Think Twice

22 C22. Decision


Notas iniciais
A escritora surta e eis que um capítulo nasce antes do esperado, de novo.
estamos aqui nessa terça-feira gelada com mais um capítulo de Think Twice, que muito possivelmente combina com este clima de hoje. Meio aparado, acinzentado, com um quê de melancolia.
Estou eu em clima de lamento.
Infelizmente, estamos bem próximos do final. ç3ç Mesmo que eu tenha já planejado tudo, ainda é um evento triste pra mim, que dedicou tanto carinho, amor e dedicação à esta fanfic em especial, com tantas outras para escrever... Não que eu não goste tanto assim das outras, todas elas são muito preciosas pra mim, mas esta... é a primeira da qual eu me sinto realmente orgulhosa de ter escrito.
E eu fico feliz que alguns de vocês tenham chegado até aqui!
Infelizmente, tem se tornado para mim um desafio cada vez maior recomendar alguma música de acompanhamento para a fanfic, mas eu tenho a impressão de que uma música que facilmente caberia aqui é Selenic Soul, um OST de Soul Eater. Tenho a impressão de já tê-la indicado em outro capítulo, mas indico de novo.
Espero que gostem (apesar de que eu tenho lá minhas inseguranças)!


Tsugumi encontrava-se agora enrolada em um grosso cobertor e os cabelos envoltos em uma toalha. O aquecedor ligado ao seu lado e sentia um cheiro de comida vindo da cozinha.



Não, não estava em sua casa. Encontrava-se, além de completamente coberta e sentindo uma corrente de ar quente direto no rosto, na casa da família dos Yoshida – traduzindo, a casa de sua amiga Misaki – já havia pelo menos uma hora. Pelo menos, uma hora era o horário que estipulara mentalmente desde o momento em que saiu do escritório do informante, começou a fazer uma nova caminhada debaixo da chuva e foi encontrada pela ruiva sentada na praça da fonte de novo, olhando para o céu, desprotegida da água que se precipitava das nuvens cinza lá em cima e sem realmente se importar com isso.



Na verdade, não se importava com mais nada. Estava oca por dentro, perdida num plano de consciência muito distante daquele que era capaz de interagir com o mundo ao seu redor. Este era o motivo pelo qual não se importava com a chuva caindo sobre todo seu corpo, molhando-a e esfriando-a. Levou a maior bronca da amiga quando esta a encontrou e já a foi arrastando para sua casa, antes que pegasse uma pneumonia.



E lá estava ela, sentada na sala, sendo cuidada pela amiga e por sua mãe, que a tratavam como da família. Tinha saído de um banho que fora forçada a tomar e estava usando pijamas emprestados da amiga. Já estava a quase uma hora sentada ali, em silêncio, sem dizer uma palavra ou olhar no rosto de alguém, o único sinal de vida que dava era que ainda respirava e seus ombros tremiam um pouco.



Olhava apática para frente desde que chegara, e provavelmente iria fazer aquilo por mais algum tempo, mesmo que a outra adolescente, ficando aflita, não parava de lhe perguntar e implorar para que falasse algo. Permanecia abraçada aos joelhos, com o cobertor envolvendo-a por inteiro, deixando apenas as pontinhas de seus dedos para fora, presa em seu mais profundo interior.



A franzina mal podia ouvir o que a amiga falava. Estava tão dispersa do mundo ao seu redor que a voz da anfitriã lhe era um zumbido no ouvido, um sussurro. Em sua mente, passava em volume alto o filme de toda a sua vida, várias e várias vezes, assistindo a cada coisa que se lembrava de fazer e se aniquilando, mutilando o próprio espírito, ao perceber quantas coisas imbecis fizera durante a vida que a lembravam, cada vez mais, de sua inconsequência maior que o normal para uma adolescente. Ou para um ser humano. Julgava-se péssima, porque havia sido daquele jeito desde que se lembrava por gente e aquilo culminou na perda total de tudo aquilo que mais prezava. Perdera seu irmão (mesmo antes de sua morte), perderia os amigos, a pessoa amada, o lugar amado. Tudo aquilo com que se importava, não teria mais. Teria de voltar à sua cidade natal, Osaka, onde teria que voltar a conviver com sua família opressiva, ainda mais agora com a morte de Kyouya.



