Think Twice

10 C10. Way Down


Notas iniciais
AEAEAEAEAEAEAEAEEEEEEEEEEEEEEEE
Caralho velho, isso aqui demorou pra chegar!
Pior é que nem foi por falta de escrever, pois tenho escrito nessa fanfic todo santo dia, durante as aulas e em qualquer lugar. era falta de tempo para passar para o PC, mesmo.
Então, chegamos ao 10º capítulo! ~ *ouve-se alguém - vulgo, eu - gritando "JYUUNDAIMEEE!" ao fundo*
E é aqui que o drama começa, minha gente! Que nem dizem nas tirinhas dos blogs, 'Agora a porra ficou séria!'.
Escrevi esse capítulo ouvindo principalmente Mozaik Role, da GUMI, e Nobody's Home, da Avril Lavigne; essa segunda tendo mais impacto se sendo ouvida no próximo capítulo. Como sempre, estejam livres para escolherem a música que querem ouvir e recomendar por review.
Enjoy ~

Era quase oito horas da noite; Shizuo estava com as costas apoiadas na parede do beco onde sempre treinavam, fumando um cigarro e batendo o pé, esperando a aprendiz dar as caras depois de ter dado um sermão pelo celular. Seu humor não estava dos melhores naquele dia, mas se estivesse um pouco pior, era capaz de ter ido embora dali. Mas ficou, pois teve a estranha vontade de ficar. Afinal, o que mais ele poderia fazer àquela hora?

Tudo pareceu normal no começo. As pessoas na rua passavam em frente ao terreno vazio e cercado pelos muros dos edifícios ao redor em que ele estava sem nem notarem sua presença; foram exatos 20 minutos de espera até que Tsugumi chegasse pulante como sempre, com seus cabelos castanhos claro balançando em um rabo de cavalo. Abriu um pequeno sorriso e acenou de leve, logo depois jogando a bituca de seu cigarro no chão; estranhou o fato de que não conseguiu estabelecer contato olho no olho nem por três segundos antes da menina virar o rosto, mas ignorou aquilo completamente.

-Hoje a gente vai treinar sua velocidade de reação. – anunciou – Você anda muito devagar. Isso é ruim. Não que isso faça alguma diferença pra mim, mas vai fazer diferença no dia que você precisar de uma velocidade de reação maior.

- E-Eu estou muito lenta? – olhou-o meio perdida – Gomen ne... – coçou a cabeça, fazendo cara de quem estava constrangida.

Olhou torto; a menina já andava agindo muito esquisita havia alguns dias – desde quando ela voltou a andar com uma menina de seu colégio – mas aquela era uma das primeiras vezes que aceitava sem contestar o que dissera; pelo contrário: pediu desculpas. Mas não fez cerimônia com relação àquela postura; talvez fosse até mais fácil para ensiná-la algo tendo suas críticas facilmente aceitas.

Shizuo não demorou em tomar as rédeas da situação e iniciar sua “aula” com um exercício simples: lançar a lixeira ao receber o comando. Esse era um método fácil de ver com exatidão a velocidade com que ela acataria o comando e lançaria a lixeira para ele; mas, assim que a tarefa começou, Tsugumi demonstrou ter de se esforçar bastante para desempenha-la, começando pela mira; não conseguia acertá-lo de jeito nenhum e parecia lutar para encará-lo por mais de três segundos, além do que parecia ser dificuldade em erguer a lixeira. Como ela podia estar tendo dificuldades numa tarefa como aquela? Já havia dado exercícios mais difíceis com objetivos mais difíceis de cumprir que ela não tivera grandes complicações em realizar. Por esse motivo, ficou ligeiramente mais irritado.

-Oe! – chamou a atenção – Se concentra!

-S-Sumimasen! – a menina chacoalhou a cabeça e, abaixando o olhar, jogou a lixeira que tinha em mãos, com as bochechas levemente rosadas; o objeto nem chegara perto de seu “alvo”.

-Como você pretende acertar algo sem mirar?! – pegou a lixeira e devolveu-a na mão da aprendiz, bravo – Olhe pra mim quando tenta me acertar! –voltou à sua posição original, alguns metros de distância dela.

Tsugumi engoliu a saliva enquanto encarava-o, demonstrando mais uma vez sérios problemas em olhá-lo no rosto; não conseguiu nem contar quantos segundos levou para a menina corar outra vez e olhar para outro lado, alegando estar com calor. Claro que o clima estava mais ameno nos dias anteriores, mas não sentia calor nenhum; era uma atitude estranha, quase bizarra, mas nada que não pudesse atribuir aos hormônios da adolescência. Se fossem mesmo os hormônios, aquilo seria benéfico a ela; quem sabe ela não crescia um pouco e não deixava de ter tanto aquela sua característica infantil. Se bem que era até cômico vê-la se esforçando daquele jeito. Depois de conseguir segurar seu riso, mandou que ela jogasse a lixeira e assim ela fez.

