Think Twice

23 C23. Suspicious


Notas iniciais
Oh. My. God.
Foram quase dois meses pra escrever esse capítulo, mas cá estou eu! Eu consegui!
Desculpem-me, desculpem-me mesmo, do fundo do coração! Eu vim enfrentando minhas dificuldades emocionais há algum tempo, que tem me atrapalhado em tudo. Nas aulas, em casa, nas provas, em meus desenhos e também em minhas fanfics. Ando estado bastante triste por algumas coisas que talvez não lhe interessem, mas isso acabou afetando meu tempo de postagem, que costuma ser mensal.
Mas, voltando ao capítulo!
Ele ficou um pouco mais curto do que eu imaginava, embora não tenha ficado de fato pequeno. Enfim.
Esse capítulo.... é um pouco triste, como todos os outros. Mas tem um clima um pouco mais leve. Tentei, apenas tentei, não abusar demais dos sentimentos da Tsugumi, e deixar um clima mais leve antes dos capítulos finais. Por isso, recomendo a música que eu ouvi pra me passar esse clima, You - The Pretty Reckless. É uma música um tanto triste, mas ela passa, ao menos pra mim, uma calmaria, tranquilidade, e certo romantismo.
De qualquer forma, não me matem~~ E leiam as notas finais, pu favô. -q


Era mais um dia de aula como qualquer outro. Após deixar a área dos armários de sapatos, Tsugumi decidiu se separar de sua amiga e ir caminhar um pouco pela cidade, aproveitando o tempo que havia aberto depois das pancadas de chuva que tiveram durante aquela semana. Precisava tomar um pouco de ar, aquela foi sua justificativa, e Misaki pareceu aceitar bem, não insistindo para que voltasse com ela para casa.


A franzina se fazia hóspede da casa de sua amiga já haviam dois dias, sem voltar ao apartamento. Estava usando as mesmas peças de uniforme desde então e isto estava começando a incomodá-la. Pretendia passar em seu apartamento apenas para fazer uma mala e nada mais. Quanto menos tempo passasse por lá, se sentiria melhor, pretendendo adiar o inevitável: ter de empacotar tudo. Sabia que ela teria de fazer aquilo ainda mais por sua mãe ter lhe mandando uma mensagem avisando que seria ela quem teria de fazê-lo. Talvez assim fosse melhor para que não perdesse nada, mas só machucaria mais.


Seu tempo havia caído para 12 dias, não mais as originais duas semanas exatas, e ainda não havia feito nada do que queria ter feito. Só mais 12 dias. Não havia contado a ninguém que gostaria de contar e se despedir, e também não havia ido a nenhum dos lugares que queria. A capital Tóquio e seus distritos eram muito fascinantes, seja Ikebukuro, Shinjuku, Shibuya ou qualquer outra. Ainda tinha de pesquisar o que fazer por cada uma delas, claro, mas gostaria que pudesse deixar a cidade grande com várias coisas que pudesse ter de recordação positiva. Fotos, lembrancinhas... Também seria de seu agrado se pudesse comprar algo que deixar para seus amigos, mesmo que fosse ela aquela a partir – também era importante não ser deixada no passado.


Deixou seus pensamentos um pouco de lado ao sentir bater o ombro contra algo e ver uma moça passando com um bebê em seu colo, que a olhou direto nos olhos. A adolescente sorriu a ele com um ar terno e prosseguiu sua caminhada, levando uma mecha de seu cabelo castanho achocolatado para trás de sua orelha. Mesmo não estando contente ou satisfeita com qualquer coisa que tivesse acontecido em seu dia ou mesmo em sua vida, um sorriso sempre lhe brotava nos lábios ao ver uma criança. Talvez as saudades de quando ela própria era, daquela época em que nada a havia ferido e que havia espaço para ingenuidade ou inocência.