Sentia enorme culpa. Por tudo, até por coisas que não podia evitar. Sentia como se fossem pessoas inescrupulosas como ela que estavam acabando com a comida e a água do mundo, que muita gente melhor que ela poderia estar consumindo e fazendo coisas muito melhores com a vivacidade que iriam ganhar. Seus olhos mostravam bem aquilo que estava sentindo exatamente pela falta de emoção no olhar. Não se sentia no direito de sentir mais. Estava se odiando demais, e não queria sentir aquilo.



–Meninas, venham jantar. –a mãe de Misaki, a senhora Ume, veio à sala, olhando para as duas com um ar de preocupação, mas com um sorriso no rosto que as convidava a vir com ela.



–... Tsu-chin...–colocou uma das mãos entre os cobertores e segurou as mãos pequenas e geladas de Tsugumi – ... tudo bem que não queira falar... Mas pelo menos venha comer.



–Hai... –foi a única coisa que disse, se levantando, sem mudar de expressão facial.



Arrastou-se até a cozinha, sem ânimo. Não estava com fome ou sede, ou então estava, mas não queria captar os sinais dados por seu corpo. Não queria ou não conseguia. Se pudesse ser representado seu estado mental por uma imagem, poderia se imaginar uma pessoa numa beira de um precipício, a um passo da queda. Seu espírito estava quase cruzando a tênue linha entre a sanidade e a insanidade de tão profundo o seu sofrimento calado.



Pior de tudo é que não queria chorar. Não queria chorar por nada naquele mundo. Não aguentava mais chorar, mas sabia que se dissesse uma palavra qualquer iria começar e não parar mais. Mas também queria falar. No fundo, queria contar para a amiga aquilo que se passava com ela, queria pedir ajuda, só que nada saía da sua boca.



Estava tão silenciosa que parecia uma muda. Muda e sem vida. Sua pele alva e apenas as bochechas e o topo do nariz vermelho por sentir o calor da comida em seu rosto davam a impressão de vida, mesmo enquanto comia. A ruiva permanecia a olhá-la com preocupação, agora contagiando sua mãe, que jogava sobre as duas um olhar de apreensão, como se sentisse na pele aquilo que afligia sua filha. Silêncio na cozinha, mas ruídos horríveis eram ouvidos na mente de Tsugumi. Seu cérebro parecia que iria explodir a qualquer momento, e que ela toda quebraria. Mal conseguia comer daquele jeito, o que resultou que acabou deixando a mesa ainda sobrando mais da metade da refeição no prato.



Sentou-se solitária no lugar onde estava, na sala, ao lado do aquecedor. Permitiu que um suspiro de angústia escapasse de seu peito. Era só aquilo que vinha fazendo desde que chegara: pensado em tudo aquilo que fizera durante todo o tempo e suspirado. Não saberia quanto tempo mais iria conseguir suportar aquele sofrimento. Estava se sentindo mal consigo mesma, com tudo o que estava acontecendo, sentia-se mal até mesmo com o mundo e todo o universo. Não sentia como se pertencesse a lugar nenhum fora de Ikebukuro, e não teria escolha a não ser partir. A falta de escolha doía em seu peito. Aquilo parecia destruir seu coração em pedaços. Teria de deixar tudo para trás, inclusive... Inclusive... Inclusive o Shizuo. Não poderia mais vê-lo. Chegar a tal conclusão fez com que ameaçasse chorar.



A campainha tocou, chamando a atenção das donas da casa e da convidada, que se virou lentamente para a porta de entrada da casa, que dava direto para o cômodo onde estava. Esfregou seus olhos sem energia tentando tirar o pranto que em suas pálpebras se formando, só vindo a amiga vindo correndo para a porta com aflição, tropeçando nos pés, logo abrindo a dita-cuja da porta.



– Yoo!~ -Estavam Masaomi e Mikado diante da porta, vestindo roupas casuais, sendo o loiro a cumprimentar primeiro.



–Misaki-chan, — o moreno abriu um pequeno sorriso- oi. A gente não tá incomodando, né?



–Ah, são vocês... –Misaki pareceu um pouco incomodada com aquilo, mas sorriu – Bom... erhmm... –deu uma olhada por cima do ombro para Tsugumi, que continuou a olhar indiferente para eles.