Foram necessárias algumas tentativas até que a franzina finalmente conseguisse atingir a velocidade de reação que Shizuo queria que ela alcançasse; fez com que ela tentasse mais algumas vezes para ter certeza de que não fora um golpe de sorte, mas conseguiu finalizar a aula com um resultado satisfatório. Disse mais algumas coisas para completar a lição e cada um seguiu seu caminho.

Shizuo foi andando solitário pelas ruas de Ikebukuro, fumando um cigarro; o cheiro do tabaco relaxava-o, esquecendo-se da incômoda dor muscular que sentia depois do dia que tivera. Andava por aquelas ruas parcialmente vazias que ia toda a noite treinar Tsugumi com as mãos nos bolsos, meio apreensivo; não que a falta de pessoas ao redor o incomodasse, mas era exatamente a sensação de que havia alguém por perto que o perturbava naquela ocasião. “Um daqueles pivetes de gangue, só pode”, pensou, dando de ombros.

Ouvia alguns passos na rua, mas achou que fosse o eco de seus próprios passos, então ignorou; mas, assim que deu uma leve acelerada no passo e o som que ouvia levou alguns segundos a mais para acompanha-lo de novo, passou a suspeitar. Depois de alguns minutos de caminhada silenciosa, apenas ignorando, o som foi se tornando mais alto. Uma veia saltou em sua testa apenas em pensar que teria de brigar àquela hora; mas, logo depois, começou a rir, meio baixo. Quem era o idiota que estava querendo puxar briga com ele justo naquele dia, em que não estava de bom? Não fazia diferença; a pessoa iria conseguir o que queria e se arrependeria disso. Quem sabe não conseguia um pingo de bom-humor de volta arremessando um imbecil longe. Poderia até ser divertido o que viria por aconteceu.

Quando aqueles passos ficaram estupidamente próximos, bastou dar uma girada para a esquerda para conseguir pegar a pessoa que estava logo atrás dele. Pegou um rapaz pelo gorro de seu casaco e ergueu-o na altura dos olhos; soltou um rosnado quando viu a coloração amarela do moletom e os acessórios pendurados no jeans do moleque que o seguia. Apenas olhou no rosto dele quando este ergueu as mãos em sinal de rendição e teve uma desagradável surpresa.

-Konbawa, Heiwajima-san. – o rapaz cumprimentou-o com um sorriso em seu rosto. Franziu o cenho, dando uma boa olhada nele; era estranho o fato de que reconhecera sua aprendiz num rapaz de aproximadamente 19 anos. Os traços em comum eram tantos que era impossível não associar a um laço de parentesco – Eu só quero conversar com você, pode ficar calmo.

Shizuo deu uma olhada torta; ainda tinha muitas suspeitas sobre aquele garoto – uma vez que tivera uma péssima impressão dele pelo que Tsugumi contara – mas colocou-o no chão. Um breve contato visual fez perceber que, mesmo que o jovem não tivesse as melhores intenções, não havia nenhum tipo de ameaça. Amano Kyouya, como ele se apresentara provavelmente apenas para tirar o ar de dúvida do rosto do barman, realmente demonstrava muita tranquilidade no que falava, usando frases pacíficas para expor seu objetivo.

-Eu quero te pedir para proteger minha irmã no meu lugar. – Ele mirava-o com um semblante sério, o que só fez sua dúvida reacender; Que pedido era aquele, vindo da própria pessoa que ameaçara a menina dias antes?

-Não precisava nem me pedir. – cruzou os braços, continuando em tom meio hostil – Eu sei muito bem o que seu grupo anda fazendo e estou disposto a protege-la até mesmo de você, seu delinquente.

-... Você não está entendendo tudo, realmente... – soltou um suspiro frustrado, levando a mão à testa – Não é a primeira vez que tomo uma atitude pelo grupo apenas pensando na minha irmã. Vai por mim, se eu não tivesse ido lá falar pra ela, era provável que ela acabasse se ferindo fisicamente. Esses caras são loucos. – ergueu o olhar igualmente ácido até encontrar com o do barman – Não me trate como um traidor sem saber dos meus motivos.