Suspirou e, limpando a expressão facial, prosseguiu com sua caminhada, olhando reto para frente. Sua infância não voltaria, apenas lhe restava ter os retratos mentais gravados em sua cabeça. Tinha de continuar e não poderia aparecer diante de amigos para dar notícias tristes com uma expressão tão contente, beirando alegria, no rosto. Seria crueldade com eles. Ao menos, manteria uma expressão calma, um tanto neutra, por mais que aquilo que ela mais quisesse ainda fosse chorar.


Seu coração parecia ter afundado no peito ao ver-se já diante da porta de vidro da loja de artigos de anime, e podendo ver lá no fundo as pessoas das quais teria de se despedir, Karisawa Erika e Yumasaki Walker. Eles pareciam estar se divertindo, mais uma vez, com algum boneco que estava à venda. Tinham de estar se divertindo tanto? Perdeu até a coragem de ir falar com eles ao ver aquilo, pois com certeza iria acabar estragando aquele momento de descontração.


Engoliu a saliva em seco, pousando a mão sobre a fria porta de vidro, observando apreensiva. “Coragem, Tsugumi. Coragem.” Repetia para si como um mantra, respirando forte ao ponto de bufar. Estava ali para aquilo, estava ali para passar alguns dos últimos momentos seus em Ikebukuro, e ela tinha que fazer isso, senão seria pior. Mas sua mão não se movia para abrir a porta, apenas ficava olhando através do vidro. Coragem, coragem. Ela poderia apenas conversar com eles dessa vez e contar a eles que sairia da cidade em alguma outra vez. O que antes eram “só tenho 12 dias” transformaram-se em “ainda tenho 12 dias” em seu pensamento. Aquilo a fez abrir um meio sorriso.


Só deveria ter pensado naquilo antes, pois quando a menina se deu conta, os dois, que antes estavam longe, já haviam aberto a porta de vídeo e lhe perguntado o porquê da cara triste.


~x~


Aquele era um de seus poucos dias de folga; um daqueles dias raros em que seu trabalho lhe concedia um dia de descanso. O único problema que Shizuo tinha com dias como aquele era porque não tinha o que fazer.


Aquilo era frustrante. Beirava o ‘irritante’. Estava tão acostumado a estar ocupado que, ao não ter nada para fazer, o tédio logo o tomava, e então percebia o quanto sua vida social era defasa. Não conhecia nenhum lugar dentro da cidade que morou a vida inteira onde pudesse se divertir sozinho, já que a maioria das pessoas com quem nutre laços de amizade provavelmente estaria ocupada naquele momento. Afinal, se todos ficassem de folga no mesmo dia, algo muito parecido com uma crise iria acontecer dentro da cidade, porque ninguém estaria trabalhando. Ou seja, nem os lugares onde poderia achar algum tipo de entretenimento estariam abertos. Estariam todos fazendo um nada coletivo, e...


Por que estava pensando naquilo? Ele se perguntou, enquanto caminhava pelas ruas de Ikebukuro, sem rumo. Sequer sabia em que rua estava. Ah, andava muito disperso de uns tempos para lá. Não que reparasse muito na maneira com que pensa, mas antes parecia que seus pensamentos eram mais... Retilíneos. Eles seguiam em um sentido claro. Apenas quando estava com raiva que aquilo não se realizava, porque ele parecia parar de pensar. Agora, Seus pensamentos ficavam dando voltas confusas, sem chegar a lugar nenhum e mudando de foco. Irritante também é pensar na maneira com que se pensa.


Viu-se numa praça, então resolveu sentar-se num banco qualquer e o fez, pondo-se a olhar ao redor. Aquele não era um horário muito movimentado, mesmo que fosse horário de saída escolar. Nada se comparava ao movimento causado pelo tráfego ao final do dia. Mas mesmo assim, as ruas estavam abarrotadas de gente. Não sabia porque ainda ficava surpreso com isso, estando vivendo numa cidade considerada grande. Não havia um momento sequer em que as ruas estavam realmente vazias. O horário mais vazio era durante a madrugada, mas mesmo assim ainda haveria pessoas nas ruas. A cidade realmente não para. Às vezes, isso era um incômodo, mas muito provavelmente acabaria estranhando se a cidade de uma hora para outra ficasse mais vazia.