–Nani nanii? ~ — Kida logo percebeu a ruiva a olhar para trás – O que está acontecendo? –deu uma breve esticada de pescoço, tentando ver por cima da menina, rindo, como se fosse brincadeira o que acontecia, mas seu sorriso sumiu de seu rosto assim que viu a outra sentada na sala – Ah... Tá tudo bem aqui ou sou eu que tô sentindo uma depressão rolando?



–Amano-san...! – Mikado deu um passo à frente, seu rosto imediatamente assumindo uma expressão de preocupação – O que aconteceu?



Foram trazidos para dentro, logo estando todos sentados na sala. A anfitriã contou tudo aquilo que sabia aos amigos, que ainda pareceram confusos. Ninguém ali entendia realmente o que se passava com a menor deles, vez que ela não dera uma explicação até então.



Tsugumi começou a sentir ainda mais culpa, apesar de ter aberto um pequeno sorriso em seu rosto, que não foi percebido já que escondia metade do rosto no cobertor no qual estava enrolada. Ver os amigos ao seu lado, como tanto queria, era aquilo que a deixava mais feliz, mas essa felicidade era logo subjugada pela triste verdade de que em breve não os teria mais.



O tempo passava e estava cada vez mais perto de não aguentar mais se manter em silêncio e dizer tudo. O trio tentava fazê-la falar, tentava fazê-la interagir, mas quanto mais tentavam mais ela se encolhia, se inclinava, tentava se esconder. Estava cansada de chorar, mas tudo aquilo a fazia querer chorar mais. Não queria mais chorar, não queria mais sofrer, e não queria ver os outros sofrendo, não queria ver os outros mal, não queria ver os outros preocupados com ela nem com nada. Queria que todos aqueles sentimentos ruins sumissem, mas eles não sumiriam tão fácil. A cada batida de seu coração, tinha a sensação de que ele iria parar uma hora, de tanto que doía. Tinha ruídos na cabeça. Seu cérebro parecia que iria explodir.



“Pare de bater, coração. Pare de bater e acabe com isso”.



Pensou, e na piscada que deu em seguida, uma rápida lágrima escorreu por sua face. Piscou mais algumas vezes, mais lágrimas, até que fechou os olhos. Os amigos recuaram as costas, meio espantados. A preocupação alheia começou a aumentar e com razão. A franzina adolescente chegara a tal ponto de desespero que queria que o coração parasse, queria morrer. Já chegou antes a aceitar a morte, mas nunca a querê-la. Passou a vida toda a achar que pessoas que cometiam suicídio eram covardes que não queriam enfrentar seus problemas, mas ao ter tal desejo começou a entender. Existem certas coisas, certas dores, que são fortes ao ponto de não se achar outra solução para ela além da morte.



Não saberia viver em paz consigo mesma sabendo que havia perdido tudo. Do mesmo jeito que não saberia morrer em paz se tirasse sua própria vida sem ter sequer dito aos amigos o que lhe passava e sem dizer a eles o quanto eram preciosos. Agora que já estava em pranto, mesmo, poderia falar. Mas os amigos não lhe davam espaço para tal.



–Tsu-chin, vai ficar tudo bem! – Misaki abriu um sorriso enérgico- Não sei o que deu em você, mas tá tudo bem agora! A gente tá tudo aqui! Podemos fazer alguma coisa, sair! E podemos fazer isso de novo e de novo!



–É! – Kida concordou – Estaremos sempre aqui pra gente se divertir!



–Não, não estarão! – Soltou um grito, erguendo também o timbre de sua voz e o rosto, que tinha uma expressão de desespero, com o rosto todo franzido, e o pranto a molhar o rosto todo. Outro susto que levaram os outros – Não estarão porque eu vou ter que ir embora!



–... EIN? – haviam ouvido bem, mas não haviam assimilado, com certeza pela falta de explicação para tal alegação em tom tão veemente.



–Minha mãe! Ela vai me levar de volta pra Osaka! –sua voz perdeu um pouco da raiva- Ela descobriu tudo e agora vai me tirar daqui e eu nunca mais vou poder voltar!



