This Isn't The End.
7 Out Of My Limit
Notas iniciais
Eu era um garoto franzino, de cabelos compridos e desgrenhados que foram cultivados com base em um medo irracional de tesouras que me acompanhou por toda infância. Tinha recém completados 9 anos. Brincava com uma pipa do lado de fora de casa; era começo de tarde e o movimento era fraco, a pequena rotatória de fim de rua em frente ao portão de casa era um local seguro, uma pequena praça e um parque particular de lazer para mim.
Não estava conseguindo êxito algum em tirar o pequeno pedaço de papel de seda do chão; meu pai estava ocupado demais no escritório, o que me fazia perder tempo em vão correndo de um lado para o outro, com a pipa batendo no chão a intervalos irregulares.
Suor escorria do lado do meu rosto, já começava a enrolar novamente a linha, frustrado, quando um garoto da minha idade corria em minha direção. Estava com um sorriso alegre no rosto, olhava encantado o pedaço de papel azul celeste.
─ Pipa legal ─ Ele disse. Ainda sem me olhar nos olhos; levantava uma mão para cima, com a esperança de provocar uma pequena sombra sobre os olhos, castanhos. A pele morena com algumas finas cicatrizes no queixo, nos joelhos e nos braços, além do cabelo curto e o sorriso sempre presente, fazia o garoto exibir um ar sapeca.
Apenas sorri de lado, sem perceber que ele não poderia me ver.
─ Aconteceu isso por que não consegui erguer ela ─ eu disse, apontando para alguns amassados e um pequeno rasgo nas extremidades da pipa.
─ Eu te ajudo.
Ele abaixou, pegou a pipa e a levantou sobre a cabeça.
─ Agora é só correr...
Ele deixou um breve espaço no ar, confuso por não saber meu nome.
─ Skye.
─ Corra Skye. Até lá, eu vou estar ali ─ Disse, apontando o dedo indicador, de modo a deixar claro as duas extremidades da rua. ─ Qualquer coisa me chama. Meu nome é Christopher. Mas me chama de Chris, não gosto muito de Christopher.
O garoto se pôs a correr; chegou feliz ao lugar que já havia assinalado. Levantou o polegar, risonho, e me pus a correr, um sorriso enorme se desenhava em meu rosto.
***
A realidade me atingia como se eu fosse tão insignificante que não merecesse qualquer piedade; a dor me apertava o peito como se eu estivesse no fundo do oceano.
Minutos antes eu estava ali; numa sala de aula. As paredes brancas contrastando com minhas roupas pretas; meu velho all star, sujo e surrado, calça skinning preta e uma camiseta leve, também preta. Meu cabelo desarrumado e meus olhos exibindo o mesmo azul sem brilho de sempre.
Girava meu lápis no dedo, enquanto o professor tentava se desenrolar na explicação de uma matéria que julgou ser “essencial”.
Willow estava atenta, absorta em pensamentos que julguei não serem exatamente referentes à aula; Já não havia tanta graça enchê-la. Despertar seu ódio não era mais tão prazeroso quanto antes; o que não quer dizer que eu não a enchia as vezes. Há alguns minutos havia batucado o lápis em sua cabeça, ganhei um olhar do tipo “te mato”. O bastante para que eu sorrisse, antes de voltar ao dia cinza que se arrastava. Mas decidi que não faria nada além disso por algum tempo; vê-la chorando mexeu comigo, de alguma forma que eu não entendia muito bem.
Faltando cerca de cinco minutos para o intervalo, reparo na figura extremamente arredondada da diretora da escolha; uma mulher de meia idade, branca, que usava óculos rosa demasiadamente infantis e sempre andava com uma prancheta entrou na sala. Com o ar preocupado a mulher segurava, além da prancheta bege, um celular a tira colo; lhe tapando o microfone, deixando transparecer que havia alguém na linha.
Jurei ver a figura de Lily e James passarem rapidamente a porta, imaginei ser apenas uma impressão: ninguém poderia sair na aula antes do intervalo, à menos que tenha algum motivo diferente de “estou com sede”.
Parei de girar o lápis, arrumei a postura, atento.
Ela cochichou algo no ouvido do professor. Um cochicho longo que o afetou; as sobrancelhas formaram um ângulo que lhe deram a expressão de dor forçada: tentava sentir algo que não era real, no caso, pena.
A sala fez um silêncio abrupto e anormal. Ainda não sei se foi realmente a sala que entrou em silêncio mortífero, ou se meus ouvidos recusaram-se a escutá-los.
─ Skye Marshall.
Engoli em seco, meu coração pareceu parar, meu estômago se converteu em um nó agudo. Depositei indelicadamente o lápis na mesa, com um ruído seco que se espalhou pela sala, fazendo um eco quase inaudível.
Olhei em volta, aturdido, esperando o aparecimento improvável de outro garoto com o mesmo nome e sobrenome.
Sobre cochichos de “se ferrou”, “vá com Deus”, “esse não volta mais”, me levantei lentamente.
Eu conhecia aquele tom de voz, eu conhecia aquele olhar de falsa pena, eu conhecia...
Meus pés não pareciam seguir nenhuma ordem, tampouco havia uma. Se mexiam por vontade própria. Meu rosto ainda sem expressão e meu cérebro ocupado o suficiente tentando achar uma explicação lógica que não oferecesse nenhuma das opções que eu deduzi. Ocupado o bastante para deixar passar a única expressão de pena verdadeira em meio a todo aquele murmurinho; Aparentemente Willow voltara à vida.