Soltou um suspiro. Queria relaxar, mas sua mente sempre acabava voltando a assuntos incômodos. Acabava pensando no trabalho, no trânsito, e recentemente pensar a respeito de sua aprendiz também era uma dor de cabeça. Ela andava sumida, e aquilo estava deixando-o estupidamente preocupado. Não tinha mais que cuidar dela, então por que se importava tanto ainda? Ela já estava medicada e estava morando com a mãe em casa. Talvez estivesse mais perturbado pelo fato dela não dar mais notícias. Não comparecia aos treinos – que já deveriam ter voltado, já que o tempo que o médico a havia mandado repousar já tinha acabado –, não atendia ao celular ou respondia mensagens, mesmo que nunca tivesse tido algum problema para enviar. Normalmente, as pessoas apenas não recebem chamadas ou mensagens quando estão desligados ou fora do ar, mas isso não chegou a acontecer. Ou ela perdeu o celular ou ela o estava ignorando. Preferia ficar com a primeira opção, mas não deixava de ficar irritado.


Tirou seu maço de cigarros do bolso, colocou um na boa e acendeu, na esperança de que aquilo o acalmasse ou distraísse. Não basta ter de ficar se preocupando consigo mesmo – o que, pra falar a verdade, já não faz muito frequentemente -, ainda tinha de ficar entupindo sua mente pensando a respeito de outra pessoa. Soltou um suspiro na hora de expelir a fumaça do cigarro aceso, um suspiro que veio do fundo de seus pulmões. Aquele tipo de irritação era bastante diferente da que normalmente sente, e que normalmente lhe desencadeia um ataque de raiva. Não sabia dizer direito que tipo de irritação era aquela, mas não gostava daquilo. Queria achar um jeito de tirar aquilo da cabeça.


Ficou um tempo olhando para a fonte que estava à sua frente, espirrando água para cima. Embora as ruas estivessem razoavelmente cheias, a praça estava bastante vazia. Estavam ali apenas ele próprio, um senhor desenhando e um monte de pombas. Aqueles bichos sempre lhe incomodavam. Eram como ratos com asas que estavam empesteando a cidade. Para melhorar a situação em que se encontrava, aquelas aves malditas vieram logo em sua direção.


“Mas o que diabos esses bichos querem?!” Shizuo perguntou-se mentalmente, franzindo o cenho ao ver aquelas pragas se aproximarem de seus pés, começando a bicar o chão ao seu redor. Espantou-as batendo o pé no chão com força, e todas logo voaram para longe. Foi então que viu que havia se sentado num banco cujo chão próximo estava cheio de migalhas de pão e outras coisinhas. Alguém havia jogado aquela comida para as pombas. Algum idiota havia feito aquilo.


Jogar alimento para pombos em praças se tornou agora uma das coisas que mais odiava. Estavam atraindo aqueles bichos para a cidade jogando comida daquele jeito. Não era a toa que a população deles estava aumentando!


Bufou e cruzou os braços, escorregando um pouco no banco, deixando o pé apoiado num chão mais à frente, numa posição meio torta. Mas, ao menos, naquela posição era mais fácil de ver o céu. Olhar as nuvens era uma atividade interessante, mas não por muito tempo. Logo acertou-se novamente no banco e pôs-se a olhar para frente.


Mas agora, exatamente do lado oposto da praça, via alguém sentado. Uma menina de porte pequeno, mas com o cabelo longo em duas tranças. Ela olhava fixamente para algo em suas mãos. Shizuo ergueu uma das sobrancelhas, tendo a impressão de que aquela era uma pessoa conhecida, mas não enxergava seu rosto por causa das águas da fonte. Só que, mesmo assim, estava quase certo de quem era, apenas levantando-se para ver por cima da água para garantir. E era exatamente quem ele achava que era.