Desatou a chorar. Não havia mais nada dentro dela a não ser a mais profunda tristeza, o desespero e a dor no peito; era só aquilo que lhe restava. Falava aos trancos e em tom alto enquanto chorava, com as vias aéreas congestionadas pelo pranto, mais salgado que nunca. Acabou por gritar tudo que tinha dentro de si, até mesmo sobre seu irmão, coisa que fez com que a pena e dó que os amigos dela sentiam se tornasse ainda maior, enquanto apenas conseguiam ficar ali, estáticos, com o som da agonia alheia lhe entrando e torturando os ouvidos.



Estavam os quatro sentados no chão da sala, uma a chorar e os outros três se entreolhando, meio desesperados. Não sabiam o que fazer para ajudar a amiga e aquilo dava uma sensação terrível de impotência. Os dois rapazes pareciam os mais perdidos na situação, estando estampado na cara deles que desejavam falar algo, mas não achavam palavras para tal, assim como estava Misaki, mas esta teve coragem de tomar uma atitude, mesmo que não fosse muita coisa: abraçou a amiga com força. Consolou-a apenas com o conforto oferecido por seus braços, repetindo apenas ‘calma, tudo bem’ enquanto lhe afagava os cabelos, deixando-a chorar em seu ombro. Abraços pareciam ter um efeito mágico sobre a franzina, sempre a acalmando, e torceu para que daquela vez também funcionasse.



E, surpreendentemente, funcionou. Vagarosamente, Tsugumi foi amansando. Não soluçava mais com tanta força quanto antes e as lágrimas iam lentamente parando de cair e molhar a roupa alheia, com a respiração também ficando mais lenta, perdendo o desespero e ganhando mais tranquilidade. No final de alguns minutos, apenas ficou a tristeza no coração da menor, que pôde então se afastar um pouco.



–Pronto, pronto. – A ruiva abriu um pequeno sorriso- Não precisa chorar, pra tudo tem uma solução.



–É fácil pra você falar... – a outra recuou até suas costas alcançarem o sofá, fungando e esfregando os olhos com as costas das mãos – Eu odeio ter de viver com os meus pais... Eles falam que querem a minha felicidade, mas sempre me tiram aquilo que me faz feliz... Daqui a pouco nem anime vão me deixar ver...



–A-Amano-san, não precisa exagerar... – Mikado tomou a palavra – Sua mãe deve estar com os nervos à flor da pele. Ela vai se acalmar e pensar melhor. – fez um esforço para sorrir.



–Ela não vai voltar atrás com o que disse. – rebateu Tsugumi, abraçando seus joelhos e escondendo a boca nas juntas, olhando desanimada para frente – Ela nunca volta atrás no que diz...



–Mas e seu pai? – tentou Kida, falando com um ar mais sereno numa tentativa de ajudar – Tente falar com ele. Ele pode acalmar sua mãe, não pode?



–Vai ser pior... – um suspiro deixou sua caixa torácica – Ele sequer aprovou eu vir para cá. Quanto mais cedo eu voltar, melhor. – outro suspiro. – Sem falar que vou levar a maior bronca por não querer obedecer a minha mãe...



–Assim tá difícil... – o loiro cruzou os braços.



–Tsuu-chin, não é possível que você não se dê bem com mais ninguém da sua família! – a amiga ficou meio irritada com aquilo, até perturbada – Não tem ninguém mesmo com quem você possa contar agora? Ninguém pra te ajudar?



Ficou um pouco a pensar, silenciosa. Pensou em sua árvore genealógica. Tios, tias, primos... Não eram muito próximos, mas pensar neles trouxe-lhe as lembranças de sua avó paterna. Avó que vive nas montanhas, numa cidade de interior cheias de casas antigas, que gostava de visitar durante o verão. Adorava sua avó, as duas se davam muito bem. Principalmente porque a avó, sendo mais velha, parecia entender aquilo que sentia. E porque seus pais nunca iam com ela nessas viagens de verão. Além de terem de trabalhar, não gostavam de toda a tranquilidade de lá, preferindo o agito das metrópoles. Ela particularmente também apreciava mais as cidades grandes, mas entre voltar para Osaka, onde não tinha nada, e ir para a casa da avó, onde tinha menos ainda, ir para a casa da avó parecia melhor por questão de com quem iria conviver.



Confessou aquilo aos amigos e eles rapidamente pegaram o telefone e orientaram-na a ligar imediatamente para sua avó, pedindo para que fosse morar com ela e para que ela conversasse com seus pais. Atitude tomada tão rapidamente que lhe deu um susto, mas logo fez aquilo que lhe falaram para fazer. Digitou os números e discou, levando o aparelho ao ouvido.