Ficou mais alguns instantes suspeitando um pouco daquilo, sem querer ouvir direito o que o rapaz tinha a dizer, mas não demorou em consentir apenas mantendo-se calado. De algum jeito, Shizuo conseguiu entende-lo; coisa de irmão mais velho. Mas é claro que ainda não podia confiar totalmente em Kyouya pelo simples fato dele ser um membro dos Lenços Amarelos, mesmo que fosse para mantê-los afastados das pessoas que ele amava; ainda fazia parte de um grupo perigoso. Era um pouco difícil dar o braço a torcer e perceber que nem todos os gangsters mereciam o tratamento que receberam, muitas vezes.

Eles continuaram a conversar mais alguns minutos, trocando algumas ideias a respeito do que acontecia com a cidade; tinham algumas opiniões em comum, mas divergiam na maior parte do tempo. Pensara uma vez ou outra como seria mais fácil se a aprendiz tivesse o mesmo semblante do irmão; mas não podia fazer nada a respeito desse detalhe. O tempo discorreu assim até chegar num assunto que Shizuo realmente detestava abordar: as notícias do jornal.

-O Retalhador andou atacando membros dos Lenços Amarelos – Kyouya segurava as folhas do jornal daquele dia em suas mãos, mostrando a reportagem de que estava falando com o dedo indicador – Não que isso tenha algo que faça menção a você diretamente, mas acho que é de sua conta saber que alguns membros “superiores” na organização da gangue, além de alguns dos outros membros babacas, estão começando a achar que tudo que têm acontecido na cidade é uma conspiração contra a integridade do grupo. Se eu fosse você, não mexeria com nenhum deles.

-Está preocupado comigo? – soltou uma risada num tom quase hostil, apesar de não ter esta intenção – Não vou perder meu temo esquentando com esses idiotas.

-Não os subestime tanto. São como formigas: Insignificantes sozinhos, mas extremamente perigosos juntos. Além de que existem alguns membros que estão muito bem escondidos dentro da sociedade, disfarçados de algo que jamais imaginaríamos.

O loiro deu de ombros, meio irritado; não precisava que dissessem a ela algo que já sabia. Na verdade, só estava esperando ansiosamente por uma chance de que viessem ataca-lo para que pudesse acabar com todos de uma vez. Quando se deu conta, a conversa acabara ali; a noite já estava mais avançada do que esperava e não teria a sorte de ter o dia seguinte de folga, a não ser que inventasse um motivo para tal. Ficou um silêncio constrangedor por alguns momentos, sem que nenhum dos dois tomasse a iniciativa de começar a conversa de novo; apenas pensando em como escapar dali. Ainda tinha algumas perguntas para fazer quando Kyouya deu um fim àquela situação.

-Bom, espero que nossa conversa tenha esclarecido algumas coisas, Heiwajima-san. – Fez como uma espécie de reverência, em sinal de respeito – Agradeço que tenha protegido minha irmã nesses últimos meses e que irá protege-la daqui pra frente também, mas queria te pedir um último favor antes de me retirar.

-O que foi, guri?

- Diga à minha irmã que ela deve sair de Ikebukuro sem mim.

-Eu direi.

-Arigatou.

E então, ele sumiu na escuridão da noite.

Aqueles dias andavam sendo tão bons que pareciam ser apenas um vívido sonho, superando a angústia que era estar na época de provas da Raira. Tsugumi e Misaki estavam juntas como unha e carne, além de que as fofocas a seu respeito estavam praticamente extintas; pela primeira vez em seus 15 anos de vida, ela se sentia uma adolescente parcialmente normal. Talvez se sentisse um pouco mais normal se seu cérebro fosse capaz de controlar a força que seus músculos são capazes de aplicar nas coisas ao seu redor, mas ao menos já conseguira quebrar a barreira criada entre ela e as outras pessoas.

Uma pena que não conseguia usufruir plenamente desse sentimento de felicidade que tinha profundo em seu peito por causa da estranha sensação de que algo estava muito errado naquela história.

Andava sorridente pela rua a caminho da escola, levando na mão uma pequena bolsa – objeto que despertava muito de sua curiosidade, não podia negar. Na tarde do dia anterior, a amiga esquecera aquilo em sua casa e fazia questão de devolver assim que pudesse. Estava passando pela praça perto da Raira, lugar que lhe trazia a lembrança de que há pessoas gentis na cidade mesmo sendo empesteada pelas gangues; era a segunda vez desde que chegara em Ikebukuro que ela passara por lá, desta vez, tendo o vislumbre do belo florido das árvores – mesmo que não fosse primavera. Ou era? Nunca sabia das estações, uma vez que não tinha nenhum calendário para marcar nem qualquer outra coisa parecida. Aquilo não lhe importava, pra falar a verdade; desde que pudesse admirar o cenário e apreciar sua beleza, estava tudo bem. Abriu um sorriso, inspirando profundamente o ar fresco do local. Tinha a sensação de que aquele seria um dia que jamais esqueceria.