Sentada no banco do outro lado da praça, estava Tsugumi, usando o uniforme da Raira como o esperado. Por algum motivo, havia trançado o cabelo, mas aquilo não importava. Algo estava diferente nela – seu olhar. Ele não lhe dizia nada, absolutamente nada. Nem mesmo depois que deu a volta na fonte e ficou a observar um pouco mais de perto, não sabia dizer o que ela estava sentindo apenas pelo olhar, como já havia feito tantas vezes. Ela estava com os olhos presos em um chaveiro que segurava na palma aberta da mão, tão sem vida quanto o pequeno ursinho do chaveiro. Aquilo parecia... errado. Aquele era o mesmo olhar que ela tinha depois de ter saído do hospital, algumas semanas antes.


-O que aconteceu agora? – o louro perguntou, agachando-se no chão ficando de cócoras, com os cotovelos apoiados nos joelhos, curvado, olhando-a diretamente no rosto.


-AH! –ela soltou um grito, estatelando os olhos, demonstrando algum sinal de vida. Acabou por jogar suas costas para trás e bater contra o encosto do banco- SHI-SHIZUO-KUN!


-Agora você parece viva. –levantou-se, pondo uma das mãos no bolso da calça- Você parecia um boneco com aquele olhar vazio. Que foi que aconteceu dessa vez?


-... –ela deixou a boca entreaberta, olhando-o no rosto com surpresa, mas logo abaixou o olhar de novo, com um ar covarde – N-Não foi nada...


-Você mente mal. –disse com um tom ligeiramente irritado, em seguida dando-lhe um peteleco de leve na testa e sentando-se ao seu lado, cruzando os braços – Tem algo errado e você só não quer me contar.


-...Como você sabe essas coisas? ... –sua vozinha pareceu agonizada, mas ao mesmo tempo abatida, colocando as mãos sobre a testa depois de largar seu chaveiro sobre sua perna.


-Eu conheço você. –encarou-a – Está tudo sempre escrito na sua testa.


-... -ela voltou a abaixar o rosto, dessa vez com um ar de quem ficou embaraçada.


-Vai ficar em silêncio até quando? – continuava a insistir, mesmo que não tivesse realmente um motivo para tal.


-... –ela, então, soltou um suspiro pesado- Desculpe por ficar te dando trabalho... Eu só estou... Me sentindo meio sozinha.


-Você não tem mais andado com seus amigos? – foi a primeira coisa que pensou e que falou, olhando-a no rosto e facilmente percebendo uma tristeza em seu olhar. E não era exatamente a tristeza de alguém que se sentia sozinho... Parecia algo maior, pior.


-É... –sua voz soou fraca. É, não era apenas uma tristeza proveniente da solidão. Mas que aperto no peito foi aquele que sentiu?


-Já tentou fazer outros? – pergunta idiota, mas a fez.


-Eu não quero fazer outros! –ela respondeu quase brava, passando a encará-lo de forma irritada – Eu não quero ter de simplesmente desistir dos meus amigos! Não quero! – continuava a protestar, mexendo os braços enfaticamente, até que, ainda com o olhar arregalado, foi parando de mexer-se tão compulsivamente – Se eu fizer isso... Eles... Eles vão esquecer de mim!


-Amigos que são amigos, ou que um dia foram, nunca esquecem. – não sabia como consolá-la e aquilo foi o melhor que ele pôde pensar, mas teve de dizer com um ar de certeza no que dizia que realmente não lhe pertencia – Não vão esquecer você, mesmo se você for deixada para trás.


-Como você pode falar uma coisa dessas?! – esfregou os olhos com as costas de suas mãos – Você sempre fala como se soubesse de tudo!


-Eu posso até não saber... –levou uma das mãos ao topo da cabeça da aprendiz, bagunçando seus cabelos um pouco- Mas nenhuma pessoa normal seria capaz de simplesmente esquecer um amigo.


