This Isn't The End.
5 Old Friendships
Notas iniciais
“And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
(Quando as lágrimas começam a rolar pelo seu rosto
Quando você perde algo que não pode substituir)”
─ A culpa é sua, Catherine, SUA!
É absurdamente raro ouvir meu pai perder o controle a ponto de gritar com minha mãe. E é ainda mais raro que eles briguem; mas, pelo jeito, eu não fui o único afetado pela morte da Suzana: a relação dos dois pareceu ter sido incrivelmente abalada.
─ Se você acha que a culpa do NOSSO filho estar em uma depressão é minha, tudo bem! Mas não é gritando comigo que você vai curá-lo!
Terapeutas tão renomados que não enxergam o óbvio. Carinho. É a única coisa que queria deles. Um abraço, um elogio, um sorriso sequer.
─ VOCÊ DEVERIA TER PENSADO NAS CONSEQUÊNCIAS QUANDO RESOLVEU QUE QUERIA UM FILHO!
Respirei fundo e afundei a cara no travesseiro. Não mudei tanto, pensei.
Talvez eu tenha perdido alguns quilos, perdido alguns poucos músculos que tinha. E, talvez, o meu gosto por preto tenha ultrapassado algum limite antiquado.
E foi ao fechar os olhos que lembrei de uma conversa que tive com Lily, mais cedo.
“─ Você VAI!
Ela disse quase em tom de uma daquelas mães rabugentas que se vê em filmes.
─ Poxa, é minha última semana nessa escola e vocês querem que eu passe meu enorme tempo vaga em um grupo de apoio? Isso é para alcoólicos, fumantes e todo esse povo...
─ A gente vai ir para a sua escola contigo. Pelo menos eu e Lily, o Chris não pôde. O pai dele e tal... ─ Interveio James, tentando amenizar a situação. Franzi as sobrancelhas e comprimi os lábios, teria sido um olhar muito, muito medonho caso eu não estivesse com o uniforme estrondosamente ridículo dos formandos da Academia Hillings. Rosa e branco. Para meninos e meninas.
─ Não...
Foi minha última tentativa: Fechei o armário com força e fiz um leve biquinho.
─ Eu vou com você. Até a porta. Esteja pronto as 15, vou te buscar na tua casa.
─ Eu sei dirigir, qual é, vou ter babá também? Você tem mais o que fazer, pode, por exemplo, ir para a casa da Lily, assistam um filme, se beijem, sei lá!
Lily corou, e James me olhou com mais veemência, com aqueles olhos castanhos autoritários. Resolvi não discutir mais. Estava disposto a fingir alguma doença muito digna, como uma diarreia.”
Olhei meu relógio e percebi que faltavam apenas quinze minutos para o horário estipulado por James. Me levantei da cama, e tirei os fones a tempo de ouvir o estopim da briga que se seguia:
─ CHEGA! Se você não quer aceitar o estado do Skye, tudo bem, eu entendo. Mas você não vai estar me aceitando junto. Pegue suas coisas e saia...
A voz engasgada e entremeada por soluços era da minha mãe. Meu pai poderia ser um grande homem, mas duvido muito que seja algo sem minha mãe. Não ouvi mais nada depois disso, e estava decidido a não ouvir.
Me troquei. All star, calça jeans, camiseta e uma pulseira; todos pretos.
Sai do quarto e vi um pai perdido, olhando e piscando para o teto, minha mãe de costas para ele, o rosto coberto. O barulho da porta os acordou de um profundo transe, foi quando perceberam que o motivo da briga, e do provável divórcio, estava escutando tudo. Se envergonharam ainda mais. Corri os olhos de um ao outro, e sai pela porta, ao mesmo tempo que o carro de James se aproximava de minha casa.
Meus pensamentos vagaram no carro. Por mais que eu não fosse íntimo dos meus pais, eles ainda o eram. Ouvir aquilo, que iriam se separar, trouxe à tona os mesmos sentimentos que me invadiram quando Suzana se matou. Em proporções menores, mas igualmente dolorosas.