Tsugumi continuou a andar, distraída com suas lembranças daquele primeiro dia, se aproximando mais e mais do colégio; já conseguia ver a amiga de longe. Parou uns instantes para entender o que Misaki estava fazendo parada lá, diante do portão, com uma expressão de amargura, fazendo gestos furiosos e desesperados, provavelmente falando com alguém do outro lado do portão que ficara invisível do ângulo em que estava; tinha um ar de preocupação apesar das feições raivosas. Inclinou a cabeça para a esquerda, franzindo as sobrancelhas; o que será que estava acontecendo? Será que alguma coisa grave estava acontecendo? Seu coração, que já estava batendo estranho havia alguns minutos, quase parou quando a ruiva começou demonstrar com as mãos o que parecia ser o tamanho do objeto que possivelmente estavam discutindo; tamanho que correspondia perfeitamente à bolsa que estava em suas trêmulas mãos – o que fazia o zíper tilintar.

Tinha um sentimento ruim a respeito daquilo, que subjugou todos os outros. Parecia uma espécie de medo, que se misturava à curiosidade que tinha desde o começo de saber o conteúdo da bolsa; mas medo de quê? E por quê? De onde veio aquele medo? Ela só deveria estar preocupada com a bolsa, nada demais. Mas as coisas seriam mais fáceis se ela conseguisse se mover. Droga, droga, droga! Não conseguia entender como um medo bobo como aquele conseguira paralisa-la daquele jeito.

Aquele medo foi se agravando conforme Misaki ia se mostrando mais e mais nervosa. Virava e mexia, conseguia ouvi-la dizendo algo como “ai, eu preciso achar aquela bolsa logo. Senão eu estou frita” em um tom extremamente negativo; tinha a estranha sensação de que algo perigoso estava ali dentro, não sabia o que era. E, sendo perigoso, tinha que livrar-se daquilo. Mas antes, precisava ter coragem pra saber o que era. Por um lado, queria devolver a bolsa o mais rápido possível, mas seu outro lado queria muito saber o que tinha ali dentro.

Foi quando ela virou as costas para o colégio e se foi.

Correu a maior distância que conseguira antes de cair no chão, sem conseguir mais respirar nem continuar; havia exigido o máximo de sua perna. Seu coração e pulmões sofriam demais, de modo que parecia até que ela iria morrer de tão cansada. Agora não era só uma questão de estar curiosa pra saber o que tinha ali dentro, ela precisava saber o que tinha se ela quisesse se acalmar; mesmo que não fosse nada de mais, tinha de ver para sentir-se segura. O medo e a dor que sentia, misturados, davam a sensação das presas de um animal penetrando m sua carne; que sensação realmente assustadora. Levantou-se e ia voltar a correr quando olhou para o lado e viu uma loja cheia de pelúcias, bonecos e acessórios de animes; sentiu-se confortável próxima a tantas coisas que gostava e lá entrou, sentando-se encolhida num dos cantos mais extremos e escondidos do local, entre um amontoado de pelúcias caídas no chão.

Com os braços envolvendo os joelhos e mantendo-os pressionados contra seus seios, respirava profundamente, tentando tomar coragem de abrir o zíper da bolsa que estava entre seus ossudos dedos tensionados. Sentia-se culpada por estar ali em horário escolar; mas tinha medo de voltar lá e dar de cara com algum professor chato que a mandaria para a diretoria; além do medo de ser encontrada ali. Ambos consumiam sua alma de dentro para fora. Imagina a bronca que iria levar se algum conhecido a descobrisse numa loja de animes? Livrou-se desta hipótese quando se lembrou que as únicas pessoas que conhecia que poderiam encontra-la estavam trabalhando durante aquele período, além de que jamais iriam à um estabelecimento como aquele.

Mas aquilo não lhe deu sequer uma breve calmaria; ainda tinha medo do que iria encontrar dentro daquela bolsa, assim como a necessidade compulsiva de explora-la. Não conseguia medir em palavras o temor que tinha de descobrir algo que não deveria. E se ela ou Misaki acabassem saindo magoadas daquela situação? Justo quando ela achava que sua vida de adolescente pudesse deixar de ser tão complicada, mais uma bifurcação aparece diante de seus olhos. Descobrir e acabar magoada ou não descobrir e seguir como se nada acontecesse; para sua infelicidade, seu coração era frágil demais para seguir em frente com tal frieza. Lidar com a maldade de seu destino era uma difícil tarefa. Tsugumi ainda não podia descartar que ela ainda poderia estar enganada; poderia muito bem ser algum tipo de objeto de estimação com que a ruiva estava preocupada ou algo assim. Se enganar era algo comum em sua vida.

