do amigo, me dando as costas.
Skye ficou calado por longos minutos, olhava para seus pés outra vez, imerso em pensamentos, ou tentando se afastar deles.
– Me conte mais sobre ela. — Pedi, percebendo logo depois como havia sido insensível. — Skye, me desculpe! Eu não queria...
– O nome dela era Suzana. — Ele disse, interrompendo meu pedido de desculpas. – Ela era bonita. Tinha cabelos longos e cor de mel. Ela sempre usava rabo de cavalo, e nunca perguntei o motivo – os lábios dele se curvaram em um esboço de sorriso – Mas o que eu mais gostava nela era a voz; suave e meiga. Fazia eu me sentir... seguro.
– Ela...deve ter sido uma pessoa muito especial. — Foi a única coisa que consegui dizer, Suzana realmente parecia uma garota legal.
– Suzana...Era muito mais que especial. — Skye ficou imerso em pensamentos por alguns minutos. — Como era o seu pai?
A pergunta me surpreendeu, pensar em meu pai fez meu coração se contorcer em um dolorido nó. Como ele era?
– Meu pai foi a melhor pessoa que já conheci. Ele era meu herói, me protegendo de qualquer coisa que pudesse acontecer, se ele não tivesse se matado ninguém suspeitaria de seu sofrimento, era um homem alegre que todos amavam, sempre bondoso e carinhoso, sinto sua falta todos os dias desde sua morte.
“Ele sorria todo o tempo, não importando o que acontecia a seu redor. Cada momento que passei com ele era repleto de gargalhadas e brincadeiras, eu nem pensava em minha mãe direito, aprendi a conviver sem a presença de uma e, talvez, meu pai tenha feito um trabalho tão bom em cobrir a falta dela que agora não consiga viver sem ele... Até hoje... Não consegui superar a perda e as vezes penso em como isso é ridículo.''
– Nem tanto. — Skye disse, olhando para algum ponto distante. — Acho que você não precisa esquecê-lo, apenas seguir em frente, tentar ser feliz por ele. Talvez não esteja em posição de dizer isso para você, mas...
– Eu tento...Eu juro que tento, mas a felicidade não faz mais sentido, por que ele não pôde ser feliz?
– Acho que vamos nos perguntar isso pelo resto da vida e nunca saberemos a verdade.
– É... — Sorrio amargamente, várias possibilidades surgindo em minha mente.
– Quer...Ir embora? — Skye perguntou com certa dificuldade.
– Você está pronto para ir? Skye, eu não me importo se você quiser ficar mais um pouco.
– Só... Vamos embora — Ele disse fechando os olhos por alguns segundos, respirou pesadamente antes de voltar a abri-los.
Fomos andando em silêncio, imersos em nossos próprios pensamentos, meu desejo de entender Skye só tinha aumentado, fiquei pensando em como o garoto devia se sentir sozinho e perdido, principalmente agora. Quando deixamos o cemitério, ficamos parados, sem saber ao certo o que fazer.
– Willow... Eu não quero voltar para casa agora e ter que encarar meus pais.
– O que você quer eu...
– Fique comigo...Me arrume uma desculpa para não voltar. — Ele disse relutante, o pedido me surpreendeu um pouco.
– Claro que eu...Eu fico sim, não se preocupe — Corei levemente.
– O-obrigado. — Ele agradeceu, de cabeça baixa. — Você gosta de parques?
–-----//------
Skye me levou para um parque não muito longe de onde estávamos, era gigante e repleto de árvores, parecia particularmente agradável e receptivo, mas me lembrava do campo, o que fez meu coração se apertar. O chão estava repleto de folhas secas de diferentes formas que montavam um tapete, as folhas emitiam leves estalidos quando meus sapatos as esmagavam e por um momento me concentrei somente nisso, até Skye me tirar dos devaneios.
– Já pensou em enfrentar tudo de uma vez? — Ele disse, sem olhar para mim.
– Enfrentar tudo de uma vez?
– É...Você sabe...Tentar superar isso tudo.
– Não...Você já?
– Eu? Na verdade não...
Voltamos a ficar em silêncio, não tinha ideia do que dizer. Adentramos cada vez mais o parque, havia alguns bancos de madeira a poucos metros de nó;, o parque estava meio deserto, um cara de meia idade, de cabelos grisalhos e uma pele pálida passou correndo por nós, trajava roupas leves de corrida e usava uma faixa azul clara estranha na cabeça, o fato de que estava meio acima do peso o deixava ainda mais hilário, assim que me certifiquei que já estava longe comecei a rir, aquele homem tinha uma aparência realmente engraçada, Skye me lançou um olhar assustado e ao mesmo tempo repreendedor.
– Você não viu o cara com a faixa na cabeça? — Perguntei, ainda rindo.
– Vi...
– Ridículo.
– Realmente... — Skye riu brevemente, um sorriso voltando a seu rosto pálido.
– Já viu aqueles carinhas em uma competição de quem come mais cachorro quente? — Comecei a gargalhar mais ainda, lembrando das vezes que meu pai me levava nessas competições, a lembrança não causou nenhum remorso, o que me pareceu uma coisa nova.
– Sério mesmo, Willow?- Ele disse, se juntando a mim e começando a rir.
– Cada coisa estranha que se vê por aí... — Falei, ainda ria levemente.
– Eu gosto de cachorros quentes. Quer sentar? — Skye perguntou, dando uma última gargalhada.
– Pode ser...
Andamos até o banco mais próximo, sentando lado a lado, observei o parque lentamente, notando cada árvore ou pessoa perto dali; uma mulher de cabelos curtos e negros, óculos escuros e um casaco grosso, apesar do calor, estava sentada na grama lendo um livro a alguns metros de nós, tentei reconhecer a capa, mas estava longe demais.
– Harry Potter. — Skye disse, parecendo ler minha mente, inclinando a cabeça ligeiramente para o lado e olhando para a mulher de cabelos curtos.
– Nunca me arrisquei a ler. — Comentei, faz algum tempo que não lia um livro de verdade.
– É uma ótima leitura. — Ele disse, encarei seus olhos claros que agora carregavam sombras profundas, Skye devia estar se lembrando de algo.
– Aposto que sim.
Ficamos em silêncio outra vez, voltei meu olhar para o chão por um tempo, pensando em várias coisas sem nexo. Skye não parecia ser alguém que gostava de ler, mas parece que eu estava enganada em relação a ele, por mais estranho que fosse admitir isso.
– Suzana adorava ler. — Ele disse, meio que para si mesmo.
– Ler é muito bom.
– Me diga a última coisa que você leu naquele seu livro. — Ele me lançou um olhar de sarcasmo, um sorriso se esboçando fracamente.
– Bom... -Sorri forçadamente, ele percebeu que eu as vezes não conseguia ler de verdade. — Esqueci...
– Esqueceu? Claro que esqueceu...
– O que está querendo dizer com isso? — Eu disse, rindo. Começando a dar tapas leves no seu braço.
– Nada. Nada — Ele riu um pouco, esperava estar fazendo ele se sentir melhor.
– Bom mesmo, garoto. Quer apanhar?
– De você? — Ele disse, aquele sorriso irônico finalmente aparecendo, as sobrancelhas se contorcendo acompanhando o clima dado pelo sorriso.
– Skye...Vou ignorar esse seu comentário. — Ri mais um pouco.
Pela primeira vez em muito tempo eu estava rindo de verdade.
"Morre lentamente
Quem destrói seu próprio amor,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajeto,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou
Não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
Quem evita uma paixão e seus redemoinhos de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos e os corações aos tropeços. ( Martha Medeiros.)
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