Sendo uma senhora já na casa de seus 65 anos ou mais, a neta demorou a ser atendida, mas, felizmente, não precisou explicar muito para que, com muita boa vontade, ela se oferecesse a falar com seus pais para que ela viesse para sua casa. Aquilo fez a menina um tanto contente, mais tranquila. Sua avó era uma pessoa sábia, entendia bastante das coisas, era bem compreensiva e carinhosa. Mesmo que fosse cedo para dizer, aquilo lhe deu uma sombra de conforto, tendo a ligeira sensação de que estava fora de perigo.



Não só ela, como seus amigos, sentiram o ar ficar menos denso, apesar de a tristeza continuar a rondá-los na sala. Aquilo permitiu que tivessem um breve momento de diversão, jogando videogames e conversando por algumas horas, até que fosse tarde e os dois garotos tiveram de se retirar. Afinal, era uma segunda-feira, e no dia seguinte teriam aula como em qualquer outro dia. As duas se despediram deles e também se recolheram, indo ao quarto de Misaki para arrumar um lugar para a convidada dormir – vez que esta não queria voltar para a casa para ficar sozinha.



Não demorou muito, as duas adolescentes se deitaram e as luzes foram apagadas. Despediram-se uma das outras e se viraram com o intuito de já fecharem os olhos para caírem no sono, mas Tsugumi permaneceu com os olhos bem abertos, fitando o breu enquanto escutava os barulhos vindos do outro lado das paredes. Da rua, para onde estava voltada a janela do quarto, vinha o som de carros; do interior da casa vinham as vozes do Senhor e da Senhora Yoshida, mas não prestava atenção o suficiente para entender o que estavam falando.



Ela suspirou. Ainda estava incomodada e profundamente triste de ter de deixar Ikebukuro. Mesmo que provavelmente não mais teria de voltar para a casa dos pais, estaria indo embora de qualquer jeito da cidade que acabou por amar – consequentemente saindo da vida das pessoas que amava ainda mais.



Uma lágrima silenciosa escorreu do canto de seu olho até o nódulo de sua orelha. A primeira pessoa em quem acabou por pensar foi Shizuo. Ir embora significava nunca mais vê-lo, o que era uma perspectiva terrível para ela. Talvez estivessem corretos aqueles que dizem que o primeiro amor nosso está destinado a nunca dar em nada. Que coisa mais cruel.



Cobria a boca com a mão, tentando não deixar gemido ou soluço escapar por sua boca para que sua amiga não ouvisse. Aquilo era realmente cruel. Por que tinha de amar alguém com quem nunca poderia ficar junto? Aquele sentimento lhe fazia mal, lhe feria o coração, e lhe causava grandes problemas. O pior de todos é que não poderia simplesmente deixar se senti-lo. Além disso, tinha em si um sentimento de culpa. Só havia trazido problemas ao mais velho. O viu se machucar para protegê-la, para cuidar dela, para tentar orientá-la com as coisas por mais que ele próprio não soubesse como fazer, além de, claro, tê-la ajudado a controlar um pouco mais sua força e descobrir como usá-la. Ele havia sido tão bom com ela... Mas não conseguia enxergar uma coisa que tenha feito de bom por ele. Apenas danos. Nada poderia ser mais cruel para ela do que aquilo que acabara de pensar.



Seria melhor se afastar? Não que houvesse realmente uma opção, e talvez pensar tal coisa fosse apenas um jeito de autoconsolo, mas pensava se não seria melhor para ambos tal afastamento. Poderia ela esquecer tal sentimento e ele não mais se meteria em problemas (que não fossem os dele). Mas, quase que imediatamente, foi abalada por um sentimento de solidão, que fez com que seu pranto se engrossasse. Solidão. Insegurança. Mesmo que pensasse no bem estar alheio, uma parte de sua se mantinha egoísta e não queria desistir para o bem próprio.



Se pudesse apenas deixar tudo aquilo para trás as coisas seriam muito mais fácil, mas não. Não conseguiria apenas tentar apagar de si os sentimentos que sentia pelas pessoas que conhecia nem aqueles que sentia pelo lugar. Algo a mantinha atrelada a tudo isso, mantinha-a em relações de dependência com tudo aquilo. Sabia ela muito bem que não conseguiria simplesmente abandonar aquele lugar.