- É isso sim... Hah... hahah....hah... – ela ria nervosamente, tentando convencer-se de tal conclusão.

Aquela tensão e medo estavam deixando-a louca; ria apenas para não começar a chorar. Mesmo que fosse ou não se arrepender do que veria naquela bolsa, no fundo do coração sabia que seu medo só iria desaparecer abrindo o zíper e investigando o interior do objeto que tinha em mãos. Sentia aquela necessidade de saber o desconhecido para que pudesse se tranquilizar um pouquinho sequer. Por isso, decidiu abrir.

Mas aquela decisão lhe trouxe apenas o desespero merecido aos ingênuos.

Suas lágrimas grossas gotejaram de seu rosto até o interior da bolsa, pingando no lenço – de tom amarelo gema de ovo, cor que foi rapidamente associada à cor do casaco que vira o irmão usando semanas antes — que estava guardado ali dentro. Seu queixo tremia muito enquanto seu amargo pranto escorria até seus lábios e destes até o interior de sua boca; aquele, muito provavelmente, era o gosto de seu ódio por aquela maldita gangue. Aquele deve ter sido o motivo inicial de Misaki ter se afastado; ela sabia o quanto ela odiava os Lenços Amarelos. Estes malditos estavam lhe tirando todas as pessoas que ela mais amava.

Levou as mãos ao peito, sentindo seu coração desacelerando rapidamente, até o momento em que pareceu parar; tu-tum... tu-tum... Seu coração batia devagar, enquanto sua mente apenas aumentava aquele sentimento tétrico de rancor, misturando-se com a raiva que vinha reprimindo havia algum tempo; criando a sensação de se tornar uma bomba relógio, cujos batimentos cardíacos eram os segundos se esvaindo até a explosão.

-Ah, Chibi-chan! Quanto tempo! – uma voz ligeiramente familiar se dirigiu a ela, vindo de sua frente; ergueu o olhar, ainda sem muita vontade, reconhecendo na moça de vestido preto e boina igualmente negra a moça da van, que um dia a ajudara: Karisawa Erika – Não esperava te encontrar aqui! Como vão as coisas com Heiwajima-san? Fiquei sabendo que conseguiu acha-lo. – Sorriu, com seus olhos brilhando.

-Ah, Karisawa-san... – Tsugumi titubeou, trazendo a bolsa e os joelhos para mais perto de si – V-Vai tudo bem...

-Que bom! –sorriu, radiante, sentando-se ao lado dela de cócoras; observou a franzina um pouco melhor, até que, de relance, conseguiu ver as lágrimas em seu rosto – Ore? Você está mesmo bem? Está chorando! –droga, ela havia percebido!

-E-Eu estou bem! – tentou rir, erguendo o rosto e pondo-se a esfregar os olhos — S-Só estou tendo uma reação alérgica!

Ria nervosamente, tentando convencer a mulher ao seu lado de suas palavras; mas, nisso, acabou por deixar a bolsa cair no chão, espalhando todos os pertences de Misaki pelo corredor. Tsugumi arregalou os olhos, logo se jogando para pegá-los e coloca-los de volta no lugar onde estavam; se Erika acabasse vendo o lenço, teria uma longa história para contar. Estabanada, ia se jogando de um lado ao outro do corredor recolhendo os cacarecos, sendo ajudada pela mulher ao seu lado. A única coisa que não conseguia achar era o bendito lenço. Onde ele estava?! Olhava para todos os lugares em desespero, até que o encontrou entre os dedos de Karisawa Erika.

-...! – Respirou profundamente enquanto mirava o lenço com os olhos arregalados, esticando o pescoço e as costas – E-Eu posso explicar, K-Karisawa-san...

-Isso... – parecia perplexa – Isso aqui é seu? – encarou a menina com aquela expressão quase decepcionada, logo depois citando a frase de um anime que estava escrita num dos pôsteres da loja.

Aquilo definitivamente foi a gota d’água; já estava, desde o começo, se segurando para não ter um colapso nervoso, mas ouvir tal pergunta a fez explodir. A sua fúria subiu à cabeça tão ferozmente que, além de só ter conseguido pronunciar “Eu jamais faria parte dessa porra de gangue!” antes de sair correndo, que teve vontade de chorar outra vez. Só queria correr e correr; extravasar toda aquela energia que pulsava dentro dela; aquela energia insanamente forte que lhe dava uma vontade incontrolável de destruir tudo ao seu redor. Deixou a rua da loja de animes com passos largos e sem rumo, agradecendo aos céus que Erika não veio atrás dela; acabaria gritando mais e isso não resolveria nada, apenas magoá-la-ia.

