This Isn't The End.
3 Carry You Home.
Notas iniciais
“If she had wings she would fly away
And another day God will give her some
(Se ela tivesse asas, ela voaria para longe,
E algum dia Deus lhe dará algumas)”
Carry You Home era sua música preferida. Sempre achei isso irônico; o nome da música que ela amou durante toda a vida, foi a última coisa que me lembro de ter feito.
A música tocava alto no fone que dividíamos, sentados sobre o banco da praça não muito charmosa. Era outono, a calçada exibia um tapete de folhas em tons amarelos ligeiramente amarronzados. Conversávamos sobre a escola, o velho professor de aritmética, os pais dela... Ela sempre ficava surpresa quando eu falava sobre os meus pais; os terapeutas respeitados que davam atenção a todos, exceto ao próprio filho.
Nossas mãos entrelaçadas, nossas bocas exibindo os contornos de sorrisos infantis quando ríamos das piadas absurdamente sem graça que partilhávamos. Aquilo era mágico; eu a amava, ela me amava, e era só isso que nos importava.
As mochilas sobre os ombros quando finalmente decidimos caminhar, ainda com os fones divididos, o que nos obrigava a caminhar muito próximos. Ninguém reclamou. Foi ela quem quebrou o silêncio que já se prolongava por alguns poucos minutos:
─ O nome do nosso filho vai ser Lewis.
Levantei uma das minhas sobrancelhas, sentindo uma pontada de espanto sobre toda a sensação que não consegui classificar.
─ Que nem o carinha que escreveu As Crônicas de Nárnia?
Foi tudo que consegui dizer, estava espantado e excitado. Suzana riu, abaixando a cabeça e colocando o cabelo atrás da orelha, delicadamente.
─ E se for uma menina?
Questionei, erguendo novamente a sobrancelha, dessa vez com tom de ironia. Ela não respondeu, apenas me beijou, devagar, como se as únicas pessoas no mundo fossem ela e eu, e especial; algo que não soube o que era, mas me tocou, me fez sentir um frio na barriga incômodo.
E, como de costume, dia após dia, chegamos em sua casa depois de alguns minutos. Ela se despediu, e fui insensível o suficiente para perceber o olhar que ela exibia, os seus lábios comprimidos devido ao esforço de não chorar perto de mim.
“As strong as you were
Tender you go
I'm watching you breathing
For the last time
(Tão forte quanto você era,
Frágil você vai
Eu estou te vendo respirar
Pela última vez)”
Me deliciei com um futuro que imaginava com muito carinho. Perdido em pensamentos, escutando música no último volume dos meus headphones, um sorriso bobo estampado em meu rosto, os livros e os deveres que eu já tinha feito há muito, jogados na cama junto com meu corpo entorpecido pelas palavras que ouvira há pouco.
Já estávamos juntos tempo o suficiente para que eu imaginasse um futuro, e eu o fazia sempre que podia; me encantava ter uma vida ao lado de alguém que eu amasse.
Não percebi, talvez pela música alta ou talvez por estar com os olhos fortemente fechados, quando minha mãe entrou no quarto, me olhando com um telefone na mão, os olhos marinados, o seu olhar de pena.
Percebi sua presença quando ela respirou profundamente e segurou um soluço. Eu a olhei, meu sorriso durou apenas o tempo necessário para que eu percebesse alguns detalhes; ela nunca entrava no meu quarto, não para me observar pelo batente da porta, portando um telefone, tapando-o com a palma de uma das mãos. Bastou o meu sorriso se esvair e meu olhar ir do telefone para sua expressão séria, para que ela cedesse às lágrimas; uma brilhante gota de lágrima brotou de seus olhos, lhe contornando a bochecha e morrendo em sua boca. Minha mãe nunca se importou tanto comigo, não que ela tenha sido uma má mãe, apenas não foi presente. Aquilo me incomodou. Pensei em meu pai, em meus tios, em meus primos, em meus avós.
Ela me ofereceu silenciosamente e cordialmente o telefone, estendendo-o para mim e balançando levemente a cabeça, me encorajando a pegá-lo.
─ A-alô.
Minha voz soou fraca e inaudível, ver minha respeitada e imponente mãe chorando como uma criança desamparada em minha frente rompeu algum tipo de limite em mim. Limpei silenciosamente minha garganta, olhei minha mãe, procurando forças; não as encontrei. Fechei os olhos levemente, inclinado a cabeça para o teto.
─ Alô.
Soou um pouco mais firme.
─ Skye...
Conhecia aquela voz. Era um homem. O havia conhecido há pouco tempo, alguns meses talvez. Se ver minha mãe chorar rompeu algum limite, ouvir a voz daquele homem, dadas as circunstâncias, fazia tudo em mim estar por um fio de cair em um precipício.
─ Skye... ─ repetiu, tomando, assim como eu, coragem.
─ Oi... ─ eu sabia que não estava me chamando, mas, talvez, eu o encorajasse.
─ Suzana...
Senti algo quebrando dentro de mim; minha visão escureceu-se e clareou-se, senti um vazio imediato, todas as minhas forças recusando-se a acreditar no que parecia muito, muito, concreto agora.
─ ... Ela se matou.
Ele falou rápido, audível, e como se tais três palavras não lhe arrancassem apenas o fôlego, mas o coração e tudo aquilo que tinha; O homem ao telefone, Christopher, era pai de Suzana. Pude imaginar, antes da realidade me atingir, ele e sua esposa discutindo silenciosamente sobre quem deveria me avisar.
─ Mas...
Sabia que não poderia ser, mas rezei, em silêncio, para que fosse apenas uma pegadinha. Que Suzana entrasse por aquela porta, sorrindo do jeito que ela sempre sorria, falando de livros como sempre falava, alegre como sempre era...
─ Eu sinto muito.
Eram palavras vazias, de um pai que já estava vazio. Não poderia culpa-lo. Infelizmente só havia um culpado, e era, também, a vítima. Doeu perde-la, mas doía imensamente mais saber que ela acabou com a própria vida; acabando com a minha junto.
Derrubei o telefone, atônito. Algo queimando atrás de meus olhos, eu sentia muita vontade de chorar, mas não conseguia. Havia algo que me impedia, algo mais profundo. O vazio me tomando, a realidade me atingindo como um raio. Senti minha mãe me abraçando, me conduzindo à beirada da cama, dizendo palavras que eu não conseguia entender, um consolo que eu, honestamente, dispensava.
“Quem escreverá a história do que poderia ter sido?” (Fernando Pessoa.)
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