Ainda havia muito o que queria fazer, muito o que queria dizer, muito tempo que queria ainda ficar, mas tudo aquilo lhe foi tirado. Tinha apenas mais duas semanas na cidade, mas ainda era pouco. Poderia isso ser apenas um exagero seu, mas para ela aquilo não era nada comparado com o tempo que gostaria de ter. E por isso chorava, sofria... E assim foi até que caiu no sono por cansaço, mais ou menos uma hora depois que sua amiga adormeceu.



Tsugumi passou uma noite agitada. Por baixo do grosso cobertor que haviam lhe emprestado, se contorcia, tremia, rolava de um lado ao outro do colchão, mexia as pernas e os braços nervosamente, se debatia. Sempre que dormia sentindo-se triste ou com qualquer outro sentimento ruim, tinha vários pesadelos de noite, sem conseguir relaxar totalmente, resultando que sofria de sonambulismo. Também em certa hora da noite começou a falar sozinha, gesticular, o que de certo acordou Misaki, mas esta logo voltava a dormir, acabando por nem reclamar – o que nem adiantaria, pois a franzina nunca se lembrava de nada na hora que acordava.



Conforme ia chegando a manhã, seu sono ia ficando mais leve, permitindo que começasse a se lembrar de seus sonhos , ou, melhor dizendo, ter consciência deles. Nisso, uma cena começou a passar em sua cabeça, uma cena sem cor ou som. Algo como um filme preto e branco, só que sem necessariamente o aspecto velho que se consta devido à qualidade da câmera com que os filmes eram filmados. Ou, talvez, apenas não se lembrasse direito das cores. Também não era algo necessário de se fazer. Era obviamente ela, andando pela cidade de Ikebukuro, e caminhando junto dela estava Shizuo – mas havia algo errado.



Estavam juntos andando pela cidade? Definitivamente estavam, mas pelas expressões em seus rostos pareciam que haviam acabado de discutir, ou que ambos haviam tido um dia muito ruim. Ou os dois. Em seu rosto ele carregava uma expressão incrédula, raivosa, como se acabasse de saber de algo que não pudesse aceitar. Ela continuava a falar com ele como se tentasse amenizar, mas parecia não adiantar. Por algum motivo, não podia ver os olhos de nenhum deles nem ouvir vocês, apenas o barulho das multidões. Mas quem via podia acreditar que a menina estava triste.



Em um determinado momento, o rapaz virou-se para ela, os dois parando na rua, e lhe disse algo que pareceu hostil pelos movimentos labiais que fazia. Ela ficou estática no lugar, em choque alguns segundos, a primeira reação que teve ao vê-lo lhe dar as costas foi segurar seu braço.



“Não me esqueça!”



Ela disse, sendo o primeiro som que se ouvia no sonho. O loiro pareceu ficar ainda mais irritado e, sacodindo o braço, soltou-se das pequenas mãos alheias que o continham, em seguida pondo-se a andar para frente sem dizer nada. Aquilo a fez dar um passo para trás, levando as mãos rentes ao peito, fazendo uma expressão de profunda dor, demonstrada pela forma com que seu rosto se contraía. Em seguida, o pranto rolou por suas faces.



“Eu te amo!”
Ela disse, pondo-se na ponta dos pés, numa forma desesperada.



“Me deixe em paz.”
Ele parou apenas por uns segundos para lhe dizer aquilo e partiu.



Apenas o som da multidão e a cena dela a chorar em sua mente.



–IADAAAAAAAAAA!



Tsugumi estatelou os olhos naquele exato momento, gritando a plenos pulmões. As mãos torciam os lençóis e cobertores entre seus dedos nervosos e trêmulos e as lágrimas logo se precipitaram trilhando grossos caminhos por suas maçãs do rosto com rapidez. Num espirro, Misaki acordou, totalmente perdida, sentando-se num pinote que fez seus cobertores se erguerem e, mesmo antes de entender direito o que se passava, viu a amiga a gritar daquela maneira desesperada.



–Tsu-chin, Tsu-chin! – descobriu-se de uma vez e foi logo sentar-se à beira do colchão onde a menor havia passado a noite – Fica calma, tá tudo bem! Foi só um sonho, um sonho!