O ideal era conseguir chegar em casa e destruir algo de lá, mas era descontentamento demais para conseguir manter-se controlada com a pouca estabilidade mental que tinha naquele momento.

Não conseguia tranquilizar sua mente; até mesmo sua melhor amiga fazia parte dos Lenços Amarelos! Primeiro seu irmão, agora Misaki? Duas pessoas que ela jamais pensaria que pudessem fazer parte de um grupo assim se envolvendo com gangues. Agora só faltava o Mikado- aquele seu amigo fofo como um urso de pelúcia, com uma atitude tão inocente quanto a de uma criança — estar envolvido nisso também.

Esse grupo estava lentamente destruindo-a.

Estava sentado no sofá de sua casa, ainda usando pijama e enrolado em um cobertor azul; não, ele não tivera a sorte de ter um dia de folga, mas sim o azar de pegar um resfriado. Tudo culpa de Izaya! Encontraram-se no meio da rua na noite anterior e, por causa dele, acabou caindo numa fonte d’água numa praça em meio àquela fria madrugada. Estava praticamente morto; mas não conseguia dormir de jeito nenhum por vários motivos. Kyouya tinha dado um belo nó na sua mente com seus discursos confusamente diplomáticos. Que droga. Quando foi que esses adolescentes ficaram tão espertos? Shizuo estava se sentindo irritantemente estúpido. Não era tão complicado entender que um irmão mais velho queira proteger o mais novo, mas ainda não havia motivo pra tanto mistério.

Queria muito saber o porquê dos Lenços Amarelos terem sido comparados com formigas. Não que achasse coisa diferente, mas não entender a ligação que tal argumento tinha com o de haverem gangsters disfarçados por aí. Disso ele já sabia; por que aquilo havia sido citado? Estava pensando nisso sentado diante da TV, tentando achar algum canal descente, até finalmente chegar num canal onde estavam passando algumas lutas esportivas.

Passou pela sua cabeça que o rapaz pudesse estar falando dos amigos de Tsugumi, mas, por não conhecer nenhum, não podia dizer nada – isso se a menina tivesse algum amigo; ela aparentava ser uma pessoa relativamente solitária, considerando o número de DVDs e jogos de vídeo game que possuía. Tentar protegê-la deles seria tão eficiente quanto tentar eliminar fantasmas. Suspirou frustrado ao pensar dessa maneira.

O que agravava o incômodo de Shizuo era o fato de que não passara do meio dia e ele estava absolutamente parado. Estava inquieto; àquela hora do dia, ele normalmente estaria trabalhando, caminhando pela cidade; estaria em movimento, não dentro de casa enrolado num cobertor velho. A televisão não o interessava mais. Teve a súbita ideia de ir para seu quarto, mas desistiu; nas horas de tédio, aquele era o cômodo menos atrativo de sua casa, e aquilo não era novidade. Foi para a cozinha pela terceira vez naquela hora, desta vez atrás de algo para beber, mas sua geladeira estava absolutamente vazia, tendo apenas alguns restos de comida guardados em suas prateleiras. Rangeu os dentes; se quisesse qualquer coisa, teria de sair para comprar.

Venceu sua preguiça e levantou-se do sofá, largando a coberta sobre ele; estava com fome, sede e não tinha nada na sua casa para comer, então foi ao quarto se trocar; a força do hábito o fez vestir sua característica roupa de bartender, mesmo que o natural naquelas situações fosse ele colocar apenas um moletom e uma calça jeans qualquer.

Desceu as escadas, pegou sua carteira em cima do balcão, calçou seus sapatos que estavam ao lado do batente da porta de casa e saiu, guardando sua carteira no bolso da calça, junto de um punhado de lenços descartáveis. Assim que saiu pela porta, teve a impressão de que o sol queimou todo seu rosto, ofuscando os olhos; não demorou em pôr seus óculos escuros, abrir os botões do punho da camisa e abriu um pouco a gola. Se estava calor dentro de casa, a temperatura pareceu dobrar quando saiu; eram naquelas horas que um ventilador portátil caia bem.

Frequentemente arrastava a franja para trás com os dedos por causa do calor, arejando a testa; maldito fosse o dia em que construíram a loja de conveniência mais próxima dali vários quarteirões. Deveriam nomeá-la Loja Inconveniente de Conveniência. Enfim.