(...)
Com a mochila nas costas, sobre apenas um ombro, as roupas pretas e um olhar percorrendo a multidão naquele corredor estranho. Foi assim que comecei o primeiro dia na escola nova.
Uma habilidade que desenvolvi desde a morte é ser invisível quando quero. Foi assim que entrei na sala sem ser notado. Mesmo o professor, barbudo e ligeiramente barrigudo, mal me notou.
A sala estava ligeiramente cheia. Os lugares vagos se dispunham à perto do grupinho do fundo, o primeiro lugar da segunda fila (provavelmente pertencente a alguém que não viera naquele dia) e o terceiro lugar da quinta fileira ─ contando a partir da porta.
E na minha frente, absorta em pensamentos (Deduzi porque, apesar de imensamente concentrada no livro que estava lendo, não folheava as páginas) estava a garota do grupo de apoio, Willow.
Sorri para mim mesmo. Apesar de nutrir um ódio meio ranzinza por ela, não acho que a discussão iniciada no grupo esteja, de fato, terminada.
O professor limpou a garganta, me olhando nos olhos. Entendi o recado, desviei o olhar, e segui em frente. Ela não me notou, nem mesmo quando encostei o quadril em seu livro.
Pensei em diversas formas de deixar claro a minha presença, de modo que despertasse na garota o máximo de indignação possível. Mas foi o professor barrigudo que o fez, por mim:
─ Então... pessoal... ─ interrompeu as poucas conversas da sala ─ temos aqui um novato. Seu olho é muito bonito, garoto ─ já percebi que o forte daquele professor nunca seria a delicadeza, ou mesmo a concentração em um assunto ─ Qual seu nome?
Limpei silenciosamente a garganta, e tentei soar o mais formal possível. Velhos hábitos.
─ Skye... ─ o espaço em que eu deveria dizer o meu sobrenome foi ocupado por um silêncio. O simples pensamento me fazia congelar. Suzana costumava incorporá-lo ao seu nome, em uma menção agradável de seu provável nome de casada. Minha boca entreaberta e meu olhar afetado surpreenderam até a mim. Não costumo exibir sinais de dor, ou depressão como diria minha mãe, na frente das pessoas.
─ Er... bem-vindo, Skye. Meu nome é Robert, e eu sou professor...
Não prestei mais atenção. Apenas sorri, educadamente, enquanto tentava recobrar a consciência e recolocar os pensamentos em ordem, porém fui, novamente, impedido.
─ Ah não ─ exclamou Willow, apoiando a cabeça na carteira.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, rapidamente, pisquei algumas vezes. Levantei uma das sobrancelhas, sorri com o canto da boca e olhei para o professor, para me certificar que ele não estava me olhando ─sem broncas no primeiro dia.
─ Sem teatro, todo mundo sabe que você me ama ─ comentei, audível o suficiente para que só a garota me ouvisse. Me deliciei com a feição dela, uma mistura de raiva contida e um desejo insano de jogar algo em mim.
─ O garoto que perdeu a namoradinha e acha que é dor.
Não respondi. A olhei nos olhos e ergui, novamente, uma das sobrancelhas, em sinal de ironia.
─ 8 anos? Ainda sente dor, também, da perda das suas barbies?
Eu, confesso, fui hostil, egoísta e sem educação. E agradeço pelo que aconteceu depois.
─ Meu pai...
─ Silêncio, Willow. Silêncio, garoto dos olhos azuis.
Apenas dei uma piscadinha para a garota, meus lábios ainda contornados em um sorriso extremamente irônico. Não me lembro dela ter me olhado outra vez nesse dia.
Tua caminhada ainda não terminou...
“Não faças do amanhã
o sinônimo de nunca,
nem o ontem te seja o mesmo
que nunca mais.
Teus passos ficaram.
Olhes para trás…
mas vá em frente
pois há muitos que precisam
que chegues para poderem seguir-te.” (Charles Chaplin)
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