Me aproximei, com alguma demora e hesitação; as grandes mãos da mulher pousaram-se em meus ombros, me conduzindo a passos lentos e medidos para o cubículo que pertencia ao, ausente, psicólogo da escola.
Ela mesma se sentou na poltrona à minha frente, um longo silêncio fora instalado ali. Não percebi o sinal tocando ao fundo, tampouco a gritaria eufórica dos alunos. A mulher entrelaçou as pernas e desligou o celular.
Me sentei, entrelacei os dedos, meu pé se mexia involuntariamente, batendo no chão rapidamente. Fechei pesadamente os olhos, respirei fundo desejando não ver a diretora em minha frente.
Decidi que não seria refém da vida novamente. Decidi não esperar por algo que eu sabia que era uma tola esperança; pior do que desistir é se agarrar fielmente a esperanças que não existem. Olhei o teto, ainda de olhos fechados. Eu não choraria. Não ali.
E uma frase foi tudo que consegui dizer sem me entregar a frustação, raiva e indignação:
─ Quem morreu?
Fui tão insensível que mesmo ela se assustou: franziu rapidamente as sobrancelhas, respirou fundo e me disse, também sem rodeios.
─ Seu amigo, Chris, teve uma morte ainda misteriosa. Era sua mãe ao telefone, ela me pediu para te contar, visto que ela...
Ela não precisou terminar. Nem dei a ela a chance. Sabia muito bem que minha mãe não queria dar outra notícia do tipo a mim. Comprimi os lábios, senti o fundo dos meus olhos arderem. Me dirigi a porta.
─ Estou liberado, certo?
Ela balançou a cabeça positivamente, ainda aturdida pela minha reação atípica.
O intervalo estava no fim. Não percebi quanto tempo havia passado naquele cubículo, nem quanto levei para chegar até lá.
Passei por pessoas que me conheciam, e por aquelas que nem faziam ideia de quem eu era.
Quem eu era?
Um garoto, franzino como aquele que há 8 anos atrás conhecera um alegre Chris.
Enxuguei as lágrimas que me escorriam com as costas das mãos, meu rosto úmido e meus olhos ardendo. Sabia que estavam vermelhos.
Virei a esquerda assim que o fim do corredor se apresentou.
Meu armário estava ali, com minhas coisas e algumas poucas fotografias que eu guardava longe de casa. Fotos minhas e de Suzana, juntos e sorrindo.
Bati a testa no armário, soluçava em meio às lágrimas. O corredor já vazio, o último sinal tocando; os professores entrariam agora nas salas. Em uma escola com tantas pessoas eu estava ali; mais sozinho que nunca.
Lily e James, apesar de ótimos amigos, sempre estiveram preocupados com eles mesmos. Um casal que cuidava apenas de si; fácil de entender. Suzana, Chris e eu éramos o trio inseparável. Quando Suzana tirou a própria vida, foi, sem dúvida, um baque. Perdi meu chão, mas Chris foi o que me manteve acima do abismo. Segurou minha mão quando precisei, e não me deixou ir. Foi graças à ele que me reergui, ou quase. Agora que ele se foi...
─ Droga!
Gritei, batendo com toda a minha força na porta fechada do armário. Um som seco, metálico e oco se espalhou pelo corredor. Me virei, apoiando as costas nele, os olhos fechados com força.
Me deixei escorregar, até estar sentado no chão frio. Enterrei a cabeça nos joelhos, os abraçando e pensando que nunca mais veria o sorriso sapeca de meu melhor amigo.
─ Isso não é justo. Não é...
Sussurrava, em meios as lágrimas, para mim mesmo, balançando a cabeça de um lado para o outro, ainda com os olhos fechados e o rosto enterrado em minhas pernas.
─ Não é mesmo. A vida não é justa.
Olhei ao meu lado. Uma garota com cabelos alourados, olhos cor de mel estava sentada ao meu lado, um braço de distância nos separando. Willow me olhava, não com pena, mas com compreensão.
─ Não é uma boa hora, garota.
Me levantei, abri o armário, peguei coisas aleatórias. Fotos, livros e um caderno. Coloquei tudo desajeitadamente dentro da mochila que estava ali, joguei ela no ombro e me virei. Uma mão, ligeiramente pequena e um pouco fria agarrou meu braço. Eu ainda chorava.
─ Larga de ser idiota!
A olhei, incrédulo por gritar comigo e me ofender em um momento como aquele. Ela estava sendo autoritária e meiga ao mesmo tempo. Parte de mim ainda queria virar e correr, a outra sentar e conversar.
Eu não estava em estado para correr. Joguei a mochila aos meus pés, novamente apoiei as costas no armário, me deixei escorregar e me sentei. Esfreguei os olhos, que ainda ardiam.
Contei, em meio a pausas, o que aconteceu. Willow era uma boa ouvinte.
Eu, confesso, esperei o clássico “Tudo vai ficar bem” ou mesmo o “Estou aqui para qualquer coisa”, mas ela apenas se aproximou, colocou sua cabeça em meu ombro.
─ A dor nunca passa. A gente não se cura desse tipo de ferida. A gente só aprende a tirar do centro do palco.
Recostei a nuca no armário. Não queria estar ali com Willow, tampouco queria ir para casa e encontrar meus pais, divorciados e terapeutas. Não tinha mais a casa de Christopher para frequentar. Me sentia mal, vazio, triste e com raiva, mas estranhamente a presença de Willow era o que me impedia de me sentir sozinho.
“É certo que irás encontrar situações
tempestuosas novamente,
mas haverá de ver sempre
o lado bom da chuva que cai
e não a faceta do raio que destrói.” (Charles Chaplin)
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