Caminhou ofegante por várias quadras até chegar na maldita loja de conveniência, uma que costumava frequentar havia alguns anos depois do vexame que passou o destruir uma outra loja ainda quando criança; suspirou aliviado ao sentir o ar fresco do interior da loja contra seu rosto, logo depois soltando um discreto espirro. Cumprimentou uma velhinha de sua vizinhança de que se lembrava desde os tempos de criança e foi direto para a parte da geladeira, onde iria pegar leite, passando por um dos corredores onde pegou um saco de batatas fritas. Na falta de muito dinheiro, aquilo resolvia sua vida por enquanto. Claro que aquilo era coisa de criança, mas pegou várias caixinhas de leite com os mais variados sabores e foi ao caixa já tomando uma delas; o preço havia subido, mas desde que continuasse com o mesmo sabor, estava tudo bem.

Pegou a sua sacola de compras e saiu, empacando um pouco na porta; teve de insistir um pouco consigo mesmo para sair e deixar o ar gelado de lado para encarar aquele calor dos infernos. Mas, por fim, se foi. Estava andando calmamente, tomando sua caixinha de leite, quando viu uma confusão se formar nas ruas mais próximas do parque da vizinhança e uma barulheira vinda do mesmo. Parou por ali para ver o que acontecia.

-Parece que aqueles dois estão brigando de novo! – ouviu uma mulherzinha bem perto de onde ele estava cochichando para a amiga – Aquele barman louco e o informante estão brigando de novo!

-Hontoou?! – a outra fez cara de espanto.

-É! Por que acha que as árvores estão caindo? – apontou na direção do parque, de onde se ouvia claramente o barulho de árvores tombando e folhas caindo – estão arrancando e jogando um no outro, com certeza!

-... Como é que é?!

Shizuo amassou a caixinha de leite em suas mãos, fazendo todo aquele líquido espalhar pela calçada e pela rua. O que diabos estava acontecendo que a culpa foi automaticamente jogada nele?! A única pessoa que podia estar fazendo algo daquele tipo era Tsugumi, mas o esperado era que ela estivesse na escola. Ela certamente estava na Raira. A não ser que aquela praga esteja matando aula. De ambos os jeitos, teria de ir até o lugar para poder limpar seu nome.

O parque em questão não ficava muito longe, mas era distância o suficiente para conseguir pensar num possível motivo para uma menina tão pequena estar criando tamanha confusão àquela hora da manhã. A distância entre ele e a tranquilidade de sua casa diminuía cada vez mais; se fosse ela estivesse bagunçando qualquer outro ponto de Ikebukuro menos ali, quem sabe ele não deixava passar, mas agora que ele ouvira na cara dura duas mulheres jogarem a culpa nele, não iria voltar atrás. Enquanto caminhava, o loiro facilmente percebeu os olhares confusos das pessoas ao seu redor – afinal, não era um fato tão conhecido o de ele ter uma aprendiz – mas simplesmente os ignorou; não devia explicação para ninguém e tinha mais o que fazer.

O que será que havia acontecido ou estava acontecendo com Tsugumi pra ela sair arrancando árvores pela raiz? Alguma discussão? Autodefesa? Vontade de destruir, simplesmente? Crise de identidade? Qualquer uma daquelas explicações não justificava o fato dela estar destruindo propriedade alheia, mas se ela não lhe desse nenhuma das explicações no ato de vê-lo, Shizuo lhe daria a maior bronca e usaria toda a insistência que havia em seu ser pra fazê-la abrir a boca. Era uma questão de tempo até que ele chegasse até ela, mas já na entrada do parque podia ouvir seus gritos e urros raivosos. Era um pouco triste ouvir os berros da aprendiz, que foram adquirindo uma sonoridade desesperada com certa rapidez; passando entre as pessoas que estavam lá, entrou no parque.

Haviam árvores tortas ou quebradas por cima de arbustos, uma em cima das outras ou diretamente contra o chão, além de vários animais que viviam na área que estavam fugindo, desesperados; Shizuo andava em meio àquele caos com passos cautelosos seguindo os ruídos feitos pela menina. Ela estava fazendo uma confusão danada; era melhor que ela tivesse bons motivos, ou que tivesse definitivamente ficado louca. Onde ela pretendia chegar destruindo as árvores daquele jeito?

Ia olhando ao redor; acabara por notar que as árvores caídas não eram em tanta quantidade quanto imaginava; a maioria estando de pé apenas com marcas de punhos e alguns pedaços de cascas arrancados. Lá dentro, o caos não era tão grande quanto a confusão do lado de fora dava a entender; mas ainda sentia uma atmosfera tensa, uma energia extremamente nervosa que penetrava em seus ossos. Ficou perplexo; era assustador que uma garota tão miúda fosse capaz de criar um ambiente que mais parecia um cenário de pesadelos.