Tsugumi ficou encarando-o ainda um bom tempo com aquele olhar quase bravo, que foi se desfalecendo até que se tornou um olhar de pura tristeza. Logo em seguida, o barman pôde notar lágrimas se embotelhando e engrossando nas pálpebras dela e logo se precipitando, escorrendo até seu queixo fino com rapidez. Ele rapidamente respondeu à expressão chorosa da menina com uma de desconforto. Era terrivelmente incômodo vê-la daquele jeito, mas não podia desviar o olhar.


Mal teve tempo de olhar ao redor e pensar numa forma de logo fazê-la parar de chorar – era péssimo em consolar pessoas, principalmente porque a choradeira alheia normalmente o irritava no fundo da alma; mas aquele parecia um caso diferente – e ela logo se agarrou nele, escondendo seu rosto em seu ombro e começando a chorar, com as mãos grudando em seu colete negro, dando-lhe tempo apenas para retirar a mão da cabeça dela e mantê-la suspensa no ar.


Ficou definitivamente perdido na situação. Olhou em volta uma ou duas vezes, como se procurasse uma forma de acalmá-la. Não aguentava ouvir todos aqueles soluços e choramingares que ela soltava, mesmo que fossem abafados. Ouvir aquilo era quase tão incômodo e dolorido para ele quanto... pisar descalço em um lego. Fora a melhor comparação que conseguiu arranjar enquanto pensava.


Mas... O que se diz para uma pessoa chorando? Era o que mais se perguntava naquele momento. Não era um cara sensível o suficiente para saber o que ela sentia, portanto era mais difícil para ele pensar em uma forma de ajudar, só que estava apenas ele ali, e, pelo que parecia, ele era o único com quem ela poderia contar. O fato de ela estar chorando em seus ombros também deixava aquilo bastante claro. Só que chegar a tal conclusão ainda não ajudava em nada.


Pensar demais não ajudava. Acabou por deixar um suspiro escapar de seus pulmões e apenas voltou a pousar sua mão sobre a cabeça da aprendiz. Era difícil de entende-la e muitas vezes aquilo que falava na tentativa de ajudar acabava por ser apenas prejudicial, então talvez ficar quieto e oferecer algum conforto fosse a melhor opção – mesmo que fosse, de certa forma, constrangedor. Não era exatamente agradável estar num banco de praça com ela chorando em seu ombro enquanto todas aquelas pessoas passavam e olhavam, mas ele tentava ignorar e não se mexer.


Tsugumi parecia que não iria mais parar de chorar. Às vezes parecia rir de tanto que soluçava, e pareceu afundar-se mais em seu ombro quando tentou afagar seus cabelos outra vez. Aquilo estava complicado, e estava começando a lhe dar certa dor no coração. Uma dor irritante no coração. O sofrimento dela parecia desconserta-lo até o fundo de sua existência. Não estava, de forma alguma, acostumado a sentir tanta... compaixão? Não que fosse um cara gelado ou que não se importasse com as pessoas, mas as pessoas com quem se importava nunca haviam precisado de ajuda em quesitos emocionais.


-Não precisa ficar sofrendo tanto. –ele falou em um tom baixinho, quando teve a impressão dela estar se acalmando um pouco.


-Você diz isso... –ela fungou ainda com o rosto enfiado em seu ombro e então se afastou, esfregando seus olhinhos com as costas das mãos, em uma posição obviamente retraída- Como se fosse muito fácil...


-Não é fácil pra ninguém. –Manteve o tom calmo e até meio seco- Mas não é por isso que deixa de ser o que se deve fazer.


Ela demorou-se um pouco a falar.


-Desculpe, Shizuo-kun... –abaixou a cabeça, como quem estivesse envergonhada- Eu... Eu só fico te dando trabalho...


-É. Você dá. –não, jamais faltaria com sinceridade.


-...- Ela abaixou a cabeça, com um ar de culpa.