–Iada... Iada... –continuava se debatendo no colchão, revirando os olhos, sem reagir aos chamados alheios, soltando soluços enquanto tentava respirar, como quem se afogasse. Aparentemente, apenas tinha os olhos abertos, não estando realmente desperta.



–Tsugumi! – acabou recorrendo a um meio mais agressivo para acordá-la, pondo as mãos nos dois ombros da menor e a sacodindo com força, chamando-a num tom mais alto – Acorda!



Ela parou por um instante com tudo o que fazia. Parou de chorar, de gritar, de se mexer. Apenas ficou encarando a ruiva, e a ruiva a encarava. As lágrimas permaneciam embotelhadas nas pálpebras, juntas aos olhos da menina, estática, como se estivesse em choque. No fundo de sua pupila, misturada à cor violeta de sua íris, havia tristeza. Inefável tristeza. A primeira coisa que fez foi se sentar na cama, ainda emudecida, olhando fixa para frente com aquele mesmo olhar parado. A amiga sentada ao seu lado, mirando-a confusa. A pequena lentamente abraçou a outra, repousando o queixo no ombro alheio, que lhe ofereceu certo conforto embora não entendesse o que acontecia. Provavelmente achou que havia sido um sonho ruim qualquer e não pediu detalhe, apenas ajudou-a a se acalmar, dizendo coisas tranquilas.



Estando quase no horário de ir pra aula, Tsugumi teve de deixar de lado sua tristeza, guardar o sonho para si e levantar-se definitivamente, a anfitriã fazendo o mesmo. Foram logo se arrumar para irem à Raira, uma se trocando no banheiro e a outra no quarto. Mas isso são apenas detalhes. Em tempo recorde, as duas estavam já na rua a caminhar, conversando como se aquele fosse um dia como qualquer outro, agindo e falando como se estivesse tudo bem – fazendo isso exatamente por não estar.



Sendo conhecido o motivo pela choradeira logo de manhã ou não, ambas estavam tristes por um motivo comum. As duas sabiam que aquilo não duraria para sempre; que iria acabar em breve graças à condição que Haruko estabeleceu à filha. Teriam no máximo duas semanas daquilo até que Tsugumi tivesse de ir de um jeito ou de outro. Apenas duas semanas e teriam de dizer ‘adeus’, pois não havia previsão dela voltar para Ikebukuro nem para visitas. Aquilo lhe esmagava os corações, mas tentavam fingir que aquilo ainda estava distante.



Distante. Distante como a mente da morena. Iam caminhando juntas, conversando e tudo mais, mas a mente da caçula dos Amano estava longe. Havia um bom motivo para estar ainda com o sonho em sua cabeça, repassando, se repetindo em sua mente, como se tentasse analisa-lo. Estaria seu sonho tentando dizer alguma coisa? Muito provavelmente não – sonhos não fazem sentido, não mesmo -, mas tentava encontrar algo ali.



Embora não conseguisse achar significado ou mensagem codificada em seu sonho, algo dentro de si havia acendido, como nos desenhos animados, quando um personagem tem uma ideia, só que menos cômico e caricato. Os olhos de Tsugumi, mirando o horizonte, começavam a tomar uma outra emoção que não a tristeza. Em seus olhos ainda havia tristeza, mas seu coração tentava regenerar algo perdido: coragem.



Havia muitas coisas que queria fazer antes de ir. Muitas coisas que queria, que precisava e que necessitava. Muitas, muitas coisas, e só tinha duas semanas. 14 dias. Muitas coisas que iriam exigir o melhor que ela tinha para dar de sua alma. Iria precisar de muita força para manter-se de pé, também, e aquilo a preocupava. Sentia absurda necessidade de realizar tais desejos antes que fosse embora; talvez algumas daquelas coisas pudessem até remendar seu coração, de certa forma, mesmo que não acabasse em nada. Meramente tendo tirado do peito, estaria aliviada.



Agora, só lhe restava tomar uma decisão: Juntar coragem para realizar estes desejos e poder deixar as mágoas para trás ou deixar a cidade ainda com os sentimentos dentro de si, para utilizá-los em prol de uma felicidade que poderia viver no futuro, com o amadurecimento certo?



Não tinha ideia de qual desses caminhos escolher, mas sabia que tinha de se apressar para tal. O tempo nunca para.