-Maldição! – ouviu-a gritar, logo sendo seguido por um estrondo; provavelmente, acabara de derrubar mais uma árvore.

Andou mais alguns metros e então a viu de costas para ele, jogando uma árvore para o lado, com suas coisas largadas num arbusto ali perto. Tsugumi pareceu nem notar sua presença, socando a árvore que acabara de derrubar. Shizuo imediatamente foi pará-la; segurou-a por trás como num abraço e ergueu-a do chão com pouco ou nenhum esforço, uma vez que ela era pequena e leve.

-A-Are?! – a menina olhou para cima, se virando um pouco para trás – Shizuo-san?! – estava confusa com sua presença, de fato – Hanashite, hanashite!

A menina esperneava, tentava soca-lo, tudo para que ele a soltasse, mas Shizuo nem lhe dava ouvidos; não pretendia soltá-la antes que ela se acalmasse e esclarecesse o que acontecia, mas estava cada vez mais difícil de mantê-la sob controle. Ela não se deixava acalmar e continuava se debatendo da mesma maneira que um peixe fora d’água faria numa luta desesperada para respirar. Teve de segurá-la ainda mais forte e insistir em perguntar o que acontecia várias vezes, abaixando cada vez mais o tom de voz, mas isso não deu completamente certo: ela parara de mexer, mas não dissera nada.

-Escuta. Seja lá o que tenha acontecido, arrancar árvores não vai resolver seus problemas, apenas criar mais; e eu tô aqui pra te ajudar. Então vai falando de uma vez o que foi que aconteceu pra você estar tendo um ataque histérico. Isso ajuda mais do que destruir propriedade alheia.

Dito isso, soltou um pequeno espirro, virando a cabeça para o lado, e se calou, deixando o som dos carros passando nas ruas da cidade entrar por seus ouvidos. Engoliu a saliva; aquele ambiente o deixava nervoso. Ainda tinha a menina em seus braços e o jeito que a segurava – mantendo-a tão perto de si – o deixava ainda mais tenso. Alguns minutos se passam e Tsugumi perpetuava-se calada. Soltou um suspiro frustrado; estava para desistir de ajuda-la quando sentiu pequenas gotas do que parecia água pingando em seu antebraço e em suas mãos, gelando ao perceber que eram lágrimas. Franziu as sobrancelhas, confuso; qual era a gravidade da situação? A menina parecia estar tendo uma crise bipolar, o que o deixou realmente preocupado. Shizuo pensou em suas hipóteses; todas caíram por terra. Aquilo era algo muito mais delicado do que uma vontade súbita de destruir ou uma crise de identidade; se não perguntasse, jamais poderia ajuda-la, mas se perguntasse, poderia acabar piorando a situação.

A menina permaneceu chorando em silêncio mais alguns instantes, até que ficou completamente largada nos braços de seu mestre. Estava exaurida, sem energia alguma, parecendo um cadáver; se aproveitaria disso para tirá-la dali. As coisas seriam bem mais fáceis de resolver num ambiente silencioso e calmo. Pegou-a, colocou-a de bruços em seu ombro, pegou as suas sacolas e as coisas de Tsugumi e se foi, pulando os destroços de árvores que haviam no chão e indo na direção de sua casa. Enquanto caminhava, ignorava os olhares tortos das pessoas ao seu redor; aquelas suas vizinhas fofoqueiras com certeza iam falar muito sobre aquilo, mas não deu bola.

Ele próprio estava começando a ficar mole; provavelmente era febre. Mas que droga. Justo naquele dia, em que estava resfriado, tinha de ficar resolvendo problemas que não lhe pertenciam, mas agora que começara tinha de acabar. Que aquilo pelo menos ensinasse-lhe a não sair de casa naquelas condições por nada nesse mundo.

Shizuo fez todo o caminho de volta para sua casa sem ouvir um único som vindo de Tsugumi; nem uma palavra ou murmuro, apenas sentia os pulmões e coração da menina se movendo. Como seu bairro era tranquilo, além de ter em mente voltar para casa bem antes, apenas teve de abaixar a maçaneta e empurrar a porta para dentro para conseguir entrar.

Tirou a menina de seu ombro e deixou-a sentada no sofá, logo indo em direção da cozinha atrás de um copo d’água ou de qualquer liquido que pudesse oferecer. Entregou uma caneca branca com um pouco de leite direto nas mãos da rapariga e ficou em pé diante dela, com um termômetro na boca, assistindo-a tomar a bebida em silêncio.

-Se acalmou? E então, vai me dizer o que aconteceu?