-Mas não precisa se desculpar por isso. – a adolescente ergueu o olhar de novo, meio surpresa desta vez. Ele, por sua vez, alinhou suas costas com o banco e pôs as mãos atrás da cabeça, pondo-se a olhar o horizonte de céu azul- Eu não me importo com isso.


-...Huh? –ela pareceu deveras confusa. – Não... se importa?


-Não. –falou de novo- De solidão eu entendo, porque eu sempre lidava com as coisas por mim mesmo. Como você não consegue... Eu me senti na obrigação de fazer alguma coisa.


O silêncio se instaurou de novo, podendo ouvir o ruflar das pombas que pousavam na praça, mas desta vez sem toda aquela atmosfera pesada que tinha antes. A tristeza parecia ter sumido, ou diminuído o suficiente pra não ser mais sentida pelas pessoas ao redor. O clima estava mais leve por ali.


Shizuo ficou mais um tempo olhado para o céu, em silêncio, na sua. A falta de diálogo parecia não incomodá-lo, já sentindo um breve alívio apenas pela aprendiz já ter parado de chorar. Aquilo já tirava um pouco o peso de seus ombros, mas agora outra coisa havia caído em sua mente: Não sabia exatamente o que o levou a dizer aquilo que disse.


Não era como se não se importasse com aquela adolescente lhe dar tanto trabalho. Na verdade, muitas vezes era irritante ter de lidar com tudo aquilo, coisa que não estava acostumado a fazer. Muitas vezes não entendia o que diabos se passava com ela e nem o que ela esperava dele a maior parte do tempo. Chegava a ficar irritado com várias coisas que ela fazia; bobices daquela idade não eram exatamente algo com que tivesse muita tolerância. Mas então como pôde dizer aquilo tão naturalmente? Sentiu quase como se ele próprio estivesse convencido daquilo, o que foi muito estranho para ele.


Mais uma vez, aquela menina tão miúda lhe dando tantos e enormes nós em sua cabeça. Já parecia não entender nada.


Então, olhou-a com o canto do olho. Ela continuava ali, sentada de cabeça baixa, alisando suas tranças, toda encolhida, mas algo estava diferente. Por algum motivo, ela parecia ter um fino sorriso nos lábios, embora ainda tivesse um olhar triste. Aquilo o deixou bastante surpreso, quase perplexo. Mesmo que ver um sorriso em seu rosto fosse-lhe mais agradável do que ver lágrimas, aquele sorriso tão repentino o deixou com uma sensação estranha.


Resolveu não comentar nada a respeito, mas, também, que não iria deixar o silêncio estagnar. Isso, depois já de 15 minutos naquela. Não teria falado nada se ele próprio não estivesse inquieto, e também não teria começado a conversa com uma pergunta tão estúpida como ‘Como foi sua aula?’, que foi aquilo que fez. Era mais fácil iniciar um diálogo do que ser direto ao ponto e perguntar se ela iria querer ficar um tempo ali, com ele. Não que fosse admitir, mas ele também estava sozinho naquele dia, e não se importaria de passar um tempo ali, mesmo se fosse longo, fazendo-lhe companhia.


Mesmo com o começo de conversa um tanto estranho e até forçado, Tsugumi respondeu todas as suas perguntas, às vezes retribuindo com outras que eram pra ele. Falaram de alguns assuntos banais e alguns meio aleatórios, abordando questões como o clima ou até mesmo “coisas inexplicáveis da vida” – como ela disse. Aquele adjetivo o fez rir um pouco.


-Ne ne, Shizuo-kun. –ela falou em um tom mais natural seu, um que era ligeiramente mais animado que o que ela estava falando no começo, mas ainda um tanto desanimado.


-O que? – respondeu ao chamado com uma pergunta, já sabendo que ela iria lhe perguntar alguma coisa depois de falar daquele jeito. ... Já a conhecia tanto a ponto de saber o que ela iria fazer?


-...A-Alguma vez... –sua vozinha fraquejou, como alguém que anda com as pernas bambas – Você gostou de alguém?


-...Quê? –Não tinha entendido direito a pergunta.


-Alguma vez... já se interessou por alguma moça?


-Por que está me perguntando uma coisa dessas? –arquejou uma das sobrancelhas, quase que perturbado com tal pergunta.


-D-Desculpa! Eu só fiquei curiosa! –o rosto da menina ficou vermelho no que ela ficou toda aflita, começando a fazer gestos nervosíssimos com a mão – Desculpa, desculpa! – ele, em seguida, bufou.


-Não precisa pedir desculpas por perguntar! –fechou a cara- Só não sei porque quer saber algo assim.


-Bom... –ela ficou mexendo nas tranças em seu cabelo um pouco mais nervosamente que antes, olhando pros próprios sapatos- Não tem nenhum motivo especial, só fiquei curiosa.


-... – Ficou um tempão sem falar, e então, suspirou- Nunca tive contato com garotas ou mulheres na minha vida. Poucas têm coragem sequer de me cumprimentar na rua.


-Jura? –por apenas um segundo viu ela estatelar os olhos, quase que em choque, mas ela logo voltou ao normal – Difícil assim...


-Eu não me importei muito, pra falar a verdade. –pensou em acender outro cigarro, pondo a mão sobre seu bolso do colete, mas logo desistiu da ideia – Nunca prestei muita atenção nessas coisas.


-Desse jeito, vai ficar muito sozinho... – ouviu aquele murmúrio, sem ter certeza do que ela estava falando. Tinha saído uma frase inteira emaranhada e baixinha, num tom de voz que não soube dizer, mas deixou uma sensação estranha no peito.


-Quê? –perguntou quase que espantado, erguendo um pouco o tom de voz, com uma pontada de irritação. Ah, como odiava quando as pessoas falavam alguma coisa de forma que não pudesse ouvir, mesmo que estivessem em uma conversa! Aquilo era deveras irritante.


-Ah.... não foi nada... –Tsugumi, mais uma vez, apresentou aquele sorriso quebrado em seu rosto, encostando a cabeça em seu braço. Em seguida, suspirou, e manteve o silêncio. Pra variar um pouco, o loiro não entendia mais nada, apenas ficou parado ali. Talvez tentar entende-la fosse perda de seu tempo. É, definitivamente era perda de tempo, porque nunca entendia mesmo. Permaneceram naquilo por meio minuto, até que ouviu uma música tipicamente de celular tocar. A adolescente pegou o seu, abriu, e então se levantou — Desculpe, mas eu... Eu tenho que ir... –e foi se afastando, acenando de leve, até que se virou de costas e correu.


Shizuo permaneceu sentado ali estático por mais meio minuto, observando-a sumir na multidão com um ar surpreso. Ficou só observando, piscando os olhos devagar, como se ainda processasse a cena. Nunca tinha visto alguém ir embora tão rapidamente, ainda mais depois de fazer tantas coisas confusas. Pela primeira vez, se viu sentindo outro tipo de preocupação. Não era como a preocupação que sentia quando ela estava ferida ou com outras coisas mais óbvias. Estava preocupado... De um jeito que não entendeu, mas achava que tinha alguma coisa errada com ela; muito errada.


E ele iria tentar descobrir o que era.

Notas finais
Enfim, chegamos à essa parte.
Antes de partir, queria perguntar-lhes duas coisas. A primeira, é se vocês tem algum desejo que eu não realizei na fanfic.
Eu, como sou uma autora grudenta com minhas próprias histórias e fanfics, pretendo fazer especiais, como já falei antes, mas eu gostaria de saber se vocês não gostariam de alguma coisa em especial. Alguma situação que gostariam de ver, o ponto de vista de alguém que gostariam de enxergar, qualquer coisa.
E segundo, queria saber se vocês tem interesse em ver desenhos meus da Tsugumi. Cada um aqui tem uma visão diferente dela, e eu gostaria de mostrar a minha. Gostaria mesmo - mas, claro, se demonstrarem interesse.
Obrigada pela atenção se vieram até aqui e
até mais~